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A reclamação constitucional é uma ação de competência originária de tribunal prevista na Constituição Federal, com natureza de ação constitucional, tendo como objetivo preservar a competência e garantir a autoridade das decisões desses tribunais154.

Neste sentido, prevê a Constituição Federal:

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe:

I – processar e julgar, originariamente: [...]

l) a reclamação para a preservação de sua competência e a garantia da autoridade de suas decisões;

Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I – processar e julgar, originariamente:

[...]

f) a reclamação para a preservação de sua competência e a garantia da autoridade de suas decisões;

Conforme já referido, no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis Estaduais não há a possibilidade do pedido de uniformização de jurisprudência, o que gerou diferenciação discriminatória de tratamento entre as Justiças Especiais estadual e federal.

Nesse contexto, é relevante reportar-se a uma situação específica: em determinado tipo de demanda, o Superior Tribunal de Justiça já havia uniformizado o entendimento de que os consumidores de dado serviço de massa não tinham direito ao que vinham, repetidamente, postulando. A despeito da fixação desse entendimento pelo STJ, vários juízos de Juizados Especiais Cíveis Estaduais continuaram a acolher diversas pretensões, de idêntico teor, veiculadas em demandas repetitivas155.

Como não havia o cabimento do recurso especial nem do pedido de uniformização de jurisprudência, o caso foi submetido ao Supremo Tribunal Federal através do recurso extraordinário nº. 571.572-8, que, porém, não foi admitido, por entenderem que a questão não

154 DIDIER JUNIOR, Fredie et alii. Op. Cit., p. 459-461.

155 DIDIER JUNIOR, Fredie et alii. Editorial 76. Publicado em 18/11/2009. Disponível em

era constitucional. Não conformada com o resultado do julgamento proferido pelo STF, a parte interessada opôs embargos de declaração, pelo qual os Ministros do STF acompanharam o voto de relatoria da então Ministra Ellen Gracie, entendendo que cabe reclamação com fundamento no artigo 105, I, “f”, para o STJ, quando a decisão de Turma Recursal Estadual violar a interpretação da legislação infraconstitucional federal dada pela jurisprudência do STJ156.

Leia-se a ementa da decisão referida:

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO.

AUSÊNCIA DE OMISSÃO NO ACÓRDÃO EMBARGADO. JURISPRUDÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. APLICAÇÃO ÀS CONTROVÉRSIAS SUBMETIDAS AOS JUIZADOS ESPECIAIS ESTADUAIS. RECLAMAÇÃO PARA O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. CABIMENTO EXCEPCIONAL

ENQUANTO NÃO CRIADO, POR LEI FEDERAL, O ÓRGÃO

UNIFORMIZADOR. 1. No julgamento do recurso extraordinário interposto pela embargante, o Plenário desta Suprema Corte apreciou satisfatoriamente os pontos por ela questionados, tendo concluído: que constitui questão infraconstitucional a discriminação dos pulsos telefônicos excedentes nas contas telefônicas; que compete à Justiça Estadual a sua apreciação; e que é possível o julgamento da referida matéria no âmbito dos juizados em virtude da ausência de complexidade probatória. Não há, assim, qualquer omissão a ser sanada. 2. Quanto ao pedido de aplicação da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, observe-se que aquela egrégia Corte foi incumbida pela Carta Magna da missão de uniformizar a interpretação da legislação infraconstitucional, embora seja inadmissível a interposição de recurso especial contra as decisões proferidas pelas turmas recursais dos juizados especiais. 3. No âmbito federal, a Lei 10.259/2001 criou a Turma de Uniformização da Jurisprudência, que pode ser acionada quando a decisão da turma recursal contrariar a jurisprudência do STJ. É possível, ainda, a provocação dessa Corte Superior após o julgamento da matéria pela citada Turma de Uniformização. 4. Inexistência de órgão uniformizador no âmbito dos juizados estaduais, circunstância que inviabiliza a aplicação da jurisprudência do STJ. Risco de manutenção de decisões divergentes quanto à interpretação da legislação federal, gerando insegurança jurídica e uma prestação jurisdicional incompleta, em decorrência da inexistência de outro meio eficaz para resolvê-la. 5. Embargos declaratórios acolhidos apenas para declarar o cabimento, em caráter excepcional, da reclamação prevista no art. 105, I, f, da Constituição Federal, para fazer prevalecer, até a criação da turma de uniformização dos juizados especiais estaduais, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça na interpretação da legislação infraconstitucional157.

Em suma, a então Ministra Ellen Gracie reconheceu a necessidade de que, em sede da Justiça Especial Estadual, também houvesse um meio que permitisse a uniformização da jurisprudência do STJ – à semelhança do que ocorre na esfera especial federal –, pois, caso

156 LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 14 Ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 579.

157 RE 571572 ED / BA - BAHIA; Emb. Decl. No Recurso Extraordinário; Relator(a): Min. ELLEN GRACIE;

contrário, provocaria verdadeira insegurança jurídica no âmbito dessas instituições, o que fatalmente acarretaria na prestação jurisdicional de forma incompleta158.

Perceba-se, ainda, que a referida decisão tem como fundamento a ausência das Turmas de Uniformização de Jurisprudência no âmbito dos Juizados Estaduais, cuja criação é objeto do já referido Projeto de Lei nº. 16/2007-CD (origem no legislativo: PL nº. 4.723/04), ainda em trâmite na Câmara dos Deputados, pelo que a decisão se afigura como uma espécie de medida paliativa até que esses órgãos sejam criados.

Neste sentido, o STJ editou a Resolução nº. 12, de 14/12/2009, estabelecendo, em seu artigo 1º, que as reclamações destinadas a dirimir divergência entre acórdão prolatado por Turma Recursal Estadual e a jurisprudência do STJ, suas súmulas ou orientações decorrentes do julgamento de recursos especiais processados na forma do artigo 543-C do Código de Processo Civil (“julgamento por amostragem”), serão oferecidas no prazo de quinze dias, contados da ciência, pela parte, da decisão impugnada, independentemente de preparo159.

Percebe-se que o STJ restringiu, através dessa resolução, a aplicação do artigo 105, I, “f”, às jurisprudências, súmulas e orientações advindas do sistema de demandas repetitivas, disciplinado no artigo 543-C e seus dispositivos do Código de Processo Civil, os quais foram acrescentados à legislação processual pela Lei nº. 11.672, de oito de maio de 2008, in verbis:

Art. 543-C. Quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica questão de direito, o recurso especial será processado nos termos deste artigo. § 1º. Caberá ao presidente do tribunal de origem admitir um ou mais recursos representativos da controvérsia, os quais serão encaminhados ao Superior Tribunal de Justiça, ficando suspensos os demais recursos especiais até o pronunciamento definitivo do Superior Tribunal de Justiça.

§ 2º. Não adotada a providência descrita no § 1o deste artigo, o relator no Superior Tribunal de Justiça, ao identificar que sobre a controvérsia já existe jurisprudência dominante ou que a matéria já está afeta ao colegiado, poderá determinar a suspensão, nos tribunais de segunda instância, dos recursos nos quais a controvérsia esteja estabelecida.

§ 3º. O relator poderá solicitar informações, a serem prestadas no prazo de quinze dias, aos tribunais federais ou estaduais a respeito da controvérsia.

§ 4º. O relator, conforme dispuser o regimento interno do Superior Tribunal de Justiça e considerando a relevância da matéria, poderá admitir manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com interesse na controvérsia.

§ 5º. Recebidas as informações e, se for o caso, após cumprido o disposto no § 4o deste artigo, terá vista o Ministério Público pelo prazo de quinze dias.

158 LENZA, Pedro. Op. Cit., p. 579. 159 Idem, p. 580.

§ 6º. Transcorrido o prazo para o Ministério Público e remetida cópia do relatório aos demais Ministros, o processo será incluído em pauta na seção ou na Corte Especial, devendo ser julgado com preferência sobre os demais feitos, ressalvados os que envolvam réu preso e os pedidos de habeas corpus.

§ 7º. Publicado o acórdão do Superior Tribunal de Justiça, os recursos especiais sobrestados na origem:

I - terão seguimento denegado na hipótese de o acórdão recorrido coincidir com a orientação do Superior Tribunal de Justiça; ou

II - serão novamente examinados pelo tribunal de origem na hipótese de o acórdão recorrido divergir da orientação do Superior Tribunal de Justiça.

§ 8º. Na hipótese prevista no inciso II do § 7o deste artigo, mantida a decisão divergente pelo tribunal de origem, far-se-á o exame de admissibilidade do recurso especial.

§ 9º. O Superior Tribunal de Justiça e os tribunais de segunda instância regulamentarão, no âmbito de suas competências, os procedimentos relativos ao processamento e julgamento do recurso especial nos casos previstos neste artigo.

Ao Superior Tribunal de Justiça, como é sabido, compete uniformizar a jurisprudência nacional em matéria de legislação federal. Portanto, se os órgãos dos Juizados Especiais Estaduais estão a deixar, sistematicamente, de seguir a orientação ministrada pelo STJ, nos casos de múltiplos recursos com idêntica questão de direito, caberá a reclamação constitucional, com fundamento no artigo 105, I, “f”, a fim de garantir a incolumidade da principal função constitucional daquela Corte Superior160.

Tal engrenagem foi criada em virtude da necessidade de adoção de mecanismos de uniformização de jurisprudência no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis Estaduais, a fim de que sejam atendidas as necessidades de isonomia e de segurança jurídica, com a indispensável garantia de previsibilidade, permitindo que as pessoas possam se planejar e se organizar, levando em conta as possíveis decisões a serem tomadas pelos juízes e tribunais161.

A reclamação, portanto, somente é cabível, por não haver outro mecanismo apto a corrigir o grave problema de descumprimento sistemático da orientação firmada pelo STJ. Se cabível fosse o recurso especial, não seria caso de se admitir a reclamação, nem haveria sequer sua necessidade. Diante da atual inexistência de outro órgão que possa fazê-lo, compete ao STJ eliminar a divergência havida entre decisões proferidas por Juizados Estaduais e seus precedentes que formam jurisprudência dominante sobre determinado matéria que envolva causas repetitivas162.

160 DIDIER JUNIOR, Fredie et alii. Editorial 76. Publicado em 18/11/2009. Disponível em

<http://www.frediedidier.com.br/main/noticias/detalhe.jsp?CId=347>. Acesso em 15/05/2011.

161 Idem. 162 Idem.

A partir do precedente criado pelo caso acima relatado, foram diversas as decisões do STJ corroborando o entendimento firmado pela então Ministra Ellen Gracie, como se pode inferir dos julgados colacionados abaixo:

PROCESSUAL CIVIL. RECLAMAÇÃO. JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS. RECURSOS. INTERPOSIÇÃO POR ADVOGADO SEM PROCURAÇÃO VÁLIDA NOS AUTOS. INTERPRETAÇÃO A CONTRARIO SENSU DA SÚMULA N. 115 DESTA CORTE SUPERIOR. RECLAMAÇÃO PROCEDENTE. 1. As hipóteses de cabimento da reclamação são estritas e podem ser assim resumidas: (i) preservação da competência constitucional do Superior Tribunal de Justiça, (ii) manutenção da autoridade das decisões proferidas nesta Corte Superior e, em razão do decidido no EDcl no RE 571.572/BA (Rel. Min. Ellen Gracie, Plenário, j. 26.8.2009) e do aposto na Resolução STJ n. 12/2009, (iii) adequação do entendimento adotado em acórdãos de Turma Recursais Estaduais à jurisprudência, súmula ou orientação adotada na sistemática dos recursos repetitivos do STJ. 2. Na espécie, a hipótese (iii) está plenamente configurada. Explica-se. 3. O Superior Tribunal de Justiça tem firme posicionamento no sentido de que, no âmbito das instâncias ordinárias, não se pode considerar inexistente recurso - e, conseqüentemente, deixar de conhecê-lo - por ausência ou invalidade de procuração referente à capacidade postulatória de patrono sem, antes, aplicar-se a regra do art. 13 do CPC (abrir à parte a oportunidade de regularizar sua situação). 4. Confiram-se, nesta esteira, além da leitura a contrario sensu da Súmula n. 115 desta Corte Superior, o seguinte precedente emblemático: EREsp 868.800/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe 11.11.2010. 5. Se, para as instâncias ordinárias comuns, regidas essencialmente por formalidades mais densas e rigorosas, o entendimento do Superior Tribunal de Justiça é firme pela necessidade de abertura às partes interessadas da possibilidade de retificar vícios sanáveis, é impossível negar a elas o mesmo entendimento no âmbito dos Juizados Especiais, marcados notoriamente pela informalidade. 6. Reclamação procedente163.

RECLAMAÇÃO. DIVERGÊNCIA ENTRE ACÓRDÃO DE TURMA RECURSAL ESTADUAL E A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. RESOLUÇÃO STJ N. 12/2009. CONSUMIDOR. DEVOLUÇÃO EM DOBRO DO INDÉBITO. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DA MÁ-FÉ DO CREDOR. 1. A Corte Especial, apreciando questão de ordem levantada na Rcl 3752/GO, em atenção ao decidido nos EDcl no RE 571.572/BA (relatora a Min. ELLEN GRACIE), entendeu pela possibilidade de se ajuizar reclamação perante esta Corte com a finalidade de adequar as decisões proferidas pelas Turmas Recursais dos Juizados Especiais estaduais à súmula ou jurisprudência dominante do STJ, de modo a evitar a manutenção de decisões conflitantes a respeito da interpretação da legislação infraconstitucional no âmbito do Judiciário. 2. A egrégia Segunda Seção desta Corte tem entendimento consolidado no sentido de que a repetição em dobro do indébito, prevista no art. 42, parágrafo único, do Código de Defesa do Consumidor, não prescinde da demonstração da má-fé do credor. 3. Reclamação procedente164.

PROCESSUAL CIVIL E DIREITO ADMINISTRATIVO – CONTROVÉRSIAS

SUBMETIDAS AOS JUIZADOS ESPECIAIS ESTADUAIS – RECLAMAÇÃO

PARA O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA – CABIMENTO EXCEPCIONAL – TELEFONIA FIXA – TARIFA DE ASSINATURA BÁSICA – LEGALIDADE. 1. Nos termos do decidido nos autos do EDcl no RE 571.572/BA, Rel. Min. Ellen Gracie (Plenário, j. 26.8.2009), compete ao STJ conhecer de reclamação destinada a dirimir controvérsia entre acórdão prolatado por Turma Recursal Estadual e a

163 Rcl. 5979 / PE; Reclamação 2011/0116312-3; Relator(a): Min. MAURO CAMPBELL MARQUES;

Julgamento: 14/09/2011; Órgão Julgador: S1 - Primeira Seção; Publicação: DJe 22-11-2011.

164 Rcl 4892 / PR; Reclamação 2010/0186855-4; Relator(a): Min. RAUL ARAÚJO; Julgamento: 27/04/2011;

jurisprudência desta Corte firmada em julgamento de recurso especial. Resolução n° 12/2009 do STJ. 2. A Primeira Seção do STJ firmou o entendimento de que é legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa. 3. Reclamação julgada procedente165.

Há também quem tenha se posicionado contrariamente a esse entendimento, como foi o caso do Ministro Honildo Amaral de Mello Castro, ao defender que a reclamação do art. 105, I, “f”, da CF/88 deverá ser utilizada tão somente nos estritos limites delineados pela Carta Política, não podendo esse instrumento ser alargado em sua estreita previsão, mesmo sob a justificativa de conferir segurança jurídica às partes litigantes nos Juizados Estaduais.

Leia-se o seguinte julgado, de relatoria do Ministro acima referido:

CIVIL. OBRIGAÇÕES. ESPÉCIES DE CONTRATOS. TURMA RECURSAL DE JUIZADO ESPECIAL CÍVEL. RECLAMAÇÃO. CABIMENTO. 1. Pretende o reclamante a cassação do acórdão proferido pela Terceira Turma Recursal Cível dos Juizados Especiais Cíveis do Estado do Rio Grande do Sul ao argumento de que o referido julgado contraria a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, esgotadas todas as vias recursais, já apanhadas pela coisa julgada. 2. O entendimento adotado no Juizado Especial diverge da pacífica orientação desta Eg. Corte de Justiça ao reconhecer que o prazo prescricional é de cinco anos, como reconhecido em julgamento proferido pela Segunda Seção em 12.08.09, no Resp 1.053.007/RS, pacificando o entendimento de que nas ações de cobrança objetivando a devolução de valores empregados na realização de obras de expansão de rede de energia elétrica em área rural, por sua natureza de obrigação contratual de empréstimo, ajustado em instrumento firmado pelas partes, em que o prazo prescricional é de 05 (cinco) anos. 3. A Reclamação, portanto, há de ser aferida quanto ao seu cabimento dentro dos estreitos liames dos seus pressupostos constitucionais. 4. Com efeito, o princípio constitucional do art. 105, I, F, da CF não pode se alargado em sua estreita previsão, mesmo em razão da segurança jurídica como entendido, posto que sem previsão constitucional e ou legal. 5. Esta Eg. Corte permissa vênia, não tem igualmente competência para rever decisões dos Juizados Especiais Estaduais por ausência de norma legal, muito menos através de Reclamação quando inexiste qualquer processo decidido nesta Corte, nenhuma decisão violada e, o que é mais grave, em processo apanhado pela coisa julgada. 6. Assim sendo, a pretensão do reclamante mostra-se totalmente incompatível com os objetivos tutelados pelo instituto processual-constitucional da Reclamação, tornando inviável o seu seguimento pela inexistência de afronta à autoridade das decisões desta corte superior, nem por afetar a sua competência fixada constitucionalmente. 7. Negado seguimento à reclamação166.

O entendimento firmado pelo STF, todavia, foi ainda reforçado pela Lei nº. 12.153/09, que criou os Juizados Especiais da Fazenda Pública, visto que o artigo 18, § 3º, e o artigo 19 dessa lei estabeleceram que, no caso de divergência entre decisões proferidas pelas

165 Rcl 3294 / BA; Reclamação 2010/0024131-0; Relator(a): Min. ELIANA CALMON; Julgamento:

23/06/2010; Órgão Julgador: S1 - Primeira Seção; Publicação: DJe 04-08-2010.

166 Rcl 3692 / RS; Reclamação 2009/0187551-0 Relator(a): Min. HONILDO AMARAL DE MELLO CASTRO;

Turmas Recursais, sobre questão de direito material, caberá pedido de uniformização de jurisprudência direcionado ao STJ, quando as Turmas de diferentes Estados derem a lei federal interpretações divergentes, ou quando a decisão proferida estiver em contrariedade com súmula do STJ167.

Fredie Didier Júnior reputou constitucionais os referidos dispositivos em virtude de ser inerente ao Superior Tribunal de Justiça aquilo que chamou de “competência implícita” de fazer valer o seu entendimento sobre interpretação da lei federal e, assim, uniformizar nacionalmente a jurisprudência em derredor de determinada matéria. Se não houvesse essa “competência implícita”, a lei seria inconstitucional, por ampliar a competência do STJ, o que somente poderia ser feito por emenda constitucional168.

Desta forma, na atual conjuntura das circunstâncias, Fredie Didier Júnior defende que não apenas é cabível a reclamação como medida de uniformização de jurisprudência, como é extremamente recomendável, principalmente no âmbito dos Juizados Especiais Estaduais, que não podem tornar-se ilhas de interpretação do direito federal ignorando os posicionamentos já consolidados no STJ169.

Deve-se atentar, todavia, que, de modo semelhante ao que aconteceu no âmbito dos Juizados Especiais Federais, onde se permitiu a utilização do pedido de uniformização de jurisprudência previsto no §4º do artigo 14 da Lei nº. 10.259/01, cuja previsão serviu para resguardar o dogma da indisponibilidade dos bens e interesses do Estado, no contexto da tradicional cultura de litigiosidade da Fazenda Pública, a recente previsão da reclamação constitucional do artigo 105, I, “f”, da CF/88 para atacar decisões proferidas no âmbito dos Juizados Especiais Estaduais que contrariem posicionamento firmado pelo STJ no âmbito do sistema de “julgamento por amostragem”, parece ter como fundamento a proteção do interesse das grandes empresas, principais protagonistas e fomentadoras do sistema de demandas repetitivas.

167 DIDIER JUNIOR, Fredie et alii. Op. Cit., p. 482. 168 Idem, p. 482.

Benzer Belgeler