As iniciativas da ONU, mencionadas no segundo capítulo, e outras semelhantes, como os Princípios da OCDE Para Empresas Multinacionais, foram lançadas como resposta a campanhas da sociedade civil pela responsabilização corporativa quanto a violações a direitos humanos e a padrões trabalhistas e ambientais. Com a exceção de uma tentativa da antiga Subcomissão da ONU Para a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos, tais propostas caracterizam-se pela adesão voluntária das empresas aos princípios de responsabilidade social corporativa. Da mesma forma, sem qualquer elemento vinculante ou coercitivo, iniciativas direcionadas às ESIs foram forjadas na primeira década do século XXI: a) os Princípios Voluntários Sobre Segurança e Direitos Humanos, os quais foram redigidos, em 2000, pelos Governos americano, britânico, norueguês e neerlandês e lidam com a contratação de segurança privada por outras empresas transnacionais; b) a formação da International Peace Operations Association, em 2001, e da British Association of Private Security Companies, em 2006; c) o Documento de Montreux, de 2008 (CUSUMANO, 2011, p. 25; MACLEOD, 2011, p. 344-346; VOLUNTARY, 2000).
Conforme exposto no segundo capítulo deste trabalho, na análise dos códigos de
169 Alguns elementos deste capítulo retomam temas e aprofundam argumentos encontrados no trabalho de conclusão do curso de Direito (FARIAS GUEDES, 2014).
170 Há, entre outras referências, CUSUMANO, 2011, p. 30; DEWINTER-SCHMITT, 2013, passim; GÓMEZ, 2010a, p. 3-5; FRANCIONI, 2011, p. 108; PARLOU-LOVERDOS, ARMENDÁRIZ, 2011, p. 68-72.
107 conduta à luz do constitucionalismo transnacional, Teubner destaca a necessidade de, além de uma “declaração de direitos”, os códigos corporativos conterem regras organizacionais. Outras críticas aos códigos voluntários também reforçam a falta de mecanismos coercitivos como elemento desabonador de seu valor regulatório.
Na verdade, os códigos de conduta da BAPSC e da ISOA – a despeito de as organizações concentrarem-se nos mercados nacionais principais para as ESIs, o britânico e o americano – não têm instrumentos adequados para a efetivação de suas prescrições. Por exemplo, quando se iniciou uma investigação, na ISOA, acerca da atuação da Blackwater no Iraque, a companhia simplesmente deixou a associação (CUSUMANO, 2011, p. 24-25; HOPPE, QUIRICO, 2011, p. 379). O maior reforço à autorregulação, conforme ressalta Eugenio Cusumano (2011, p. 25), seria, de fato, a exigência de que as empresas aderissem aos códigos de conduta. Carsten Hoppe e Ottavio Quirico, em pesquisa no Instituto Universitário Europeu, expressam a mesma preocupação:
Apenas se os clientes realmente valorizarem a aderência às obrigações do código de conduta, referentes a direitos humanos e ao direito internacional humanitário, e se os clientes tiverem poder de mercado suficiente, para barganhar por essa adesão, as firmas estarão competindo em termos de valor. Por um lado, como foi sugerido para as EMSPs, se os clientes enfrentam um mercado de vendedores, em que há pouca ou nenhuma alternativa para [a escolha de] determinado provedor, então, não haverá competição, e as firmas terão mínimas obrigações. Isso significaria que as firmas não adeririam ao código de conduta, ou, no mínimo, não àqueles que tivessem um cumprimento efetivo. Por outro lado, ainda que haja alguma competição, não está claro se os clientes barganharão por códigos de conduta eficientes em relação a direitos humanos, ao direito humanitário e a outras normas. Não é necessário ir tão longe, a ponto de sugerir que clientes das EMSPs especificamente contratam firmas com má reputação nesse aspecto, mas os clientes podem ser simplesmente indiferentes a esses valores. Se esse é o caso, as firmas terão pouco incentivo, para competir em termos de aderência a essas normas (HOPPE, QUIRICO, 2011, p. 375-376, tradução nossa171).
Em uma involuntária atenção a essas expectativas acadêmicas, os dois maiores contratantes de ESIs – Estados Unidos e Reino Unido – além da própria ONU já anunciaram que
171Traduzido do original em inglês: “Only if clients actually value compliance with human rights or IHL obligations expressed in CoC, and if clients have sufficient market power to bargain for it will firms compete in terms of that value. On the one hand, as has been suggested for the PMSC industry, if clients face a seller’s market, so that there is simply little or no alternative for a given provider, there is no competition, and hence firms will escape with as few obligations as possible. This in turn would mean that firms would not subscribe to CoC, or at least not to those ensuring effective enforcement. On the other hand, even if there is some competition, it is not clear that clients will bargain for efficient CoC with respect to human rights, IHL, or other norms. One does not have to go as far as to suggest that clients of PMSCs do specifically contract to firms with a bad reputation in that regard, but clients may simply be indifferent to those values. If that is the case, firms will have little incentive to compete in terms of compliance with these norms” (HOPPE, QUIRICO, 2011, p. 375-376).
108 exigiriam que as firmas contratadas para suas operações de guerra e de paz aderissem ao documento estudado nesta dissertação (ESTADOS, 2013; ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES, 2012, p. 7; REINO, 2013), demonstrando o vigor da Iniciativa Suíça em relação às outras propostas regulatórias do setor. Em recente lei sobre o tema, a Confederação Helvética também exigiu que as empresas contratadas pelo Governo federal aderissem ao ICoC (CONFEDERAÇÃO, 2013).
Por outro lado, tendo as iniciativas de autorregulação da BAPSC e da ISOA revelado baixa relevância, ambas as associações optaram por fomentar o estabelecimento do Código Internacional de Conduta Para Provedores de Serviços de Segurança Privada (GÓMEZ, 2010a, p. 3). A IPOA, agora rebatizada “ISOA”, integra, como membro observador, a associação que supervisiona a aplicação do ICoC (ISOA, 2014).