É inegável a complexidade do processo de elaboração de uma tese; a escolha de um modo relativamente original para abordar o tema de interesse do autor, a busca por referências nem sempre acessíveis e a capacidade de ordenar/condensar informações exigem que o pesquisador adentre sem reservas no universo da pesquisa e se aproprie dele com imparcialidade, a fim de promover a discussão pretendida. Partindo desse entendimento, este último capítulo visa sintetizar as principais informações coletadas pela pesquisa realizada, o aprendizado obtido, as dificuldades encontradas e, sobretudo, levantar questões para novas investigações.
O estudo voltou-se para edificações de caráter temporário (não duradouro em um mesmo local) cujo projeto arquitetônico recorreu a sistemas industrializados remontáveis (SCR), configurando-se como um trabalho exploratório, ou seja, sem visar uma análise conclusiva com relação ao tema. Seu objetivo principal foi investigar se (e como) a adoção de um SCR influencia a atuação do projetista e o processo de projetação em arquitetura. Para atingi- lo definiram-se como metas secundárias: (a) levantar questões sobre o processo de projetação arquitetônica em situações em que um SCR seja utilizado, (b) identificar principais condicionantes que influenciam e/ou limitam o processo de projetação com o uso de SCRs e, por fim, (c) escolher um SCR como estudo de caso, a fim de identificar sua compreensão por profissionais e estudantes de arquitetura, em termos dos benefícios/facilidades e dificuldades em sua utilização.
A fim de alcançar estas metas foram adotados como procedimentos metodológicos: (i) análise documental; (ii) seleção de um SCR como estudo de caso; (iii) planejamento/aplicação de um exercício projetual a estudantes de AU tendo como base o SCR escolhido; (iv) consulta a projetistas de diversos segmentos na arquitetura (profissionais de mercado, docentes e estudantes) por meio de entrevistas e questionários avaliativos. A análise das informações coletadas com base nesses diferentes métodos/técnicas e fontes (apontados no estudo de caso, partes 1 e 2) permitiu delinear-se um quadro síntese de
concordâncias e divergências (capítulo 8) que subsidiou as reflexões que seguem.
Especificamente com relação à utilização do SCR Arcostruttura como parte do projeto de arquitetura, nota-se que apesar da boa avaliação dos projetistas participantes (profissionais ou em formação), o uso desse tipo de sistema ainda aparenta ser relativamente ‘novo’ para muitos arquitetos, sendo notório o despreparo de alguns deles no que se refere a questões inerentes ao próprio conceito de sistema construtivo remontável, quer em relação às condições de portabilidade quer ao lançamento da estrutura em si. Assim, se, por um lado, as pré-definições de um SCR aparentam facilitar a projetação uma vez que são soluções “acabadas/completas” acopladas ao plano geral traçado pelo projetista, por outro lado, a falta de domínio de sua aplicabilidade acaba dificultando o processo projetual, pois são acrescentadas a este as limitações do entendimento do sistema, que por si só já tem suas próprias regras e exigências. Além disso, por tratar-se de um sistema ortogonal, a quantidade de arranjos compositivos tornou-se relativamente limitado, o que embora possa interferir na qualidade de algumas das soluções obtidas, não inviabiliza a proposta de pesquisa, uma vez que se trata de um bom exemplo das possibilidades oferecidas por esse mercado, e a nossa proposta era trabalhar com uma situação concreta.
Mesmo reconhecendo que, para ser generalizável a investigação proposta deveria ser retomada a partir desse ponto, e repetida, tanto com o uso do SCR escolhido quanto com a utilização de outros SCRs, retomaremos aqui as hipóteses de trabalho lançadas no início deste texto (introdução) de modo a, com base nelas, pontuar o caminho trilhado até esse momento.
No tocante à pressuposição inicial de haver diferenças entre o ponto de vista dos projetistas do SCR e seus usuários (projetistas atuantes e em formação), se evidencia que embora os primeiros exaltem as potencialidades do sistema, alguns dos demais, sobretudo os estudantes, demonstraram certa dificuldade para acessar os recursos planejados. Deste modo, mesmo que os catálogos contenham um bom número de informações técnicas (e, note-se que ter um dos catálogos mais completos encontrados no mercado foi um dos motivos para a escolha deste SCR com estudo de caso), estas ainda são
insuficientes para a total compreensão da aplicabilidade do sistema. Evidentemente os arquitetos em geral compreenderam as informações técnicas oferecidas pela empresa, porém foram unânimes em apontar que ainda há questões que mereceriam melhor elucidação, sobretudo no que se refere aos encaixes e detalhes.
Para aqueles que o produziram, o SCR estudado mostra-se simples, afinal, além de familiarizados com o sistema eles têm em mãos as ferramentas computacionais plenamente compatíveis com o mesmo. Além disso, o corpo de projetistas corresponde a uma equipe interdisciplinar formada por arquitetos, engenheiros e designers industriais que participam ativamente do processo projetual e se complementam, dirimindo mutuamente suas dúvidas e reduzindo possíveis falhas ou lacunas no sistema. Essa situação é diferente do que acontece na prática da maioria dos escritórios atuantes no mercado (excetuando, obviamente, as grandes empresas), nos quais os arquitetos costumam trabalham sozinhos ou em parceria com outro profissional, geralmente também de arquitetura.
Com relação ao efeito do uso de SCRs sobre o comportamento dos projetistas em termos da valorização/hierarquização de certos condicionantes projetuais em detrimento de outros, também há indícios de que nossa suposição inicial tem sentido. Tanto o depoimento dos profissionais e docentes quanto, em especial a observação do trabalho dos estudantes durante o semestre, mostraram que diferentemente do que acontece em projetos arquitetônicos tradicionais, ao utilizar o SCR os projetistas aparentaram maior preocupação com as questões construtivas, sobretudo com os elementos estruturais (apoios e cobertura), dando menor atenção a aspectos relativos à funcionalidade, à estética e mesmo às características físicas do local, que tornaram-se questões a serem solucionadas posteriormente. As respostas dos arquitetos apontaram claramente os aspectos estruturais, pré-definidos pelo sistema, como primeiros elementos a considerar, preponderando sobre os demais. Assim, mesmo divergindo de afirmativas anteriores relativas ao interesse por tomar como referência projetual alguma corrente de pensamento em AU, ao se depararem com o SCR os projetistas indicaram que suas principais decisões arquitetônicas acabaram dando mais ênfase à tectônica,
sobretudo na parte estrutural e de dimensionamento. No caso dos estudantes, os exercícios projetuais refletiram igual preocupação, embora este aspecto não se tenha feito muito presente em seus questionários. A maioria dos projetos não evidenciou, por exemplo, inquietação com as questões climáticas, mesmo que o sistema permitisse a busca por soluções mais complexas.
Neste momento é oportuno tecer algumas considerações sobre o SCR estudado. Com relação ao uso do sistema no processo projetual, há vantagens evidentes, contudo, também existem desvantagens.
Entre os benefícios destacam-se o menor tempo de projetação e de montagem/desmontagem/ remontagem do edifício, assim como o prévio conhecimento da forma plástica resultante, já plenamente representada nos catálogos – logo, mesmo que haja uma composição plástica com a adoção de vários modelos, a forma geradora já é visualmente conhecida pelo projetista.
Entre os pontos negativos, estão as várias limitações impostas ao projeto. O fato de haver um sistema pré-definido em sua estrutura e modulação restringe as possibilidades de novos arranjos projetuais, mesmo que o modelo permita várias opções. O mesmo se repete quanto às formas plásticas, pois para haver portabilidade o modelo escolhido deve ser produzido em larga escala - ou seja, com aspectos técnicos (como dimensões, curvaturas e encaixes) imutáveis -, de maneira que aos modelos standard correspondem poucas formas plásticas. Assim, caso o projetista aspire, por exemplo, produzir algo plasticamente mais arrojado ou que tenha medidas mais ajustadas ao terreno, o sistema precisa ser projetado especialmente para este fim, deixando de ser standard, o que reduz sua potencial portabilidade. O sistema em si não é flexível, uma vez que não permite variações em suas dimensões e formas, mas o projeto pensado a partir de módulos prontos pode ser flexível. Neste caso, cabe ao projetista escolher o SCR que melhor se adeque aos seus interesses projetuais.
A aplicação do exercício aos estudantes possibilitou observar-se o quanto a adoção de um sistema estrutural modulado acrescentou segurança ao seu modo de projetar, talvez devido à redução da quantidade de questões a serem ‘pensadas’ ao lidar com a proposta - o que pode ser uma experiência positiva para quem está iniciando na área. Por outro lado, ao diminuir-se a
complexidade do problema também acrescentou-se o desafio de lidar com o tal sistema, e esse novo “quebra-cabeças” acabou assumindo o foco do trabalho, fazendo com que os demais condicionantes se tornassem menos importantes naquela situação. Assim, mesmo inconscientemente, os estudantes simplificaram ao máximo o processo projetual, limitando-o à adequação (bi e tridimensional) dos módulos ao lote. Ou seja, a aplicação de um sistema industrializado fez com que eles superassem a inexperiência e a insegurança, deixando-os mais confiantes com relação ao resultado final. Observando-se a condução da disciplina, percebe-se que embora o docente tenha aprovado a aplicabilidade de um SCR no ensino de projeto, ele sentiu alguma dificuldade em conduzir a disciplina, o que, em algumas situações, aconteceu em função do descompasso entre as exigências acadêmicas e a quantidade de informações técnicas nos catálogos (e ausência de algumas especificações). Acredita-se, ainda, que haveria a possibilidade de se exigir mais dos estudantes com relação a outros aspectos do projeto, especialmente em termos conceituais ou mesmo no estudo de detalhes diferenciados, o que não aconteceu.
No caso dos arquitetos, a experiência e capacidade crítica fez com que entendessem que a aplicabilidade do sistema não seria algo tão perfeito. Embora eles não tenham utilizado diretamente o SRC em um projeto, houve consenso quanto ao fato de que a aplicabilidade de um sistema pré-fabricado remontável impõe limitações ao projetista, sendo aconselhável ter cautela ao adotá-lo. Sem dúvida, em algumas situações o uso de um SRC é bastante pertinente, ou mesmo ideal, como ocorre com a temática da feira-livre, desenvolvida no exercício. Cabe, porém, ao projetista entender detalhadamente o funcionamento do sistema para poder aplicá-lo com coerência e propriedade, ou mesmo para criar a partir dele e acrescentar soluções ao próprio repertório da empresa, exigindo dela um produto mais adequado ás suas expectativas. Esta última, aliás, é a própria lógica do mercado, que se desenvolve a partir das críticas e sugestões dos usuários (nesse caso, entendendo usuário como aquele que utiliza o sistema para projetar, ou seja, o arquiteto, que é o usuário final do produto SCR embora as pessoas que irão utilizar o ambiente gerado sejam outras).
Quanto aos condicionantes projetuais, certamente não é possível eliminar alguns aspectos no processo projetual. Logo, no caso da adoção de um SCR, talvez o maior desafio a ser enfrentado pelo arquiteto seja aproveitar as características próprias do sistema e ajustá-las aos demais condicionantes, a fim de que o espaço resultante atinja a qualidade e os índices ideais de habitabilidade. Certamente, como em qualquer outro projeto, é difícil responder bem a todas as questões que nos deparamos ao elaborar uma proposta arquitetônica, enfrentar o processo de tomada de decisões e fazer as melhores escolhas. Manter a tríade arquitetônica equilibrada, sem priorizar excessivamente algum aspecto não é tarefa fácil, sobretudo quando se aplica um sistema que traz consigo suas próprias exigências. Mas, provavelmente, o grande atrativo da profissão é justamente lidar com tantas variáveis e produzir um projeto que atenda às necessidades de modo equilibrado.
Neste sentido, com relação ao exercício projetual realizado devem ser mencionados alguns pontos que poderiam ser reconsiderados frente aos resultados obtidos, embora no momento de planejamento da pesquisa tenham aparentado ser o melhor caminho a seguir. Dentre eles destacamos:
• Só ter sido estudado um SCR, sendo necessário trabalhar com outros a fim de verificar se os projetistas irão se comportar do modo semelhante ou adotar outras posturas.
• A escolha pelas turmas do 6º período (considerada ideal por se tratar de uma disciplina de projeto de arquitetura com ênfase no uso de sistemas industrualizados) trouxe para o exercício estudantes que, mesmo tendo conhecimentos básicos de estrutura, ainda se encontravam no meio da grade curricular. Isso dificultou um pouco a compreensão do sistema, pois os alunos não se mostraram muito amadurecidos em relação à proposição projetual. Por outro lado, trabalhar com alunos do final do CAU poderia conduzir a pesquisa para um ponto de vista semi-profissional, o que poderia aproximar muito a opinião dos estudantes da opinião dos profissionais. Uma opção diamentralmente oposta seria aplicar o exercício as turmas iniciantes de curso (2º ou 3º períodos, por exemplo), que, menos presas às questões estruturais e funcionais, trabalhariam a parte plástica com mais liberdade e leveza.
• A aplicação do sistema com turmas de um único período, que inicialmente mostrou-se uma boa escolha, pode ter conduzido demasiadamente os resultados em uma direção, o que talvez fosse diferente se o trabalho envolvesse turmas de várias fases do CAU.
• A aplicação do exercicio em uma só universidade também pode ter sido um viés, pois se trabalhássemos com turmas de mesmo período porém ligados a universidades diferentes, talvez pudéssemos detectar maiores diferenças na maneira de projetar de cada grupo, o que traria outro olhar sobre o mesmo tema e o mesmo experimento.
• A grande aceitação do exercício pelo docente envolvido, que se tornou parceiro da pesquisadora, contribuiu para a compreensão do alunos, mas talvez o tenha tornado menos exigente com relação a outros aspectos do projeto, atitude que refletiu-se na menor observância de outros condicionantes projetuais pelas turmas.
Embora reconheçamos a necessidade de repensar esses pontos, entendemos, também, que a pesquisa inicialmente proposta está concluída, de maneira que qualquer outro desenho que viesse a assumir corresponderia a uma nova pesquisa. De fato, como a arquitetura remontável é um campo de pesquisa relativamente novo no Brasil, a possibilidade em contribuir para a área e apresentar subsídios para novas pesquisas justifica o esforço realizado, podendo influenciar, direta ou indiretamente, na formação de novos profissionais.
Com relação à continuidade desta investigação, como professora e pesquisadora em instituição de ensino superior, além de utilizar os conhecimentos obtidos em situações de sala de aula, é possível prosseguir no campo da pesquisa arquitetura remontável. Está nos horizontes da pesquisadora buscar a aplicabilidade dos SCR em outras instâncias, provavelmente analisando outros SCRs, repetindo o exercício projetual em outras turmas ou trabalhando com simulação computacional. Outra ideia é alterar o formato do exercício, por exemplo, fazendo um curso de extensão ou um ateliê integrado à outras disciplinas, e fomentar o entrosamento arquitetura/engenharia em grupos híbridos de estudantes dos dois cursos. Enfim, muitos são os caminhos para abordagem do tema, e com certeza,
outras pesquisas surgirão derivadas desta.
Conceitualmente, novos tipos de usos e práticas sociais exigem soluções espaciais que os acompanhe. Nesse sentido, a temporalidade reduzida de espaços efêmeros envolveria a busca de soluções igualmente versáteis, ágeis, dinâmicas. A arquitetura de emergência, que busca propor espaços que visem sanar as deficiências causadas situações em que há uma carência habitacional em caráter de urgência (tais como catástrofes urbanas e/ou rurais, acidentes ambientais, fenômenos climáticos, situações de guerra, etc.), oferecendo edificações seguras, salubres, minimamente confortáveis e executadas com a rapidez necessária que a própria situação solicita, é um exemplo claro e atual dessa necessidade de pensar, projetar e (re)criar construções temporárias portáveis, o que exige, paralelamente, o desenvolvimento de SCRs eficientese de fácil compreensão. Essa tese surgiu com base nesse tipo de indagação, e se desenvolveu a partir de recortes que a direcionaram pelos caminhos comentados nesse volume, com especial atenção para como os projetistas (arquitetos e estudantes) entendem e utilizam sistemas construtivos remontáveis no desenvolvimento de seus projetos. De modo geral, parece que, na prática, a maioria dos projetistas utiliza métodos tradicionais de projeto para enfrentar as novas dinâmicas e exigências da sociedade.
Haveria algum modo específico de projetar que refletisse essa nova realidade? Essa e outras questões emergem facilmente da pesquisa exploratória realizada que, mais do que respostas, acrescentou novos questionamentos ao tema, a partir dos quais podem ser desenvolvidas novas investigações no campo da AU, não só na linha do projeto de arquitetura, mas em várias outras correlatas.
• Que tipo de diferença pode ser percebida nos espaços gerados, se o projeto de mesmo edifício for elaborado como uso de um sistema construtivo tradicional ou de um sistema remontável? Há influência no tipo de espaços definidos, ou eles são semelhantes e apenas tectonicamente diversos, ou alteram-se radicalmente?
• Como regulamentar e, sobretudo, fiscalizar a execução e a permanência/uso de edificações que aparecem e desaparecem na