1. GİRİŞ
3.5. Yatırım Destek ve Tanıtım
resultado de um processo de reinterpretação da realidade brasileira a partir de teorias cristãs que tentaram conciliar a tradição milenar da Igreja com os problemas contemporâneos da humanidade, como a questão desenvolvimentista, a justiça social e a luta entre capitalismo e socialismo.
Criada antes do golpe, em maio/junho de 1962, sendo a grande maioria da sua militância formada inicialmente formada por elementos originários das três jotas, Juventude Operária Católica (JOC), Juventude Estudantil Católica (JEC) e Juventude Universitária Católica (JUC), além do Movimento de Educação de Base (MEB).
Este último realizava programas radiofônicos de alfabetização de adultos, sobretudo na zona rural do nordeste do Brasil, o que aproximava a nova organização dos agricultores e seus problemas cotidianos, como o explosivo problema da posse da terra.
O comportamento deste partido nos chama atenção. A Ação Popular formou-se influenciada pelas correntes do pensamento cristão católico, e apesar de não se declarar inicialmente marxista, já nasce com um projeto de sociedade sem preconceitos ao socialismo, o que provavelmente influenciou para sua adesão seis anos depois ao maoísmo ateu.
Este deslocamento político para a esquerda culminou no início dos setenta com a adesão da maioria dos seus membros ao PCdoB. Ora, como se deu esta mudança num espaço de tempo tão exíguo? Como um grupo católico pôde aderir ao marxismo num país em que a Igreja Católica sempre foi raivosamente anticomunista? É difícil responder esta indagação, porém um caminho que pode nos ajudar na resolução desta problemática se localiza em certas influências teológicas sofridas pela Igreja Católica brasileira nos últimos cento e cinqüenta anos. Nesse sentido sabemos que no Brasil o missionarismo da Igreja de Portugal sobre a colônia sempre foi dificultado pela falta crônica de padres no Reino.
Hugo. A lei da selva: estratégias, imaginários e discurso dos militares sobre a guerrilha
do Araguaia. 1ª edição. São Paulo. Geração editorial. 2006; GASPARI, Elio. A floresta dos homens sem alma. In: As ilusões armadas. A ditadura escancarada. 1ª edição. São Paulo.
Para resolver ou amenizar este problema, se recorreu a outras Igrejas, como a italiana e a francesa, que intensificaram o envio de sacerdotes para o Brasil na segunda metade do século XIX. A longo prazo, isso gerou em alguns casos, posturas mais abertas, liberais e até de esquerda, com certa aproximação e diálogo com o marxismo. 60
Dos vários religiosos que influenciaram a militância da APML, quatro são vistos como os iniciadores da nova formação teológica: o Padre e economista suíço preocupado com a superação do subdesenvolvimento no terceiro mundo, Louis Joseph Lebret, além dos teólogos e sacerdotes franceses Teilhard de Chardin, Emmanuel Mounier e do leigo Jacques Maritain. 61
Nos quadros do Clero brasileiro que davam assistência a JUC e a Ação Católica, que tinham posições diferenciadas da maioria dos católicos, estavam os jovens que tinham estudado na Europa. Nesse grupo temos o Padre Henrique de Lima Vaz, Padre Luís Sena, o Padre Almery Bezerra.
Podemos citar ainda o Frei dominicano Carlos Josaphat, Editor-Chefe do Jornal Brasil Urgente, além de autor de Evangelho e revolução social, uma espécie de livro denúncia contra os males da injustiça social, que também apontava as fórmulas a serem usadas para superá-la.
60 LOWY, Michael. A guerra dos deuses. Religião e política na América Latina. 1ª edição.
Petrópolis. Vozes. 2000.
61 Louis Joseph Lebret (1897-1966): Frei dominicano e economista francês que nos anos
quarenta passou a estudar o subdesenvolvimento nos países do terceiro mundo, levando-o a pedir solidariedade das nações ricas para com as pobres. Morou no Líbano, Venezuela, Colômbia, Vietnã do Sul, Benin, Costa do Marfim, Senegal e Brasil, onde ensinou teologia e economia, utilizou as teorias K. Marx e F. Engels como instrumento de análise da sociedade, por isso ele é considerado entre os seus ex-alunos o “desdiabolizador” do marxismo. É autor de Economia e Humanismo, clássico do pensamento social cristão desenvolvimentista. Participou do Concílio Vaticano II onde ajudou a redigir o documento Gaudium et Spes, e ainda inspirou a Encíclica Populorum Progressio do Papa Paulo VI; Teilhard de Chardin (1881- 1955): Jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês, tentou conciliar a teologia cristã com o darwinismo, reconhecendo assim a evolução natural, que seria comandada por Deus, sendo que no final o mundo seria uma Noogénese, ou seja, a união de todo pensamento humano em um só. Sua obra-prima foi O fenômeno humano, e como cientista ajudou na descoberta do
Homem de Pequim; Emmanuel Mounier (1905-1950): Filósofo francês fundador da Revista Esprit, centrou sua teologia no individual humano. Em O Personalismo concluiu que os males
sociais econômicos se originavam na moral individual degradada. Politicamente manteve-se sempre contrário a extrema-direita, daí sua participação nas ligas antinazifascistas, na Frente Popular, contra o Pacto de Munique, a favor da República Espanhola e da Resistência Francesa contra o Regime de Vichy. Influenciou o pensamento Democrata-Cristão e o Papa João Paulo II; Jacques Maritain (1882-1973): Tomista, autor de Humanismo Integral, espécie de tratado contra o individualismo, pois o homem deveria obrigatoriamente colocar o bem comum acima das posses individuais para alcançarmos à fraternidade e o equilíbrio social na comunidade. Influenciou a Democracia-Cristã e a Doutrina Social da Igreja. Entre seus admiradores estão os Papas Paulo VI e João Paulo II. Já idoso pediu filiação a irmandade dos
A aproximação deste setor do clero brasileiro com o marxismo se consolidou de uma vez por todas com a circulação de novos tratados franceses, vindos de uma geração que estava se destacando na busca de uma doutrina social que respondesse aos desafios do período da guerra fria.
Nomes como dos teólogos franceses Dominicanos Thomas Cardonnel, Jean Yves Calvez, profundo estudiosos de O Capital, M. D. Chenu, além do contestador dos discursos que falavam em tradições imutáveis Yves Congar, o que gerava tensões com a hierarquia da Igreja. 62
Neste processo a Ordem dos Dominicanos teve um papel único, pois se ligou mais diretamente com seus pares franceses, seja, enviando vários dos seus membros para estudar na França em Seminários como S. Maximin e Saulchoir, ou recebendo no Brasil irmãos gauleses. A troca de idéias e experiências entre os dois catolicismos foi repassada aos jucistas através da assistência teológica gerando fortes impactos. 63 Outras influências devem ser mencionadas são as de Charles Péguy, precursor do chamado socialismo cristão, Henri de Lubac que também se preocupou em dar um papel importante aos leigos, Henri Desroche que tentou conciliar o marxismo com o cristianismo, J. Perrin que escreveu tratados de economia, o abade Pierre Voillaume fundador da obra social Emaús.
62 Thomas Cardonnel: Frei Dominicano, sua presença no Brasil entre dezembro de 1959 até o
final de 1961 foi muito impactante entre alguns católicos. Denunciador da “blasfêmia estrutural” que de um lado gerava “os barracos miseráveis e do outro o luxo insultante dos bancos”, “esses palácios suntuosos onde se acumula o dinheiro”, era crítico dos discursos cristãos que naturalizavam a desigualdade social como obra de Deus. Certa vez declarou: “Por que Marx e
Engels sempre viram concretamente a religião sob este aspecto, porque uma multidão de pessoas a descobriu realmente assim, eles a denunciam com razão como a fonte das alienações. Ela esvazia o homem de sua substância, de sua dignidade, força-o a retirar-se de si mesmo, de sua humanidade, torna-o estranho a si mesmo”. Suas opiniões publicadas na
coletânea organizada pelos militantes da JUC Cristianismo hoje, geraram mais atritos com a hierarquia da Igreja Católica Brasileira, o que levou seus superiores na Europa a ordenarem sua volta a França; Jean Yves Calvez: Jesuíta francês, é autor de uma obra monumental sobre o pensamento de Karl Marx, onde pretendia uma objetividade racional para depois mostrar suas contradições com o Cristianismo. Publicada em Portugal acabou sendo lido de forma seletiva por dezenas e dezenas de noviços no Convento dos Domicanos na cidade de São Paulo. Os capítulos em que o intelectual exaltava a competência do pensador alemão eram minuciosamente estudados, e aqueles que mostrando as contradições com o Cristianismo, eram deixados de lado; M.D. Chenu:Também Dominicano,foi um dos membros do movimento católico na França que se integrou ao meio operário para entender suas perspectivas e ao mesmo tempo cristianizá-los. É autor do clássico Para uma teologia do
trabalho, escrito que aproximou os Dominicanos brasileiros no meio operário; Yves Congar
(1904-1995): Defensor da autonomia dos movimentos leigos em relação a hierarquia eclesiástica, princípio que detalhou na obra Etapas para uma teoria do laiciato. Esats idéias estimularam os jucistas a criar uma organização política independente da Igreja, no caso a
Ação Popular, depois Marxista-Leninista.
Também não podemos esquecer que a fundação da AP se deu durante o pontificado do Papa João XXIII e do Concílio Vaticano II (1962-1965), período marcado por muitas discussões no interior da Igreja, não apenas sobre a sua história, mas de abertura aos diferentes, como o diálogo com os não crentes. 64
Para percebermos com mais clareza a fusão entre certas teorias do cristianismo franco-brasileiro e o marxismo vamos pegar uma parte do Documento-Base da AP aprovado no seu 1º Congresso em fevereiro de 1963, em Salvador(BA). Nela priorizarei as partes que discutem o socialismo, o posicionamento diante das revoluções do século XX e os resquícios teológicos ainda sutilmente presentes no documento fundador do grupo. 65
No início a mensagem já sinaliza para uma tentativa de encontrar um caminho novo, isso fica claro nas suas opiniões em relação às revoluções socialistas que aconteceram na Europa Oriental e na Ásia. A postura é de regozijo, porém mantendo certo sentido crítico, pois tais vitórias são vistas como acontecimentos em países semi-feudais ou pouco industrializados, como a Rússia e a China, o que teria levado a caminhos bastante específicas.
Mesmo após a futura vitória do socialismo procurou-se destacar os fatos que demonstravam a variedade na construção da nova sociedade, como o rompimento da Iugoslávia com a rigidez da ortodoxia soviética, a lembrança de que a revolução cubana inicialmente não optara pelo socialismo, ou as tensões sino-soviéticas. 66 Outro ponto que chama atenção neste programa inicial da Ação Popular é a sua posição não apologética da luta armada, pois enquanto as outras organizações sempre versavam a respeito da impossibilidade de um caminho de reformas, a AP apesar de reconhecer que as estruturas autoritárias criadas pelos donos do poder levam os dominados a revolta violenta, não se poderia antecipar a forma de concretização do processo revolucionário.