Conforme verificado no capítulo 2, os princípios que norteiam os padrões éticos a serem incorporados à análise são o da benevolência e o da justiça distributiva.
Com base nestes princípios e com foco no interesse coletivo, a análise a ser procedida no próximo capítulo procura identificar, tanto no modelo econômico adotado como no estudo das variáveis que serão selecionadas, a quantidade de bem e de mal resultantes das decisões de política econômica implementadas no período 1995-2005 pelos policymakers responsáveis.
Para que se chegue ao modelo adotado, importante se torna tentar descrever como seria o modelo atualmente existente para a condução da economia, tendo como base a constatação de Sen, antes referida, que contempla a hipótese da ausência ou do afastamento da teoria econômica dos princípios da ética.
As formulações econômicas são derivadas do conhecimento obtido através da aplicação do método científico. Segundo a teoria do método científico, tal como demonstrada por Karl Popper (1974), ela apresenta três componentes e três operações.
Os componentes são: i – as condições iniciais específicas; ii – as condições finais específicas e iii – as generalizações de caráter hipotético. As considerações iniciais (i) e finais (ii) são passíveis de verificação através da observação direta. As hipóteses, no entanto, não são verificáveis e sujeitam-se, apenas e tão somente, às
condições de falsificação. A previsão, a explicação e a verificação se constituem nas três condições científicas básicas. Neste contexto, as generalizações hipotéticas podem combinar-se com as condições iniciais, resultando em determinada previsão específica. A hipótese adotada traz consigo a presunção de que possua validade atemporal, o que resulta na possibilidade de verificação.
A verificação envolve a análise comparativa das condições iniciais e finais específicas, dando margem à apuração sobre se as mesmas coadunam-se com a hipótese. Os experimentos, sejam quantos forem, não comprovarão a hipótese, porém esta, desde que não sofra falsificação, pode ser aceita como válida. Verifica- se, portanto, uma assimetria entre a verificação e a falsificação, que ficaram como a contribuição de Popper para a filosofia das ciências.
Com isso, ficam eliminadas as instabilidades dos argumentos com base na indução. Não existe a necessidade da insistência em afirmar determinado fenômeno que acontece de forma recorrente, basta que seja aceito como hipótese aprioristicamente, até que seja comprovada a sua falsidade. O modo de conhecimento descrito por Popper reverte-se de elegância e permite que não seja transformado em problema lógico insuperável. Desta forma, uma hipótese não comprovável proporciona uma determinada previsão e uma explicação.
As hipóteses formuladas necessitam, porém, serem revestidas de validade atemporal para que seja possível a verificação, já que, em não sendo possível a sua reprodução, a verificação não poderá ser conclusiva. Ocorre, porém, que os princípios éticos dão origem a processos históricos irreversíveis, resultando daí, a sua impossibilidade a generalizações de validade atemporal.
Por evidente, não se está invalidando o modelo do método científico por Popper adotado. O modelo continua válido, apenas não é aplicável à totalidade dos
fenômenos sociais. No entanto, a verificação resulta em uma divisão clara entre as ciências naturais e sociais, pois os princípios éticos somente estão presentes quando estão envolvidos participantes pensantes.
Na economia, a aplicação dos métodos das ciências naturais podem, em casos especiais e específicos, produzir resultados consistentes. Os teóricos da economia clássica a eles recorreram e, em situações especiais, obtiveram resultados compensadores. A generalização na utilização do método científico, por outro lado, não pode ser aplicada, tendo em vista que a busca da verdade nas ciências sociais exige o reconhecimento de que determinados aspectos do comportamento humano não podem ser regidos por leis de validade atemporal.
É possível que o estudo dos problemas sociais possa ser motivado por outros objetivos em que não está envolvida a busca da verdade, já que se deve admitir que os fenômenos sociais estão sujeitos à influência de teorias desenvolvidas para explicá-los.
Além do mais, existe um novo comportamento no desenvolvimento das ciências, como refere Teixeira (2005):
A ciência contemporânea não se satisfaz mais somente em compreender o mundo, mas busca transformar o mudo. Isto implica uma mudança no que se refere ao sentido da realidade. O objeto não é mais aquilo que subsiste em si, mas aquilo que é possível em relação aos projetos da ciência (p. 18).
Em face do exposto, as ciências sociais, entre elas a economia, devem buscar resguardo no que diz respeito aos abusos do método científico, pela simples razão de que as mesmas afetam ou podem afetar o indivíduo a que se referem.
Para tanto, pretende-se que se incorporem à análise econômica os princípios éticos já definidos anteriormente, representados no modelo definido
conforme o diagrama que segue:
Figura 1 – Diagrama de Análise com a inclusão dos princípios éticos na apreciação dos fenômenos da economia22
Elaboração do autor.
O diagrama representado na figura 1, apresenta o modelo de análise adotado, onde os fundamentos da ciência econômica, os princípios da benevolência e da justiça distributiva e a quantidade de bem e mal produzidos, estão interagindo por intermédio da ética, resultando em decisões de política econômica que nortearão
22 O modelo exposto apresenta limitações por sua característica geral, e pode ser incorporado em
qualquer regime de política econômica, tanto na formulação de políticas, como no arbitramento de eventuais trade offs.
ÉTICA Quantidade de Bem e Mal Benevolência Justiça Distributiva Política Econômica Ciência Econômica
as ações da sociedade no que tange aos assuntos econômicos.
No próximo capítulo são apresentados o modelo econômico utilizado, suas origens e implementação no Brasil no período destacado, assim como o ajuste fiscal e seus resultados para o desenvolvimento econômico brasileiro.
4 ANÁLISE DO MODELO ECONÔMICO E SEUS RESULTADOS
Com base nos princípios constantes no diagrama da página 58, este capítulo procura identificar o modelo econômico utilizado no Brasil durante o período estudado, suas origens e implementação. Da mesma forma, é estudado o ajuste fiscal proposto, seus resultados e reflexos no desenvolvimento econômico brasileiro.