componentes curriculares, por exemplo, e outros não.
Historicamente, são valorizados determinados campos do conhecimento
escolar, sob o argumento de que se mostram úteis para resolver problemas do dia a
dia.
A questão da relatividade do conhecimento e necessidade da tecnologia enquanto um processo de universalização pode contribuir para que o tutor não fique parado no tempo e no espaço. Ele atua como pessoa que precisa lidar com esse tipo de conhecimento para poder dar os avanços necessários na educação mundial.14
A forma de inserção e abordagem dos componentes num currículo escolar é
em si mesma indicadora de uma opção pedagógica que propicia ao aluno a
construção de um conhecimento fragmentário ou orgânico e significativo, quanto à
compreensão dos fenômenos naturais, sociais e culturais.
Será essa a postura do tutor em relação aos alunos no Ambiente Virtual de
Aprendizagem (AVA)?
2.3 Postura Pedagógica do Tutor
A postura pedagógica do tutor da Pedagogia incita o pensamento em direção
ao enfrentamento de tensões que são criadas durante o seu processo de
elucidação, o que possibilita a superação de dicotomias tradicionais da visão de
mundo mecanicista, como: homem-mundo: o homem se revela ao mundo através da
linguagem, quer seja ela natural, quer seja artificial, como é o caso da linguagem
computacional.
Ao formalizar o seu pensamento para outrem, o homem apropria-se da
palavra, atribuindo-lhe um significado segundo sua própria experiência,
reelaborando-a e revelando-se ao outro.
A ênfase nas competências do professor durante suas aulas e a possibilidade
de interpretações múltiplas para a efetivação de um trabalho docente sério, revela,
desde o início, suas bases filosóficas até os dias atuais, sustentado num processo
de construção curricular.
14 Apontamento da professora Maria Ângela Barbato Carneiro, durante a qualificação desta
Giroux (1987)
15amplia esse significado quando aprofunda sua crítica sobre o
homem como sujeito da história em que “está” no mundo e “com” o mundo,
escrevendo sua própria história. Ao mesmo tempo em que se expressa, o homem
deve tomar consciência de si mesmo como um ser singular no mundo, com
potencialidades e limitações próprias. A "palavra própria" de cada ser manifesta o
sentido que ele dá a si mesmo e ao mundo. Assim, a palavra "está sempre em ato"
constituindo "a essência do mundo e a essência do homem [...]"
Todo encontro com o outro supõe um confronto de ideias onde cada qual traz
seu testemunho e busca o testemunho do outro. Cada ser é responsável pela
introdução de um ponto de descontinuidade, cujas contradições devem ser
discutidas e compartilhadas com os demais membros do grupo, buscando um
equilíbrio em um novo patamar.
No Brasil, a licenciatura em Pedagogia na modalidade a distância é o curso
que mais possui alunos matriculados, de acordo com o Censo da Educação Superior
2010, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
(Inep).
Almeida M. (2012, p.132) detalha que são mais de 286 mil alunos, espalhados
por 4.450 polos (unidades onde acontecem os encontros presenciais), de
instituições públicas e privadas, nos cursos de Pedagogia.
Convém lembrar que o tutor é o profissional que deve acompanhar e ter
domínio sobre os conteúdos que serão ministrados no curso de Pedagogia. Porém,
para que o aluno, futuro professor, esteja preparado para atuar na escola, o seu
tutor também deverá obter a formação específica para acompanhá-lo durante todo o
processo de aprendizagem. Costuma-se dizer que, para cada causa, um efeito
16.
O curso de Pedagogia tem a responsabilidade de garantir a competência de
quem vai lecionar nos anos iniciais da educação básica, formando profissionais que
estejam preparados para planejar suas aulas de acordo com a realidade dos seus
alunos; perceber e atender às expectativas e aos interesses, quando possível;
respeitar os conhecimentos prévios que os alunos trazem ao chegar à sala de aula;
mediar reflexivamente.
15 Apontamentos de aula com a professora Dra. Mere Abramowiks, em 13 de outubro de 2013. 16 De acordo com o Dicionário Filosófico: Causalidade, ou relação de causa e efeito, é o vínculo que
correlaciona fenômenos diferentes fazendo com que alguns deles apareçam como condição da existência de outros.
Sacristán demonstra isso, ao comentar:
O ensino tem uma intencionalidade, persegue certos ideais e costuma ser praticado apoiando-se em conhecimentos sobre como funciona a realidade na qual intervém. Se é uma ação intencional, dirigida para algum fim, deve ser uma lógica, ainda que não existam planos absolutamente seguros nem se possa pensar num único caminho possível para desenvolvê-la (SACRISTÁN, 2000, p.199).
Nas pesquisas que realizou, Almeida M. identifica que
a Pedagogia a distância repete a mesma tendência de atribuir maior peso aos fundamentos gerais que aos conhecimentos didáticos verificada na modalidade presencial - como indicou, em 2008, o estudo Formação dos Professores no Brasil, realizado pela Disciplinas como História e Sociologia da Educação são valorizadas, em detrimento daquelas voltadas aos conhecimentos didáticos. "Essa bagagem teórica é bem-vista pelos estudantes". Poucas são voltadas aos conteúdos da Educação Básica e ao estudo de tópicos relativos ao sistema escolar, como o currículo. Há, ainda, a frágil associação com a prática educacional. [...] alunos, coordenadores e gestores mostraram que os espaços para o desenvolvimento da prática parecem restritos às atividades de estágio, que, por sua vez, têm a função de cumprir apenas exigências legais.17 (ALMEIDA M., 2012, p.36).
Para o tutor, ainda há pouca definição na lei que determina sua atuação. Essa
categoria ainda está aguardando para ser discutida e normatizada. Não é entendida
como profissão, mas pode ser compreendida como docente. Porém, há que ser
reconhecido legitimamente para tal.
Gatti ressalta que
é preciso pensar quem é o tutor e o que se quer dele. Se a ideia é que ele atue só na parte administrativa, precisamos de um perfil. Se ele for responsável também pelo conteúdo, deve receber a formação adequada. O docente que elabora o curso, em geral, é requisitado para outras funções e não pode se dedicar à docência na modalidade a distância. "Quem dá conta de tudo é o tutor, geralmente bolsista ou contratado de forma precária (GATTI, 2008, p.112).
Nos cursos de Pedagogia, assim como os demais oferecidos a distância, os
profissionais que trabalham nos projetos, ou criam as aulas, normalmente são
profissionais da própria instituição. Nesses cursos, é necessário rever as diferenças
regionais, e que os professores conheçam a realidade do local onde atuarão, uma
vez que há polos em todas as regiões do Brasil e as diferenças são marcantes, de
um lugar para outro.
Os tutores, em seus AVAs, devem aproximar os alunos em suas
aprendizagens e também em sua relação professor-aluno. Almeida M. (2012) chama
a atitude de “estar junto” virtual.
Gatti na pesquisa da Fundação Carlos Chagas, salienta que o curso de
Pedagogia, na modalidade a distância
tem como missão formar profissionais tão diversos como professores de diferentes segmentos, além de coordenadores pedagógicos, gestores, supervisores de ensino e pesquisadores, que não tem como prioridade no currículo o "quê" e o "como" ensinar determinadas faixas etárias. [...] apenas 28% das disciplinas dos cursos ministrados em todo o país se referem à formação profissional específica - 20,5% a metodologias e práticas de ensino e 7,5% a conteúdos (GATTI, 2008, p.112)
Não há dúvidas de que os professores devem dominar os conteúdos da
matriz curricular e que a faculdade deve suprir essas dificuldades.
Pesquisa da Fundação Carlos Chagas (2010) afirma que, no Brasil, 42% do
total da carga de disciplinas de Pedagogia está voltado para o funcionamento dos
sistemas educacionais e fundamentos da Educação. A graduação deve ajudar os
professores a se servirem de conhecimentos teóricos para refletir sobre o cotidiano.
Entretanto, a prática não acontece hoje em dia.
O tutor precisa de engajamento na atual problemática político-social, e ser
agente das políticas sociais, de modo a imprimir uma finalidade à ciência e eliminar o
distanciamento existente entre a teoria e a prática. O professor/tutor é o autor desse
processo.
Para ocorrer esse engajamento, Freire orienta que
O educador democrático não pode negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua submissão. Uma de suas tarefas primordiais é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se “aproximar” dos objetos cognoscíveis. E essa rigorosidade metódica não tem nada a ver com o discurso “bancário” meramente transferidor do perfil do objeto ou do conteúdo (FREIRE, 1996, p. 22).
É possível aprender criticamente, mas, para isso, é necessário que
“educadores e educandos sejam instigadores, curiosos, inquietos, rigorosamente
humildes e persistentes” (FREIRE, 1996, p. 22).
Desse modo, está acontecendo um
Processo de conscientização em que a tecnologia vem auxiliando mudanças das relações entre professores e alunos, encorajando processos de aprendizagem baseados em projetos, dando suporte à aquisição de
novas habilidades, como o raciocínio em níveis mais altos de abstração e a capacidade de análise e solução de problemas.
O comprometimento do tutor com o seu trabalho, alimentado pelas
experiências e vivências rituais de sua função, anunciam possibilidades para vencer
os limites impostos pelo conhecimento fragmentado e transforma essas fronteiras
em territórios propícios para encontros. A tutoria permeia o comprometimento que se
constrói através de uma reflexibilidade crítica sobre as práticas de reconstrução
permanente de uma identidade pessoal. Essa identidade é composta por uma tríade:
professor-aluno-conhecimento, inerente às condições sociais e psicológicas do
ensino vivenciado na prática docente.
Segundo Coll (1992, p. 179), essa tríade demonstra que é no aluno que se
concretiza a aprendizagem, que os conhecimentos constituem o objeto da
aprendizagem e o professor deve favorecer, pelo ensino, todas essas ferramentas
para intervir, investigar, e servir de apoio, mediando o conhecimento a ser aprendido
pelo aluno.
Na tutoria, há a intenção de intervir no contexto significativo do conhecimento,
bem como nessa tríade, ampliando constantemente a zona de desenvolvimento
proximal
18dos alunos, ou seja, ampliando o ensino-aprendizagem enquanto
atividade articulada e conjunta entre aluno e tutor.
Novamente, Coll menciona que a
atividade mental construtiva do aluno está na base dos processos de desenvolvimento pessoal que promove a educação escolar. Mediante a realização de aprendizagens significativas, o aluno constrói, modifica, diversifica e coordena seus esquemas, estabelecendo deste modo redes de significado que enriquecem seu conhecimento de mundo físico e social e potencializa seu crescimento pessoal (COLL, 1992, p. 179).
Considerada essa atividade mental citada por Coll, o tutor pode e deve
sintonizar a construção de conhecimento do aluno e orientá-lo a seguir as “placas”
das intenções educativas. Isso tem tudo a ver com o compromisso social e a relação
das ideias de Vygostsky (1896-1934)
com as do próprio Paulo Freire (1921-1997)
dentro desse contexto. Se não fosse por Vygostsky, não teríamos tão clara a relação
18 É um conceito elaborado por Vygotsky (1896-1934) e define a distância entre o nível de
desenvolvimento atual, determinado pela capacidade de resolver um problema sem ajuda, e a gama de possibilidades, determinado através de resolução de um problema sob a orientação de um adulto ou em colaboração com outro companheiro. Quer dizer, é a série de informações que a pessoa tem a potencialidade de aprender mas ainda não completou o processo, conhecimentos fora de seu alcance atual, mas potencialmente atingíveis.
da psicologia com a importância do processo de aprendizagem. Também clarifica
que todo o conhecimento trabalhado e apreendido pelos alunos caminha a favor
deles mesmos.
Com essa intenção de mediar o conhecimento dos seus alunos, o tutor age
construindo significados e dando sentido àquilo que os alunos aprendem e
apreendem, mesmo na modalidade a distância.
Sacristán (2003) defende essa interação professor-aluno-conhecimento em
um contexto que estabelece dinâmica relação em que cada um desses elementos
influencia os outros dois. Esses elementos podem propiciar ao tutor que desenvolva
um trabalho que favoreça a autonomia do aluno.
3 METODOLOGIA
A metodologia de pesquisa para a análise deste estudo pautou-se na
pesquisa qualitativa, com base em pesquisa bibliográfica e análise de documentos
dando forma a um estudo de caso instrumental.
A abordagem qualitativa acata significativamente o objeto deste estudo e a
análise dos dados favorece a compreensão do tema apresentado.
Chizzotti ressalta que essa pesquisa
[...] implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisas, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível. Após este tirocínio, o autor interpreta e traduz em um texto, zelosamente escrito, com perspicácia e competência científicas, os significados patentes ou ocultos do seu objeto de pesquisa (CHIZZOTTI, 2014, p. 28).
A tríade escolhida para a pesquisa, alicerçada pelos estudiosos, tornou
possível desnudar o objeto desta pesquisa, uma vez que o pressuposto básico é a
investigação dos fenômenos humanos.
Na pesquisa qualitativa, todos os fenômenos são igualmente importantes e
preciosos “a constância das manifestações e ocasionalidade, a frequência e a
interrupção, a fala e o silêncio” (CHIZZOTTI, 2014, p. 30).
Sobre a pesquisa bibliográfica, Lakatos esclarece:
A pesquisa bibliográfica é um procedimento formal com etodo de pensamento reflexivo que requer um tratamento científico e se constitui no caminho para se conhecer a realidade ou para descobrir verdades parciais. Significa muito mais do que apenas procurar a verdade: é encontrar respostas para questões propostas, utilizando métodos científicos (LAKATOS, 2013, p. 43).