Os argumentos explicitados no capítulo anterior mostram que alguns estudos
em evidência tratam da importância do papel do tutor nos cursos a distância e da
tutoria, apresentada de forma ampla, sem normatização, mas ainda muito discutida
entre educadores e pesquisadores da EaD e pouco ou quase nada amparada pelas
leis que regem a educação brasileira.
Salvat e Quiroz (2005, p. 6) acendem a discussão de que é “fundamental o
desenvolvimento de uma série de habilidades: pedagógicas, sociais, técnicas e
administrativas, com vistas ao bom desempenho dessa função”.
Há, em consequência, a questão de mercado, que evidencia a abertura de
cursos de formação em EaD nas IES, com investimentos cada vez maiores e
buscando outros cursos de formação para obter mais lucro. Incentivam, ainda, a
formação de seus próprios profissionais, criando cursos próprios.
12Na opinião de
teóricos ou especialistas em educação, há grande desvalorização da carreira do
magistério. Uma analogia, muito bem-vinda para o momento, refere-se ao
“sucateamento” de que trata Paulo Freire em seu livro Pedagogia do Oprimido.
Retomando o papel do tutor, um profissional pode ser um ótimo professor em
ambientes de ensino presencial e não ser um bom tutor no ensino a distância. Como
o cerne da pesquisa aqui desenvolvida é a formação de professores, verificamos
que não há um único modelo de tutoria ou de atribuição de atividades construídas na
prática cotidiana.
Na EaD, configuram-se atividades de dois profissionais: o professor que faz o
material teórico, usado em aula, os exercícios e as pesquisas, e vende por um preço
irrisório às IES. Por outro lado, há o tutor, que é contratado, pelas mesmas
12 Apontamento da professora Maria Aparecida de Menezes, durante a qualificação desta
instituições, para acompanhar as turmas nos polos e tem diminuída, assim, sua
importância dentro desse contexto.
Alguns autores divergem sobre qual deve ser o papel dos tutores em cursos a
distância. Schmid (2004, p. 278) expõe que “o tutor não ensina no sentido
convencional da palavra, como também não dá aulas, nem produz materiais”.
Porém, quando se trata do curso de Pedagogia, em que novos professores serão
formados, não se sabe ao certo em qual papel os tutores devem se encaixar. O tutor
é pessoa designada pela instituição para estabelecer contato com o aluno, através
de relação pessoal; facilitar o desenvolvimento de todo o seu potencial intelectual e
comunicacional, ou seja, faz a tarefa de um professor, mas não é reconhecido por
isso. Quais elementos esse profissional deve ter?
O processo de formação docente rege que a filosofia e o conhecimento
científico constituem aspectos fundamentais dos estudos na formação do professor
da educação básica.
Esses estudos, portanto, passam a compreender a realidade científica de
maneira racional, por meio de métodos que permitem alcançar o conhecimento com
mais objetividade, descobrindo as relações universais necessárias entre fenômenos
(as leis naturais), e assim prever os acontecimentos e, consequentemente,
desenvolver a tecnologia que resulta em eficácia no agir.
A prática pedagógica atual trata dos conhecimentos da realidade social de
forma fragmentada e desvinculada das experiências significativas do aluno, não
dando o real valor aos contextos cultural, político, econômico e pessoal. Há urgência
em trabalhar a abordagem contextualizada, fundamentada no ponto de vista
globalizador, buscando a operacionalização através do aprendizado e da
organização do currículo no qual está alicerçado.
Aretio esclarece que
não existe um consenso entre os estudos e as instituições quanto à denominação do professor a serviço do aluno em um sistema virtual de aprendizagem. Ele é nomeado de tutor, assessor, facilitador, conselheiro, orientador, consultor, caracterizando uma relação com as funções que desempenha, porém há que se confirmar que o termo mais bem empregado seja o de tutor (ARETIO, 2001, p.125).
evolução das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) tem um papel fundamental no processo de globalização13, provoca mudanças
nos modos de ser e estar no mundo assim como o conhecimento supõe o exercício da liberdade de pensamento e do diálogo, pelo qual os indivíduos (profissionais de educação) compartilham as interpretações possíveis do real, isto é, alcançando a verdade das coisas (ALMEIDA M., 2011, p. 6).
Para Almeida M. (2011, p. 15), o tutor precisa tomar consciência do seu papel
no desenvolvimento do currículo. É necessário que reflita “continuamente sobre
questões como: ‘o que, como, para que, para quem, a favor de quem se organiza o
ensino com vistas à reconstrução do saber ensinado’”.
Aquele que pratica a dialogicidade promove a descoberta de novas ideias,
provoca no aluno uma “forma de resistência (preparo) na luta contínua pela
transformação da estrutura escolar e, consequentemente, das estruturas políticas,
econômicas e sociais” (ELIAS; FELDMANN, 2005, p. 99).
Para HARASIM; HILTZ; TELES e TUROFF,
é necessário uma formação do tutor para dotá-lo das habilidades necessárias para o cumprimento adequado do rol de ações que envolvem a moderação de uma conferência. Esta (formação) deveria trazer-lhe as habilidades necessárias para o seu desenvolvimento adequado nos aspectos sociais, pedagógicos, técnicos e administrativos (HARASIM et al., 2000, p.1).
Para essa transformação, a estrutura na modalidade de EaD, assim como na
presencial, precisa de engajamento na problemática político-social atual, tornando-
se um agente e paciente das políticas sociais, de modo a imprimir uma finalidade à
ciência e eliminar o distanciamento entre teoria e prática. É importante ressaltar que
essa fragmentação entre teoria e prática existe, ao mesmo tempo, em cursos nas
modalidades a distância e presenciais.
As Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) “introduzem
novos modos da comunicação, permitem a expressão do pensamento pelas
modalidades como as da escrita e da imagem [...]” (ALMEIDA M., 2011, p.22).
Advindas de um processo de neoliberalismo, onde a competitividade está
assinalada como ponto primordial, mantêm-se em função de auxiliar a filosofia
neoliberal, citada no capítulo 1, a respeito da educação brasileira.
13 O conceito de Globalização compreende: econ pol, espécie de mercado financeiro mundial criado a
Assim, a complexidade dos mundos físico e social requer que os
componentes curriculares se articulem, superando a fragmentação e o
distanciamento, para que se possa conhecê-la mais e melhor.
Nesse sentido, ocorre um
Processo de conscientização em que a tecnologia vem auxiliando mudanças das relações entre professores e alunos, encorajando processos de aprendizagem baseados em projetos, dando suporte à aquisição de novas habilidades, como o raciocínio em níveis mais altos de abstração e a capacidade de análise e solução de problemas (ALMEIDA F., 2006, p. 95).
O comprometimento do professor com o seu trabalho, alimentado pelas
experiências e vivências rituais de sua arte, anunciam possibilidades para vencer os
limites impostos pelo conhecimento fragmentado e transforma essas fronteiras em
territórios propícios para encontros. Comprometimento que se “constrói através de
uma reflexibilidade crítica sobre as práticas e de reconstrução permanente de uma
identidade pessoal” (NÓVOA, 1992, p. 21).
A compreensão da realidade é a medida para pensarmos, sentirmos e
agirmos sobre o mundo, sem totalitarismos e fragmentação, como pensado desde a
Antiguidade.
Para Aristóteles (384-322 a.C.),
O conhecimento se distingue em três tipos de saber a experiência ou conhecimento sensível, dado pelo contato direto com a própria coisa (conhecimento particular), a técnica ou o saber fazer é o conhecimento dos meios a serem usados para se chegar aos fins desejados, a sabedoria é o único tipo de conhecimento a determinar as causas e princípios primeiros, a única a poder dizer o quê as coisas são, por que são e demonstrá-las (NÓVOA, 1992, p. 86).
Dessa maneira, buscar inovações, diferentes interpretações, estratégias e
novas aplicações na aprendizagem dos alunos que chegam ao curso de Pedagogia,
demanda também nova postura do tutor, aquele que compartilha ideias, ações e
reflexões. Cada participante, professor ou aluno, é, ao mesmo tempo, ator e autor do
processo.
O desenvolvimento das ciências e os avanços da tecnologia no século XX
permitem constatar que o sujeito pesquisador interfere no objeto pesquisado. Não há
neutralidade no conhecimento, pois a consciência da realidade se constrói e
(re)constrói num processo dos diferentes campos do saber, seja ele no ensino
presencial ou a distância.
Alguns campos de saber são privilegiados, em sua representação, como os
componentes curriculares, por exemplo, e outros não.
Historicamente, são valorizados determinados campos do conhecimento
escolar, sob o argumento de que se mostram úteis para resolver problemas do dia a
dia.
A questão da relatividade do conhecimento e necessidade da tecnologia enquanto um processo de universalização pode contribuir para que o tutor não fique parado no tempo e no espaço. Ele atua como pessoa que precisa lidar com esse tipo de conhecimento para poder dar os avanços necessários na educação mundial.14
A forma de inserção e abordagem dos componentes num currículo escolar é
em si mesma indicadora de uma opção pedagógica que propicia ao aluno a
construção de um conhecimento fragmentário ou orgânico e significativo, quanto à
compreensão dos fenômenos naturais, sociais e culturais.
Será essa a postura do tutor em relação aos alunos no Ambiente Virtual de
Aprendizagem (AVA)?
2.3 Postura Pedagógica do Tutor
A postura pedagógica do tutor da Pedagogia incita o pensamento em direção
ao enfrentamento de tensões que são criadas durante o seu processo de
elucidação, o que possibilita a superação de dicotomias tradicionais da visão de
mundo mecanicista, como: homem-mundo: o homem se revela ao mundo através da
linguagem, quer seja ela natural, quer seja artificial, como é o caso da linguagem
computacional.
Ao formalizar o seu pensamento para outrem, o homem apropria-se da
palavra, atribuindo-lhe um significado segundo sua própria experiência,
reelaborando-a e revelando-se ao outro.
A ênfase nas competências do professor durante suas aulas e a possibilidade
de interpretações múltiplas para a efetivação de um trabalho docente sério, revela,
desde o início, suas bases filosóficas até os dias atuais, sustentado num processo
de construção curricular.
14 Apontamento da professora Maria Ângela Barbato Carneiro, durante a qualificação desta