O elemento não-objetivo da definição do alimento livre de substâncias nocivas trata da questão da segurança alimentar e consequentemente da saúde animal e da sanidade vegetal. O direito à alimentação se conecta ao direito à saúde, ambos direitos fundamentais sociais garantidos explicitamente na CF/88 em seu artigo 6º. A Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional se conecta intimamente com a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (e com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária).
De acordo com a Política Nacional de Alimentação e Nutrição 2011, “[a]s medidas sanitárias adotadas para alimentos se baseiam na análise de risco” (BRASIL, 2012a, p. 48), no potencial de efeito adverso à saúde. As análises de risco e os parâmetros para as ações de regulação dos alimentos a serem definidas no âmbito do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) na área de segurança alimentar e no Ministério da Saúde (MS) na área de vigilância sanitária são definidos com grande influência do que é estabelecido em alguns fóruns internacionais dos quais o Brasil faz parte.
Dentre as organizações internacionais que discutem as questões relacionadas à definição da segurança alimentar, saúde animal e sanidade vegetal estão a FAO, a World Organization for Animal Health (OIE) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) respectivamente, juntamente com a OMS.
Estas organizações compõem uma rede de influência que direciona, através do estabelecimento de padrões a serem seguidos por todos os países que são e/ou querem ser influentes, todas as fases da cadeia de produtividade alimentar.
Essa influência é explícita na elaboração do Codex Alimentarius52 e no compromisso de sua aplicação no âmbito interno dos países; na indicação da OIE como organização referência da OMC para a saúde animal e zoonoses, e na indicação da Convenção Internacional para Proteção Vegetal (IPPC) como referência para sanidade vegetal por parte do Acordo sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (SPS) no âmbito da OMC.
Essa influência é implícita, porém mais enraizada, quando verificamos que o Brasil é membro da OIE, e que o delegado do Brasil na organização é o Diretor do Departamento de Saúde Animal (DSA) do MAPA. A OIE estabelece padrões de saúde para comércio de
52
A Comissão do Codex Alimentarius é um fórum internacional de normatização do comércio de alimentos estabelecido pela ONU, por ato da FAO e da OMS. Para mais veja www.codexalimentarius.org .
animais e produtos de origem animal, entre outros53. Ademais, o Brasil é membro da OMC, organização que determina em um de seus acordos multilaterais, o SPS, que “Members shall base their sanitary of phytosanitary measures on international standards, guidelines or recommendations.”54, indicando o IPPC como este padrão. O Brasil é também parte do IPPC55, cujo contato no Brasil é o Diretor do Departamento de Sanidade Vegeral (DSV) do MAPA.
O Comitê do Codex Alimentarius do Brasil é composto por entidades privadas e órgãos públicos. Entre as entidades privadas estão a Associação Brasileira da Indústria, e as Confederações Nacionais da Indústria, da Agricultura e do Comércio. Este Comitê tem a responsabilidade de observar as normas do Codex como referência para a elaboração e atualização da legislação e regulamentação nacional de alimentos.
Nota-se a influência dos grandes grupos da indústria, do comércio e da agricultura, entretanto não se vê nenhuma participação dos afetados a nível local, dos pequenos produtores ou dos agricultores familiares. A Comissão do Codex Alimentarius, a OIE e o IPPC trabalham de forma coordenada no estabelecimento dos padrões a serem seguidos com o objetivo de harmonizar as legislações internas (OMC, 2007).
Esta influência se pode verificar na atual tendência da produção agrícola brasileira, que é de produção agrícola em grande escala, em monocultura, para exportação (BRASIL, 2014). Ainda, tal se verifica na própria Política Nacional de Alimentação quando ela determina que “o Brasil [...] deve levar em conta as recomendações desse espaço [Codex] com vistas à defesa da saúde e da nutrição da população brasileira.” (BRASIL, 2012a, p. 50)5657.
53 Para maiores informações veja www.oie.int . (acesso em 25/10/2015) 54
Para maiores informações veja https://www.wto.org/english/thewto_e/coher_e/wto_ippc_e.htm (acesso em 25/10/2015).
55 “The International Plant Protection Convention – IPPC – is an international treaty that aims to secure coordinated, effective action to prevent and to control the introduction and spread of pests of plants and plant products.” Para maiores informações veja https://www.ippc.int (acesso em 25/10/2015).
56 Um exemplo marcante desta influência pode-se verificar no conflito entre as normas sanitárias e os processos artesanais de produção de queijo. Conforme Pires (2013) “O conflito entre controle sanitário – e suas tecnologias avançadas – e os processos artesanais de produção de queijo está presente sobretudo na relação perversa, que se pode denominar “guerra do queijo”, entre os Estados Unidos do imperialismo higiênico e os países europeus produtores de queijos artesanais, especialmente a França. Os Estados Unidos, interessados em ampliar seus espaços no mercado internacional de queijos, vêm tentando que a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleça a proibição de consumo de queijos produzidos com leite cru, os pejorativamente denominados “queijos de risco”, o que nada mais é do que uma estratégia protecionista dos interesses comerciais americanos contra a produção artesanal da Europa, o maior concorrente. A Europa tem reagido sistematicamente na defesa do queijo artesanal, sobretudo adotando medidas de proteção da qualidade de seus queijos tradicionais e de suas técnicas de produção.” (p. 160). Este conflito reverbera em Minas Gerais, já que as normas federais relativas à produção do queijo artesanal mineiro tendem a adotar a posição estadunidense, mesmo com o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial do “Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas nas regiões do Serro, da Serra
Em virtude desta atuação e da influência praticadas, há um distanciamento entre aquele sujeito que sofrerá as limitações decorrentes dos padrões internacionais e os órgãos do executivo competentes por elaborar e impor tais limitações.
Não há a participação do destinatário afetado em nenhuma fase deste procedimento de restrição de liberdade. Somente há concepts about freedom. Não é possível que os padrões estabelecidos internacionalmente e incorporados nos atos legislativos internos (através dos atos do poder executivo) levem em consideração a territorialidade inerente ao conceito do direito à alimentação.
Neste sentido, vê-se que não há compatibilidade entre esta prática e a adoção da gestão como ação política deliberativa que assegura a participação do indivíduo (afetado) nas decisões e com a afirmação de sua autodeterminação.