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Abraçado et al. (2007) explicam que o estudo tem como objetivo avaliar, em termos prosódicos, diferentes estruturas do acento lexical, em diferentes posições, considerando dois tipos de frase: declarativa e interrogativa total. Foi selecionado do corpus (AMPER-POR), um informante do sexo masculino, com 53 anos de idade, proveniente de Niterói, Rio de Janeiro e com nível básico de escolaridade. Do corpus, foram escolhidas estruturas frasais simples, nas quais se incluem os tipos possíveis de acentuação lexical do português (oxítona, paroxítona e proparoxítona). Em cada uma das frases, o mesmo SN aparece em posição inicial e final de frase.

As frases: O bisavô gosta do bisavô (declarativa / interrogativa) O Renato gosta do Renato (declarativa / interrogativa) O pássaro gosta do pássaro (declarativa / interrogativa)

Foram selecionadas as três melhores repetições de cada frase e os dados foram analisados no programa MatLab. Os parâmetros analisados, em cada segmento vocálico, foram os de duração, intensidade e frequência fundamental.

Os resultados revelam que, de uma maneira geral, os três padrões de acentuação possíveis não parecem condicionar a curva melódica no SN, em nenhuma das modalidades, o mesmo não ocorrendo com o grupo do SV, em que os diferentes acentos tonais parecem influenciar os contornos entoacionais, principalmente no caso das interrogativas.

Quanto aos valores obtidos para os parâmetros de duração e energia, constatou-se que as sílabas tônicas apresentam uma maior duração, do que se deduz que este parâmetro aparece mais associado ao acento lexical que ao frasal. Para a distinção entre as duas modalidades, a duração não exerce um papel importante e a energia não desempenha qualquer papel distintivo.

Os resultados apresentados correspondem a uma análise parcial e, portanto, são considerados provisórios, mas, quando comparados a outros estudos referentes à prosódia do dialeto carioca, constata-se uma semelhança entre os achados, sendo eles inclusive bastante semelhantes aos do estudo descrito anteriormente sobre uma variedade do português europeu (cf. COIMBRA et al., 2007).

4. METODOLOGIA

Esta pesquisa tomou por base os procedimentos metodológicos do AMPER, cujo corpus é constituído por um conjunto previamente estabelecido de frases, contendo vocábulos representativos das diversas estruturas acentuais do português (oxítona, paroxítona e proparoxítona), em diferentes posições frásicas, havendo sido escolhidas as do tipo sujeito - verbo - complemento, podendo ser declarativas ou interrogativas.

As frases foram construídas, obedecendo a certas restrições fonéticas. Como as vogais correspondem aos segmentos portadores da principal informação relativa à composição da curva melódica, houve uma preocupação com as que formam as sílabas dos vocábulos, para que ocorressem, sempre que possível, ao lado de consoantes não vozeadas, a fim de facilitar a segmentação do material fonético.

Ao corpus Amper-Brasil, que é constituído por 66 frases (anexo 1), foram acrescentadas 15 novas frases, aqui designadas Complemento (anexo 2), compostas de perguntas parciais e de perguntas disjuntivas, e das asserções correspondentes. A motivação para se incluir esses dois novos tipos de perguntas respaldou-se no fato de que, no português do Brasil, o contorno melódico das questões parciais e das disjuntivas é sabidamente diferenciado (cf. MORAES, 1984, 1993), e não se confundem com o das questões totais, configurando, portanto, uma possibilidade a mais para a discriminação dos dialetos.

As frases do corpus Amper-Brasil original são do tipo interrogativa total, juntamente com as correspondentes declarativas, as quais expressam asserção. Recorde-se que é considerada enunciado interrogativo total a questão cuja resposta é passível de sim / não. O Complemento, por sua vez, contém questões parciais e disjuntivas; aquelas são perguntas com morfemas interrogativos (quando; como) e estas se caracterizam pela presença da partícula “ou”, de modo que oferecem uma alternativa entre dois elementos (no mínimo) como possibilidade de resposta.

As frases constantes do corpus não foram lidas, mas evocadas com base em estímulos visuais (desenhos) (anexo 3), que conduziram o informante a produzir o enunciado desejado. Considerou-se que esta forma possibilitou afastar as marcas prosódicas próprias da leitura. Assim, o informante, posicionado diante da tela do computador, começou a se familiarizar com imagens que serviram de estímulos para desencadear a produção de frases. Apresentamos os

slides, separadamente, tal como na sequência que se encontra no anexo 3, havendo, inclusive, antes de começar a gravação das séries de frases, sido mostrado um exemplo de enunciado interrogativo e outro de enunciado assertivo. Em seguida, teve início o processo de gravação, cujo processo demandou que as várias repetições da mesma frase não fossem gravadas seguidamente, ou seja, gravou-se a primeira série de 66 frases, depois, uma segunda série e assim por diante. Com o Complemento, o procedimento foi o mesmo: apresentamos os outros slides que estão também no anexo 3, e somente depois que o informante estava dominando esta etapa, é que iniciamos as gravações da primeira série de 15 frases.

A cada informante, foram pedidas seis repetições do conjunto de frases do corpus, sendo selecionadas para análise as três melhores repetições, que figuram nos gráficos apresentados (anexo 4). A escolha das três melhores repetições pautou-se pelos seguintes critérios: reprodução fiel da estrutura frasal apresentada a partir da sequência de desenhos e a entoação adequada à modalidade de frase; ausência de hesitação e de excesso de ênfase. A fala deveu soar o mais natural possível, com intensidade adequada. Também foi levada em consideração a qualidade da gravação para a análise acústica.

As gravações foram feitas utilizando-se um gravador digital Microtrack II, acoplado a um microfone direcional Samson CO2. Atributos de gravação: sample rate (Hz): 44K; resolução: 16 bit; tipo: mono; formato: WAV. Para a análise acústica, foi escolhido o programa Praat, que oferece a possibilidade de trabalhar com textos longos, tanto em banda larga como estreita, além de possibilitar a análise da frequência fundamental, da duração e da intensidade. Com este programa, também é possível segmentar, acusticamente, as frases, possibilitando o estabelecimento de médias dos atributos prosódicos das vogais nas frases estudadas que se quer comparar.

Os pontos de inquérito foram cinco capitais do Nordeste: Salvador, Recife, João Pessoa, Fortaleza e São Luís. A escolha das respectivas capitais teve relação com a importância histórica e socioeconômica que essas cidades têm para a região nordestina. Em cada capital, foram selecionados 04 informantes, sendo dois homens e duas mulheres, com idade acima de 30 anos, nascidos e criados nas respectivas capitais, apresentando escolaridade básica (na proposta do AMPER considera-se escolaridade básica até o vestibular) e nível superior. Nas cidades de São Luís, João Pessoa e Fortaleza, os informantes com escolaridade básica concluíram o ensino

médio. Já em Recife e Fortaleza, os informantes da mesma categoria tinham o ensino médio incompleto. Com relação às características vocais, evitaram-se informantes que não possuíssem vozes saudáveis, para não comprometer a qualidade da gravação. Os informantes selecionados apresentavam, no momento das gravações, vozes adequadas ao sexo e à idade.

Para participar da pesquisa, cada informante preencheu uma ficha, contendo iniciais do nome, idade, sexo, nível de escolaridade, data e local da gravação, consentimento escrito, nome da pessoa ou equipe responsável pela recolha e análise. Os dados foram coletados pela própria pesquisadora, nas referidas cidades, em ambientes silenciosos e reservados.

Note-se que, nos diversos ambientes em que ocorreram as gravações, houve cuidados com o espaço, no sentido de evitar ruídos que pudessem interferir na qualidade da gravação. Sendo assim, foram utilizadas salas fechadas, sem uso de ar condicionado ou ventilador. O revestimento do chão, em geral, era de madeira ou carpete. As mesas utilizadas para acomodar o computador, o gravador e o microfone foram cobertas por uma manta de lã. As salas, normalmente, tinham cortinas nas janelas. A pesquisadora também tomou especial cuidado quanto ao posicionamento e a distância do microfone (com pedestal) em relação ao informante, evitando, assim, que ficasse em frente à boca, para não captar ruídos de respiração, nem de sons plosivos, mantendo-o perpendicular à boca e a uma distância de aproximadamente 10 cm.

As gravações ocorreram no período de setembro a novembro de 2008, começando por Recife, em seguida João Pessoa, Fortaleza, São Luís e Salvador. Como a pesquisadora dispunha de pouco tempo em cada capital, antes de viajar, fazia um contato por telefone e depois por e-mail com um habitante, indicado por pessoas de seu conhecimento, com o propósito de especificar o perfil dos informantes que poderiam participar da pesquisa. Essa pessoa deveria então selecionar os voluntários, agendar os horários e organizar os ambientes de gravação. Somente em Recife, cidade em que mora a pesquisadora, a seleção dos informantes foi feita por ela própria.

A vantagem de se utilizar um corpus semiespontâneo (evocação de frases formadas com base na visualização de uma sequência de figuras) esteve em permitir, facilmente, a comparação dos enunciados entre os diferentes informantes, que tinham em comum a mesma estrutura frasal. Cumpre, entretanto, registrar que o trabalho com esse tipo de corpus gerou muita dificuldade nos falantes com poucos anos de escolarização, isto é, com ensino fundamental

incompleto, que não se sentiam à vontade e, portanto, não emitiam as frases de maneira natural. Tais informantes foram descartados e, desde então, passamos a solicitar pessoas com nível de escolarização a partir do ensino médio, para compor a categoria de escolaridade básica.

Por sua vez, houve informantes com nível de escolaridade superior que fizeram um uso mais intensivo de ênfases, causando, às vezes, uma impressão de pouca naturalidade na expressão da entoação. Quando acontecia tal situação, a pesquisadora novamente esclarecia que a fala deveria ser o mais natural possível. Os falantes que não conseguiram se expressar com a naturalidade desejada foram descartados, não fazendo parte deste estudo.

Como foi dito, com o propósito de comparar o comportamento da entoação modal em cinco falares do Nordeste, foram selecionadas do corpus 18 frases, 06 delas pertencentes ao AMPER corpus Brasil (cf. quadro 3) e 12 que compõem o Complemento (cf. quadro 4). A escolha das frases, tanto do Amper quanto do complemento, se pautou pela presença de vocábulos oxítonos, paroxítonos e proparoxítonos na posição final de enunciado, para que se pudesse observar a interação entre o padrão entoacional e a manifestação do acento lexical. A posição final do enunciado foi privilegiada, por ser esse o local onde, com maior frequência, se observa a manifestação dos contornos melódicos distintivos (cf. Sosa, 1999; Grabe, 2004; Moraes, 2008).

Um aspecto que merece ser comentado, a respeito das frases do corpus, é a questão da presença do artigo diante do substantivo, o qual vem escrito, nos slides, abaixo das figuras que compõem a apresentação do corpus (anexo 3). Na maioria das cidades do Nordeste, o artigo diante de substantivos próprios é dispensado. Das cidades pesquisadas, somente em Fortaleza e em São Luís é que observamos o seu uso. A presença explícita do artigo na apresentação (fase de treinamento) do corpus não causou, entretanto, nenhuma influência na fala dos informantes de Recife, João Pessoa e Salvador, que normalmente não fazem uso do artigo antes do substantivo próprio, uma vez que, nos slides que formam as frases, só estão presentes as figuras, não havendo legendas sob elas. Assim o informante, ao observar o desenho, emitiu a frase de acordo com a norma de sua comunidade linguística.

Ordem da Gravação Frase

01 O Renato nadador gosta do pássaro? 04 O Renato nadador gosta do pássaro. 21 O pássaro nadador gosta do Renato? 37 O pássaro nadador gosta do Renato. 61 O Renato gosta do bisavô?

62 O Renato gosta do bisavô.

Quadro 3 - Estruturas frásicas analisadas, corpus AMPER– Brasil

Ordem da Gravação Frase

01 Renato viaja de avião ou de ônibus? 02 Quando Renato viu o pateta.

03 Renato viaja de ônibus ou de navio? 04 Quando Renato viu o bisavô? 05 Renato viaja de navio ou de avião? 06 Quando Renato viu o bisavô. 08 Quando Renato viu o pássaro. 10 Renato viaja de avião ou de ônibus. 11 Quando Renato viu o pateta? 12 Renato viaja de ônibus ou de navio. 14 Renato viaja de navio ou de avião. 15 Quando Renato viu o pássaro?

No próximo capítulo serão apresentados os resultados, através dos gráficos que reproduzem os contornos melódicos, gerados no Praat e também dos gráficos produzidos no progama Excel, contendo os valores da frequência fundamental média, extraídos de cada vogal dos vocábulos das frases que compõem o corpus.

Benzer Belgeler