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O estudo Entoação regional no português do Brasil, de Cunha (2000), teve como objetivos comprovar as diferenças suprassegmentais entre os falares de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, representados pela modalidade urbana culta, e descrever acusticamente os padrões prosódicos que os individualizam regionalmente.

Os dados analisados fazem parte de três modalidades discursivas: (a) fala espontânea (acervo do Projeto NURC), e leitura de dois tipos de textos: (b) frases assertivas e interrogativas e (c) trecho de texto de novela, isto é, amostras de fala de ficção televisiva.

A análise dos dados foi organizada em três etapas:

1) análise de dados provenientes das cidades de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, colhidos em 10 gravações – 5 do Projeto NURC e 5 de um texto lido por uma informante de cada cidade. Nesta etapa, as informantes são do sexo feminino, com 3º grau completo, nascidas e criadas em suas regiões de origem;

2) análise de dados provenientes de duas cidades (Rio de Janeiro e Salvador), colhidos em 24 gravações – 12 do Projeto NURC e 12 de leitura. Por cidade, participaram seis informantes (três homens e três mulheres). Aqui, o critério de recolha deve-se ao contexto de ocorrência – fim de unidade entoacional;

3) análise comparativa de enunciados escolhidos. Aqui é feito um levantamento sobre a qualidade das marcas identificadoras de um sotaque, acompanhado de uma interpretação fonológica.

Foram investigados os parâmetros prosódicos: duração, intensidade e frequência fundamental, utilizando-se o programa Cecil.

Os resultados obtidos, na 1ª etapa da análise, foram separados pelos parâmetros elencados. No que diz respeito ao parâmetro duração, na fala espontânea, observou-se uma duração maior das sílabas tônicas nas cinco cidades. Em relação às silabas átonas, pode-se dizer que, em Salvador, se encontram as pré-tônicas mais longas. As pós-tônicas são as sílabas de menor duração em três cidades: Salvador, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Na leitura também se registrou uma duração maior das tônicas em todas as cidades. As pré-tônicas são mais longas em Salvador. Quanto às pós-tônicas, percebe-se que elas apresentam menor duração apenas em Recife. O maior contraste entre as cidades está na fala espontânea. Na leitura, há uma tendência a suavizar as diferenças regionais (cf. CUNHA, 2000).

A frequência fundamental média na fala espontânea varia entre as cidades. A relação pré-tônica – tônica mostra que, na fala gaúcha, há uma grande elevação da F0 das pré-tônicas para a tônica. Nas demais cidades, há uma queda da F0 em direção à tônica. A descida mais evidente é percebida nas cidades nordestinas. Na relação tônica – pós-tônica registra-se uma elevação média da F0 em Recife e Salvador, enquanto, nas outras cidades, ocorre uma queda da F0.

Na leitura os resultados não são sistemáticos: ora confirmam os achados encontrados na fala espontânea, ora apresentam padrões distintos aos mencionados anteriormente. Na relação pré-tônica – tônica, verifica-se que, somente em Porto Alegre, há uma subida melódica em direção à tônica. Na relação tônica – pós-tônica, percebe-se um movimento descendente em Recife e Salvador; no Rio, a descida melódica é maior do que na fala espontânea; já em São Paulo se mantém no mesmo nível. Na cidade gaúcha, há uma elevação melódica da tônica para a pós-tônica (cf. CUNHA, 2000).

A variação da intensidade de uma sílaba para a outra, tanto na fala espontânea como na leitura, mostra que, na relação pré-tônica – tônica, considerando as pré-tônicas em conjunto, elas últimas superam as tônicas, ainda que de forma discreta, nas cidades do nordeste. Nas outras cidades, a sílaba tônica é a proeminente. Na relação tônica – pós-tônica, percebe-se diminuição da intensidade nas cinco cidades.

De acordo com Cunha (2000), os padrões melódicos dos dialetos estudados se definem pelas relações que se estabelecem entre a sílaba tônica e as sílabas átonas adjacentes. A relação entre a tônica e as pré-tônicas foi fundamental para a caracterização dos cinco falares. Assim, pode-se afirmar que:

(i) as falas de Recife e Salvador se opõem às outras por darem mais destaque às sílabas pré-tônicas, marcadas por: maior intensidade, maior frequência e duração pouco inferior a da sílaba tônica; (ii) a fala de Porto Alegre se caracteriza pela elevação da F0 na sílaba tônica, a qual recebe a maior intensidade e a maior duração; (iii) as falas do Rio de Janeiro e de São Paulo apresentam características das outras cidades, ora se assemelhando às cidades do nordeste, ora se assemelhando a Porto Alegre. (p.98)

A pesquisadora esclarece que as marcas identificadoras da regionalidade tendem a se concentrar na posição final dos enunciados, apesar de não ter feito um maior controle do contexto em que os dados ocorreram.

Os resultados da 2ª etapa da análise, concernentes ao comportamento dos parâmetros duração, intensidade e frequência fundamental na fala de homens e mulheres no Rio de Janeiro e em Salvador, foram obtidos a partir de dados extraídos das sílabas as quais compõem os vocábulos que recebem o acento frasal e estão localizados no final da Unidade Entoacional.

Os resultados mostram que as sílabas tônicas das mulheres cariocas foram as que apresentaram maior duração. As sílabas átonas, em conjunto, são, em média, 49% mais breves que as tônicas. Na fala dos homens do Rio, as átonas são bem mais longas: 35% mais breves, em média, que as sílabas tônicas. Percebe-se que a segunda maior duração silábica se encontra na fala dos homens de Salvador, cujas átonas são 43% mais breves que a tônica. A duração das tônicas nas mulheres baianas é bem próxima: em média, 60% mais longas que as átonas (cf. CUNHA, 2000).

No que diz respeito ao parâmetro intensidade, a comparação entre os resultados obtidos aponta diferença comportamental, mas a amostra não revela um padrão que oponha a fala do Rio de Janeiro à fala de Salvador.

Os dados referentes à frequência fundamental mostram que há uma grande diversidade de comportamento entre os 12 informantes que representam as duas cidades. Não foi possível estabelecer, com base nesta análise, padrões melódicos.

Na tarefa de leitura de frases, realizada pelos informantes de Salvador e do Rio de Janeiro, também se analisou o comportamento dos parâmetros duração, intensidade e frequência fundamental. A duração apresenta grande uniformidade de comportamento nos dados analisados, tanto no Rio de Janeiro como em Salvador. Na leitura de todos os informantes baianos e cariocas, a sílaba tônica é a de maior duração.

Em relação à leitura dos informantes do Rio de Janeiro, os resultados relativos à intensidade silábica indicam que, de forma geral, a sílaba pré-tônica 2, isto é, a pré-tônica que está a duas posições antes da tônica, é a mais intensa, a sílaba tônica é a segunda sílaba mais intensa, a pré-tônica 1, isto é, a contígua à tônica, aparece em terceiro lugar e a sílaba pós-tônica é a de menor intensidade. Comportamento semelhante foi encontrado nos resultados de Salvador. Sobre a frequência fundamental, pode-se afirmar que o padrão mais comum na leitura dos cariocas é de queda da F0 da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1, elevação em direção à tônica e queda da F0 na sílaba pós-tônica 1. Na leitura das mulheres de Salvador, o padrão predominante é de queda contínua da F0 da pré-tônica 2 até a tônica e elevação da F0 na sílaba pós-tônica 1. De forma geral, os homens baianos apresentam na relação entre a pré-tônica 2 e a pré-tônica 1, queda da F0. Entre a pré-tônica 1 e a tônica ocorre uma elevação da F0. Na relação tônica – pós-tônica registra-se um padrão de queda da F0 em direção à pós-tônica.

Cunha (2000) esclarece, com base nos resultados encontrados na fala espontânea e na leitura, que, para descrever o comportamento da frequência fundamental, é preciso separar os dados de acordo com o contexto de ocorrência. Sendo assim, passa-se a analisar, de acordo com o contexto de ocorrência, os padrões melódicos na fala espontânea carioca.

No padrão assertivo final, verifica-se uma diversidade no comportamento da F0 nas realizações dos seis informantes. Como característica comum ocorre um decréscimo da F0 da tônica para a pós-tônica na fala de todos os informantes. Outra característica comum é a elevação da F0 da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1. Todas as mulheres apresentaram padrão descendente na relação entre a pré-tônica 1 e a tônica. Dois dos três homens apresentaram comportamento similar.

Quanto ao padrão assertivo não-final, o comportamento melódico é bastante variado. Na fala dos homens, a característica comum é a elevação discreta da F0 da pré-tônica 2 para a tônica. Nas mulheres, o padrão comum na fala, é de queda da F0 da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1, seguida de elevação constante até a sílaba pós-tônica.

Os padrões melódicos, na fala espontânea baiana, se verifica, no padrão assertivo final, uma semelhança nas realizações dos informantes de Salvador. A linha de declinação manifesta-se nitidamente e está presente na maior parte das curvas melódicas dos informantes. As mulheres apresentam padrão ascendente na relação entre a pré-tônica 2 e a pré-tônica 1. Ocorre o inverso no padrão da pré-tônica 1 para a tônica e a tendência à queda se mantém da tônica para a pós-tônica. Os homens mantêm a F0 numa mesma faixa da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1, percebendo-se uma ligeira tendência à queda. Na relação pré-tônica 1 – tônica registra-se uma queda da F0 bem acentuada. O movimento é descendente em direção à pós-tônica.

Já no padrão assertivo não-final, há grande variedade entoacional. Entre os homens, o padrão mais comum é o de queda da F0 da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1, seguida de elevação em direção à tônica, voltando a decair em direção à pós-tônica. O padrão predominante entre as mulheres é inverso ao que se apresenta na fala dos homens, ou seja, ocorre uma subida melódica da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1 e um movimento descendente tem início a partir da pré-tônica 1, mantendo-se esse comportamento até a pós-tônica.

Cunha (2000) explica que os resultados obtidos não favoreceram o estabelecimento de padrões comuns para nenhum dos conjuntos de variáveis (homem x mulher, Rio x Salvador). O contexto assertivo final foi o que melhor possibilitou a caracterização de um padrão melódico para os dois conjuntos de informantes. Confirma-se, assim, o padrão assertivo neutro, marcado pela queda da F0 na tônica final do enunciado. Mas essa queda apresenta configuração distinta na fala das duas cidades.

Analisando os padrões melódicos na leitura de frases, pelos informantes do Rio de Janeiro, viu-se, no padrão assertivo final, que há uma ligeira elevação da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1 seguida de um declínio constante até a última sílaba.

No padrão assertivo não-final, observa-se variação melódica diversificada, sendo o comportamento mais comum a queda da F0, da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1. Ocorre um movimento ascendente da pré-tônica 1 para a tônica. Mas a relação tônica – pós-tônica difere

entre os sexos, pois, na leitura dos homens, ela é ascendente, enquanto na leitura das mulheres, é descendente.

Quanto ao padrão interrogativo, todos os informantes apresentam comportamento similar com movimento ascendente da pré-tônica 1 para a tônica, com leve queda em direção à pós-tônica, caracterizando a modalidade da frase.

A análise dos informantes de Salvador, no padrão assertivo final, revela-se, como: padrão mais comum, a subida melódica da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1, ocorrendo em seguida, um declínio constante da F0 até a última sílaba.

No padrão assertivo não-final, há comportamento melódico diversificado. Na leitura dos baianos, há declínio da F0 da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1. A queda se mantém até a sílaba tônica. A relação tônica – pós-tônica é ascendente na leitura das mulheres e decresce na leitura dos homens.

Já no padrão interrogativo, o comportamento predominante apresenta descida melódica da pré-tônica 2 para a pré-tônica 1, subida melódica da pré-tônica 1 para a tônica e descida da tônica para a pós-tônica.

Quanto à análise do corpus de vocábulos situados em fim de unidade entoacional, indica-se a existência de padrões semelhantes, tanto na fala espontânea como na leitura.

Na 3ª etapa da análise os resultados foram obtidos após ser feita a seleção de enunciados representativos da fala pernambucana, com o objetivo de por em evidência um conjunto de dados prototípicos, formados de: a) grupos entoacionais considerados, por meio de teste de percepção, como característicos de um falar; b) grupos entoacionais provenientes de amostras de TV, em que a entoação regional se presta à caricatura.

Nos contornos melódicos apontados pelos juízes como característicos da fala pernambucana, percebe-se uma queda melódica que se registra das sílabas pré-tônicas em direção à tônica. As quedas melódicas são indicadas por valores relativamente altos. Para fazer uma comparação com as informações dadas acima, foram extraídos trechos de fala de uma personagem do sexo feminino da novela A Indomada, exibida pela rede Globo de Televisão. A representação do sotaque, nas falas selecionadas é, segundo a autora, bem acentuada. Em um trecho de fala colhido da novela, a queda melódica encontrada é superior a qualquer variação registrada nos dados da informante de Recife do Projeto NURC. As diferenças entre a fala da

informante de Recife e a fala pernambucana atuada (representada por uma atriz) se revelam tanto pela quantidade como pela qualidade das marcas da regionalidade.

Trata-se de um estudo de significativa importância para a área, ainda pouco explorada, da prosódia dialetal. A riqueza dos dados envolvendo três modalidades discursivas mostra, por meio das etapas de análise, o quanto foi árduo o caminho percorrido para comprovar e descrever as diferenças prosódicas.

Sobre a primeira etapa da análise dos dados, vale a pena comentar que os achados mais uniformes, referentes à frequência fundamental, foram obtidos por meio da fala espontânea, nos diferentes dialetos estudados. Essa informação vai ao encontro de que é realmente na fala espontânea que emerge a prosódia regional, mas, para se desenvolver um estudo de cunho comparativo sobre prosódia dialetal, às vezes, é necessário recorrer a outros estilos de fala, tal como leitura de texto, para se descrever padrões prosódicos de dialetos distintos.

Para fazer um levantamento das características identificadoras dos diferentes falares estudados, os dados foram extraídos tanto de fala espontânea como de leitura, mas para descrever os padrões melódicos das cidades pesquisadas foi necessário separar os dados por contexto de ocorrência, tomando por base a modalidade de frase.

A representação dos sotaques desenvolvidos na dramaturgia foi outro ponto relevante do estudo. Para que um determinado sotaque pareça natural nas falas de atores de televisão ou de teatro, é necessário o conhecimento preciso da natureza da marcas prosódicas da regionalidade, o que, de fato, é desconhecido no meio teatral, resultando em falas marcadamente acentuadas e carregadas de uma comunicação implícita de desmerecimento daquele dialeto.

Benzer Belgeler