2.4. Taşkından Korunma Yolları
2.4.1.1. Yapısal önlemler
Para aprofundar esta avaliação dos canteiros de ACT a partir da atuação dos trabalhadores envolvidos em sua produção, este trabalho se pautará no conceito de Trabalho Livre.
Inspirado pela máxima de Willian Morris que afirma que a arte é a manifestação da alegria do homem no trabalho (“Art is joy in labour”), Sérgio Ferro formula o conceito do Trabalho Livre como uma possível resposta à atual conjuntura de produção da arquitetura. Portanto, Trabalho Livre seria aquele que vai além de mera troca de horas de atividade ou esforço físico por remuneração. É um momento em que se atua com autonomia, autogestão e produção de conhecimento, onde a todos os envolvidos é permitido criar, colaborar, discordar, assentir. Nas palavras do autor:
“E o que é trabalho livre? Nada a ver com arbitrariedade, improvisação ou preguiça. O trabalho livre é quando realiza o melhor possível em dada situação, o melhor do ofício, o melhor objetivamente inscrito no material, o melhor projeto social. A liberdade, ensina Hegel, não se opõe à necessidade: ambas consistem em ter todas as razões para serem o que são em si mesmas. A verdadeira autonomia é intrinsecamente racional” (Ferro, 2006, contracapa).
E complementa:
“O que hoje concentra todas as desgraças do mundo operário (o canteiro heterônomo da construção, os mais baixos salários, a mais longa jornada de trabalho, as mais altas taxas de acidentes e de doenças de trabalho etc.) pode tornar-se já o lugar de uma das mais belas expressões do espírito, da comunidade livre” (Ferro, 2006, p. 416)
A arquitetura e construção parece ser um campo em que a realização deste ideal é admissível pois a execução da técnica seria muito similar num contexto diverso deste que nos impõe o modo de produção capitalista. Ou seja, mesmo que não fosse o capital o responsável por reunir ali no canteiro aqueles trabalhadores, a produção poderia ocorrer de maneira semelhante, com provável diferença na divisão do trabalho, mas ainda a partir da manufatura como técnica operatória:
“Vendem ao capital sua força-de-trabalho, mas com o pressuposto de por à disposição dele (do capital) seu saber e saber-fazer – sem os quais a manufatura não funciona. Por isto, sua subordinação ao capital é somente formal. Sob o ponto de vista do trabalho concreto, fora graves deformações devidas à divisão excessiva das tarefas, o
operário atuaria (quase) do mesmo modo em produções não subordinadas ao capital.” (Ferro, 2015)
Conforme colocado no início desta Introdução, o mercado, através da mídia que trabalha em sua função, transfere constantemente a responsabilidade dos problemas ambientais de nosso tempos ao indivíduo no intuito de mercantilizar novos produtos. As técnicas de construção com terra parecem voltar a adquirir valor de uso e, a partir deste contexto, é “vendida” como tecnologia ecológica. A partir de sua posição alienada, de desconhecimento ou falta de atenção para com os meios pelos quais se conforma esta (e as outras) arquitetura(s), o indivíduo pensa estar agindo a partir de uma ética da sustentabilidade quando na verdade apenas consome mais um artigo fetichizado pelo capital.
No entanto, ao mesmo tempo, a ACT parece promover outra dimensão à arquitetura. Por ser material transformado e aplicado no canteiro para a conformação da técnica, muitas vezes empresta à edificação a aparência resultante de sua aplicação, seja através do gesto que reveste manualmente as trincas resultantes da taipa de mão (técnica mista), do golpe que compacta o barro nas paredes de taipa de pilão, da batida que preenche entramados da taipa de sopapo (técnica mista) ou do assentamento aparente de blocos (mais raramente revestidos quando se tratam de adobes ou BTC’s). Paredes de terra oferecem “ornamentação” ao edifício como consequência do simples emprego da técnica.
Na crítica de Sérgio Ferro, a revelação do trabalho executado por aqueles que materializam a forma arquitetural é uma das possíveis maneiras de apresentar dimensão artística à arquitetura:
“(...) a dimensão estética, tal como é proposta pelo desenho e percebida pelo observador, dependente de critérios como os mencionados acima, tem uma função subterrânea essencial para o capital: desvia a atenção do lugar e do momento em que ocorre a dramática extorsão da mais-valia. Mais ainda: impõe a estética superficial do consumo, a que alimenta a fetichização do objeto (esquecimento de sua produção). A verdadeira dimensão artística da forma arquitetural deveria ser expressão, a exteriorização de seu fundamento, para o que nos importa aqui, da lógica intrínseca do processo de formação da manufatura não subordinada. Mas, repito, esta é precisamente a manifestação artística a ser evitada pelo projeto separado. O horror que inspira a Loos, o ornamento, procede desta censura: o ornamento autêntico é um excedente formal que prolonga e exalta o gesto técnico correto, na alegria do trabalho correto, necessário.” (Ferro, 2015)
Se o canteiro for organizado de maneira diversa, de modo a proporcionar melhores condições de atuação, mais autônomas, mais colaborativas entre os diversos atores envolvidos – arquitetos, engenheiros, empreiteiros e operários – daí sim a ACT poderá ser reavaliada como promotora de meios para a construção de sociedades sustentáveis. É neste sentido que este trabalho se propõe a discutir os canteiros de construção com terra, com o intuito de buscar soluções ou pelo menos indícios de uma arquitetura e construção mais humana e mais libertária para todos.
ETNOGRAFIA
O envolvimento da autora com canteiro experimental8, canteiro escola9 e três canteiros de obra10 de construção com terra é fator marcante da origem dos questionamentos constantes nesta pesquisa. Portanto, as análises aqui apresentadas contém um olhar “afetado” por alguma participação nos canteiros em questão.
O termo “afetado” faz referência a Jeanne Favret-Saada, que propõe que a participação pode ser assumida como instrumento de conhecimento do trabalho de campo. A etnóloga afirma que permitir-se “ocupar esse lugar e ser afetada por ele abre uma comunicação específica (...) uma comunicação sempre involuntária e desprovida de intencionalidade, e que pode ser verbal ou não.” (Favret-Saada, apud Siqueira, 2005, p.159). Entendimento que dificilmente ocorre com aquele que observa de fora. Favret-Saada complementa: “escolhi conceder estatuto epistemológico a essas situações de comunicação involuntária e não intencional: é voltando sucessivamente a elas que constituo minha etnografia” (Favret-Saada, apud Siqueira, 2005, p.160)
Nas palavras de Barbosa Neto (2012):
”Não se trata, como já se escreveu, de entrar em uma relação fusional com as pessoas com as quais estudamos, nem de imaginar, por uma condescendente empatia, como seria estar no lugar delas, mas de efetivamente estar nesse lugar, de habitá-lo, ou de ser habitado por ele, não, novamente, por ter se tornado igual àqueles que o ocupam, e sim pelo fato de experimentar as intensidades que o constituem”
Cabe salientar, ao mesmo tempo, que esta pesquisa não possui os rigores da pesquisa em antropologia, uma vez que foi realizada por pesquisadora formada arquiteta sobre objeto referente ao ramo da arquitetura, mais especificamente da área de tecnologias de construção.
8
Canteiro experimental do Instituto Tibá/RJ, em diversos períodos entre os anos de 2006 e 2010, onde pôde experimentar a prática de produção de diversas técnicas de construção com terra, desde o reconhecimento do material até o emprego das técnicas na construção de subprodutos de edificações.
9
Canteiro Escola Taipa Japonesa, curso de difusão de técnica mista japonesa que ocorreu em 2013 no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universade de São Paulo (São Carlos/SP). O envolvimento ocorreu tanto nos bastidores do curso, com os preparativos e demandas prévios e subsequentes ao curso, quanto na participação das atividades práticas que compuseram o curso. Mais detalhes deste evento será apresentado no capítulo 3.
10
Atuou como arquiteta em uma obra de técnica mista e dois projetos de arquitetura em que se empregavam as técnicas adobe e taipa de pilão. Todos os 3 canteiros eram de residências unifamiliares em loteamento fechado na cidade de Piracaia/SP. Mais informações sobre dois destes canteiros serão apresentadas no capítulo 3.