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NOVA GURNA

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Hassan Fathy, em sua obra “Construindo com o povo”, publicado pela primeira vez em 1970 já apresentava críticas e questionamentos quanto à atuação do arquiteto e quanto à divisão do trabalho nos canteiros de obra. Na verdade a crítica dele estava em parte orientada à denúncia dos altos custos de produção da habitação, que impediam que programas voltados à população pobre chegassem à zona rural, aos camponeses. No entanto, a organização do trabalho para a construção com adobes é tema vigorosamente explorado pelo autor.

No livro o autor narra sua busca por técnicas de construção que o camponês egípcio pudesse se apropriar para que fosse possível alcançar meios de vida mais dignos, que culminaram em sua experiência com a construção parcial de Nova Gurna, aldeia que viria a substituir a velha Gurna, próxima a Luxor, para realocar as famílias que ocupavam sítios históricos.

Para a construção em uma escala como aquela proposta em Nova Gurna, em que se constrói uma nova aldeia inteira, Fathy propõe que, ao invés de contratar operários, o que elevaria em demasiado o custo de execução da obra e a tornaria inviável para o orçamento do governo egípcio, houvesse um sistema de mutirão que contasse com apoio técnico, ferramental e material. No entanto, o arquiteto defende que deve-se ir além da proposta de oferecer materiais industrializados e maquinário, limites do apoio que o governo oferece junto ao sistema que ele chama de “autoajuda com assistência”. Neste sistema, uma vez acabada a obra, o governo assume que seu papel foi cumprido e a partir de então os usuários são esquecidos. Como resultado, estes últimos são deixados à mercê das deteriorações decorrentes do uso e do tempo da edificação, pois a população camponesa muito dificilmente poderá voltar a comprar material tão dispendioso e, muito menos, empregá-lo através de máquinas que nunca teriam acesso.

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Como solução a esta “armadilha” que se impõe ao camponês ao fornecer material de construção industrializado que não terá acesso no futuro, Fathy propõe que o sistema de autoajuda com assistência deve estar associado ao emprego de técnicas presentes no repertório desta população e que, ao mesmo tempo, faz uso de material local, ao qual o camponês sempre terá acesso.

Fathy encontra no adobe e na abóbada núbia soluções para estes problemas. Executados com material abundante e disponível, o adobe e seu emprego em alvenarias e abóbadas poderiam proporcionar ao camponês uma emancipação dos impedimentos impostos pela mercantilização dos materiais e dos modos de produção da construção civil. Tratavam-se de técnicas tradicionais do povo egípcio que foram perdidas com o decorrer da história. No entanto, em alguns locais específicos, ainda era possível encontrar mestres que sabiam empregá-las.

É o caso de Gharb Assuã, nos arredores de Assuã, onde Hassan Fathy encontra uma aldeia com arquitetura tradicional preservada, sem influências estrangeiras, conformada por casas populares amplas, limpas, com pés direito generosos proporcionados pelas coberturas em abóbadas de alvenaria (Fathy, 1982, pp. 19 e 20). Neste local a população ainda sabia construir suas próprias casas e por isso haviam poucos pedreiros, mesmo assim Fathy os encontrou, pôde aprender com eles e leva-los até Nova Gurna.

A partir disso propõe compor o quadro de trabalhadores envolvidos na construção da aldeia da seguinte maneira:

- Treinamento simples para a maioria dos mutirantes envolvidos, que atuariam como trabalhadores semi especializados, conforme ocorre no sistema de cooperação comumente presente em comunidades que empregam técnicas tradicionais, situação em que todos sabem construir mas ninguém é construtor. No entanto, como seria possível aplicar a cooperação em uma escala como a de uma nova aldeia que seria inteiramente construída? Como solução Fathy organiza um acordo social preestabelecido de trocas de cooperação28, uma vez que o governo rejeitaria um programa habitacional que tivesse que dispender de altos custos com mão de obra. Fathy justifica: para que se tenha baixo custo na produção de adobes, da mesma maneira que os camponeses a obtiam, o adobe deve ser utilizado a partir da técnica de construção utilizada pelos camponeses, ou seja, só se pode construir barato como os camponeses o fazem se a organização do trabalho for baseada nas práticas por eles adotadas. (Fathy, 1982, p. 143)

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- Treinamento profissional para um grupo interessado, que atuariam como mão de obra especializada nas demandas mais complexas das obras. O aprendizado se daria na prática da obra29, durante a construção de edifícios públicos, que seria acompanhada por mestres, técnicos, arquitetos e engenheiros que poderiam passar as noções de construção aos mutirantes. Fathy justificava que o ensino técnico era demasiado sofisticado e poderia resultar na rejeição das técnicas tradicionais, que estavam fora da grade de ensino das academias. Sobre a produção de adobes de Nova Gurna, Fathy relata que se organizaram em grupos de 4 trabalhadores que produziriam 3 mil unidades por dia. Ao todo haveriam 5 equipes trabalhando, o que resultaria em uma produção diária de 15 mil adobes. Como o ciclo de produção girava em torno de 6 dias – tempo necessário para que o adobe pudesse ser empilhado, liberando sua área de secagem – o grupo atuava em 6 áreas de produção. Ao final do ciclo de 6 dias voltavam à primeira. Portanto, haveriam 30 grandes áreas que conformariam a olaria de adobes (Fathy, 1982, pp. 115 e 116).

Tratava-se de mão de obra paga, diferente daquela majoritariamente empregada na construção das casas. Como a demanda de toda uma aldeia alçava aos milhões de unidades, o gasto com mão de obra implicava em muito controle. Nesse sentido, a produção era extremamente organizada e racionalizada para assegurar alta produtividade com boa qualidade.

A única diferença relatada a respeito desta produção de adobe em relação àquela tradicionalmente empregada em escalas mais palpáveis, como a de uma única casa, foi a adoção de uma prensa manual que permitia trabalhar a massa com menos água e que permitia os empilhamento em 6 dias, conforme afirmado anteriormente (Fathy, 1982, pp. 114 e 115).

Fathy não entra em detalhes sobre a prensa, apenas relata que os produtores trabalhavam sentados, ficando dois de cada grupo a encargo da modelagem (prensagem, no caso). Os outros dois provavelmente estavam encarregados do preparo e do transporte da massa dos adobes.

Como podemos observar a produção de adobes é invariavelmente extensa. Mesmo aqui, numa situação de rara preocupação com todos os envolvidos no processo, a fabricação dos blocos se coloca como atividade pesada. Mesmo que organizada e adotando uma prensa que permite que o trabalhador execute os esforços sentados, não há como imaginar que não seja desgastante uma tarefa que se repete milhares de vezes ao dia.

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A respeito do trabalho envolvido na construção das casas, Fathy alcança mérito notável ao organizar um sistema que poderia devolver autonomia às populações rurais para com a produção de sua habitação.

Ao mesmo tempo, não chega a criticar os ganhos do governo ao transferir aos indivíduos a responsabilidade de construir suas próprias casas que, mesmo com apoio material e de infra- estrutura, ainda assim resulta em ampla mais valia para o estado pois retirou deste a despesa que teria de arcar com mão de obra assalariada.

No entanto, A proposta de Fathy foi de enorme avanço para as práticas da época, década de 1940, quando eram raríssimas as políticas de habitação. Além disso sua atitude era imbuída de grande pragmatismo, comovido pela vontade de, em tempo presente, dar ao povo camponês, esquecido e ignorado por todos, melhores condições de vida.

Benzer Belgeler