O Capítulo tratará sobre as categorias analíticas dos autores da terceira geração de estudos (tratadas no Capítulo anterior), no sentido de explorar a sua incidência no escopo intelectual brasileiro. Implica em determinar, ou pelo menos, inferir, o lugar das análises da dependência no pensamento político brasileiro. Tal desafio é naturalmente problemático, por duas razões. A primeira se relaciona à inexistência de uma noção consolidada do que venha a ser “o pensamento político brasileiro”, cujo sentido não pode ser ombreado à noção relativa “ao pensamento político produzido no Brasil, ou por brasileiros”; simplificação inadequada para as perspectivas deste estudo. A segunda se relaciona à complexidade da estrutura dos campos analíticos da dependência, que não possuem coesão suficiente, como foi tratado anteriormente, para serem posicionados de forma unitária (ou em um único ponto) do espectro do pensamento político, assumindo que exista este espectro. Então, como controlar minimamente os constrangimentos teóricos e metodológicos de tal empreendimento? Alguma solução para esta questão preliminar é fundamental para a construção do argumento, como será verificado no decorrer do capítulo.
Não há pretensão neste estudo de obter resposta sobre o que vem a ser o “pensamento político brasileiro”, mas trabalhar dentro do universo léxico usualmente reconhecido como tal. Trata-se de identificar a problemática, no lugar de definir o conceito. Portanto, significa empreender uma aproximação segura a ponto de combater a vagueza da omissão e o voluntarismo da definição apressada, sem recuar na proposta da utilização do termo, mas, ao mesmo tempo, lançar mão da imprecisão como estratégia. Assim quais seriam os grandes problemas, ou os problemas comuns aos pensadores políticos brasileiros? Pensadores brasileiros como Roberto Simonsen, Oliveira Viana, Faoro, Celso Furtado, Caio Prado Jr. Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Florestan Fernandes, Nelson Werneck Sodré, Ignácio Rangel, Fernando Henrique Cardoso entre outros, percorreram em maior o menor grau os seguintes temas:
1) o problema da formação social, econômica e da identidade brasileira; 2) o problema do desenvolvimento;
Estes temas não são encontrados separados na obras dos autores, mas amalgamados em uma tentativa de articulação teórica – política sistemática. Independente da forma de abordagem metodológica e o marco teórico de filiação, estes pensadores visitaram, quase obrigatoriamente estas questões. A reiteração na busca por desenvolver interpretações
sobre a condição brasileira, principalmente em tentar captar a singularidade brasileira em relação aos modelos de interpretações correntes nas nações centrais, dá origem a um conjunto de iniciativas que podemos denominar – por inferência – de pensamento político brasileiro.
O trabalho pretende encontrar o lugar do “problema da democracia” no debate dependentista. A democracia, bem como a cidadania, ganhará um status teórico e político próprio no contexto de declínio de hegemonia do pensamento nacional-desenvolvimentista. É um movimento teórico político importante, que merece atenção, uma vez que a “questão democrática” se coloca com necessidade política aberta, a produção teórica, principalmente dependentista, que a separa da “questão nacional”. Este aspecto constitui uma das chaves explicativas do surgimento da terceira geração de estudos e das “Teorias da Dependência”.
A forma de articulação entre as noções de Formação, Desenvolvimento, Democracia, Nação e Estado realizada por cada autor e a importância de cada uma delas dentro do seu edifício de análise, define em grande medida o seu posicionamento no interior do que chamamos pensamento político brasileiro, ou seja, seu lugar no “espectro”. Contudo, a abordagem apresentada acima ainda guarda um grau de simplificação que deve ser problematizado, uma vez que as noções são complexas e seus conteúdos variam de acordo com a interpretação de cada autor. Neste sentido, a metodologia empregada nesta análise procura verificar o padrão de interação entre o conteúdo das noções, a articulação das mesmas no interior da estrutura do campo analítico do autor e, por último, posicioná-la em relação aos demais estilos de interpretação.
Ao explorar um pouco mais as problemáticas recorrentes no “pensamento político brasileiro”, podemos destacar a tensão permanente de dois grandes campos políticos-teóricos em disputa. Um de caráter liberal, que parte da defesa de uma proposta de desenvolvimento associado e dependente mitigando a noção de soberania nacional. E um segundo campo, que se afirmaria como uma proposta não-liberal, de nação e desenvolvimento. A vantagem de assumir esta forma de clivagem teórica - política está na possibilidade de analisar com maior precisão o lugar das diferentes interpretações sobre o tema no pensamento político brasileiro, em outras palavras, a determinação dos diferentes campos analíticos do espectro “pensamento político brasileiro”, mencionado anteriormente. Contudo existem riscos; o mais grave seria
assumir uma coesão, ou uma uniformidade política e teórica no interior de cada campo, o que não é o caso. A coesão, mesmo que não totalmente realizada, que permite utilizar esta clivagem está circunscrita na dimensão normativa e não pode ser transportada para outras dimensões de forma imediata. A força de um determinado campo não está em sua homogeneidade coesão mais na sua capacidade de agrupamento, inclusive de teorias e posições políticas não completamente congruentes.
O segundo núcleo da problemática está relacionado às dificuldades de enquadramento das noções de dependência dentro do pensamento político brasileiro. A chamada “Escola da Dependência”, como já foi tratada anteriormente, não pode ser compreendida como um único campo analítico. Como foi explorado no item 2.4, os autores geralmente reconhecidos como “dependentistas” possuem padrões normativos e métodos de análises bastante distintos. Não é possível posicioná-los em um mesmo lugar dentro do pensamento político brasileiro. A
solução que será explorada consiste, em primeiro lugar, investigar a estruturas dos campos analíticos – normativos dos autores no concernente à forma de apropriação (uso e articulação) das noções de Estado, nação, soberania, desenvolvimento e democracia. E verificar o contexto da problemática, abordando o surgimento das análises “dependentistas” (na terceira geração) e relacionando-o com um momento de transição induzido pela re-configuração do capitalismo mundial. .
Caracterizo o “momento de transição” como o período em que a idéia de superação do subdesenvolvimento se distancia da defesa da consolidação da Nação, como era defendida pelos nacional-desenvolvimentistas. A hipótese trabalhada até aqui procura relacionar o surgimento das interpretações “dependentistas”, mesmo assumindo suas diferenças teórico- metodológicas internas, com o contexto de enfraquecimento da perspectiva de emancipação nacional. Provocada em grande medida, pelo fortalecimento das relações entre elites nacionais com o capital externo, e que provoca, no campo do regime político, o Golpe Militar de 64 e o aprofundamento da internacionalização do espaço econômico nacional.
Este capítulo é constituído de três partes: a primeira explora as teorias sobre o desenvolvimento inventariando as noções relativas à teoria da modernização e a teoria do subdesenvolvimento cepalina, que são precursoras do debate sobre a dependência. A segunda analisa o aporte teórico das “Teorias da Dependência”, utilizando as formulações de Ruy Mauro Marini e Fernando Henrique Cardoso, como exemplos de dois campos normativos distintos no interior de uma mesma geração. A terceira parte é dedicada à análise do lugar da dependência no pensamento político brasileiro.