2.1.4. Metin Bilgisi
2.1.7.3. Tartışmacı Metin Yapısı
Na seção anterior, tentamos demonstrar de que maneira as mídias sociais das instituições privadas investigadas operam como um dispositivo pedagógico que, por meio de uma rede que entrelaça saberes, práticas, instituições, enunciados e discursos, faz funcionar uma maquinaria pedagógica que disponibiliza a cada universitário/trabalhador técnicas de si que servem como armas na luta por visibilidade.
Resta-nos, ainda, apresentar em que medida a lógica da educação superior para todos, a recorrência do artista como molde e sedução e as técnicas de luta pela visibilidade atendem a uma urgência específica. Panoramicamente, buscamos, nas seções precedentes, demonstrar a existência de certas características singulares do sujeito universitário preconizado pelas mídias sociais, que gostaríamos de retomar agora:
a) Individualidade: o sujeito deve estar centrado em si, pois se as oportunidades estão para todos, o sucesso/insucesso e a visibilidade/invisibilidade estão para cada um individualmente;
b) EmprEuendimento:41 a luta individual coloca a necessidade de cada um ser empresário de si, empreendedor do corpo e da alma;
c) Continuidade: a luta consigo mesmo exige que as técnicas empregadas em si sejam contínuas, exige aprender a aprender ao longo de toda a vida.
Nessas caracterizações, vemos a ressonância da governamentalidade neoliberal como racionalidade,42 que tem sua urgência atendida nas objetivações e subjetivações provocadas pelo discurso sobre o sujeito universitário.
41 Aqui nos permitiremos um neologismo, fazendo a junção das palavras empreendimento e eu. 42 Retomando Carlos Ernesto Nogueira-Ramirez (2011),
utilizaremos aqui o termo racionalidade “[...] no sentido instrumental, com que Foucault emprega este termo, isto é, no sentido de modos de organizar os meios para atingir um fim” (p. 148).
109 Em O Nascimento da Biopolítca, Foucault (2008) demonstra a passagem do liberalismo clássico para o neoliberalismo.43 Amparando-se nas produções do
ordoliberalismo alemão, na vertente francófona e na Escola de Chicago,44 afirma que, se a corrente clássica propunha uma divisão entre a racionalidade política e a racionalidade econômica, na sua continuidade, o neoliberalismo vai romper com essas barreiras, propondo a economia para todas as esferas da sociedade.
Clarificando tais divisões, é como se o liberalismo clássico buscasse a limitação do poder do Estado, “fixar-lhe certo número de limites a fim de reservar um espaço ‘livre’ em que pudesse vigorar, sem coerções externas, os mecanismos de mercado” (LAGASNERIE, 2013, p. 46), enquanto o neoliberalismo segue a premissa que “é a economia que funda a política e determina as formas e a natureza da intervenção pública” (Ibidem, p. 49). A ideia de fundação, mais do que a de criação, reforça o entendimento da economia como energia motriz da política. Passa-se, portanto, de uma perspectiva de equalização - separar o que é da política e o que é do mercado - para a amplificação da ocupação da vida política pelo mercado. Situação inusitada, que desperta a atenção de Foucault (2008) acerca do neoliberalismo:
Ora, que função tem essa generalização da forma “empresa”? Por um lado, claro, trata-se de desdobrar o modelo econômico, o modelo oferta e procura, modelo investimento-custo-lucro, para dele fazer um modelo das relações sociais, um modelo da existência, uma forma de relação do indivíduo consigo mesmo, com o tempo, com o seu círculo, com o futuro, com o grupo, com a família (FOUCAULT, 2008, p. 332).
Dessa forma, mecanismos econômicos se alastram por todas as áreas sociais ou, mais ainda, para todas as áreas da vida. Conforme afirma Lagasnerie (2013), “a utopia neoliberal45 consiste em inserir o máximo de realidades na esfera de um
43 A discussão da obra é muito mais ampliada, iniciando-se com a nova arte de governar do liberalismo no século XVIII. Faremos uma caminhada breve pelas diferenciações entre o liberalismo clássico e o neoliberalismo, mas nos deteremos muito mais nas produções do século XX.
44 Optamos por caminhar centrados no neoliberalismo norte-americano, por necessidade de delimitação, mas também porque a Escola de Chicago nos pareceu próxima da análise que fazemos do nosso objeto de pesquisa.
45 Na releitura que faz de dois cursos de Michel Foucault, Segurança, território e população e O nascimento da Biopolítica, Lagasnerie afirma que o neoliberalismo é uma utopia no sentido que possui como pressuposto a mudança radical da sociedade. Em suas palavras: “Compreender o neoliberalismo, portanto, não é compreender uma realidade econômica e social que seria dotada de uma materialidade e uma objetividade. É apreender um projeto, uma ambição jamais consumada que
110 mercado” (p. 47), fazendo com que nada escape dessa racionalidade. Em O Nascimento da Biopolítica, Foucault nos mostrará elementos claros dessas aspirações em três situações diferentes: a família, a ação governamental e o crime.
Para se referir à família de camponeses do século XIX, retoma o texto de Pierre Rivière, que apresenta evidências claras da existência de uma econômica matrimonial (no caso, os pais de Rivière), baseada, nos mínimos detalhes, em uma relação mercantil. Foucault (2008) dá um exemplo que chega a ser irreverente, um diálogo entre os pais de Pierre Rivière: “Vou lavrar o seu campo, diz o homem à mulher, mas contanto que possa fazer amor com você. E a mulher diz: você não vai fazer amor comigo enquanto não der de comer para minhas galinhas” (p. 337). O autor usa esse exemplo para demonstrar o quanto um tipo de contratualização da vida estendeu-se para os laços sociais mais comuns, gerando uma economia nas negociações cotidianas, na medida em que se estabelecia – contratualmente – uma forma de relação.
A mesma lógica se aplica à ação governamental quando se estabelece uma espécie de “tribunal do mercado” (Ibidem, p. 339,) cujo objeto são as ações que o Estado realiza, avaliadas em sua eficácia ou ineficácia.
O crime, por sua vez - que na acepção neoliberal afirma-se como “o que é punido por lei” (Ibidem, p. 346) -, traz uma nova dimensão para o julgamento, não mais preocupada na descrição do criminoso, mas na virtualidade para praticar ou não um ato criminoso. Como efeito dessa lógica, todos são colocados na mira da lei, pois “é sobre o ambiente do mercado em que o indivíduo faz a oferta do seu crime e encontra uma demanda positiva ou negativa, é sobre isso que se deve agir” (Ibidem, p. 354). Em certa medida, somos todos passíveis de cometer um crime contra qualquer um e, sobretudo, contra o mercado.
Se em Adam Smith - uma das principais referências do liberalismo clássico -, a prática de mercado assemelhava-se a certo laissez-faire, no sentido de que o Estado somente deveria entrar nos momentos imprescindíveis, enquanto o mercado exige ser perpetuamente reativada. É apreender algo da ordem da ‘aspiração’” (LAGASNERIE, 2013, p. 41).
111 liderava a livre concorrência, o que ocorre no neoliberalismo é que o sujeito fica “liberado”46 do Estado, visto que a forma-mercado se estende para todas as áreas
da vida.
Mas atenção, pois a “libertação” de uma instância de poder nos mostra a emergência de novas formas de governo. Com a instituição dessa economia política - e, por que não, de uma economia política do sujeito - ocorrem duas transformações importantes:
Em primeiro lugar, observa-se um deslocamento mediante o qual o objeto de análise (e de governo) já não se restringe apenas ao Estado e aos processos econômicos, passando a ser propriamente a sociedade, quer dizer, as relações sociais, as sociabilidades, os comportamentos dos indivíduos, etc.; em segundo, além do mercado funcionar como chave de decifração (“princípios de inteligibilidade”) do que sucede à sociedade e ao comportamento dos indivíduos, ele mesmo generaliza-se em meio a ambos, constituindo-se como (se fosse a) substância ontológica do “ser” social, a forma (e a lógica) mesma desde a qual, com a qual e na qual deveriam funcionar, desenvolver-se e se transformar as relações e os fenômenos sociais, assim como os comportamentos de cada grupo e de cada indivíduo (GADELHA, 2013, p. 144).
São, portanto, esses dois aspectos – o de uma forma específica de análise sobre o comportamento dos indivíduos e o do mercado como “substância ontológica do ser” – que gostaríamos de tratar no próximo tópico, tendo em conta suas implicações para as relações entre trabalho e educação.