1. SERBEST MESLEK KAZANÇ DEFTERİ
1.6. Yanlış Kayıtların Düzeltilmesi
Antes de tentarmos identificar quais foram as maiores causas do crime cometido contra Jean Calas, faz-se necessário refletir sobre o crime anterior, a morte de seu filho Marc Antoine.71 A morte deste jovem melancólico e taciturno, como o próprio relato de Voltaire confirma, mostra ao leitor a possibilidade de um crime religioso, de fundo político. O catolicismo ainda nesta ocasião ousava arrogar para si o poder de perseguir todos aqueles que não estivessem de acordo com seus dogmas. É verdade também que, por muitas vezes, essa mesma religião cristã perseguiu pessoas e justificava tais crimes em nome da fé.72 Percebe-se
que duas ao menos eram as intenções da religião: por um lado desejava salvar a alma dos homens e, de outro lado, desejava continuar mantendo seu domínio de poder sobre as consciências.
O jovem Marc Antoine se matou e sua morte deve ser analisada diante desse conflito religioso em que católicos e protestantes digladiavam-se em nome de dogmas e opiniões religiosas diferentes. O suicídio deste jovem, a causa de sua morte, está na intolerância cometida contra sua liberdade de escolha religiosa. Sua intenção era a de ingressar na magistratura, porém, como era protestante, isso se tornava um empecilho para ele. Se a causa dessa morte tivera como origem a lei antiprotestante73 e tudo o que dela resultou, deve-se concluir deste caso uma evidente perseguição unicamente religiosa. Esse crime, em primeira
homens e os impossibilitavam de serem livres, pois a religião os dominavam, fazendo católicos e protestantes digladiarem-se em querelas intermináveis.
71 Marc Antoine era o filho mais velho de Jeans Calas aquele que na noite de 13 de outubro de 1761 suicidou-se
em Toulouse na França. Sua morte constituiu em um dos maiores motivos para que a população fanática pedisse a morte de seu pai, Jean Calas.
72 Este versículo se refere à Inquisição, tribunal da Igreja Católica responsável por investigar e condenar todos
aqueles que cometiam crimes contra a fé católica. Os crimes aqui cometidos eram justificados, pois pensavam os inquisidores que estavam fazendo um grande bem às almas daqueles infelizes e heréticos, livrando-os da condenação eterna.
73 Com a revogação do Édito de Nantes em 18 de outubro de 1685, Luís XIV obriga que todos os protestantes se
convertam. Após tais conversões os protestantes são tidos como católicos novos. Como todos deveriam ser católicos, pois este era o desejo político do rei, então se estabelece com isso leis antiprotestantes.
instância, expressou uma curiosidade: a de que as acusações pareciam infundadas. O pai não podia ser o autor do crime como a população e a Justiça parecem ter intuído. Jean Calas, pela sua conduta de vida, sendo um homem que, como Voltaire atesta, tinha aceitado sem maiores transtornos até mesmo a conversão de um de seus filhos ao catolicismo, mantinha como empregada uma funcionária católica há anos e isso nunca pareceu um obstáculo para ele. Estas são as intuições, pelo menos as suposições, que alguém podia fazer diante daqueles fatos. Por outro lado, diante da morte de Marc Antoine, a população fanática parecia não abandonar a ideia de que, de fato, o pai havia matado seu filho, o que, na opinião de Voltaire, era antinatural.
O desfecho desse crime terá sua maior expressão não na justiça que deveria se fazer em favor dos Calas, mas na convicção enganosa do povo religioso, violento e intolerante. A morte de Marc Antoine provoca inevitavelmente outro crime: a condenação à pena de morte de seu pai Jean Calas.
Sabe-se que a tolerância é um elemento fundante e essencial no empreendimento feito por Voltaire em favor da defesa dos Calas, ou seja, esta causa é advogada com base na justiça que precisava ser feita ao inocente pai acusado de assassinato. Por outro lado, também, em se tratando dessa tolerância a que merecia Jean Calas, é possível que os fanáticos, em algum momento, desejassem agir tolerantemente diante de um caso tão delicado, no qual a vida de alguém não tinha a menor defesa em seu favor. Diante da suposta possibilidade do pai ter assassinado seu filho, era necessário um julgamento, mas não por parte do povo fanático, e sim do Tribunal de Justiça de Toulouse e da própria razão, que, naquele momento, deveriam zelar pela humanidade.
Voltaire, no relato da morte de Jean Calas, arquiteta sua reflexão e usa de mais uma estratégia, mostrando que esse crime é de origem religiosa. No capítulo II do Tratado, afirma: “Se os Penitentes Brancos foram a causa do suplicio de um inocente, da ruína total de uma
família, eles e os juízes devem chorar, mas não com uma longa túnica branca ou máscara que ocultaria suas lágrimas”.74 Sabe-se que os crimes de origem religiosa, nessa época, eram
frequentes e normalmente a ignorância das consciências superava muito facilmente o êxito que a razão pudesse apresentar. Por outro lado, considerando a gravidade dos crimes cometidos em matéria de religião é preciso ainda notar se Voltaire, ao defender o Caso Calas, não se utilizava de mais uma de suas estratégias geniais, para realizar seu plano pessoal, que era o de relativizar e enfraquecer o papel da religião pelo culto à razão.75 Seja como for, era a
égide da lei, com base na razão e não na religião que, naquele caso, deveria esclarecer as causas do crime, fazendo justiça em favor de uma família inocente.
O julgamento de Jean Calas fora, de início, realizado pela populaça fanática e intolerante.76 Tais opiniões, por parecerem mais evidentes, uma vez que se tratava de um público intolerante, apressara a condenação daquele inocente. É, portanto, à frente da opinião pública,77 um público de supersticiosos e violentos em matéria de religião, que a sorte ou condenação desse homem se coloca. Em meio à pressão de uma população odiosa de seus irmãos de outra religião, o sucesso do fanatismo esgotou qualquer possibilidade de se exercer a razão como caminho para uma possível tolerância. Assim, era tamanho o erro que cometiam que nem mesmo alguns juízes puderam lutar em favor da verdade dos fatos, pois muitos
74 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. II.
75 O iluminismo francês ou ilustração do século XVIII foi um movimento ideológico que teve como expressão
essencial o discurso racionalista, ou seja, desejava-se por meio da razão humana dar respostas a todas as dúvidas do gênero humano. Salinas Fortes em O Iluminismo e os Reis Filósofos fala desta época ilustrada onde a razão se colocava como deusa no processo de reger o desenvolvimento histórico dos homens. Essa ideia de legitimar a razão como a única capaz de instruir os homens no caminho da verdade faz surgir a noção e a prática do culto à razão (NASCIMENTO, Maria da Graças do, op. cit., 1996, p. 6). Voltaire no Tratado Sobre a Tolerância afirma que “a razão esclarece lenta, mas infalivelmente os homens”. VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 30.
76 O ambiente da antiga França, no século XVIII, era constituído por uma população religiosa supersticiosa,
violenta e intolerante com pessoas de outra religião; sobretudo na província – como era o caso de Toulouse. Voltaire no Tratado Sobre a Tolerância se refere a isso dizendo que em Paris a razão prevalece sobre o fanatismo, enquanto que na província é o contrário que acontece (VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 12). Jean Calas foi vitima desse pensamento intolerante e sua condenação tornou-se inevitável por que fora julgado por pessoas tomadas pelo fanatismo religioso.
77 Esta opinião pública se baseava no pensamento religioso da época; ela provinha dos religiosos fanáticos que
viam como monstros seus irmãos de outra religião. Pode-se destacar neste âmbito religioso político que a religião se arrogava no direito de atormentar os homens por suas crenças contrárias à religião dominante. No imaginário religioso dos habitantes da Toulouse do século XVIII, estava impressa a ideia de que os protestantes calvinistas deviam morrer, pois eram heréticos e todos estavam condenados à danação eterna. Ver na Introdução do Tratado Sobre a Tolerância, o comentário de René Pomeau sobre esta ideia de opinião pública.
também estavam cegos com a política antiprotestante. Esses eram unânimes em pensar como os fanáticos e julgavam que Jean Calas devia morrer.
É preciso destacar e reafirmar a ideia de que o fanatismo não atingira somente a populaça iletrada, mas também os juízes e magistrados diretamente. A apuração da morte de Marc Antoine levara não à verdade do ocorrido, mas à condenação, em princípio, de toda a família Calas. Os magistrados de Toulouse se reuniam diariamente para solucionar a questão de condenar ou não o acusado. Dos treze juízes que investigavam o caso, oito foram favoráveis ao suplício da roda para o acusado, enquanto cinco foram contrários à condenação.
As leis e sua execução dependiam dos juízes, porém, no lugar da justiça e da verdade era o julgamento religioso equivocado que sentenciava como devia ser a pena para Jean Calas. A pergunta que se colocava diante do tribunal erigido para zelar pela justiça e a verdade era a seguinte: esse inocente teve oportunidade de se defender como réu de uma acusação infundada, ou seja, concederam a ele liberdade de expressão diante de uma acusação sem provas? Vê-se que tal atitude dos magistrados em condenar alguém com base em uma mera suposição demonstrava mais uma vez a fragilidade daqueles que executavam as leis, isto é, suas atitudes se fundamentavam no terreno frágil do poder religioso político. Esse poder não tinha a mínima intenção de prezar pela liberdade de consciência e muito menos pela liberdade religiosa; sua imposição se assemelhava mais à intolerância em vez da justiça que deviam realizar em favor de muitos inocentes.
Se tolerância diz respeito à ideia de privilégio da humanidade, como afirma Voltaire, então, o que se poderia compreender daquelas atitudes dos juízes em não conceder a um acusado o direito de se defender e torturá-lo até a morte? Tudo o que se pode compreender a partir de atitudes como aquelas é que, mais uma vez, vidas humanas estavam entregues a mais espessa barbárie de uma religião que espalhava o medo e a perseguição.
Dois éditos78 não foram suficientes para implantar a paz religiosa justamente porque eram opostos. A fatalidade da morte de pessoas inocentes pela crueldade e intolerância deveria, no entanto, questionar cada vez mais a ortodoxia religiosa a respeito da necessidade de uma tolerância.