2. SERBEST MESLEK KAZANcının hesaplanması
2.4. Serbest Meslek Kazancının Beyanı
Diante da reflexão estudada a respeito da tolerância,89 que sempre tenta traduzir a intolerância como um mal ao ser humano para sua vida em sociedade, deve-se notar ainda que a religião, quando não submetida à prudência da razão, continua produzindo seus crimes incontáveis como fizera no passado. As querelas religiosas sempre existirão se a tolerância não for uma expressão universal dos homens no desejo de construírem juntos a paz neste
87 Id., ibid., 2000, cap. IV, p. 27.
88 VOLTAIRE. Cartas Filosóficas. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes,
2007, p. 20.
89 A reflexão a que referimos se trata do interesse pessoal de Voltaire em submeter a ignorância humana ao
regime esclarecedor da razão. Uma nova civilização se fazia necessária, mas para que isso pudesse acontecesse era necessário estabelecer como prioridade nesta luta pelo interesse da sociedade. Por interesse social daquele momento podemos pensar no fim das perseguições religiosas e no direcionamento da sociedade para um efetivo crescimento intelectual, moral e material. Era preciso enriquecer a nação, porém isto só seria possível se a liberdade religiosa e a tolerância existissem.
mundo. A razão, segundo Voltaire, foi dada ao homem para que ele agisse e essa ação supõe respeito e tolerância pelas opiniões diferentes, inclusive as religiosas. Voltaire acredita que o homem não necessita de religião, pelo menos não o individuo virtuoso; os fracos sim precisam dela: “ Aqueles que necessitam de socorro da religião para serem pessoas honestas seriam lastimáveis, e monstros da sociedade, se não encontrassem em si próprios os sentimentos necessários a essa sociedade, obrigados a buscar alhures o que deve ser encontrado em nossa natureza”.90
Para Voltaire, o problema a ser resolvido não era o de eliminar por completo a religião, embora esta para ele não fosse necessária, mas sua intenção seria sanar os crimes provindos dela, substituindo-os por um pouco mais de luz em meio às trevas da ignorância humana. O Caso Calas foi um acontecimento na história da França não muito diferente ou de maior impacto do que muitos outros que também resultaram em mortes incontáveis.91 Nota-
se, porém, que esse caso tornou oportuna a ideia da campanha de uma tolerância universal,92 afinal é essa a intenção da campanha panfletária que Voltaire empreendeu, procurando sensibilizar a opinião pública a respeito do crime cometido contra Jean Calas. Era preciso urgentemente que, em uma época como aquela, ilustrada, a razão se fizesse valer sobre as perseguições produzidas pelo domínio da religião.
90VOLTAIRE. Traité de métaphysique. Paris: Gallimard, 1961, p. 175. ( Bibliothéque de La plêiade). Pg.202. A
esse respeito, da independência do homem em relação a Deus, conferir também em: POMEAU, René. La religion de Voltaire. Paris: Nizet, 1995.Pg. 229.
91 Esses outros acontecimentos de ordem religiosa e violenta que a França conheceu podem ser notados, por
exemplo, no episódio da chamada Noite de São Bartolomeu em 24 de agosto de 1572, quando o rei Carlos IX encorajado por sua mãe Catarina de Médici, desencadeia em Paris e nas províncias a morte de centenas de protestantes. Este acontecimento pode ser compreendido também como intolerância religiosa de ordem política.
92 Por tolerância universal na concepção de Voltaire pode-se perceber que ele não fala isso tendo a intenção de
cristianizar o universo. No capítulo XXII do Tratado Sobre a Tolerância, ele afirma que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros, pois são filhos de um mesmo Pai. Sabe-se que esta fala de Voltaire tinha como intenção sensibilizar a consciência dos fanáticos para que deixassem a ignorância de lado e aderissem definitivamente ao interesse da sociedade. Voltaire deseja implantar na mente das pessoas um interesse que vai além do discurso e das atitudes cegas da religião. Ele pretende que cada cidadão contribua para o bem de sua pátria e que cada um se mantenha longe dos conflitos religiosos, pois somente assim, sem violência e com mais liberdade pessoal, cada um pode ser feliz e fazer os demais felizes. Este processo de emancipação do ser humano pretende atingir toda sociedade e consequentemente o universo.
O pessimismo de Voltaire em relação à estrutura da Igreja Católica de seu tempo era o de que, segundo ele, suas autoridades insistiam em manter seus fiéis na ignorância, significando uma subordinação que impedia a liberdade de pensar e produzia, consequentemente, a violência contra vidas inocentes. Esses fatos a respeito da violência produzida pela intolerância religiosa nos fazem entender sempre que a religião era a causa de tantos males. Se de fato a religião não fosse criminosa e orientada pelo erro, a vida daquele inocente pai acusado de matar seu filho poderia ter sido poupada, porém ainda era cedo para que a razão sensibilizasse os corações intolerantes. A religião enganada mais uma vez tentava salvar a alma de alguém, ou seja, praticar um bem, porém não percebia que esse bem resultava num mal muito maior a si e aos outros.
O capítulo IV do Tratado Sobre a Tolerância nos faz perceber que os bons costumes e a mansuetude da natureza humana devem sempre produzir a paz e nunca a guerra. Com isso, se nota que as revoltas e assassinatos, as perseguições e as torturas, sejam da família Calas ou de qualquer outra, geraram muito mais perseguições. Essa reflexão do bem que produz outro bem e do mal, que gera, por conseguinte, outros males, deve ser um pensamento óbvio93 para todos os cristãos. Desse pensamento destacam-se dois pólos contrários e que dizem respeito ao presente estudo, a tolerância e a intolerância.
O simples pensamento a respeito da tolerância supõe levar em conta que estamos nos referindo a uma oposição de pensamento religioso. Por outra perspectiva, pensar em intolerância ou desejar praticá-la significa que o limite da prudência e do respeito foi ferido e que, inevitavelmente, as perseguições se tornam uma possibilidade concreta, pois faltou o que nos é principal, a tolerância. Somente para reforçar essa ideia do respeito, quando é violado, relembro o que já disse em páginas anteriores a respeito de Jean Calas.
93 Voltaire ao advogar a causa dos Calas luta primordialmente contra o pensamento fanático dos católicos. Por
várias vezes no Tratado ele expressa sua indignidade e incompreensão a respeito de como os cristãos se propunham seguir Jesus Cristo tendo ao mesmo tempo atitudes tão bárbaras. No capítulo XXII do Tratado, sobressai a afirmação de Voltaire dizendo que os cristãos devem suportar-se uns aos outros. Ainda no capítulo XIV do Tratado, ele afirma que ao imitar Jesus Cristo os cristãos precisam ser mártires e não carrascos.
O suposto crime pelo qual Jean Calas fora julgado pelo viés da intolerância religiosa. O próprio relato apresenta esse crime evidenciando as inúmeras intrigas religiosas entre católicos e protestantes. Em um primeiro momento, para estabelecer as provas de que fora mais um crime de matéria religiosa, deve-se perceber que a antiga França era fruto do catolicismo tradicional. A mentalidade religiosa era a mais servil e provinciana possível, pois muitos de seus fiéis eram pobres e analfabetos espalhados pelas aldeias.
Diante da morte de Marc Antoine, como Voltaire relata, a multidão se aglomerara diante da casa dos Calas, e, daquele momento em diante, não haveria mais a mínima possibilidade de verem aquela morte como não sendo um perfeito crime de ordem calvinista. O que conduzia a multidão a chegar a tal julgamento era o ódio por seus irmãos de religião diferente. Esse povo de Toulouse é violento e fanático e sua resposta diante do crime é por consequência um novo crime: a morte de Jean Calas.
Tais afirmações encontram base no relato de René Pomeau, quando nos diz que aquele povo violento e fanático celebrava anualmente uma festa que tinha como intenção comemorar a morte de quatro mil huguenotes, protestantes calvinistas, que eles mesmos haviam cometido. Nem mesmo o Tribunal de Justiça de Toulouse foi capaz de impedir essa manifestação odiosa que gerava ainda mais intolerância. Por outro viés, deve-se analisar como prova contra a religião equivocada que a maioria dos juízes fazia parte da confraria dos Penitentes Brancos e por isso não possuíam a mínima intenção de inocentar Calas. Esses Penitentes eram um grupo de controversistas, pessoas violentas que facilmente estavam prontos para começar uma guerra civil. Além disso, eram cegos pelo zelo religioso e se distinguiam dos demais por se acharem perfeitos.