O estudo realizado por Gropp e Heider (2010) teve por objetivo principal verificar se os requerimentos regulatórios são determinantes de primeira ordem da estrutura de capital dos bancos. Ele foi realizado por meio de um modelo de regressão multivariado com dados em painel, aplicado a uma amostra composta pelos 200 maiores bancos com carteira comercial de 16 países – 100 pertencentes aos Estados Unidos + 100 pertencentes a 15 países europeus – durante os anos de 1991 a 2004, totalizando 2.415 observações, ou seja, os impactos capturados na estrutura de capital dos bancos se limitavam ao acordo da Basiléia I, antes da antecipação dos efeitos da Basiléia II.
Segundo os autores, há um erro na interpretação de que o acordo da Basiléia I e os depósitos de seguro constituem o ponto de partida para o distanciamento do argumento da irrelevância de MM, relacionado à estrutura de capital dos bancos. Tal fato dependeria de uma precificação incorreta dos seguros de depósitos o que incentivaria os bancos a maximizarem sua alavancagem até o nível de capital mínimo exigido pela Basiléia.
Para chegarem a essa conclusão, eles incluíram a variação dos montantes de depósitos de seguro em seu modelo de regressão, o qual possui o nível de alavancagem financeira dos bancos como variável dependente. Os resultados dos testes de regressão evidenciaram que uma cobertura maior de depósitos de seguros está associada com uma alavancagem financeira a valor de mercado maior, o que é consistente com o efeito de uma estrutura de capital definida pela Basiléia I.
Entretanto, não foi evidenciada significância estatística para essa mesma relação, considerando o valor contábil da alavancagem financeira dos bancos, ou seja, o valor contábil da alavancagem financeira dos bancos não é definido pelo nível de cobertura dos depósitos de seguro, os quais, por sua vez, supostamente, deveriam definir a estrutura de capital dos bancos, considerando o percentual de capital próprio mínimo estabelecido pelos acordos da Basiléia I.
Durante o ano de 2009, outro estudo foi realizado por Ahmad, Ariff e Skully. Para os autores, a direção do relacionamento entre o capital próprio e o risco dos bancos permanece ambígua. Ao contrário do seu objetivo, os acordos da Basiléia falham em promover o controle dos riscos, não podendo substituir as ferramentas para seu monitoramento. Na verdade, ao serem forçados a aumentar o nível de capital próprio – e reduzir o nível de alavancagem financeira – os bancos aumentam o nível de risco dos seus ativos. Ao elevar seu custo do capital, devido ao aumento da participação do capital próprio que é mais caro, os bancos são encorajados a escolherem carteiras com riscos e retornos esperados ainda maiores. Por sua vez, uma maior exposição ao risco pode levar os bancos a problemas de crédito e queda de lucratividade - fenômenos observados na crise de 2007-2008. Assim sendo, um aumento do nível de capital regulatório mínimo não necessariamente reduz a probabilidade dos bancos falirem.
A fim de comprovar essa hipótese – que é o oposto do que os acordos da Basiléia preveem -
variável dependente e risco, tamanho, lucratividade, além de outras, como variáveis explanatórias. A amostra analisada é composta por 42 instituições financeiras da Malásia, durante o período de 1995 a 2002. Como resultado, os autores verificaram que a variável risco e capital próprio do banco possuem uma relação positiva. Significa dizer que, quando os bancos são forçados a aumentarem sua participação de recursos próprios em sua estrutura de capital, a alavancagem financeira e o risco de sua carteira de ativos são considerados como substitutos, ou seja, ao reduzir seu nível de alavancagem financeira, os bancos aumentam seus investimentos em carteiras de ativos ainda mais arriscados. Todavia, outras variáveis específicas apresentaram coeficientes mais significativos, estatisticamente.
Por sua vez, o estudo empírico realizado por Octavia e Brown (2008) expandiu as análises realizadas por Gropp e Heider28 (2010) para países emergentes, com diferentes características. Ele teve como objetivo verificar se os requerimentos de capital regulatório constituem o principal fator na determinação do capital próprio dos bancos ou se os determinantes padrões da estrutura de capital, também, podem explicar a alavancagem financeira dos bancos. Para tanto, foi coletada uma amostra de 56 bancos de 10 países em desenvolvimento, entre os quais 4 são brasileiros, durante o período de 1996 a 2005, totalizando 318 observações.
Segundo os autores, autoridades regulatórias exigem que os bancos possuam um nível mínimo de capital próprio, a fim de mitigar riscos de crédito, mercado e operacional. Dessa forma, caso o risco seja o principal direcionador da estrutura de capital dos bancos, pode-se inferir que os acordos da Basiléia I e II determinam, predominantemente, a estrutura de capital dos bancos e que o impacto combinado dos determinantes padrões da estrutura de capital é insignificante. Assim sendo, a variável independente risco dos ativos foi incluída no modelo de regressão.
Como resultado, verificou-se que a variável risco do ativo é significativa ao nível de 5% e 1% para a alavancagem financeira a valor contábil e de mercado, respectivamente. Todavia, as demais variáveis independentes, relacionadas aos determinantes padrões da estrutura de capital de empresas não financeiras, também são significantes a esses mesmos níveis. Tal fato implica que o risco dos ativos é um fator mais pertinente às teorias padrão de estrutura de
capital - quanto maior o risco da empresa ou banco, menor o seu nível de alavancagem - que aos requerimentos de capital mínimo dos acordos da Basiléia.
Outro estudo realizado em 2008 foi o de Kleff e Weber, em relação aos bancos da Alemanha. Segundo esses autores, assim como nos Estados Unidos, os bancos alemães possuem um excedente de capital próprio, em relação ao mínimo estabelecido pelos acordos da Basiléia. Entretanto, os motivos que levam os bancos alemães a optarem por esse colchão diferem dos norte-americanos. Na Alemanha, apenas uma pequena quantidade de bancos é de capital aberto. Logo, o excedente de patrimônio líquido dos bancos não decorre da necessidade de maximização da riqueza dos seus acionistas, que seria obtida devido à existência de uma taxa fixa e baixa dos depósitos de seguro29, o que incentiva os gestores a aumentarem o risco de suas carteiras e da alavancagem financeira dos bancos.
Assim sendo, um dos objetivos deste trabalho consiste em verificar se o capital próprio dos bancos e o risco da carteira dos ativos estão negativamente relacionados devido aos depósitos de seguros e positivamente relacionados devido a outros fatores. Vale ressaltar que, segundo o acordo da Basiléia I, o risco da carteira de ativos e o capital próprio dos bancos estão diretamente relacionados. Para tanto, o referido estudo analisou uma amostra de 2.971 bancos alemães de poupança, cooperativos e outros tipos30, durante o período de 1992 a 2001, correspondendo a 28.025 observações.
Contrariando a literatura empírica anterior, os autores não encontraram uma relação significativa, estatisticamente, entre o capital próprio dos bancos e o risco de sua carteira de ativos, para aqueles que possuem um alto nível de excedente de capital – outros tipos de bancos. De fato, esse colchão permite que os bancos não sejam forçados a aumentarem seu nível de capital próprio, quando há uma elevação do risco de suas carteiras. Por sua vez, os bancos de poupança e cooperativos trabalham com um mínimo de capital próprio. Além disso,
29 No Brasil, a contribuição ao FGC está fixada em 0,0125% ao mês e o percentual de depósitos assegurados está fixado em 2% do saldo total dos depósitos garantidos. Informação disponível em: <http://www.fgc.org.br/?conteudo= 1&ci_menu=48>. Acesso em: 16 de janeiro de 2011.
30 Os bancos de poupança (633) são órgãos estatutários públicos, cujas atividades são localmente limitadas e cujo objetivo principal é cumprir as contratações públicas (licitações). Por sua vez, os bancos cooperativos (1.910), também, têm sua atividade limitada a uma determinada área e pertencem a seus membros, que são proprietários e clientes, simultaneamente. Por fim, os outros tipos de bancos (428) consistem em grandes bancos comerciais, filiais de bancos estrangeiros privados, bancos regionais, imobiliários e com outras funções específicas, possuindo maior facilidade de captação de recursos externos.
não houve evidências para a comprovação de que o capital próprio dos bancos e o risco da carteira dos ativos estão negativamente relacionados, devido aos depósitos de seguros. Tais fatos indicam que o acordo da Basiléia I não é o principal fator na definição da estrutura de capital desses bancos.
O Quadro 9 sintetiza o resultado dos estudos mencionados, em relação à identificação dos acordos da Basiléia como o principal fator determinante da estrutura de capital dos bancos, considerando a existência de um colchão ou excedente de capital próprio sobre o mínimo regulatório:
Quadro 9 – Irrelevância dos requerimentos de capital mínimo regulatório Valor da alavancagem
financeira (variável dependente)
Os acordos da Basiléia constituem o principal fator da determinação
da estrutura de capital dos
bancos? Fontes
Contábil Mercado SIM NÃO
X X N/A
X X
Kleff e Weber (2008) Octavia e Brown (2008) Ahmad, Ariff e Skully (2009)
Gropp e Heider (2010)
X X Gropp e Heider (2010)
X X Octavia e Brown (2008)
N/A: Não aplicável