Como ponto de partida, apresenta-se válida a síntese de Alberigo, sobre esta constituição eclesiológica, “a única que recebeu o qualificativo de dogmática ao lado daquela relativa à Palavra de Deus”230; a saber:
[A Constituição sobre a Igreja] tem seus pontos fortes nos três primeiros capítulos, nos quais o concílio, no sulco da tradição patrística e da renovação teológica da primeira metade do séc. XX, apresenta a Igreja como “sacramento em Cristo, luz dos povos”, como momento crucial do desígnio de salvação do Pai, que tem como meta o reino, o qual, por isso mesmo, é distinto da Igreja. A imagem paulina do corpo de Cristo é utilizada também pelo Vaticano II, mas no contexto da rica e complexa articulação das imagens bíblicas da Igreja, que exaltam a variedade de aspectos e de membros: um povo peregrino na história, caminhando em direção ao cumprimento da salvação. Povo com o qual Deus renovou uma aliança eterna, que culminou na cruz e na ressurreição de Cristo; com Jesus e por obra do Espírito, todos os membros da Igreja participam, na fé, do sacerdócio comum, que exercem primariamente nos sacramentos, na comunhão recíproca, no serviço aos homens, de acordo com os carismas que cada um recebeu. A comunidade eclesial vive na sociedade humana e participa da sua aventura, mas, porque “católica” e missionária, não se identifica com nenhuma condição em particular: social, cultural, racial. A Igreja de Cristo se realiza na Igreja católica, presidida pelo pontífice romano, mas não se esgota nela.231
A reflexão acima procura sintetizar a teologia da Constituição sobre a Igreja e, faz ressaltar, esta designação de Igreja que parece condizer claramente com o objetivo da construção do documento explicitado no item anterior: a Igreja é como que “o momento crucial do desígnio de salvação do Pai”, que deseja iluminar todos os povos com a luz da salvação que irrompe de Jesus Cristo, seu Filho. O objetivo final da Igreja é o Reino de Deus, para o qual estão convidados todos os seres humanos a participar. Contudo, como “momento crucial” deste desígnio de congregação da humanidade, a Igreja distingue-se do Reino, embora esteja também ela direcionada para sua consecução. Logo, do exposto, deriva a concepção não de uma sociedade perfeita, imagem idêntica ao Reino na terra, mas uma
230 Cf. ALBERIGO, Giuseppe. História dos concílios ecumênicos, p. 429. 231Cf. Ibid., p. 429-430 – grifos nossos.
imagem mais humilde, aberta ao diálogo e consciente da sua limitação temporal; serva da humanidade, enquanto faz resplandecer a luz do seu Salvador e Senhor.232
Almeida prefere falar da teologia da Constituição sobre a Igreja como uma eclesiologia de transição, uma “necessária transição”233 de imagem eclesial que demonstra a
maturidade da Igreja de compreender-se distinta na sua natureza e na sua consecução histórica, como foi propugnado pelo Concílio.234 Esta nova imagem eclesial, nova porquê atualizada pela reflexão do Concílio, pauta-se em princípios enunciados pelo teólogo; dentre eles seguem os que parecem ser os mais importantes:
i. Uma transição de linguagem: do conceitual e jurídico, para o imagético.235 ii. De uma Igreja voltada para si, para uma Igreja voltada para Cristo.236
iii. De uma eclesiologia critomonista, para uma eclesiologia trinitária.237
iv. De uma Igreja autofinalizada, para uma Igreja reinocêntrica.238
v. De uma Igreja comprometida com o poder, para uma Igreja solidária com os pobres.239
Almeida ressalta ainda que grande é riqueza teólogica da Constituição a ponto de não ser possível esgotá-la em alguns princípios, mesmo que genericamente elaborados. Isto faz notar, como afirma, que entre as chamadas “imperfeições” ou “limites” do texto conciliar está a dificuldade de uma síntese dos elementos teologicamente articulados; que parece ter ficado legado às gerações futuras como meta a atingir.240 Neste sentido, Libanio prefere falar de “tendências”241 eclesiológicas, ou ainda de “deslocamentos fundamentais de significado”242,
que a seu modo apontam para a possibilidade de “uma nova figura do pensar teológico e da pastoral que afetam a totalidade da Igreja”243. E desta nova figura multifaceda o que assoma
indubitavelmente é o “mistério”244.
232 Cf. LIBANIO, João Batista. Concílio Vaticano II, p. 107-147. Libanio falaria de uma inversão eclesiológica de uma base “apologética, abstrata, jurídica” para o “mistério da Igreja”, considerando o primeiro capítulo da Lumen Gentium – cf. Ibid., p. 108. E concorda Almeida, cf. ALMEIDA, Antonio José de. Op. cit., p. 47-56. 233 Cf. Ibid., p. 15.
234 Aqui cabe a distinção articulada pelo teólogo do movimento de compreensão de si mesma, ad intra, que teve como espaço de desenvolvimento na Lumen Gentium, e do movimento de compreensão do seu papel na história, ad extra, na Gaudium et spes. Em ambos ambientes teológicos há transições de mentalidade e linguagem indispensáveis para compreender a “nova” imagem da Igreja para si e para o mundo atual – cf. Ibid., p. 16. 235 Cf. Ibid., p. 47-56. 236 Cf. Ibid., p. 57-60. 237 Cf. Ibid., p. 61-66. 238 Cf. Ibid., p. 67-72. 239 Cf. Ibid., p. 115-132. 240 Cf. Ibid., p. 191-194.
241 Cf. LIBANIO, João Batista. Concílio Vaticano II, p. 144. 242 Cf. Ibid., p. 145.
243 Cf. Id.
Esse [mistério] acontece na história para a salvação dos seres humanos e a Igreja é dele sacramento. Em sua visibilidade, é povo de Deus que representa, significa e faz presente entre os humanos o Reino de Deus. Sua universalidade não é abstrata nem anterior, mas se realiza em cada Igreja particular. Estas, espalhadas pelo mundo, comungam entre si e com o bispo de Roma, constituindo-se a Igreja católica. [...] Descobre na história humana os sinais dos tempos, apontando para a ação de Deus. Sabe-se cada vez mais feita de fiéis leigos a serviço dos quais a hierarquia se constitui. E recuperando uma piedosa tradição mariana situa a Virgem no seu coração como a fiel seguidora de Cristo. E ela toda se põe a caminho da escatologia final, vivendo em antecipação momentos de plenitude. Entende sua vocação à santidade como um chamado de Deus a todos os membros.245
A leitura de Hackmann exalta não a eclesiologia em sentido genérico, mas a compreensão plural que emerge da autoconsciência que a Igreja tem de si mesma, não apenas no cenário apropriado ao Vaticano II, mas desde a antiguidade. E neste sentido, faz-se legítimo falar em termos de “eclesiologias”246. Assim, na sua compreensão, há que se falar
das novidades teológicas para a reflexão eclesiológica suscitadas pela Constituição sobre a Igreja, como também das eclesiologias nascidas destas novidades, como ainda daquilo que chamará de desvios eclesiológicos pós-conciliares.
Dos princípios teológicos que figuram como novidade no cenário eclesiológico ressalta a “dimensão cristocêntrica”247 que apresenta a Igreja como mistério de Cristo, a
“dimensão pneumatológica”248 que manifesta a dependência da Igreja da ação do Espírito
Santo, a “dimensão sacramental”249 que dá sustentabilidade à razão da historicidade da Igreja
245 Cf. Ibid., p. 146-147.
246 Cf. HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. Igreja, que dizes de ti mesma? E as eclesiologias. In: SANTOS, Manoel Augusto (Org.). Op. cit., p. 85-119.
247 Cf. Ibid., p. 88. Acrescente-se: “A Igreja existe desde Cristo e em Cristo. O cristocentrismo da Lumen Gentium é a culminância de um movimento eclesiológico que inicia na Escola de Tubinga, se irradia até os teólogos do Colégio Romano, e, por meio desses, se faz presente no Vaticano I. A sua primeira expressão, pelo menos parcial, pelo Magistério, encontra-se na Encíclica Mystici Corporis (1943), e é definitivamente introduzida no Vaticano II por Paulo VI, no seu discurso de abertura da segunda Sessão do Concílio” – cf. Ibid., p. 88-89.
248 Cf. Ibid., p. 91. Acrescente-se: “[...] a Eclesiologia só é possível com Cristologia e Pneumatologia em ato, por que Jesus Cristo e o Espírito Santo estão enraizados na Igreja e a levam, por isso, a produzir frutos de vida eterna” – cf. Id.
e a “dimensão escatológica”250 que ressalta o caráter inconcuso da Igreja, uma vez que
caminha para sua consumação final, na expectativa do Reino definitivo.
São, também, indicadas quatro expressões eclesiológicas das tentativas de síntese das novidades acima destacadas. A saber: uma “eclesiologia de comunhão”251, com relevo para a
expressão comunitária da eclesialidade; uma “eclesiologia do Povo de Deus”252, que partindo
da imagem bíblica referente, mostra a igualdade fundamental de todos na Igreja pelo Batismo, reunindo nesta imagem eclesial qualificativos de relevância fundamental como a ministerialidade e a missionaridade da Igreja; a “Igreja servidora”253 que busca a simplicidade
evangélica, o exercício da caridade e do serviço; e uma “Igreja libertadora”254, cuja
prerrogativa objetiva compromentimento com as classes mais empobrecidas.
Dentre os desvios eclesiológicos no pós-concílio são destacados aqueles apropriados à reflexão mal estruturada da relação entre as imagens eclesiais do Corpo de Cristo e Povo de Deus, que redundaram, na leitura de Hackmann, numa “redução sociológica da eclesiologia”255, na qual o mistério fica esquecido, enquanto a Igreja acaba sendo
compreendida como “emanação de uma base autônoma e configurada por princípios sociológicos e não por princípios postos por seu fundador”256, e uma Igreja “separada de Jesus
Cristo”257, como resultado de um distanciamento da fé do lugar apropriado para crescer e
alimentar a fé. Cita ainda, um “esquecimento do Espírito Santo”258, na verdade, um
esquecimento do lugar do Espírito na economia da salvação ressaltado pelo Concílio, que acabou resumido a uma autonomia absoluta da obra do Espírito, desvinculada da obra de Jesus Cristo, isto é, a fundação da sua Igreja. E, por último, um certo “vazio mariológico na Igreja”, como esquecimento do modo como o Concílio refletiu o lugar de Maria e sua relação com a Igreja.
Da sintética reflexão de Hackmann resulta a percepção da necessidade de integração dos mais variados aspectos, imagens ou dimensões enunciadas pelo Vaticano II como imagens da natureza íntima da Igreja, em vista da comunicação do seu mistério. As “unilateralidades”259, ou ainda, “a seleção arbitrária de temas”260, como frisa Hackmann,
250 Cf. Ibid., p. 103. 251 Cf. Ibid., p. 104. 252 Cf. Ibid., p. 105. 253 Cf. Ibid., p. 106. 254 Cf. Ibid., p. 107. 255 Cf. Ibid., p. 112-114. 256 Cf. Ibid., p. 112. 257 Cf. Ibid., p. 114-115. 258 Cf. Ibid., p. 115-118. 259 Cf. Ibid., p. 108. 260 Cf. Ibid., p. 119.
mostraram-se nocivas e parecem não colaborar para que a Igreja responda aos desafios do mundo hodierno, fundamental espírito do Concílio. E complementa, agora observando todos os documentos conciliares que versam sobre a realidade eclesial:
Em todos esses documentos observa-se a uma mudança de visão de Igreja: do acento da perspectiva de sociedade passam a valer seus aspectos de mistério e bíblicos, atendendo a sua missionariedade, enquanto sacramento de salvação. [...] Quando se procura responder aos novos desafios, frutos da busca de continuar, nos dias de hoje, a missão da evangelização de Cristo, o último Concílio ecumênico não perdeu sua atualidade e continua como autêntica fonte de inspiração, pois ele significou o desembocar do processo secular de reflexão da Igreja sobre si mesma.261
Sem este apontamento final, este item não estaria a contento: a Igreja que emerge do Concílio Vaticano II, desde sua documentação, mostra-se indubitavelmente como um conjunto de imagens que ressaltam seu mistério e projetam sua consecução histórica para a missionariedade no mundo atual, repleto de desafios.262