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A natureza do ambiente laboral não é exclusiva nem primordialmente de carácter físico. De facto, existem numerosos componentes do ambiente cuja natureza é eminentemente social e outros que carregam o seu verdadeiro sentido no âmbito social e num sistema de interpretações sociais. Com isto, não só cabe falar em ambiente social em termos dos seus elementos constituintes mas, que tem de ter em conta os processos de interacção entre a pessoa e o seu ambiente, mediante os quais o dito ambiente é subjectivo e construído. Não podemos esquecer que na sociedade dita moderna, o ambiente da conduta laboral é, com frequência, um ambiente organizacional. Trata-se de um ambiente social e institucional mais estruturado e formalizado que outros, em que as pessoas vivem e convivem e, cujos elementos básicos e constituintes são radicalmente sociais (Peiró, Prieto & Roe, 2004).

O trabalho representa, na actualidade, um dos aspectos mais importantes da vida pessoal, grupal, organizacional e social, sendo um dos pilares fundamentais em que se assenta a sociedade dos dias de hoje. Isto verifica-se pela quantidade de tempo que as pessoas passam a trabalhar ao longo das suas vidas. O trabalho representa uma grande parte da actividade humana das pessoas adultas mas, também, o tempo que uma pessoa passa a planificar, a formar-se e a preparar-se para o trabalho começa numa idade “precoce” e ocupa também uma boa parte da sua vida (Araújo, Aquino, Menezes, Santos & Aguiar, 2003).

O estudo do significado do trabalho e dos valores laborais é um tema de interesse que, nas últimas décadas, tem gerado um grande volume de investigações psicossociais. O ênfase do seu estudo centra-se, fundamentalmente, em analisar as estimativas que os trabalhadores fazem do trabalho. As razões que apontam a necessidade de explorar o significado do trabalho vêm justificadas fundamentalmente pelo seu impacto sobre as condutas individuais e sociais (Clot, 2006).

A investigação sobre o fenómeno do trabalho tem destacado as diferentes funções que este desempenha para os indivíduos, para as organizações e para a sociedade. Muitos têm sido os estudos que se têm centrado, directa ou indirectamente, nas funções do trabalho, dando destaque ao carácter positivo das mesmas. Deste modo, podemos referir onze funções positivas que o trabalho pode fornecer às pessoas (Salanova, Gracia & Peiró, 2004).

Em primeiro lugar, está a função integrativa ou significativa que o trabalho cumpre. Esta função refere-se ao trabalho como uma fonte que pode dar sentido à vida, na medida em que permite às pessoas realizarem-se pessoalmente através do mesmo. O trabalho pode ser para a pessoa uma fonte de auto-estima e realização pessoal. Por intermédio do trabalho, as pessoas podem realizar-se, dar propósito às suas vidas e serem criativas, cumprindo esta função quando é intrinsecamente satisfatório e se converte em fonte de satisfações positivas. Em suma, o trabalho pode assumir uma experiência vital significativa (Bendassolli & Guedes Gondim, 2014).

Em segundo lugar o trabalho cumpre a função de proporcionar status e prestígio social. O estatuto social de uma pessoa está determinado, em parte, pelo trabalho que desempenha. Este estabelece categorias e subdivisões enquanto característica social que ocupa uma pessoa na sociedade. Esta função do trabalho pode implicar, na verdade, que este se converte numa fonte de auto-respeito, o bem do reconhecimento e respeito pelos outros. O progresso e a promoção no trabalho são valorizados porque implicam um aumento do prestígio social e laboral (Salanova, Gracia & Peiró, 2004).

O trabalho é também uma fonte de identidade pessoal. É uma das áreas de maior importância para o desenvolvimento e para a formação da nossa identidade. Como somos ou como nos vemos tem muito a ver com o como somos, como nos vemos e como nos vêem no trabalho. As experiência laborais, os nossos êxitos/sucessos e fracassos no trabalho contribuem, em certa medida, para o desenvolvimento da nossa própria identidade (Teixeira, Boery, Casotti, Araújo, Pereira, Ribeiro, Rios, Amorim, Moreira, Boery & Sales, 2015).

Em quarto lugar o trabalho cumpre uma função económica, com um duplo significado para o indivíduo: manter um mínimo de sobrevivência e, conseguir bens de consumo. A pessoa realiza o trabalho em troca de uma remuneração que lhe permite garantir a sua independência económica e o controlo da sua vida, assim como a possibilidade de decidir o que fazer em actividades e tempos livres (Sato, Andrada, Évora, Neves & Oliveira, 2011).

Em quinto lugar, o trabalho também pode ser uma fonte de oportunidades para a interacção e para os contactos sociais. Grande parte das interacções com os outros dão-se no contexto profissional. As pessoas no trabalho mantêm interacções com os seus supervisores, com os seus colegas, subordinados e clientes. É uma função importante para a pessoa uma vez que supõe uma oportunidade de interagir com outros fora do núcleo familiar. O trabalho tem aspectos emocionais e, se essas

relações forem enriquecedoras, podem melhorar também a vida extra-laboral (Peiró, Prieto & Roe, 2004).

Em sexto lugar o trabalho tem uma função de estruturar o tempo. Estrutura o dia, a semana, o mês, o ano, inclusivamente o ciclo vital das pessoas. Ajuda, também, a estruturar outros âmbitos das suas vidas, que agrupam o seu tempo ao tempo de trabalho, tal como a planificação familiar, as férias ou o tempo de lazer em geral. O trabalho tem um papel dominante em estruturar o tempo das pessoas em função de quando trabalham, pois é assim que elas determinam quando têm tempo livre, quando têm férias ou quando podem estar com as suas famílias. Assim, a actividade profissional das pessoas estrutura o tempo em períodos temporais regulares e previsíveis e, provê um marco de referência temporal útil para as suas vidas (Clot, 2006).

Em sétimo lugar, o trabalho tem a função de manter o indivíduo numa actividade mais ou menos obrigatória. Fornece um quadro de referência útil de uma actividade regular, obrigatório e com um propósito. O trabalho pode ser também um dever dos indivíduos perante a sociedade, cumprindo, então, uma função de servir a sociedade mediante o trabalho. Por outro lado, as pessoas estão obrigadas a trabalhar se querem manter outras funções vitais (Teixeira, Boery, Casotti, Araújo, Pereira, Ribeiro, Rios, Amorim, Moreira, Boery & Sales, 2015).

Em oitavo lugar o trabalho também cumpre a função de ser uma fonte de oportunidades para o desenvolvimento de habilidades e destrezas. Os indivíduos, no seu trabalho, põe em prática uma série de habilidades e destrezas para a sua execução. Estas habilidades podem já estar no indivíduo mas, a prática diária pode melhorá-las, ou também é possível que se adquiram para a ou na execução do trabalho (Salanova, Gracia & Peiró, 2004).

Em nono lugar, o trabalho cumpre a função de transmitir normas, crenças e expectativas sociais. O sistema de normas, crenças, valores, expectativas e ideias é transmitido também pelo trabalho. Neste sentido, podemos afirmar que o trabalho tem um papel socializador muito importante. No trabalho as pessoas comunicam entre si e, fruto dessa comunicação aparece a transmissão de expectativas, crenças, valores e informações não só relacionadas com o trabalho mas, também com outros âmbitos da vida como, a família, o tempo livre, a economia, a política, entre outros (Bendassolli & Guedes Gondim, 2014).

Em décimo e penúltimo lugar, o trabalho também cumpre a função de proporcionar poder e controlo. Mediante o trabalho podem-se desenvolver e adquirir algum grau de poder e controlo sobre outras pessoas, sobre outras coisas, dados e processos (Salanova, Gracia & Peiró, 2004).

Por último, podemos referir ainda que o trabalho pode cumprir uma função de comodidade (conforto). Neste sentido as pessoas podem ter no trabalho a oportunidade de disfrutar de boas condições físicas, segurança no emprego e/ou um bom horário de trabalho (Sato, Andrada, Évora, Neves & Oliveira, 2011).

A maioria das funções referidas coincidem com o seu carácter ou valorização positiva, como a auto-realização, os contactos interpessoais, a fonte de identidade, etc.. Porém, o trabalho também pode ser disfuncional para os indivíduos em função das características que apresente. Quando este é repetitivo, desumano, humilhante, monótono e não potencia autonomia, pode ser disfuncional para a pessoa e implicar consequências negativas para a mesma (Peiró, Prieto & Roe, 2004).

Assim, como referido, parte da importância do trabalho para a pessoa depende das funções que cumpre para ela. Mas, apesar de cumprir toda uma série de funções positivas para os indivíduos, também, em certas ocasiões, pode ser negativo. A natureza do trabalho, as suas características e condições em que se dá vão determinar, em parte, as consequências ou os efeitos que este poderá ter para as pessoas. As funções do trabalho estão fortemente relacionadas com o significado que este tem para as pessoas e para os grupos sociais (Salanova, Gracia & Peiró, 2004).

Benzer Belgeler