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Depois dos pontos e questões que foram referidos e abordados anteriormente, podemos passar então para análise das condições de trabalho.

O trabalho, como forma de comportamento, podia ser analisado em referência a diversos sistemas. Todos os elementos destes sistemas constituem outros tantos factores ou determinantes do trabalho ou, como se diz mais concretamente, as condições de trabalho (Gasparini, Barreto & Assunção, 2005).

O problema das condições de trabalho é, antes de mais, social, económico e político. As soluções, de modo geral, debruçam-se nas relações de força existentes entre a empresa e a sociedade. O papel do Psicólogo, embora não determinante, pode contribuir e muito para uma melhor identificação das condições de trabalho, do seu papel e das suas consequências, para além de poder ajudar ainda à elaboração das soluções adequadas à sua modificação (Jardim, Barreto & Assunção, 2007).

O objectivo central da análise do Psicólogo é o comportamento dos trabalhadores, não fosse para estes especialistas o trabalho um comportamento que depende de condições, ou seja, as condições de trabalho. Desta forma, as condições de trabalho são um conjunto de factores que determinam o comportamento do trabalhador. Antes de mais, estes factores são constituídos pelas exigências impostas ao trabalhador, como o objectivo com critérios de avaliação (ter de executar algo com determinadas tolerâncias) e as condições de execução (ambiente físico, meios técnicos, regulamentos a ter em conta, etc.) (Sobrinho, Carvalho, Bonfim, Cirino & Ferreira, 2006).

Como já referido, por trabalho prescrito (tarefa), entende-se o conjunto de exigências que o comportamento terá de satisfazer. Já o comportamento, que vai ao encontro do trabalho real, depende também das características do operador humano, tais como, as físicas, as de personalidade, nível intelectual e conhecimentos, formação, etc.), que constituem uma classe de condições de trabalho no sentido em que são factores determinantes do comportamento. Deste modo, o comportamento do trabalhador, em resposta às exigências e de acordo com as suas características, traz- lhe determinadas consequências (carga de trabalho, fadiga, satisfação, entre outras) que, modificando as suas próprias características, podem reflectir-se no seu comportamento que, também se traduz por uma actuação, avaliável por um ou vários

critérios, que depende igualmente dos meios postos à disposição do trabalhador, em particular, do material que utiliza (Mauro, Paz, Mauro, Pinheiro & Silva, 2010).

A importância do trabalho e das condições de trabalho relacionadas com saúde ganhou destaque no novo código de ética médica, ao assinalar no item XII dos princípios fundamentais: O médico empenhar-se-á pela melhor adequação do trabalho ao ser humano, pela eliminação e controle dos riscos à saúde inerentes às actividades laborais; É vedado ao médico: deixar de esclarecer o trabalhador sobre as condições de trabalho que ponham em risco sua saúde, devendo comunicar o facto aos empregadores responsáveis (artigo 12) e deixar de esclarecer ao paciente sobre os determinantes sociais, ambientais ou profissionais de sua doença (artigo 13) (Lucca & Kitamura, 2012).

As influências do trabalho sobre a saúde dos trabalhadores são conhecidas desde a antiguidade e, ao longo do tempo, a compreensão das relações entre o trabalho e o processo saúde/doença foi crescendo progressivamente. Avanços em vários campos do conhecimento têm contribuído para isto, particularmente os da Epidemiologia, da Psicologia, da Sociologia, da Ergonomia, entre outros (Magnago, Lisboa, Griep, Zeitoune & Tavares, 2010).

Existe, deste modo, uma grande importância do conhecimento das inter-relações entre a saúde e o trabalho na prática diária. Como a maioria das doenças relacionadas ao trabalho apresentam um quadro clínico similar ao daquelas comuns, estabelecer o nexo com o trabalho muitas vezes não é tarefa fácil, em especial para o clínico que não está familiarizado com a anamnese ocupacional, com os factores de risco presentes no ambiente de trabalho e com as actividades desenvolvidas pelo paciente trabalhador (Ruiz & Araújo, 2012).

Desde a década de 80 que se assiste a uma progressiva importância atribuída à monitorização da saúde e segurança do trabalhador no seu local de trabalho a par de uma maior sensibilização, por parte das entidades responsáveis, para a necessidade de implementação de medidas mais eficazes de prevenção de riscos profissionais que contribuam não só para minimizar os elevados encargos económico-sociais deles decorrentes, como para promover o bem estar e qualidade de vida do trabalhador, condições estas essenciais quer à melhoria da sua produtividade quer ao reforço da sua competitividade (GEP, 2000).

À medida que a integração social, no seio da comunidade europeia, se desenvolve e o número de iniciativas ligadas ao ambiente de trabalho aumenta, maior é a

premência de dados mais abrangentes e homogéneos sobre as condições de trabalho, no espaço comunitário (Mauro, Paz, Mauro, Pinheiro & Silva, 2010).

Deste modo, a importância central atribuída a questões desta natureza pela OIT, aliada à necessidade de suprir carências de informação homogénea no espaço europeu, motivaram o lançamento, por parte da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho, de vários inquéritos, o último dos quais no ano 2000, que abordam aspectos diversificados das condições laborais nos diferentes Estados-Membros da União Europeia, designadamente a organização do trabalho (duração, ritmos, níveis de exigência, tipo de tarefas), a exposição a agentes de risco, os principais problemas de saúde ocupacional, o emprego precário, o trabalho feminino, as relações sociais no local de trabalho, entre outros (Uva, 2006).

Entre 1992 e 1993, no âmbito do ano europeu da saúde, higiene e segurança no trabalho, o DETEFP (Departamento de Estatística do Trabalho, Emprego e Formação Profissional) levou a cabo o inquérito de avaliação das condições de trabalho, na óptica da empresa, tendo-se dado primazia a questões relacionadas com os riscos laborais e as estruturas preventivas existentes nas empresas (GEP, 2000).

Contudo, as crescentes necessidades de informação no domínio das condições de trabalho, justificaram a inclusão, no inquérito realizado em 1999/2000, de dados suplementares, de âmbito mais alargado, associados a aspectos da realidade laboral não cobertos anteriormente, tais como as condições ergonómicas do exercício da actividade, informação mais detalhada do posto de trabalho, grau de autonomia do trabalhador, nível de absentismo e mobilidade no trabalho e, ainda, de entre outros elementos adicionais recolhidos através de entrevista directas junto dos trabalhadores (Chagas & Reis, 2014).

O impacto das condições de trabalho reflecte-se na qualidade de vida e, consequentemente, na saúde dos trabalhadores, existindo uma estreita relação entre as condições de trabalho e saúde do profissionais. Não só o desgaste físico e emocional, a má remuneração, a sobrecarga de trabalho, os horários e a distribuição do tempo de trabalho que são apontados como fatores que influenciam negativamente na qualidade de vida e, consequentemente, na saúde dos trabalhadores, como também os movimentos repetitivos, com posturas incorretas e sem pausas. Por conseguinte, a fadiga acumula-se, a capacidade para o trabalho diminui e aumenta o risco de desconforto e de dor, contribuindo para o aumento do absentismo ocupacional (Ruiz & Araújo, 2012).

Desta forma, o trabalho deve ser exercido em condições adequadas, caso contrário, a saúde do trabalhador pode ser prejudicada (Uva, 2006)

Geralmente, os problemas de saúde ocupacional aparecem associados a um conjunto de patologias oficialmente reconhecidas como doenças profissionais. As doenças profissionais em nada se distinguem das outras doenças, salvo pelo facto de terem a sua origem em fatores de risco existentes no local de trabalho. Estas doenças profissionais constituem apenas um dos aspetos das consequências negativas das más condições de trabalho sobre a saúde dos trabalhadores (Jardim, Barreto & Assunção, 2007).

Em Portugal, segundo o inquérito do Eurobarometer (2014), realizado entre os dias 3 e 5 de abril de 2014 e reuniu uma amostra de 26 571 pessoas dos 28 Estados- Membros, das quais 1 001 em Portugal, as condições de trabalho são más e, já não bastando isso, ainda pioraram. Mais de três quartos da população portuguesa (78%) declararam que as condições laborais pioraram nos últimos cinco anos e só 8% afirmam que melhoraram.

Para 61% dos inquiridos portugueses, as condições de trabalho (definidas pelo horário, organização, saúde e segurança no trabalho e relação com a entidade patronal) são más. Apenas 32% dizem ser boas. Quando questionados sobre o grau de satisfação ao horário de trabalho, 78% dizem estar totalmente satisfeito e 73% também estão satisfeitos com o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional (Chagas & Reis, 2014).

Quanto ao envolvimento dos trabalhadores nas condições de trabalho, cerca de 53% dos trabalhadores não foi consultado sobre mudanças na organização do trabalho e/ou nas condições de trabalho nos últimos 12 meses. Mas quando o tema é a situação financeira da empresa, incluindo uma possível reestruturação, 52% dizem ter sido informados (Eurobarometer, 2014).

Benzer Belgeler