As relações de trabalho subordinadas se caracterizam pela continuidade do trabalho prestado por uma pessoa física, pessoalmente, em troca de uma remuneração, integrada à organização produtiva empresarial e sob a sujeição das ordens do tomador acerca do modo de realização da prestação pactuada em
contrato. Essa relação é marcada e caracterizada, primordialmente, pelo binômio subordinação jurídica-poder diretivo. O trabalho subordinado reinante a partir da Revolução Industrial confere substrato para que o Direito do Trabalho surja e tutele marcadamente os trabalhadores inseridos na estrutura fabril fordista. Assim, a subordinação se torna a marca mundial da caracterização da relação de emprego tutelada pelo Direito do Trabalho.
A subordinação presente na relação de emprego deve ser analisada objetivamente e traduz-se na inserção das atividades do trabalhador na atividade empresarial, mediante a qual o trabalhador aceita a direção da prestação dos seus serviços quanto ao tempo, modo e lugar, ou seja, quanto às modalidades de sua prestação. É a integração do trabalhador na organização empresarial que acarreta na submissão do trabalhador às regras que exprimem o poder de direção do empregador.
Não cabe, portanto, no conceito de subordinação, a visão subjetivista de sujeição pessoal do trabalhador aos comandos do empregador; ao contrário, a subordinação atua sobre o modo de realização da prestação e não diretamente sobre a pessoa do trabalhador. Quer dizer, a atual configuração empresarial conta cada vez mais com trabalhadores livres e independentes dos comandos técnicos do empregador, de maneira que nas grandes empresas, devido à racionalização das funções, sua distribuição e a multifuncionalidade do trabalhador, a subordinação à ingerência do poder de direção como elemento de caracterização da relação de emprego é diluída, daí a necessidade de analisá-la sob o prisma objetivo, que visualiza a subordinação na inserção empresarial do obreiro.
É importante frisar, nesse sentido, que a subordinação atinge de maneiras diversas os empregados de uma mesma empresa, uma vez que existe em diferentes graus em razão da pessoalidade do trabalhador. Ou seja, pode ser estabelecida uma relação inversa entre a subordinação e o grau de pessoalidade na relação de emprego, assim, à medida que se tem um empregado de alto escalão, com alto grau de especialização, a subordinação diminui, haja vista as responsabilidades técnicas ou diretivas atribuídas a ele. Por outro lado, à razão que diminui o elemento da pessoalidade do trabalhador no âmbito empresarial, são menos relevantes suas qualidades e a sua identidade pessoal, o grau de subordinação aumenta, recaindo sobre esses trabalhadores de maneira incisiva as ordens oriundas do empregador.
Amauri Mascaro retrata esse fenômeno, apontando que a subordinação é nítida na base hierárquica da empresa, atenuando a sua incidência de acordo com o nível do trabalhador inserido na empresa. Aponta ainda que “quanto maior o número e a irrefutabilidade jurídica das ordens de serviço, mais clara estará a subordinação. Quanto menor o número de ordens, mais obscura será” 82.
Assim, em razão dessa dinâmica empresarial a visão subjetivista de sujeição do trabalhador ao poder de outrem, revelado pela dependência ou obediência de uma pessoa em relação às ordens de outrem, não é suficiente para caracterizar o trabalho subordinado, característico da relação de emprego. Devendo ser analisado outros critérios para a real aferição da subordinação, apesar dos julgadores estarem ainda hoje, bastante atrelados ao conceito mais subjetivista de subordinação.
Luisa Galantino destaca que a subordinação pode ser identificada como heterodireção da prestação, como inserção da prestação de trabalho na organização empresarial, pode ser identificada ainda, através da debilidade sócio-econômica do trabalhador e da alienação do resultado da sua prestação e, por fim, pode ser identificada como a prestação efetuada com continuidade sob a direção de outro sujeito, percebendo retribuição proporcional e suficiente pelo trabalho prestado83.
Diante de todas essas teorias que tentam identificar a subordinação, Luisa Galantino acolhe a que aponta a inserção do trabalho na organização da empresa como a que melhor representa uma construção unitária do seu conceito, uma vez que alcança e atinge não apenas os trabalhadores que prestam os seus serviços dentro do estabelecimento da empresa, mas também os trabalhadores em domicílio84 que têm os produtos objeto de seu trabalho, introduzidos no ciclo produtivo da atividade do empresário85.
No Brasil, o legislador ainda está bastante apegado à visão da subordinação como identificação da heterodireção do empregador concretizada pelo controle e supervisão do trabalho do empregado. Esse é o posicionamento adotado ao tentar aprimorar e esclarecer a análise da subordinação nos casos de trabalho em domicílio e a distância. O legislador brasileiro em dezembro de 2011 promulgou a
82 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Iniciação ao direito do trabalho. 27 ed. rev. e atual. São Paulo: LTr, 2012, p. 165-166.
83 GALANTINO, Luisa. Op. cit., p. 13. 84
A noção de trabalho em domicílio como trabalho subordinado está expressa no art. 1º, §2º da Lei n. 877 de 1973 da Itália, que o considera “prodotti ogetto dell’attivitá produtiva dell’imprenditore committente”.
Lei 12.551 que alterou o artigo 6º da CLT, principalmente, o parágrafo único, passando a dispor que “os meios telemáticos e informatizados de comando, controle e supervisão se equiparam, para fins de subordinação jurídica, aos meios pessoais e diretos de comando, controle e supervisão do trabalho alheio”.
Note-se que a nova redação desse parágrafo único, deixa claro que o legislador não considerou a integração da atividade do trabalhador na empresa como elemento identificador da subordinação, ao contrário, ficou preso à noção clássica, tradicional de subordinação que restringe o seu alcance ao elemento obediência-poder diretivo, retratando a visão subjetivista que considera a subordinação sob o prisma do poder de direção e do dever de obediência.
Apesar da nobre intenção do legislador em aclarar a configuração da relação de emprego nesses casos específicos, o legislador o fez a partir de critérios que reduzem o campo de incidência do direito do trabalho, uma vez que o alargamento ou a redução do conceito de subordinação acaba por influir no alcance da proteção juslaboral.
Há de ser ressaltado que esse movimento de redução do conceito de subordinação não ocorre apenas no processo de elaboração das leis, o Judiciário também mantém bastante arraigado em suas decisões essa visão restritiva da subordinação, excluindo da caracterização da relação de emprego as relações nas quais não há controle direto e efetivo por parte do empregador, tomador dos serviços, conforme se verifica do trecho de acórdão do Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região abaixo transcrito:
Diante disso, apresenta-se como elemento caracterizador do contrato de trabalho e diferenciador do trabalho autônomo a subordinação jurídica. Esta subordinação é caracterizada pela dependência do
trabalhador em relação ao empregador, que lhe fiscaliza o trabalho, bem como o cumprimento de diretrizes e ordens emanadas da empresa. (TRT 13ª Região. RO nº 0110400-
06.2009.5.13.0026. Des. Vicente Vanderlei Nogueira de Brito. Pub. 21.06.2011). (Grifos nossos).
O trabalho parassubordinado, por sua vez, tem como nota característica a coordenação e a dependência econômica do trabalhador. Por meio da coordenação, o trabalhador, juntamente com o contratante tomador dos serviços, ordena o método e as condições em que a prestação deverá se desenvolver, quer dizer, ambos atuam na organização do projeto a ser seguido pelo trabalhador, cabendo a este, dentro de
sua autonomia, determinar a melhor forma de executar a sua atividade, utilizando suas próprias instalações, materiais e instrumentos com vistas a alcançar a realização do programa que foi pactuado.
A coordenação, portanto, não se confunde com a subordinação. Em ambas as situações há a inserção do trabalho nas atividades produtivas da empresa, contudo naquela, o trabalhador tem liberdade para atuar com maior independência, sem os rígidos controles e fiscalizações presentes na situação de subordinação. Nesta, o trabalhador se encontra inserido na estrutura da empresa, de maneira que a incidência da direção, do controle, da aplicação de sanções disciplinares são mais evidentes e diretas.
Por outro lado, apesar das diferenças, tanto o trabalhador subordinado quanto o parassubordinado precisam de tratamento e atenção por parte de uma regulação protetora frente à sua fraqueza contratual. As duas figuras possuem em comum o fato de o trabalho ser prestado com pessoalidade, desenvolvido de forma não eventual através da venda da força produtiva do trabalhador, recebendo uma contraprestação onerosa que se traduz no meio de subsistência do trabalhador.
Nesse sentido, resta claro que o trabalhador parassubordinado não se confunde com o trabalhador subordinado nem com o trabalhador autônomo, encontrando características que o situam em uma posição intermediária. Diante dessa realidade, cabe analisar especificamente a situação do parassubordinado.