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Poster Bildiriler (PB-01 — PB-221)

Olgu 2: 49 yafl›nda erkek hasta 4 ayd›r yürürken bacaklarda uyuflma flikayetiyle merkezimize baflvurdu Abdominal BT’de;

Fonte: Foto de Marinez Garlet, 30.09.2009.

Desde o início do contato entre os colonizadores europeus e os Kaingang, as leis do Estado e as ordens religiosas andavam juntas atuando de forma específica e contundente sobre as crianças indígenas, com os objetivos explícitos de transformá- las em membros da sociedade então estabelecida e de incoporar os povos indígenas como brasileiros genéricos.

A citação abaixo retrata a relação violenta aplicada às crianças indígenas. Com o objetivo de batizá-las e incorporá-las ao trabalho, as ordens religiosas (jesuítas, carmelitas, franciscanos, mercedários) mascaravam isto com o apelo do “cuidado” que diziam ter por elas.

Desde seu descobrimento, em 1500, até 1822, o Brasil foi uma colônia de Portugal, dependendo econômica, política e administrativamente do poder

153 instalado em Lisboa. As leis e as ordens para as crianças também vinham de Portugal e eram aplicadas através da burocracia, dos representantes da corte e da Igreja Católica. A Igreja e o Estado andavam juntos, unindo a conquista armada e a religião. O cuidado com as crianças índias pelos padres jesuítas tinha por objetivo batizá-las e incorporá-las ao trabalho (FALEIROS; FALEIROS, 2007, p. 19).

Já com relação às leis do Estado, Marés de Souza Filho conta "uma história exemplar" para ilustrar o tratamento dado às crianças indígenas:

A índia Helena, mãe do menor Antônio Solimões, estava presente na sessão do dia 25 de outubro de 1898 do Superior Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão. Não entendia, seguramente, as palavras proferidas pelos doutores togados, mas sabia que estava em julgamento um habeas

corpus impetrado a favor de seu filho. Não tinha consciência dos direitos e

dos detalhes jurídicos, mas estava tensa porque um sinal de alerta dentro de si indicava que estava em risco o seu amor de mãe. De fato, Antônio fora confiado, pelo Juiz de Órfãos, aos cuidados de estranhos, de cuja casa fugiu para a companhia da mãe. O Juiz determinou que o menor fosse retirado do poder da índia Helena e devolvido ao estranho. Condoído com a situação, Mateus de Souza Lopes impetrou um Habeas corpus para cessar o constrangimento. A discussão foi acirrada e dois fundamentos foram apresentados pelo Relator Reis Lisboa para denegar a ordem: 1) a mãe natural não tem pátrio poder segundo a então vigente legislação; 2) os juízes de órfãos têm atribuições especiais em relação às pessoas e bens dos índios, e, em conseqüência, se a mãe não pode gerir sua própria vida, muito menos a de seu filho. A ordem é denegada apenas pelo segundo fundamento; no primeiro, o relator fica vencido (FILHO, 1993, p. 295/6).

Praticamente no limiar do Século XX, a legislação colocava os índios na condição de órfãos, e como tais não podiam ter o pátrio poder sobre seus filhos. Não podemos então dizer que só os portugueses agiam com violência, pois, neste caso, trata-se de um tribunal superior de um Estado, já em pleno período do Brasil republicano. Marés conclui assim sua história:

Isto quer dizer que, por ordem do Superior Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, no dia 25 de outubro de 1898, o menino Antônio foi retirado dos braços de sua mãe e entregue a um estranho porque a “índia Helena é verdadeira selvagem, como afirma o próprio impetrante, se vê da certidão de fls. 20 e se evidenciou de sua presença no Tribunal, ignorando inteiramente a língua portuguesa, cujo conhecimento é um dos requisitos da legislação especial para a entrada do índio na vida social, e que por essa razão deve estar ela mesma sujeita à jurisdição do juiz dos órfãos” (FILHO, 1993, p. 295/6).

O hábito de bater nas crianças para “educá-las” não fazia parte das culturas indígenas que habitavam o Brasil. Viviam em grupos, entre parentes, em famílias,

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com a rotina pautada na liberdade, observação e cuidado. Este “cuidado” era diferente daquele imposto pelos padres e pelo Estado, que objetivavam a transformação das crianças para explorá-las em trabalhos diversos, como domésticos, como coroinhas nas missas, como auxiliares diversos nos conventos e escolas, trabalhos estes nunca antes vivenciados pelos grupos indígenas.

No período colonial62, o Evangelho, a espada e a cultura estavam lado a lado na intenção de colonizar e catequizar os povos indígenas no Brasil.

Ao cuidar das crianças índias, os jesuítas visavam tirá-las do paganismo e discipliná-las, inculcando-lhes normas e costumes cristãos, como o casamento monogâmico, a confissão dos pecados, o medo do inferno (RIZZINI; PILOTTI, 2009, p. 17).

Mesmo que ambos, Estado e Igreja, tivessem os mesmos objetivos, incorporar e explorar, os métodos e fundamentos eram diferentes. O Estado usava métodos mais violentos e coercitivos. A ação da igreja era mais insidiosa, sutil, mascarada pelos fundamentos da ética cristã, movida pelo desejo de salvar as almas, adentrando as comunidades indígenas com a postura etnocêntrica, desrespeitosa, onde, com sua cultura européia, visava incutir a noção de família correta, desrespeitando o modo de viver desses povos.

Os padres, embora não aceitassem os castigos violentos e a matança de índios pelos portugueses, fundaram casas de recolhimento ou casas para meninos e meninas índias, nas quais, após separá-los de sua comunidade, impunham-lhes os costumes e normas do cristianismo, tais como o casamento religioso e outros dogmas, com o intuito de introduzi-los na visão cristã do mundo (FALEIROS; FALEIROS, 2007, p.19).

Caminhando assim, lado a lado, Estado e Igreja sequer consideravam os costumes e direitos indígenas. Queriam era trazê-los à civilização européia e cristã, queriam moldar os indígenas de acordo com os padrões do Estado Português e da Igreja Católica. E nada melhor para atingir esses objetivos do que agir sobre as crianças, desde a tenras idades. Com a ânsia de convertê-las, as crianças foram presas fáceis, através do método do afastamento de seus pais, da proibição de viverem sua cultura, do ensino de outra língua, da leitura, escrita, fala, canto e reza em latim.

62 O período colonial começa com a expedição de Martim Afonso de Souza, em 1530, e vai até a Proclamação da Independência por Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822. http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/primeiro-reinado/periodo-colonial.php. Acesso em 27.12.09.

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Também as crianças filhas de escravos negros sofreram com o etnocentrismo colonizador.

O escravo era elemento importante para a economia da época. Era mais interessante, financeiramente, para os donos das terras importar um escravo que criar uma criança, pois com um ano de trabalho, o escravo pagava seu preço de compra. As crianças escravas morriam com facilidade, devido às condições precárias em que viviam seus pais e, sobretudo, porque suas mães eram alugadas como amas-de-leite e amamentavam várias outras crianças (RIZZINI; PILOTTI, 2009, p. 18).

Conforme Rizzini e Pilotti (2009), as crianças escravas continuavam nas mãos dos senhores mesmo após a Lei do Ventre Livre em 1871. Os senhores tinham a opção de mantê-las até os 14 anos de idade, quando então podiam ressarcir-se de investimentos feitos, seja mediante o trabalho gratuito até os 21 anos, ou ainda sendo devolvidas ao Estado, mediante pagamento de indenização.

Estas breves citações e histórias confirmam o descaso histórico pelo qual a criança foi tratada ao longo de centenas de anos em nosso país.

Com a crescente urbanização e industrialização, no final do Século XIX, houve mudança no cenário político e econômico do país, onde a família passou a ser alvo dos higienistas através da criança. Segundo Rizzini (2008) o conceito de criança passou a ter um significado, bem como uma dimensão social, que até então não existia no mundo ocidental, onde,

A criança deixa de ser objeto de interesse, preocupação e ação no âmbito privado da família e da Igreja para tornar-se uma questão de cunho social, de competência administrativa do Estado (RIZZINI, 2008, p. 23).

Especialmente em relação às crianças, e este é centro de nossa pesquisa, a presença dos indígenas em meio urbano provoca reflexões ao que se pode chamar de tensão cultural. Os indígenas são um grupo culturalmente diferenciado, com leis e organização específicas, e como tais devem ser olhados, e isto também vale, evidentemente, para suas crianças. Devemos tentar tirar da frente de nossos olhos as máscaras e lentes que nos fazem ver nos outros o que somos e não o que eles são. Assim a garantia de direitos para esses segmentos, torna-se um desafio para os serviços públicos, ainda mais em se falando de crianças indígenas em suas relações com a sociedade envolvente. Para os povos indígenas, os cuidados com as

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crianças, seu aprendizado, suas rotinas, são orientados através da cultura e não das normas do Estado ou através de normas e moral religiosas.

A criança indígena tem papel muito importante dentro de sua sociedade particular. Reconhecer isto é assumir que ela é um ser completo em suas atribuições, é um ser ativo na construção das relações em que se engaja, sendo parte integrante da sociedade, participante e construtora de cultura (LANDA; NASCIMENTO, 2005, p. 08).

Na contemporaneidade, quando olhamos o mundo de hoje, o que vemos? Vemos milhares de desempregados, sem perspectiva de vida, de trabalho, de bem estar físico e mental. Vemos crianças sem escola, vemos dezenas de crianças sem lugar para dormir. Podemos dizer que são crianças do mundo? São crianças que sofrem com o abandono, com a fome, com a doença e o descaso. Mesmo num mundo onde há superabundância de alimentos, de produção de alimentos, há aproximadamente um bilhão de crianças e adultos que passam fome por pertencerem a uma sociedade onde o pobre não tem vez, nem lugar.

Não é esta a realidade que vemos nas crianças da Aldeia Por Fi, mesmo que elas estejam muitas vezes perambulando pelo centro da cidade, olhando as vitrines, pedindo um troquinho, vendendo artesanato nas sinaleiras. Elas não são crianças do mundo, estão em suas famílias, em seu grupo, protegidas e amparadas por elas e pela cultura Kaingang.

5.3.1 – Atividades produtivas e a comunidade Kaingang

Em São Leopoldo e Novo Hamburgo, é constante a presença de meninos e meninas indígenas nas ruas, entremeio aos carros, com o artesanato nas mãos. A abordagem aos fóg é o meio que encontrampara realizar a venda de seus materiais confeccionados na Aldeia Por Fi de São Leopoldo. Nas ruas, nos portões das casas, nas sinaleiras oferecem o artesanato e assim reforçam a economia doméstica dos pertencentes ao grupo que compõem a comunidade Kaingang.

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