Seguindo o estudo focado na sentença, importante é o exame de sua estrutura formal, com o fito de analisarmos a importância de cada um desses elementos na formação da coisa julgada.
A lei (art. 458) refere-se à essencialidade de três itens na sentença: relatório, motivação e dispositivo. O acórdão com conteúdo de mérito segue idêntica estrutura (art. 165), adicionando-se a necessidade de conter uma ementa, por exigência do art. 563, todos da Lei Processual.
O relatório conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo (art. 485, I). Dizendo de outro modo, a sentença deve conter relatório detalhado e suficiente, delimitando a área na qual serão feitas análises dos fatos e acontecimentos do processo que ensejarão o pronunciamento do magistrado.
Contudo, a jurisprudência, de maneira geral, tem abrandado a exatidão deste requisito e entendido que não há nulidade se o decisium possuir um relato sucinto dos fatos, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo. E, por vezes, nem mesmo falta de menção de peças ou referências equivocadas são vistas com rigorosidade125.
125 “A equivocada referência no relatório da sentença a execução de verba honorária, quando na
realidade trata-se de execução de crédito previdenciário, é irrelevante, posto que não repercutiu quer
na fundamentação do decisum, quer no convencimento do julgador, que extinguiu o feito após constatar ter havido o pagamento do débito exeqüendo (...)”. (TRF, 4ª R., AC n. 2005.04.01.027927-0, 1ª T., relatora Juíza Fed. Vivian Josete Pantaleão Caminha, DJU 14.11.2006, p. 705).
“(...). O fato de não haver constado do relatório, o oferecimento das contra-razões de apelação
A manifestação da jurisprudência encontra apoio na doutrina. Para Bedaque, o princípio da legalidade das formas e a diretriz da necessidade de observância de regras de procedimento devem ser lidos em conjunto com o objetivo de obtenção de resultado no processo. De maneira que, alcançado isso, deixa de ter relevância a forma estrita exigida. Se o relatório, neste caso, atingir seu fim, passa a ser irrelevante a decretação de nulidade126.
Assim, é forçoso concordar que, não obstante ser um requisito essencial, fundamentalmente só sua ausência ou a precariedade capaz de macular o desencadeamento do raciocínio do decisório sentencial tornará nulo o ato127.
Não se ignora, todavia, que pode existir norma desoneradora deste elemento, tal como ocorre na Lei 9.099/95. Perceba-se que, neste caso, ainda assim, determina-se que haja um breve resumo dos fatos relevantes ocorridos em audiência (art. 38).
O segundo componente do corpo sentencial é a fundamentação, onde o juiz analisa as matérias de fato e de direito, interpreta a lei e resolve os conflitos128. Imperioso destacar que, mais que apenas um elemento da sentença, a motivação é uma garantia e imposição constitucional (art. 93, IX), dirigida a todas as decisões dos órgãos do Poder Judiciário, sob pena de nulidade. Desta maneira, também as
prova dos autos e não nessa peça facultativa”. (TJPR, Edcl 0265031-7/01, Curitiba, 14ª C. Cív., Juiz
Conv. Gamaliel Seme Scaff, j. 25.10.2006).
Embargos declaração – prevenção – incompetência – nulidade inexistente – relatório – contra-razões
e sentença não mencionadas – inexistência de prejuízo – omissão – vício não demonstrado – rejeição
(TJMS, EDcl-AC-O 2004.011757-2/0001-00, Bandeirantes, 3ª T.Cív., rel. Des. Claudionor Miguel Abss Duarte, j. 20.12.2004)
“Preliminar de Nulidade da Sentença por Ausência de Fundamentação: O relatório é um requisito
essencial da sentença, porém, tão-só a sua ausência é que tornará nulo o ato, e não o fato de ser ele sucinto ou não fazer alusão expressa a todas as peças e provas presentes nos autos, bastando-se que exponha com clareza a suma do pedido e dos principais fatos ocorridos (art. 458, inc. I, do CPC).
Portanto, aqui não há se falar em nulidade da sentença, porquanto restou claro e indicado os motivos e razões que levaram o julgador monocrático a formar sua convicção e convencimento (art. 131, segunda parte, e art. 458, inc. II, do CPC). Preliminar rejeitada. Decisão Unânime”. (TJPE, AC n. 110009-8, rel. Des. Bartolomeu Bueno, DJPE 11.11.2005).
126 Esta é, aliás, a interpretação que o autor dá a qualquer tipo de nulidade – absoluta ou relativa (Direito e processo, p. 113-114).
127 Veja-se, a propósito, o julgado do TJSP, AC n. 215.449-4/6, 3ª CDPriv., rel. Des. Ênio Santarelli Zuliani, j. 4.12.2001: “Sentença sem relatório (art. 458, i, do CPC), que extinguiu, equivocadamente, ação revisional de alimentos instaurada por inicial tecnicamente apta ao desenvolvimento regular (art. 401 do CC – Falha que compromete a efetividade do serviço judiciário (art. 5º, XXXV, da CFRB), exatamente porque a não-confecção do relatório subtraiu a lógica do julgado. Nulidade também por dispensa inadequada da intervenção do Dr. Promotor de Justiça. Provimento, com recomendação”. 128 No mesmo sentido, Barbosa Moreira, no artigo “Sentença objetivamente complexa, trânsito em julgado e rescindibilidade”, ao afirmar que “na fundamentação o juiz não se restringe a ‘analisar’
decisões interlocutórias devem conter fundamentação.
A obrigatoriedade da motivação da sentença é inerente ao Estado de Direito129 e acaba por garantir o acesso à justiça, o direito de defesa e a
imparcialidade e independência do juiz e, conseqüentemente, do devido processo legal.
Uma vez que essa exigência não se limita às decisões judiciais, abrangendo também as administrativas, cabe lembrar a valiosa contribuição de Bandeira de Mello, lecionando que “motivação é a justificativa do ato”, razão pela qual se deve demonstrar “a relação de pertinência lógica entre seu supedâneo fático e a medida tomada”. Somente assim se poderá contestar o ato (leia-se, decisão) e saber se ele é idôneo segundo o que dispõe a lei130.
Já segundo a doutrina de Dinamarco e Liebman, ao motivar o juiz coloca os pilares ou suportes lógicos sobre os quais se apoiarão os preceitos a serem explicitados na parte decisória131, de forma que, a atividade meramente lógica é a motivação para as conclusões do juiz acerca dos pedidos.
Isso significa que, para a motivação ser apta a expor, ao final, preceitos imperativos, a partir das circunstâncias fáticas e jurídicas trazidas pelas partes e apresentadas no percorrer do processo, deve valorar o conjunto probatório existente e apresentar as normas legais aplicáveis junto com a interpretação dada a elas, sempre em contraponto com o trazido pelas partes132.
Então, formado o convencimento e justificada a convicção do julgador, tem-se “a construção dogmática sobre a qual irá fundar-se a dignidade e autoridade da decisão do ponto de vista jurídico-científico133”.
questões, senão que as ‘resolve’ para assentar as premissas da decisão” (Aspectos polêmicos e
atuais dos recursos cíveis e assuntos afins. São Paulo: RT, 2007, v. 11, p.174).
129 Segundo ensina Nelson Nery Jr., o estado de direito é anterior à própria norma constitucional, tanto que se constata a obrigatoriedade de motivação desde as Ordenações Filipinas. (Princípios do
processo civil na Constituição Federal. 8. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: RT, 2004, p. 215-216).
130 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Discricionariedade e controle jurisdicional, p. 98-100. 131 DINAMARCO, Candido Rangel. Capítulos de sentença, p. 24. LIEBMAN, Eurico Tullio. Manuale di
diritto processuale civile. 3. ed. Milano: Giuffrè Editore, 1976, v. III, p. 168.
132 Barbosa Moreira ensina que, na análise fática – que ao lado da jurídica compõe os dois aspectos essenciais da motivação –, deve o juiz se atentar a toda a prova produzida, explicando os porquês, por exemplo, que ele não se convenceu diante da prova produzida (é a necessária profundidade da motivação). (O que deve e o que não deve figurar na sentença. Temas de Direito Processual. Oitava série. São Paulo: Saraiva, 2004).
133 CRUZ E TUCCI, José Rogério. A motivação da sentença no processo civil. São Paulo: Saraiva, 1987, p. 17.
Sob o aspecto formal, José Rogério Cruz e Tucci afirma que é assente na doutrina a necessidade de a motivação ser expressa, clara, coerente e lógica. Será expressa quando revelar como interpretou e aplicou a lei ao caso concreto; clara, se compreensível de plano; coerente, fazendo com que as preliminares sejam examinadas antes do mérito (a economia processual também assim exige); e será lógica à medida que o convencimento do juiz for justificado através da análise congruente das alegações das partes e provas dos autos134.
A clareza da decisão propicia às partes a exata noção dos critérios e fórmulas adotados pelo julgador, afastando interpretações ambíguas ou equívocas. Sua falta pode gerar a nulidade da sentença, se esta se tornar inteligível e inexeqüível e, se o vício não for corrigido até o trânsito em julgado, será cabível sua rescisão135.
Discute-se a possibilidade de se utilizar como motivação as razões de decidir adotadas em outro grau de jurisdição ou em um parecer. O caso é freqüente na praxe forense, mas deve ser empregado com bastante cautela, já que para se cumprir o preceito da Constituição o magistrado deve apontar o motivo do acerto da citação que adota de forma completa, inteligível, possibilitando sua impugnação, caso haja interesse136,137.
Cabe lembrar que o art. 459 do CPC admite decisão de forma concisa nas sentenças de extinção sem julgamento do mérito – mesma técnica de
134 CRUZ E TUCCI, José Rogério. A motivação da sentença no processo civil, p. 18-21.
135 É o que sustenta Humberto Theodoro Júnior (Curso de direito processual civil, p. 550) e a jurisprudência, como no acórdão do TRT 20ª R. (relatora Juíza Maria das Graças Monteiro Melo, j. 30.8.2005): “Existência de lacuna na fundamentação – Ausência de clareza – Nulidade da sentença – É nula a sentença que exibe em sua fundamentação lacuna que não deixa claro o posicionamento do juiz sobre determinada matéria”.
136 O Supremo Tribunal Federal assim decidiu no MS 25518/DF, TP, rel. Min. Sepúlveda Pertence,
DJU 10.8.2006, p. 20: “Nada impede a autoridade competente para a prática de um ato de motivá-lo
mediante remissão aos fundamentos de parecer ou relatório conclusivo elaborado por autoridade de menor hierarquia (AI 237.639-AGR, 1ª T., Pertence, DJ 19.11.99). 2. Indiferente que o parecer a que se remete a decisão também se reporte a outro parecer: O que importa é que haja a motivação
eficiente – na expressão de Baleeiro, controlável a posteriori. 3. Ademais, no caso, há, no parecer
utilizado pela autoridade coatora como razão de decidir, fundamento relativo à intempestividade do recurso, suficiente para inviabilizá-lo, o que dispensa a apreciação das questões suscitadas pelo impetrante”.
137 Na doutrina, vale a lição de Nelson Nery Jr.: “É fundamentada a decisão que se reporta a parecer jurídico constante nos autos, ou às alegações das partes, desde que nessas manifestações haja
exteriorização de valores sobre as provas e questões submetidas ao julgamento do juiz” (grifos
nossos) (Princípios do processo civil na constituição federal, p. 218). Ainda, Barbosa Moreira, que denomina a referência à outra peça de “motivação per relationem” e aduz: "ela pode ser admitida, por amor à economia processual, em hipóteses de rotina, quando haja realmente nos autos peça bem elaborada, que abranja todos os pontos relevantes. Mas, deve constituir exceção, jamais regra" (O que deve e o que não deve figurar na sentença, p. 121).
fundamentação adotada nas interlocutórias (art. 165). Todavia, a concisão não quer significar escassez de fundamentação. Nesta, deve-se igualmente explicitar as razões de enquadramento nas hipóteses legais e, como adverte Scarpinella, analisar eventual discussão travada entre as partes sobre o assunto, justificando a decisão, mesmo se a identificação do motivo extintivo for de ofício138.
Por derradeiro, o terceiro elemento – o dispositivo – nada mais é senão a conclusão da lide, local em que o juiz expõe a(s) resposta(s) ao(s) pedido(s), com força de imperatividade139. Enquanto que a fundamentação tem correlação com a causa de pedir e razões de refute do réu, o dispositivo vincula-se ao pedido, e somente esta última parte tem aptidão de acobertar-se pela coisa julgada140.
Sendo assim, é assente na doutrina que os recursos, como remédios impeditivos da formação da coisa julgada, bem como a própria ação para rescisão desta, têm como objeto de ataque a parte dispositiva da sentença, uma vez que somente haveria interesse de agir caso a impugnação se destinasse a modificar esta parte, que é a capaz de acarretar prejuízo a alguém – ressalvada, por óbvio, a insurgência contra o relatório ou fundamentação nulos.
Esta é a regra geral. Mas, não seria possível recurso para alterar a fundamentação e não o dispositivo da sentença? Em que pese o art. 469 do CPC expressamente afastar os efeitos da imutabilidade sobre a fundamentação, ainda que relevante, há situações em que a própria lei dá tratamento diferenciado à coisa julgada a depender da motivação da sentença.
Nas ações para a defesa de direitos difusos ou coletivos, como veremos, a coisa julgada forma-se segundo o evento probatório, ou seja, se a sentença julgar improcedente o pedido por falta de provas o art. 103 do CDC permite a repetição da ação baseada em prova nova. Caso contrário, a repropositura pelo autor coletivo
138 SCARPINELLA BUENO, Cássio. Comentário ao art. 459. In: MARCATO, Antonio Carlos (coord.).
Código de Processo Civil interpretado. São Paulo: Atlas, 2004, p. 1.438.
139 Considerando-se uma sentença de mérito pura (art. 269, I), já que nos demais casos será a síntese conclusiva imperativa da fundamentação não se relaciona diretamente com o(s) pedido(s) da demanda. “No dispositivo, o juiz poderá, conforme o caso: anular o processo, declarar sua extinção, julgar o autor carecedor da ação (ilegitimidade ad causam), ou julgar o pedido procedente ou improcedente”. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil, p. 550.
140 É precioso o resumo de Candido Rangel Dinamarco: “os fundamentos da demanda constituem uma tese, à qual se opõe a antítese representada pelos fundamentos da defesa, sobrevindo a síntese contida nos motivos da sentença” (Capítulos de sentença, p. 62 – grifos originais).
não será possível. Diante disso, o fundamento per si é capaz de trazer gravame141
ao réu que, mesmo vitorioso, somente terá a segurança da imutabilidade da sentença se o resultado for “improcedente com base nas provas”, hipótese em que há o interesse recursal restrito à mudança do fundamento, se diferente deste. O autor, por sua vez, pode desejar que, na hipótese de improcedência, seu conjunto probatório seja considerado insuficiente, a fim de ser permitida nova ação no futuro.
Parece caminhar no mesmo sentido a parte que, não obstante sair vitoriosa da demanda, pretender recorrer para alterar o fundamento da decisão, sempre que seu pedido tiver fundamentado em mais de uma lei ou interpretação desta, e o juiz fundamentar a decisão em norma ou interpretação em que paire risco de ser declarada inconstitucional. Isto em face do polêmico art. 475-L, § 1º142, que enuncia ser inexigível o título baseado em lei ou ato normativo tido ou declarado pelo Supremo incompatível com a Constituição Federal. Igualmente, visando à segurança e à indiscutibilidade do futuro título, a parte terá interesse em atacar tão somente a fundamentação da sentença.
Resta por fim destacar, adiantando posição que será mais vagarosamente examinada, que, porquanto sejam requisitos essenciais de validade, a deficiência de qualquer dos elementos da sentença enseja sua nulidade absoluta143, que pode ser sanada até o trânsito em julgado ou por meio da ação rescisória144.