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A relação entre Revolta e Revolução é um tema desenvolvido no ensaio L’Homme révolté, conforme escreve Camus em sua resposta à F. Jeanson, publicada pela revista Les Temps Modernes: ―J‘ai entrepris avec L’Homme révoltéune étude de l‘aspect idéologique des révolutions‖ (CAMUS, 1965, p.759). Ou ainda, no prefácio a Moscou au temps de Lénine, de Alfred Rosmer: ―La seule question qu‘on puisse poser à la révolution, la révolte seule est fondée à la poser, comme la révolution est seule fondée à interroger la révolte. L‘une est la

limite de l‘autre‖ (CAMUS, 1965, p.789). Trata-se de um ensaio em que Camus, mais do que fazer uma história ou uma filosofia das revoluções, busca expor suas posições quanto à temática da Revolta e trata de forma direta os métodos do stalinismo.

Camus refletia sobre a Revolta há algum tempo, desde 1943, pelo menos, e, em 1945, redigiu algumas páginas sobre o tema. Em L’Homme révolté, publicado em 1951, ele retoma a reflexão sobre a Revolta e aborda ao mesmo tempo a política, o social e o literário. Põe em questão as ideologias falsificadoras do humano e da história e afirma sua recusa dos totalitarismos e das ―utopias absolutas‖, questionando a revolução violenta de tipo comunista. O ensaio de Camus exprime o estado de espírito de muitos homens decepcionados com o comunismo e gera violentas polêmicas literárias e, sobretudo, políticas. A mais conhecida é aquela que pôs fim à amizade entre ele e Sartre (TODD, 1996, p.755). Sartre se ofende, sobretudo, com as críticas dirigidas à esquerda, para ele a revolução comunista não pode ser posta em questão.

Embora apontado como superficial, por ocasião da polêmica com Les Temps Modernes, L’Homme révolté é resultado de um vasto trabalho de pesquisa e de um longo período de gestação, que vai de 1943 a 1951 e que coincide, em parte, com a redação da Peste. No ensaio, Camus se pergunta se os fins justificam os meios e responde que nada justifica o crime, daí sua crítica do marxismo configurado em stalinismo totalitário e violento. Mas a Revolta é fundamentalmente afirmação e não recusa estéril. A Revolta é uma resposta ao Absurdo, ela dá ao homem o meio de se definir a si próprio, de encontrar sua identidade ao tomar consciência do que ele quer e do que ele rejeita.

Camus não aprova a revolução a qualquer preço e critica a violência que se manifesta em todos os movimentos totalitários do século XX. Para ele, o comunismo stalinista se tornou uma ideologia, justificando inumeráveis formas de repressão. A questão é buscar uma forma de transformação social que não se sirva de uma violência presente e ―necessária‖ como

justificativa de um hipotético futuro melhor. Neste sentido pensamos poder compreender sua afirmativa: ―Mon projet dans l’Homme révolté a été constant: étudier une contradiction propre à la pensée révoltée et en rechercher le dépassement‖ (CAMUS, 1965, p.750).

Assim, Camus não aprova os métodos violentos da revolução, mas destaca seu papel como luta contra a situação de dominação; ele combate os sistemas políticos que perpetuam a desigualdade entre os homens e a injustiça na sociedade e não aprova a atitude de resignação nem de pretensa abstenção diante dos conflitos sociais e políticos. Para Camus o combate da miséria deve estar associado à defesa da liberdade. É por causa do aspecto dogmático, repressor e violento do partido comunista que Camus dele se afasta.

Camus foi um grande crítico de seu momento, marcado por desigualdades sociais, pelo totalitarismo político e pela violência. Uma forma de engajamento buscada por ele, quando era ainda jovem, foi a filiação ao Partido Comunista, visto certamente como uma alternativa ao sistema vigente. Seu curto envolvimento com o partido comunista pode ser compreendido à luz de sua batalha contra a miséria, que ele e sua família conheceram de perto na Argélia. Camus conhecia as mazelas do sistema capitalista: sua luta por uma sociedade diferente e seu combate em favor da liberdade e da justiça são formas de oposição a tal sistema. Por várias vezes, afirma detestar a ―sociedade do dinheiro‖, mas sua discordância com relação ao sistema capitalista se mostra mais pelo seu engajamento sócio-politico e por suas atividades do que por seu discurso. Muito rapidamente, Camus se decepcionou com o Comunismo e dele se desligou, pois este não correspondia a seus ideais de liberdade e de justiça social.

Mais tarde, depois da Segunda Guerra, Camus sabia que o mundo estava extremamente polarizado e que quem não era aliado do Comunismo era considerado amigo do capitalismo. Neste contexto, suas críticas ao partido estavam sujeitas, de imediato, a mal- entendidos. Mesmo assim, preferiu se manter fiel a suas concepções e, sob o risco de ser

acusado de defensor do capitalismo, criticou no Comunismo o dogmatismo, o totalitarismo, o cerceamento da liberdade, a violência e a morte.

Camus considera que tanto o comunismo quanto o liberalismo ocidental se tornaram ideologias por dissimularem e justificarem inumeráveis formas de repressão, cobertas com um discurso de liberdade. Para ele nada justifica o crime, daí sua crítica do marxismo stalinista totalitário e violento, que começa combatendo a injustiça e termina promovendo o crime e a condenação à morte. O autor recusa o capitalismo, mas também o marxismo, porque geram a violência em nome de uma visão de mundo fechada.

Sobre o existencialismo, Camus afirma que ele apresenta duas formas:

L'une avec Kierkegaard et Jaspers débouche dans la divinité par la critique de la raison, l'autre, [...] l'existentialisme athée, avec Husserl, Heidegger et bientôt Sartre, se termine aussi par une divinisation mais qui est simplement celle de l'histoire, considérée comme le seul absolu. On ne croit plus en Dieu, mais on croit à l'histoire (CAMUS, 1965, p.575).

Ambas as formas do existencialismo, da mesma maneira que o comunismo, divinizam a história e se tornam uma espécie de religião. Portanto, em L'Homme révolté, Camus recusa igualmente o cristianismo, o existencialismo e o marxismo. Em seu ensaio, ele não nega o aspecto histórico da Revolta, mas critica a violência nos movimentos totalitários do século XX, recusa o aspecto violento do comunismo, o totalitarismo do Estado e o aspecto dogmático das ideologias.

Estas recusas de Camus se mostram presentes não só no ensaio, mas também na Peste, em que o autor rejeita tanto a religiosidade do padre Paneloux quanto a ação revolucionária do primeiro Tarrou, porque esta, mais cedo ou mais tarde, torna-se ideologia e cai na opressão e no crime. Se identificamos, portanto, em L'Homme révolté, uma relação entre moral e política, entre teoria e prática, essa relação está, igualmente, presente no romance, da mesma forma que a recusa da dimensão teológica e religiosa. No romance, o que está em questão é uma moral e não uma metafísica. A luta dos personagens é expressão da Revolta e mostra a

dialética com o Absurdo: ―Il reste surtout ce bouleversant témoignage de la seule dignité de l‘homme: la révolte tenace contre sa condition‖ (CAMUS, 1965, p.1190). Na Peste, a rejeição do dogmatismo e da violência, e a crítica da revolução por todos os meios, crítica que atinge diretamente o stalinismo, está presente de forma mais direta na caracterização do personagem Tarrou e no relato sobre seu itinerário político (cf. acima p.45, 57 e 58).

A crítica de Camus ao espírito dogmático e burocrático, bem como a recusa da violência e do crime já estava presente, de certa maneira, em L’Étranger, através do personagem Meursault, que rejeita o consolo do padre e rejeita igualmente o dogmatismo encarnado pelos juízes, pela convenção e pela burocracia, que resultam na pena capital, na morte, que lhe é imposta. Por contraste com os magistrados e com o padre que o procura, Meursault se destaca como alguém que não entra no jogo da sociedade corrompida pelo desprezo à vida, pela hipocrisia, pela visão estreita e pela obediência servil às convenções; ele se recusa a mentir.

Da mesma forma que a religião, seja ela qual for, não pode justificar o aniquilamento da existência humana com a promessa de uma eternidade feliz, o comunismo não pode servir- se da violência e da morte, ainda que de um só indivíduo, para estabelecer a sociedade futura historicamente perfeita, mas configurada apenas como projeto. Se a religião tenta fornecer aos homens uma explicação pronta dos acontecimentos, a ideologia política também pode se tornar autoritária e controladora, assumindo a pretensão de agir no lugar dos cidadãos, que seriam meros espectadores passivos ou agentes controlados pelas decisões tomadas de cima para baixo. As ideologias, criticadas no ensaio, encontram na abstração um meio de sacrificar a pessoa humana ao sistema.

Kant, em seu célebre artigo Réponse à la question: Qu’est-ce que les lumières, identifica a religião e o Estado como as instituições que mais se esforçam por manter o

homem em sua situação de minoridade, ou estado de tutela, que é exposta logo no início do texto:

Les Lumières, c‘est la sortie de l‘homme hors de l‘état de tutelle dont il est

lui-même responsable. L‘état de tutelle est l‘incapacité à se servir de son

entendement sans la conduite d‘un autre. On est soi-même responsable de

cet état de tutelle quand la cause tient non pas à une insuffisance de

l‘entendement mais à une insuffisance de la résolution et du courage de s‘en servir sans la conduite d‘un autre. Sapere aude! Aie le courage de te servir de

ton propre entendement! (KANT, 1991, p.43)

Camus, que se posiciona contra todos os sistemas muito certos de si mesmos, mostra- se inimigo dos sectarismos e afirma que não se deve substituir um dogmatismo por outro. Paradoxalmente, o comunismo ateu e crítico da crença religiosa acabou por se revelar um substituto materialista do cristianismo, ao assumir o aspecto dogmático de uma religião, com sua hierarquia burocrática e dominadora, com sua doutrina, seus ritos, sua ética, seu "index" e sua "inquisição".

Num manual de literatura francesa, em volume único e que tenta abordar todos os autores franceses do programa (conforme o subtítulo da obra : Anthologie-Histoire de la Littérature française des origines à nos jours) e que, por isso mesmo os aborda de maneira bastante sucinta, encontramos uma qualificação de L’Homme révolté como sendo uma obra anticomunista (cf. DENOEU, 1967, p.536).

Há no manual uma página sobre dados biográficos de Camus e breves comentários sobre suas obras, e seis páginas reproduzem um excerto da Peste, em que se narra a tentativa fracassada do doutor Rieux para salvar o filho do juiz Othon, a agonia e a morte da criança. O autor identifica uma espécie de virada na produção de Camus a partir de 1947 e escreve: "son pessimisme s‘atténua; de plus en plus se fit jour dans son oeuvre un espoir concret pour la destinée humaine".

Pensamos que se pode questionar tanto o rótulo de "pessimista" para o primeiro ciclo da obra camusiana quanto esta guinada na produção de Camus, se considerarmos que o autor

desenvolve a passagem do Absurdo à Revolta, de L’Étranger a La Peste, cumprindo um plano pré-estabelecido, no qual um tema se desenvolve em função do outro.

O autor do manual conclui seus comentários afirmando que "Camus a condamné l‘existentialisme". Para as obras posteriores a 1949, os comentários são mais concisos e dados entre parênteses, após a data de publicação. Sobre L’Homme révolté, lemos o seguinte: "1951, études anti-communistes sur des révoltés fameux : Satan, Caïn, Spartacus, Sade, Saint-Just, Bakounine, Dostoïevski, Marx, Lautréamont, Rimbaud, Nietzsche, Lénine."

Chamou-nos a atenção o fato de que o autor do manual tenha destacado em sua análise o aspecto "anticomunista" de L’Homme révolté. A classificação dualista, comunista ou anticomunista, inerente ao manual se explica, em parte, pela tensão própria à época em que tal manual foi lançado; a edição de que nos servimos é de 1967, mas ele foi publicado primeiramente em 1957, portanto, em pleno período da guerra fria e da acentuada polaridade entre Leste e Oeste, União Soviética e Estados Unidos, Comunismo e Capitalismo. Além do momento, podemos considerar também o local de publicação, pois o livro foi lançado e utilizado nos Estados Unidos, trazendo o prefácio e as notas em inglês (Cf. DENOEU, 1967, p.536).

Marcar a obra de Camus como anticomunista é inexato, entretanto, o autor do manual, mais do que cometer simplesmente um ato de desconhecimento ou de má-fé, parece mostrar uma atitude típica do ambiente político em que se vivia e que atingia de alguma forma a literatura e seu estudo. Como Camus, outros autores foram categoricamente taxados de anticomunistas.

Esta maneira de se dividir autores e obras conforme seu posicionamento em face do regime comunista parece ter sido provocada pela rivalidade norte-americana e pelo próprio regime comunista que, como configuração ideológica fixa e radical, não admitia meios termos nem questionamentos. Quem não era declaradamente comunista e fazia críticas ao sistema era

marcado como anticomunista. O próprio regime classificava de forma dualista e maniqueísta autores e obras. Camus, como outros autores, teve o acesso a suas obras proibido nos países em que o comunismo era regime político oficial, como na China, onde seus livros foram banidos durante décadas:

À la suite de la fondation de la Chine populaire, durant trente ans, de 1949 à

1979, la Chine a prohibé les oeuvres de l‘écrivain français Albert Camus ; et sa personne n‘a jamais été présentée dans ce pays (WU, Shaoyi. In :

DUBOIS, 1995, p.283).

Também na França, muitos comunistas viram em L’Homme révolté uma obra anticomunista, sobretudo depois das polêmicas de Camus com François Mauriac, André Bréton e com Sartre a propósito do ensaio, e com Gabriel Marcel, a respeito de L’État de siège. Destas polêmicas, a mais intensa foi aquela com Sartre e sua revista, Les Temps Modernes; dela tratamos no capítulo seguinte.

Benzer Belgeler