I. BÖLÜM
3.8. Verilerin analizi
As querelas, espaço privilegiado do interdiscurso, devido ao confronto de opiniões divergentes, fazem parte da história da literatura francesa, marcada pela ação de escritores engajados em questões sociais. Freqüentemente, as correntes literárias se impõem através da oposição a posicionamentos anteriores. Uma polêmica opôs o humanismo devoto ao jansenismo, no início do século XVII; no fim deste mesmo século, ocorre a famosa querela entre "os Antigos e os Modernos", retomada de certa maneira pelos românticos, defensores da liberdade e da inspiração do artista contra as regras formais do Classicismo. No século das Luzes, Rousseau e Voltaire travaram uma verdadeira batalha. No início do século XX, "a questão Dreyfus", desencadeada pelos intelectuais revisionistas, tornou-se, na França, uma questão nacional.
Quanto a Camus, sua polêmica mais conhecida foi com Jean-Paul Sartre, em 1952. Entre os numerosos grandes escritores do século XX, Sartre et Camus ocuparam uma posição de destaque. Ambos atuaram em diversos campos, como o da literatura, da filosofia, da dramaturgia e do jornalismo. Em 1952, já dispõem de um grande renome, obtido durante a Resistência e o imediato pós-Segunda Guerra, e encarnam a figura do intelectual engajado. Isto contribuiu para que a polêmica entre eles fosse amplamente mediatizada e adquirisse grandes dimensões.
A controvérsia foi suscitada pela publicação de L’Homme révolté, em 1951, e, em parte, prevista por Camus. Bom conhecedor do ambiente social, cultural e acadêmico de sua época, ele pôde imaginar que as críticas dirigidas à revolução de tipo stalinista produziriam reações adversas. O autor, que se engajou politicamente muito jovem, tendo inclusive se filiado ao Partido Comunista na Argélia por um curto período, estava a par dos grandes
embates políticos que se travavam na sociedade e já em 1935, através de seu teatro, entrava na luta contra a ameaça nazista.
Camus conhecia igualmente o espaço editorial e mantinha contato com grandes escritores, como André Malraux e André Gide, este último apadrinhava a revista L’Arabe, criada em 1944, em Argel, e dirigida por Jean Amrouche, tendo como comitê diretor Maurice Blanchot, Jacques Lassaigne e o próprio Camus. Nesta revista, Camus publicou, em fevereiro de 1946, Le Minautore (DJEMAÏ, In: DUBOIS, 1995, p.62).
Camus e Sartre são contemporâneos e vivem num momento marcado por guerras, revoluções e conflitos sociais. Eles propõem uma vasta transformação social e afirmam a responsabilidade social do escritor que, colocado numa dada situação histórica, é condenado a exercer sua liberdade tomando posição. Ateus, eles afrontam o problema de buscar as bases de uma moral quando não se crê em Deus. Próximos sob muitos aspectos, os dois escritores têm, contudo, particularidades essenciais e tomam posições estéticas e políticas diferentes e, às vezes, conflitantes.
Toda obra, para além de seu interesse literário ou filosófico, inscreve-se num contexto que lhe confere uma significação particular e, de forma especial, as obras de autores preocupados com a sociedade da qual fazem parte. Camus e Sartre, e sua obras, são inseparáveis de seu contexto, que é explicitamente discutido em função do engajamento dos autores. A amizade entre eles teve seu apogeu imediatamente depois da "Liberação" e a ruptura se deu sob o impacto da Guerra Fria e da agravação do conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Antes do contato pessoal, os dois escritores se conheceram através de seus textos. Em 1938, Camus tratou de La Nausée e, em 1939, de Le Mur.8 Em 1942, Sartre escreveu sobre L'Étranger.9 Camus comunica a Jean Grenier seu sentimento sobre o artigo de Sartre:
L'article de Sartre est un modèle de "démontage". Bien sûr, il y a dans toute création un élément instinctif qu'il n'invisage pas. L'intelligence n'a pas si belle part. Mais en critique, c'est la règle du jeu et c'est très bien ainsi puisqu'à plusieurs reprises il m'éclaire sur ce que je voulais faire. Je sais aussi que la plupart de ses critiques sont justes, mais pourquoi ce ton acide? (CAMUS & GRENIER, 1981, p.88)
Por fim, Camus encontra pessoalmente Sartre e Simone de Beauvoir, em junho de 1943, durante uma apresentação de Les Mouches. Camus não gosta de ver seu nome atrelado ao de Sartre, mas este, viajando pelos Estados Unidos, em entrevistas, faz elogios a seu amigo. Para a revista Vogue, em 1945, Sartre afirma que a Resistência ensina que a literatura não é uma atividade fútil, independente da política e que se podem distinguir duas gerações de escritores franceses, uma de antes da guerra – Maurice Blanchot, Georges Bataille e Jean Anouilh, e outra que compreende Michel Leiris, Jean Cassou e Albert Camus. Para Sartre, Camus seria o arquétipo do escritor engajado (cf. TODD, 1996, p.541).
Em seus encontros, Camus e Sartre discutem sobre política. Sartre pensa que é preciso escolher: caminhar com os comunistas ou contra eles, com os Estados Unidos ou com a União Soviética. Camus também tenta pensar a revolução, mas imagina uma Revolta que evitaria ao máximo possível a violência e o sangue. Segundo Olivier Todd, Simone de Beauvoir e Sartre teriam, diferentemente de Camus, pontos de vista muito maniqueístas (cf. TODD, 1996, p.542 e 545).
Em 1951, antes da publicação de L'Homme révolté, Camus publica fragmentos do ensaio em algumas revistas; Les Cahiers du Sud publicam o capítulo sobre Lautréamont.
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Os artigos foram publicados no jornal Alger républicain, respectivamente, em 20 de outubro de 1938 e 12 de março de 1939, e estão reunidos em CAMUS, 1965, p.1417-1422.
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Trata-se do artigo "Explication de "L'Étranger", publicado em fevereiro de 1943. Cf. SARTRE, 1947. p.92-112
Logo surge no semanário Arts um artigo de André Breton, que acusa Camus de conformismo. Na sua resposta, Camus afirma que se esforçou para mostrar justamente que o niilismo é gerador de conformismo e servidão e contrário às lições da Revolta.
O livro é lançado em novembro e os primeiros ataques vêm da imprensa comunista. A imprensa de direita se limita a resumir ou parafrasear as passagens dedicadas ao comunismo e a Marx, acentuando a crítica do marxismo presente no livro e ignorando praticamente as considerações literárias, concentradas no capítulo "Révolte et art". A esquerda intelectual não- comunista manifesta-se em France-Observateur, dirigido por Claude Bourdet, que define Camus como um intelectual de esquerda não comunista. Para Bourdet, é preciso trabalhar com os comunistas franceses, apesar de sua submissão aos Soviéticos. Camus recusa esta posição.
Em novembro de 1951, Sartre solicita ao comitê de redação de sua revista Les Temps Modernes um voluntário para fazer a resenha de L'Homme révolté. Em fevereiro de 1952, Sartre encontra Camus num bar e lhe informa que a crítica da revista não vai ser favorável.
Francis Jeanson publica, em maio de 1952, em Les Temps Modernes, seu violento artigo sobre o ensaio: ―Albert Camus ou l‘âme révoltée‖. Jeanson julga que Camus é incapaz de passar da revolta metafísica à revolta histórica, que se configuraria na atuação do Estado comunista; ele não admite que Camus tenha questionado Hegel e Marx e não aceita suas simpatias pelo sindicalismo revolucionário ou sócio-democrata dos países escandinavos. Camus teria feito uma pseudo-filosofia e uma pseudo-história das revoluções.
A revista informa a Camus que publicaria uma resposta sua. Datada de 30 de junho de 1952, a réplica é publicada no número de agosto de Temps modernes.10 Camus não nomeia Jeanson e começa seu artigo com um ―Monsieur, le Directeur‖, por considerar que o diretor é
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Essa resposta de Camus foi enviada em forma de carta a Les Temps modernes, Cf. CAMUS, 1965, p.754.
solidário do artigo, o que irrita Sartre. Em sua resposta, Camus tenta mostrar que seu livro não nega a história, mas critica a atitude que busca fazer dela um absoluto. Ele lembra uma nota do livro em que afirma que Marx mistura em sua doutrina ―um método crìtico muito válido e um messianismo utópico muito contestável‖. Poucos sabem em Paris que Camus fora membro do partido comunista.
Sartre responde por sua vez e ataca tanto a obra quanto seu autor; usa fórmulas tocantes, nomeando seu adversário, e dá suas lições, dizendo que, para merecer o direito de influenciar os homens que lutam, é preciso primeiro participar de seus combates; embora ele próprio tivesse se preocupado pouco com as questões sociais antes da Segunda Guerra, quando Camus já se engajava. Sartre suaviza o tom e conclui o artigo dizendo esperar que o silêncio faça esquecer a polêmica. Entretanto, Jeanson escreve um novo artigo, com novos insultos e a mesma violência.
À época, Sartre tentava conciliar existencialismo e marxismo e se aproximava dos comunistas; para ele, o PCF representa a classe trabalhadora. Quanto à URSS, apesar dos campos soviéticos, continua dando a imagem do socialismo. Sartre crê ainda no socialismo de face humana, para o futuro. Ele não adere nem ao stalinismo nem ao PCF, mas não quer romper com o partido, pois ainda acredita no empreendimento revolucionário que o PCF encarnaria a longo prazo (cf. TODD, 1996, p.786). Para Camus, os crimes do totalitarismo devem ser denunciados sem esperas nem circunstâncias atenuantes. Assim, para além dos ataques pessoais ou literários, o núcleo da polêmica é a divergência quanto ao comunismo.
Em Les Mains Sales, Sartre levanta o problema dos fins e dos meios, mas numa ótica deliberadamente política (cf. SARTRE, 1948). Hoederer e seus camaradas de partido são confrontados a um problema concreto de tática e de aliança. A questão que lhes interessa não é saber se é moral se "sujar as mãos", mas determinar o que é politicamente eficaz naquele
momento. Assim, o tema de Les Mains sales mostra como seu autor aceita a violência nas lutas por uma transformação social (cf. ARONSON, 2005, p.356).
Camus não concorda com a configuração dogmática e violenta do comunismo. Antes de L'Homme révolté, a crítica ao totalitarismo de Estado, ao dogmatismo, ao autoritarismo e à violência já estava presente em L'Étranger e, de forma especial, na Peste. Também na peça Les Justes, ele questiona o valor da ação revolucionária contaminada pelo crime e pela desonra. Para Camus, é preciso combater o mal e a injustiça, sem recair no crime, e lutar contra a violência, sem agir violentamente.
As noções de Revolta e de Absurdo remetem a um comportamento ético e a um engajamento sócio-político e os pressupõem. A passagem do Absurdo à Revolta constitui a superação de uma atitude niilista em vistas à fundamentação de uma exigência ética. Na encruzilhada entre seu pensamento filosófico e sua obra romanesca e dramática, encontra-se a estética de Camus, associada à reflexão ética que, inspirada pela Revolta, dá as diretivas à criação artística. Os textos em que mais diretamente podemos encontrar esta estética camusiana são o artigo ―Le témoin de la liberté‖, publicado em 20 de dezembro de 1948 e recolhido em Actuelles, o capítulo ―La création absurde‖ do Mythe de Sisyphe, e o capítulo ―Révolte et art‖, de L'Homme révolté.
A avaliação negativa de L'Homme révolté afeta retroativamente a leitura que se faz da Peste. Ao criticarem o ensaio, Jeanson e Sartre voltam ao romance. Jeanson o classifica de "metafísico" e de "crônica transcendental". Sartre, que já havia publicado sobre ele dois artigos favoráveis, de colaboradores importantes, passa a considerá-lo de forma negativa, como sendo uma "mistificação".11
Em sua resposta a Jeanson, Camus observa que Les Temps modernes se recusam a ver uma evolução de L'Étranger a La Peste, no sentido da solidariedade e da participação. Com
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Os artigos foram escritos por René Étiemble e Jean Pouillon e publicados em Les Temps modernes, na edição de novembro de 1947.
efeito, o ensaio e o romance fazem parte do mesmo "ciclo da Revolta". A passagem de L'Étranger a La Peste, como a passagem de Le Mythe de Sisyphe a L'Homme révolté, corresponde a uma mesma evolução: a experiência do Absurdo nasce do sentimento de que o homem não está em harmonia com o mundo, e ela desemboca na expressão da Revolta, na ação coletiva; encaminha-se da subjetividade para a sociedade, do herói solitário para o herói solidário.
Camus não aprova a revolução a qualquer preço, mas também não aprova a atitude de resignação, nem de pretensa abstenção diante dos conflitos sociais, pois não acredita que exista neutralidade política. Seu engajamento político é bastante precoce. Ainda na Argélia, afastado da carreira acadêmica por questões de saúde, Camus dedica-se ao teatro e ao jornalismo e se engaja em atividades de ordem cultural e política.
Durante a polêmica com Sartre, Camus não faz alusão a sua passagem pelo partido, retomando sua condenação das duas sociedades, a socialista e a capitalista. Camus conheceu de perto a miséria, a desigualdade e as injustiças que imperavam entre o povo argelino e das quais ele e sua famìlia sofreram, por isso afirma: ―Je n‘ai pas appris la liberté dans Marx. Il est vrai: Je l‘ai apprise dans la misère‖ (cf. CAMUS, 1965, p.798).
Tardiamente, Jeanson e Sartre vêem bem que, antes de L'Homme révolté, na Peste já havia uma relação entre moral e política, entre teoria e prática. O personagem Tarrou não aceita a violência como meio, porque não se trata simplesmente de reverter o papel entre explorado e explorador, mas de buscar uma forma de não ser ―nem vìtima nem carrasco‖ (cf. CAMUS, 1965, p.331).