Buscamos no campo da filosofia a noção de "responsabilidade" e encontramos discussões sobre a natureza das ações humanas que, como poderemos observar nos capítulos seguintes, estão presentes no imaginário dos entrevistados.
No campo da metafísica, Geirsson (1998) diferencia ações voluntárias (ou seja, as que realizamos com consciência e por nós mesmos) das involuntárias (aquelas que não queremos realizar). A fim de ilustrar essa diferença, podemos imaginar uma pessoa em uma sala fechada. Se essa mesma pessoa se levanta e sai dessa sala, ela realiza uma ação voluntária – diferente de ser levada para fora desse ambiente à força ou inconsciente (exemplos de ações involuntárias).
A partir disso, o autor nos apresenta o conceito de causalidade. Embora podendo ser denominadas voluntárias, algumas de nossas ações não seriam frutos de uma real escolha, mas determinadas por alguma causa externa. Assim, surge também a concepção de ação livre, termo que significaria uma ação não somente voluntária, mas que depende da liberdade de nossa escolha, ou do fato de "escolhermos escolher" certa atitude. No caso da ação livre, o agente teria a escolha de agir de outra maneira naquelas mesmas circunstâncias, sem que sua ação fosse determinada por uma causa externa e anterior.
O autor afirma que apenas seria possível atribuir responsabilidade moral aos autores de ações denominadas livres, já que somente essas dependeriam exclusivamente da vontade ou da escolha do agente.
Observamos que esta teoria pressupõe a concepção de um sujeito uno e consciente de suas ações, sejam elas classificadas como voluntárias ou não. Contudo, não podemos deixar de lembrar que nosso imaginário se sustenta na ilusão de unidade e consciência. Afirmações como essas, a respeito das naturezas das ações, dão base ao nosso sistema judiciário e também à nossa capacidade de julgar se uma pessoa pode ser “responsabilizada” ou não por determinada ação.
No caso do ensino da língua inglesa no contexto da escola pública, por exemplo, as práticas pedagógicas geralmente pressupõem sujeitos conscientes e que têm o controle do processo de ensino e aprendizagem. Esse imaginário, de que o processo de ensino e aprendizagem da língua depende de ações voluntárias e livres desses sujeitos, torna possível atribuir a professores e alunos a responsabilidade tanto pelo seu sucesso quanto pelo seu fracasso.
Voltando-nos ao campo da filosofia, Jonas (2006) desenvolve o conceito de responsabilidade a partir de uma discussão sobre ética e moral.
Para ele, estaria na base desses conceitos a idéia de que toda ação parte de uma finalidade, a qual é considerada como um "bem em si".
Essa dicotomia entre “bem” e “mal” faz parte de um imaginário que parece reger nossa sociedade e que, no caso da exposição teórica de Jonas, fica entendido que todos os homens e, consequentemente, sua ações almejassem o “bem” incondicionalmente. Sobre o conceito de moral, uma de suas afirmações seria que, independente do êxito da ação, "fazer o bem por ele mesmo beneficia de certo modo o agente." (Jonas, 2006, p. 156). Contudo, a moral carrega em si o mistério e o paradoxo de o agente não poder estar no centro da causa, ou seja, ele deve esquecer-se de si em benefício próprio e do "bem" que está fazendo.
Voltando-nos para as reflexões que Foucault (1984/2004) propõe acerca da ética com base na filosofia estóica e nos preceitos cristãos, podemos notar que essa apresentação da idéia do “bem em si” estaria relacionada com a idéia de cuidado de si (em que as ações ditas “éticas” pressupõem uma preocupação consigo mesmo, inclusive na relação com o outro). Mas parece estar permeada também pela ética cristã, em que o “cuidado de si”, orientado pelo desejo de salvação eterna, demanda um sacrifício pessoal (daí a necessidade de “esquecer de si”). Podemos, inclusive, levantar a hipótese de que o discurso da “modéstia” como algo socialmente valorizado na nossa cultura advém dessa contradição, uma vez que somos “modestos” com o intuito de sermos, com isso, “valorizados”.
Essa discussão, como veremos nos capítulos seguintes, se fará importante para refletirmos sobre como surgem, nos dizeres dos professores, discursos como o da necessidade de se “fazer o bem” e de se “sacrificar” frente àqueles que apontam para a “desvalorização” da sua profissão, por exemplo.
Dando continuidade à exposição das idéias apresentadas por Jonas (2006), afirmamos que a motivação para realizar uma ação moral não dependeria nem do sentimento de "dever" nem de uma "lei moral", mas de um apelo do "bem em si" no mundo. Esse apelo externo teria, no nosso lado emocional, uma resposta, denominada sentimento de responsabilidade.
Dessa forma, a moral depende de uma "autorização externa", ou seja, não poderíamos afirmar deveres sem que outras pessoas nos ouvissem e compartilhassem da nossa voz. Ainda de acordo com Jonas (2006), os homens
são seres morais por possuírem essa capacidade de serem afetados emocionalmente pela autorização externa dos deveres.
Propomos, mais uma vez, uma pausa para discutirmos duas questões importantes. A primeira delas é a idéia de responsabilidade como “sentimento”, isto é, uma idéia que, na etimologia do termo, estaria relacionada a uma “resposta” (um “agir”) passa a ser vinculada ao “emocional”. Daí, torna- se possível o sujeito de pesquisa dizer “sentir-se responsável” por algo sem necessariamente ter alguma ação em resposta àquela questão. No caso do professor, por exemplo, parece permear seus dizeres a afirmação de que “me sinto responsável”, mas, diante do fracasso, “não posso fazer nada”, afinal, “não depende (apenas) de mim”. Contraditório, mas constitutivo, como poderemos observar nos capítulos de análise que se seguem.
Algo muito marcante, e que também observaremos nas análises que estão por vir, seria a relação que se estabelece entre os conceitos de “responsabilidade” – como é concebida por Jonas (2006), e que parece habitar o imaginário dos sujeitos de pesquisa – e “culpa”. Assim, voltaremos à exposição do trabalho de Jonas no que diz respeito a essa relação.
Uma primeira possibilidade dada pelo autor para a questão seria compreender o conceito de responsabilidade como imputação causal de atos realizados, ou seja, aquela atribuída posteriormente a uma ação. Para tanto, ele diferencia um ponto de vista legal e moral. Para a questão legal, o agente deve responder por seus atos, tornando-se responsável por suas consequências, mesmo que elas não tenham sido previstas ou desejadas. Para que ele tenha que reparar possíveis danos causados por ela, basta que ele tenha sido a causa ativa da ação.
De outro modo, haveria ainda a possibilidade, do ponto de vista moral, de o sujeito agir na contramão das vozes sociais que ditam o dever de "fazer o bem". O ato causal é qualificado, então, como moralmente culpado, podendo resultar no castigo por conta desse crime.
Uma questão importante apontada pelo autor seria de que a compensação legal (quando a consequência de um ato moral não é a prevista ou a desejada) confundiu-se rapidamente com a punição e a culpa – as quais têm origem moral. Assim, segundo ele, muitas vezes nos sentimos moralmente
culpados (podendo até mesmo sermos julgados e penalizados socialmente) por atos legais, ou seja, sem termos previsto as más consequências.
Lembramos aqui que, ao nos basearmos no pressuposto de um sujeito inconsciente, não podemos afirmar que alguém tenha o controle sobre os fatos sugerido por Jonas (2006). Contudo, a interpelação ideológica do sujeito causa um efeito ilusório de que somos conscientes e capazes de controlar nossas ações – fato que justifica a presença desse “sentimento de culpa” frente aos atos classificados pelo filósofo como “legais”. Essa idéia de “culpa” faz parte do imaginário dos professores entrevistados, como nos mostrará as análises propostas nos capítulos seguintes.
Retomando a linha de pensamento de Jonas (2006), o sentimento de responsabilidade (seja ele legal ou moral) nos faz antecipar as possíveis consequências de um ato, ativando um processo que seleciona nossas ações e torna-se motivo para permiti-las ou suspende-las. Pode ser uma recomendação de prudência evitar a ação, o que implica em dizer que quanto menos o sujeito age, menor é a sua responsabilidade.
Os professores entrevistados, por exemplo, enunciam que, no momento da escolha da profissão, refletiram a fim de julgar se queriam realmente ser professores, tendo em vista o imaginário de que essa é uma profissão “difícil” e de “grande responsabilidade”, pois envolve a formação de seus futuros alunos. Esse movimento perpassa a idéia de que as escolhas seriam objetivas e conscientes e que a tomada de responsabilidade pode ser algo não somente previsto como também evitado, isto é, não realizando a ação. Apagam-se, nesse efeito de evidência de sujeito, o fato de que tais escolhas atravessam processos inconscientes os quais somos incapazes de enumerar.
Jonas (2006) também desenvolve a noção de responsabilidade que ultrapassa os limites do sujeito, como uma virtude da qual nos sentimos responsáveis por um objeto que reivindica nosso agir, e não mais pela nossa conduta em si. Em outras palavras, não somos responsáveis pelo que fazemos, mas por algo ou alguém que precisa de nossas ações.
O autor ainda nos mostra que, para essa noção de responsabilidade, há uma relação hierárquica de poder entre o sujeito e o objeto. No momento em que nos tornamos responsáveis por algo, adquirimos, também, poder sobre
ele, mesmo que seja momentaneamente. Esse poder implica um dever, ou seja, tomamos para nós o "dever ser" do objeto e, com isso, o dever de agir a fim de cuidar do mesmo.
No caso do contexto educacional, podemos afirmar que a responsabilidade que se atribui ao professor pela formação do aluno faz com que se estabeleça uma relação hierárquica de poder entre esses dois sujeitos.
Essa descrição feita por Jonas (2006) dos “mecanismos” do conceito de responsabilidade parece estar próxima daquela presente no imaginário dos sujeitos que se concebem como sendo unos, conscientes e capazes de controlar todas as situações aqui descritas, tais como fazer escolhas, renúncias, antecipar consequências, entre outras. A partir dessa ilusão de controle é que se torna possível o conceito de responsabilidade estar, por muitas vezes, relacionado ao sentimento de culpa, mesmo em situações em que o sujeito faz escolhas não conscientes e imprevisíveis.
Assim, a seção a seguir resumirá algumas considerações a respeito da culpa e da frustração a partir de olhares da psicanálise e da sociologia, as quais também nos darão suporte para as análises das entrevistas realizadas.