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Na presente subseção, visamos dar início às análises propostas nesta dissertação. Para tanto, optamos pela discussão do excerto que se segue, devido à sua característica desencadeadora de questões a serem abordadas em análises posteriores.

Deste modo, observemos os dizeres seguintes:

[01] - ... assim que eu comecei a dar aula na escola regular... a minha ansiedade era muito grande... de que esses alunos aprendessem pra que eles falassem que eles/ porque a

escola de idiomas é assim... nosso ritmo é rápido né... e

então eu tinha muita ansiedade que eles falassem... que eles aprendessem... e me descabelava e gritava aquela coisa... e com o tempo eu fui aprendendo que de repente...

principalmente na escola pública... você está lá e nem sempre vai ensinar inglês.... então é... eu estou aprendendo

um pouco isso... é um pouco difícil... mas eu acho que na

escola pública a gente acaba tendo que se conformar como fato de que às vezes você entra numa sala ali você não ensinou nada de inglês... ali você passou a aula comentando porque que as meninas não devem usar decote na sala de aula... e ali foi a sua aula... e acho que você acaba sendo mais educador do que somente um professor de inglês... mas como professora de inglês eu acho

que eu sou bem responsável... não digo pra que eles

aprendam porque é complicado o contexto do número de

alunos e tudo mais... mas pelo menos pra que eles tenham um bom contato com a língua inglesa... eu acredito que o professor é responsável sim... (P4)

Consideramos importante lembrar que essa formulação vem em resposta à pergunta realizada pelo entrevistador: em que medida você se sente responsável pela aprendizagem do aluno? Assim, percebemos que a palavra responsabilidade foi inserida no fio discursivo pelo entrevistador. Diante disso, torna-se relevante analisarmos quais discursos foram colocados em movimento a partir da resposta do professor a essa demanda.

Uma das questões que pode ser levantada a partir da análise dessa formulação é sobre a dicotomia estabelecida entre “ser educador” e “ser professor de inglês” (acho que você acaba sendo mais educador do que somente um professor de inglês). A comparação entre “ser educador” e “ser

professor de inglês” (a partir da estrutura “mais... do que...”) parece apontar para duas instâncias que constituem o sujeito, apesar de apresentar alguns conflitos fundantes se refletirmos de modo mais aprofundado sobre tais representações. De início, essas duas instâncias estariam intimamente ligadas, relação esta que pretendemos discutir de modo mais aprofundado.

Por um lado, parece haver ali uma imagem ideal do que seja “ser professor de inglês”, baseada em sua experiência profissional prévia em uma escola de idiomas12. Por outro lado, a partir do momento em que ocupa a posição de sujeito “professora na escola pública”, P4 não nega a responsabilidade a ela atribuída como educadora, a qual não existia no contexto do instituto de idiomas anteriormente (com o tempo eu fui aprendendo que de repente... principalmente na escola pública... você está lá e nem sempre vai ensinar inglês....).

Assim, diante da comparação anteriormente mencionada e do excerto a gente acaba tendo que se conformar com o fato de que às vezes você entra numa sala ali você não ensinou nada de inglês... ali você passou a aula comentando porque que as meninas não devem usar decote na sala de aula... e ali foi a sua aula..., percebemos que a prática de “ser educadora” (representada pela aula em que se ensinam regras sociais a respeito da vestimenta das alunas) seria tão distinta da prática pedagógica de ensinar a língua inglesa que a última se anula (não se ensinou nada de inglês). Assim, “ser educador” e “ser professor de inglês” seriam instâncias que, ao mesmo tempo em que se complementam no espaço da escola regular, também concorrem, pois a prática atribuída ao “ser educador” anula a possibilidade do ensino da língua inglesa.

Ademais, esse movimento de anulação do ensino do inglês parece ocorrer por fatores “externos” ao professor, já que ela acaba sendo mais educadora do que professora de inglês.

O sentido de gradação sugerido pelo uso do advérbio somente (ser somente um professor de inglês) nos remete ao imaginário de que “ser educador” seria uma instância mais abrangente do que “ser professor de

12 P4 comenta, no decorrer da sua entrevista, que sua experiência profissional anterior à do ensino regular na escola pública teria sido como professora em uma escola de idiomas.

inglês”, contendo-a, inclusive. Ao ilustrarmos tais representações a partir da figura abaixo, notamos que algumas responsabilidades desse educador não estariam “contidas” nos limites daquilo que seria o “professor de inglês”:

Além disso, o advérbio “somente” nos indica que, para P4, as responsabilidades atribuídas ao “professor” de educar moralmente seus alunos não é algo desejado para seu “ideal de prática pedagógica”. Elas não pertencem às atribuições contidas na representação do “professor de inglês”. Ao perceber a necessidade de incluir esse ensino em sua prática, o sujeito expressa “conformidade” (você acaba tendo que se conformar), e se coloca em uma posição bastante passiva frente à decisão de “deixar de lado” o ensino da língua para ocupar o espaço da aula com a formação moral de seus alunos. Em outras palavras, o contexto de sala de aula e o contato com alunos que estariam longe do modelo ideal presente em seu imaginário fazem com que sua resposta caminhe na “contramão” de seu desejo, o qual não seria ensinar sobre o “decote das meninas”, mas sim, ensinar o conteúdo programado para o dia (a língua inglesa).

Essa resposta causa conflito para P4, sentido esse depreendido a partir de dizeres que trazem para o fio discursivo palavras como ansiedade e dificuldade. Na tentativa de compreender as bases desse conflito, uma de nossas hipóteses, seria a de que, diante da imagem de uma “situação ideal” (ditada por sua experiência profissional anterior na escola de línguas em que não fazia parte de suas atribuições a educação “moral” de seus alunos) e ao se deparar com uma “realidade diferente” (a qual demanda novas

Ser educador

Responsável pela formação moral do aluno

Ser professor de inglês

Responsável pelo ensino da língua inglesa como conteúdo

responsabilidades e, com elas, outras práticas em sala de aula) a professora tem que aprender, se conformar, controlar a ansiedade.

Diante deste conflito, contudo, surge uma nova dicotomia: “ser professor de língua inglesa” e “ser professor de língua inglesa na escola pública”. A primeira representação seria calcada no imaginário acerca de um contexto ideal que tem como base o ensino nos cursos livres de idioma e o ensino exclusivo do inglês como conteúdo a ser aprendido pelos alunos.

No caso da imagem construída do “ser professor de inglês da escola pública”, apesar de manter um “modelo ideal” nos padrões de ensino das escolas de idiomas, vê-se a necessidade do sujeito se posicionar para além de ser “somente um professor de inglês” e ocupar, também, a posição de “educador”. Essa demanda exercida no espaço do ensino regular público sobre o sujeito parece somar responsabilidades que, por não fazer parte desse “modelo ideal” de ensino da língua, nem sempre são “bem-vindas”, causando conflito, desconforto, ansiedade e, por fim, conformidade.

Muitas outras questões podem ser levantadas a partir de uma análise mais aprofundada destes dizeres. As principais delas seriam:

1. Quais discursos se entrelaçam na trama do já-dito e ajudam a construir essa diferenciação no imaginário deste(s) sujeito(s), dando base para as representações do que seria “ser educador”, “ser professor de inglês” e “ser professor de inglês na escola pública”?

2. De que modo cada uma dessas representações se entrelaçam em uma narrativa de si, nos indicando possíveis pontos de identificações do(s) sujeito(s) de pesquisa?

No segmento [01], diante da pergunta do entrevistador que coloca em movimento discursos que parecem permear a questão da responsabilidade, a resposta da professora nos aponta para elementos importantes de serem aprofundados, como o pressuposto da educação moral no ensino regular (enunciado a respeito da aula sobre o decote da menina), o modelo de ensino de língua inglesa ditado pela escola de línguas, a impossibilidade da aprendizagem do novo idioma no espaço da escola pública (não digo pra que

eles aprendam porque é complicado o contexto do número de alunos e tudo mais), entre outras.

Lembramos também que esse segmento foi analisado a fim darmos início à discussão de questões que serão abordadas ao longo deste capítulo. Porém, veremos que, com a análise de dizeres de outros entrevistados, outros sentidos concorrerão a estes acerca de questões similares.

Assim, passemos, na subseção que se segue, a ter como foco a representação do professor como “educador” e as suas supostas responsabilidades, tendo em vista os dizeres dos entrevistados e discursos sobre as bases educacionais que constituem seu imaginário e, consequentemente, sua subjetividade.

Benzer Belgeler