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Procurei demonstrar, nos tópicos anteriores, a afinidade textual de Benveniste com o pensamento lacaniano em diferentes momentos de sua produção teórica. Benveniste, assim como fez Lacan, retira a condição humana do biologismo e funda-a na relação do

homem com a linguagem, relação descoberta no inconsciente por Freud. Essa relação é colocada em discussão, ao se tratar da semântica:

A noção de semântica nos introduz no domínio da língua em emprego e em ação; vemos desta vez na língua sua função mediadora entre o homem e o homem, entre o homem e o mundo, entre o espírito e as coisas, transmitindo a informação, comunicando a experiência, impondo a adesão, suscitando resposta, implorando, constrangendo; em resumo, organizando toda a vida dos homens. (Benveniste, 2006, p. 229)142

Em entrevista sobre Estruturalismo e Linguística, concedida a Pierre Daix em julho de 1968, Benveniste retoma as duas modalidades de sentido na língua, que são o modo semiótico e o modo semântico. O modo semiótico se refere ao próprio signo saussureano como unidade dotada de sentido, em que as palavras podem ou não ter sentido, o que constitui um raciocínio fechado. Benveniste justifica então seu maior interesse pela semântica, por ter ela, em suas palavras, uma abertura para o imprevisível e para o mundo, já que ela é o sentido resultante do encadeamento e da apropriação pela circunstância. Em contrapartida, o modo semiótico, ainda em suas palavras, é o sentido fechado sobre si mesmo e contido de algum modo em si mesmo. Por essas palavras, é possível perceber qual a noção de semântica, essa plurissignificante no campo dos estudos da linguagem, é defendida por Benveniste. O autor funda sua concepção de semântica sobre a noção de frase como unidade do discurso, da mesma forma que as correntes linguísticas que não se ocupam da questão do sujeito. No entanto, para ele, a semântica aparece indissociável da situação de palavra do locutor, ou seja, daquele sujeito que fala no momento da produção de uma enunciação.

Como afirma Benveniste em Natureza do signo linguístico, tudo na linguagem precisa ser definido em termos duplos; tudo traz a marca e o selo da dualidade opositiva:

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BENVENISTE, E. (1966) A forma e o sentido na linguagem. In: Problemas de Lingüística Geral II. Campinas: Pontes, 2006.

dualidade articulatória / acústica, do som e do sentido, do indivíduo e da sociedade, da

língua e da fala, do material e do não-substancial, do “memorial” (paradigmático) e do

sintagmático, da identidade e da oposição, do sincrônico e do diacrônico, etc. Cada um desses termos, como atesta Benveniste ao evocar Saussure, não têm valor por si mesmo ou remetem a uma realidade substancial; cada um deles adquire o seu valor pelo fato de que se opõe um ao outro:

A lei absolutamente final da linguagem consiste, se ousamos dizê-lo, em que não há nada jamais, que possa residir em um termo: isso é conseqüência direta do fato de que os símbolos lingüísticos não têm relação com aquilo que devem designar; assim, pois, a é impotente para designar algo sem o concurso de b e o mesmo ocorre a este, sem o concurso de a; ambos só têm valor pela sua diferença recíproca, ou nenhum valor, mesmo por uma parte

qualquer dele mesmo (suponho a “raiz”, etc.), a não ser por esse mesmo

plexo de diferenças eternamente negativas. (Benveniste, 2005, p. 43)143

Esse complexo sistema de oposições, que atesta que na língua só há diferenças, demonstra que a língua é um sistema marcado pelo equilíbrio entre as partes, porém esse equilíbrio, segundo o próprio Benveniste, jamais atinge uma simetria completa pelo fato de que a assimetria entre as instâncias do eu e do tu está inscrita no próprio princípio do discurso. Podemos aproximar essa dimensão assimétrica, proposta por Benveniste, da idéia de Lacan de que o campo da fala se constitui por uma mediação pelo campo do Outro. Os elementos simbólicos, seguindo o rastro de Saussure, não possuem significação a priori, mas apenas a partir de um critério posicional marcado pela diferença. O sentido resulta sempre do modo de articulação dos elementos significantes na produção de um ato de linguagem, esse constantemente variável. Essa assimetria só existe e só é verificável se nos referimos a uma linguística que coloque em seu centro as noções de sujeito e de discurso.

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BENVENISTE, E. (1956) Natureza do signo linguístico. In: Problemas de lingüística geral. Campinas: Pontes, 2005.

Em sua já citada entrevista sobre Estruturalismo e Linguística, concedida a Pierre Daix,

em 1968, Benveniste (2006, p. 18)144 aborda a questão do caráter sempre único e

irrepetível da enunciação a partir de uma interessante formulação, que toca o que há de mais cotidiano na vida de qualquer falante: “Dizer bom dia todos os dias da vida a alguém é cada vez uma reinvenção.” A idéa de uma invenção no campo da linguagem é novamente destacada por Benveniste (2006, p. 18) nessa outra passagem:

Ora, todo homem inventa sua língua e a inventa durante toda sua vida. E todos os homens inventam sua própria língua a cada instante e cada um de uma maneira distintiva, e a cada vez de uma maneira nova.

Benveniste não se furta a dizer, inclusive, que cada locutor fabrica sua língua. Essa noção de invenção, de fabricação, de uma contextualização sempre nova no âmbito da língua e da enunciação, torna possível situar Benveniste em contato direto com a linguagem tal como a concebe Lacan no período mais tardio de seu ensino. Há uma

citação de Lacan (2007, p. 129)145, retirada do Seminário 23 O sinthoma, que ilustra

essa constatação:

Criamos uma língua na medida em que a todo instante damos um sentido, uma mãozinha, sem isso a língua não seria viva. Ela é viva porque a criamos a cada instante. É por isso que não há inconsciente coletivo. Há apenas inconscientes particulares, na medida em que cada um, a cada instante, dá uma mãozinha à língua que ele fala.

Essas duas citações são, no meu ponto de vista, exemplos consistentes da maneira como a linguagem, para ambos teóricos, não é um objeto delimitado sobre o qual nos

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BENVENISTE, E. (1968) Estruturalismo e linguística. In: Problemas de Lingüística Geral II. Campinas: Pontes, 2006.

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debruçamos para estudar. A linguagem é uma constante criação ou, como Benveniste frequentemente se expressa, ela é um problema. O discurso, nessa perspectiva, se encontra muito mais ao lado da invenção do que da comunicação. Bem verdade que esse ponto de vista benvenisteano sobre a linguagem é herança de sua filiação teórica a Saussure para quem, em uma importante definição, é o ponto de vista que cria o objeto, ao contrário de o objeto preceder o ponto de vista. Trata-se de uma crítica ao cientificismo positivista que parte do princípio de que os fatos apenas existem em função da definição que se dá a eles. Benveniste é categórico a esse respeito em seu tributo a Saussure na ocasião do cinquentenário de sua morte, no texto de 1963 Saussure após meio século. Nesse texto, originalmente uma conferência, Benveniste expressa que atingir o fato de língua como uma realidade objetiva não passa de uma crença, sendo que apenas a apreendemos a partir de certo enfoque que é preciso ser definido.

Proponho associar essa primazia benvenisteana da enunciação subjetiva na comunicação, em detrimento da noção de transmissão de informação, com a bipartição proposta por Lacan entre palavra plena e palavra vazia. Essas duas expressões são propostas no texto Função e campo da fala e da linguagem na psicanálise para diferenciar uma fala imaginária (palavra vazia) de uma fala simbólica (palava plena) ou, em outros termos, para diferenciar a enunciação (palavra plena) do enunciado e da informação (palavra vazia).

A respeito da fala, para Lacan ela também pressupõe o outro assim como para Benveniste, pois postula que não há fala sem resposta, ainda que essa resposta seja o

silêncio. Ao discorrer sobre a arte do analista, Lacan (1998, p. 253)146 demonstra sua

solidariedade com a concepção da comunicação como enunciação dialógica ligada ao

fenômeno da subjetivação, ao articulá-la com a instância do discurso: “Mesmo que não

comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidência, ele afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar,

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LACAN, J. (1953) Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

ele especula com a fé no testemunho.” Essa arte, ainda, deve consisitir em suspender as certezas do sujeito e escandir o seu discurso, o que marca um movimento contrário a uma suposta obtenção de informações por parte do analisando.

A verdade do sujeito está, pois, ligada a essa fala plena que é da ordem da enunciação do inconsciente na estrutura do discurso. A fala vazia, por sua vez, é a fala enquanto valorizada como um enunciado indiviso proveniente do eu e não do sujeito da enunciação, o que justifica tomar a fala vazia como um representante da vertente

informativa da comunicação. Lacan (1998, p. 259)147 fundamenta sua enunciação

dialógica pela noção de intersubjetividade, termo central na obra de Benveniste e muito em voga naquela época, raramente utilizado por Lacan, sendo, inclusive, duramente criticado por ele em períodos posteriores de seu ensino:

...quando o sujeito se engaja na análise, ele aceita uma posição mais constituinte (...): a da interlocução; e não vemos nenhum inconveniente em que esta observação deixe o ouvinte desconcertado. Pois isso nos dará ensejo de insistir em que a locução do sujeito comporta um alocutário, ou, em outras palavras, que o locutor constitui-se ali como intersubjetividade.

Retomando as palavras de Benveniste, necessitamos deixar de acreditar que se apreende na língua um objeto simples, que existe por si mesmo, e que é suscetível de uma apreensão total. A parcialidade do objeto língua mais uma vez coloca Benveniste (2005,

p. 41)148 na via da Psicanálise, inclusive, colocando em cena o que Milner (1987)149, em

suas palavras, denominou o desejo do linguista, ao deslocar seus questionamentos da

língua para o linguista: “A primeira tarefa consiste em mostrar ao lingüista ‘o que ele

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LACAN, J. (1953) Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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BENVENISTE, E. (1963) Saussure após meio século. In: Problemas de Lingüística Gral I. Campinas: Pontes, 2005.

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faz’, a que operações preliminares se entrega inconscientemente quando aborda os dados lingüísticos.”

Observo que Benveniste fala de operações a que o linguista se entrega inconscientemente, aproximando a Psicanálise não apenas dos estudos da linguagem como um aparato teórico, mas do próprio sujeito linguista. Ou seja, o saber que compete ao linguista operar é o próprio saber do inconsciente, um saber não sabido, ao conceber o linguista como um sujeito dividido. Em outros termos, considero que Benveniste está dizendo, à sua maneira, que é o sintoma do linguista que está em jogo em suas construções teóricas, e não uma suposta e muitas vezes esperada neutralidade no lugar de pesquisador.

Benveniste não deixa de criticar as correntes linguísticas que, em sua época, não se

interessavam pela linguagem “ordinária”, ou seja, a linguagem cotidiana do sujeito

falante em suas pesquisas. Ele denuncia, conforme visto, que havia em toda parte um esforço para submeter a Linguística a métodos rigorosos, com o objetivo de afastar as construções subjetivas e o apriorismo filosófico. Em A forma e o sentido na linguagem,

Benveniste (2006, p. 221)150 sobre a linguagem afirma que: “Nosso domínio será a

linguagem dita ordinária, a linguagem comum, com exclusão expressa da linguagem poética, que tem suas próprias leis e suas funções próprias.” Nesse mesmo texto, Benveniste observa que a Linguística rejeita o que diz respeito ao sentido e à marca do subjetivismo, procurando se ocupar do que é técnico e mensurável. Em suas palavras, “...as manifestações do sentido parecem tão livres, fugidias, imprevisíveis, quanto são concretos, definidos e descritíveis os aspectos da forma.” (2006, p. 221)

De fato, a linguagem ordinária é mais difícil de ser submetida às condições de verdade que são fundamentais para uma discussão cientificista dos fenômenos linguísticos, por ser ela equívoca, incerta e errante. A despeito dessa questão, Benveniste aponta que o

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BENVENISTE, E. (1966) A forma e o sentido na linguagem. In: Problemas de Lingüística Geral II. Campinas: Pontes, 2006.

objeto do linguista é precisamente essa linguagem ordinária que ele toma como dado e cuja estrutura inteira explora. Do ponto de vista de um estruturalista, para que uma análise linguística seja científica é preciso abster-se de suas questões semânticas e focar em seus aspectos formais. Trata-se, para Benveniste, assim como para Lacan, de uma noção de estrutura que, paradoxalmente, inclua o sujeito.