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Os estudos sobre Inquérito Policial não são novos na área das ciências sociais, ao contrário, desde os primeiros estudos sobre polícia, como LIMA, R. K. (1995), PAIXÃO (1982) e MINGARDI (1992), o inquérito é evocado como elemento fundamental no desenvolvimento de suas análises sobre práticas e organizações da polícia e do sistema jurídico. O Inquérito Policial é tomado por esses autores como objeto de análise que permite visualizar os processos do “saber fazer” policial, concluindo que o inquérito é a fonte do “poder” policial, já que a discricionariedade policial seria percebida com mais força na abertura e condução deste. Tal poder discricionário consiste em determinar quais fatos devem ou não se tornar um inquérito policial, não fazendo virar inquérito o que não é percebido como sendo “assunto de polícia”. Ao analisarem as práticas policiais, tais autores demonstraram que a condução do inquérito está atravessada por um conjunto de procedimentos extralegais, o que significa dizer que os procedimentos adotados pela polícia quase nunca correspondem às normas para a condução do mesmo, não cumprindo as normas do Código de Processo Penal (CPP).

Paixão, no estado de Minas Gerais, ao apresentar o fluxo rotineiro de uma delegacia, demonstra que os registros de ocorrências são realizados pelas “vítimas”, policiais militares, ou representantes legais das “vítimas”. Realizado esse procedimento, o documento relatando o ocorrido é encaminhado ao delegado, que o direciona a devida seção para que este seja protocolado. Em seguida o registro é passado para os investigadores e peritos para a verificação das informações. Se procedentes, o delegado instauraria o Inquérito em cartório. Destaca-se que, apesar do fluxo constante de registros de ocorrência, nem todos se tornam inquérito, seja por falta de informação, ou por outros motivos que levam a decisão do delegado de não instaurá-lo (PAIXÃO, 1982, p.73).

Quando instaurados, PAIXÃO, por meio de entrevista, demonstra que ele é realizado “de trás para frente”, ou seja, a prática do inquérito policial é orientada antes pelos estoques de conhecimento policiais, levando primeiro à busca do “criminoso” e não à tentativa de esclarecimento do crime. As normativas legais que deveriam servir para a apuração dos fatos são vistas, pelos policiais, como uma forma de “aleijar” o

trabalho policial, por isso estes mobilizariam práticas fora dos formalismos para a realização do seu trabalho (op. cit., p.74).

LIMA, R. K. foi o pioneiro em demonstrar as particularidades da polícia e da justiça no Brasil.Apontou as diferenças entre modelos de construção da verdade jurídica, demonstrando que no Brasil impera nas práticas policiais, pelo inquérito policial e outras práticas, uma tradição inquisitorial. Chama atenção o contraste dessa tradição em países com tradição igualitária, como os anglo-saxões, em especial os Estados Unidos da América, onde pesquisou a cultura jurídica. Ao destacar as particularidades de cada modelo, demonstrou que características, dimensões e aspectos sociais mais amplos influem na estruturação dos modelos (LIMA, R. K, 2008a; MISSE, 2010).

No Brasil, o inquérito policial é parte de um processo “preliminar” dos procedimentos judiciais. O autor explica que para “entrar” no “mundo” do direito os fatos devem passar por um tratamento lógico-formal, que seria próprio da “cultura jurídica” e de seus operadores. Essa concepção da cultura legal brasileira leva ao que se chama de inquérito policial, orientado por práticas inquisitoriais de avaliação preliminar, no qual não há direito de defesa, pois em teoria, não se trata de acusações formais, mas de uma investigação que prima pelo sigilo para a verificação dos fatos (LIMA, R. K., 2008a, p.43).

O inquérito policial brasileiro é considerado um processo administrativo cuja função é investigar, não devendo ser incorporado às demais fases do processo judicial.Entretanto, como demonstrar o autor, o inquérito serve para embasar as “verdades” sobre os fatos e formar culpa. O inquérito é, por vezes, “inserido” no “mundo” do direito quando, por critério do promotor, o inquérito policial é anexado aos autos do processo judicial, com a função de demonstrar os indícios de culpa do suspeito que se tornou réu (op. cit., p.44).

MISSE (2009) argumenta que apenas no Brasil há uma solução mista para a fase preparatória da persecução penal. Essa fase é de responsabilidade da polícia que deve realizar a investigação preliminar do ocorrido, com intuito de produzir um relatório orientado pelas normativas jurídicas, expondo os resultados das investigações. Esse produto é o inquérito policial, conduzido pelo delegado, constituído como autoridade policial responsável pela condução das investigações e investido de poder para a produção desse relato preliminar.

Há ainda uma ambivalência, nas prerrogativas dos delegados: o inquérito policial tem como objetivo relatar a investigação e, ao mesmo tempo, “formar a culpa” do(s) suspeito(s). A polícia no decorrer da realização do inquérito tem função quase pré- instrucional, com a tomada de depoimentos e outros procedimentos, para “que ao seu final haja ou não o indiciamento dos ‘culpados’”. Mas a realização desse procedimento é, a princípio, um procedimento administrativo sem qualquer valor judicial, só adquirindo tal valor quando o promotor decide utilizá-lo nos autos do processo, sejam na sua totalidade ou em algumas partes. O inquérito policial é um procedimento singular, reunindo em si, dois modelos distintos. Por isso, entender a figura do delegado com essas atribuições é essencial, pois a ele se incumbiria o papel de polícia.

O inquérito policial reúne, nas mãos dos delegados de polícia, estágios que, em outros países, estão separados ou que são controlados pelo Ministério Público ou pelo instituto do Juizado de Instrução. O delegado controla a investigação policial e controla a forma legal de expor seus resultados para a apreciação do Ministério Público. Este, em geral, apenas avaliza o trabalho do delegado ou o envia de volta para “novas diligências”. A maior parte das peças que constituem o inquérito policial é meramente burocrática e cartorial. O registro da ocorrência, por exemplo, que é fundamental para dar início à elucidação do crime, registra mais procedimentos policiais que propriamente as circunstâncias em que ocorreu o evento ali registrado (MISSE, 2010, p.22).

O Inquérito é um procedimento que concede grande poder a quem o tem, principalmente o poder de definir uma “verdade” que se destaca ao longo do processo como fonte de fundamentações “comprobatórias”. Constitui-se assim, como a principal fonte de discricionariedade da polícia, apesar das limitações teóricas presente nos ordenamentos jurídicos sobre como proceder para sua instauração e condução. O inquérito policial é, na prática, um instrumento policial e vai obedecer principalmente aos critérios das práticas policiais (MISSE, 2010).

O inquérito não é apontado como o causador de todos os problemas da Justiça Criminal no Brasil, outros fatores existentes contribuem para isso, mesmo que, por ora, não se tenha o conhecimento necessário para aferir sobre outras causas. Mas estudar o inquérito policial nos permite entender a sua função de preservar e reproduzir certos saberes na sua produção, ou seja, o inquérito faz parte de um sistema-arquipélago, no qual saberes concorrentes não se entendem e, ao mesmo tempo, disputam e convergem no processo de construção da “culpa”.

Voltando ao caso, ressaltamos que ele é fruto de um “Auto de Prisão em flagrante”, o que significa que não foi fruto de uma investigação realizada pela Polícia Civil, ao que consta no B.O. não houve, a princípio, nenhuma investigação e sim uma “denúncia anônima”. Significa dizer que o B.O foi confeccionado como “prisão em flagrante” e classificado como sendo de “autoria conhecida”,sendo elaborados quatro atestados de prisão para os maiores de idade e um termo circunstanciado para o menor de idade. O grande problema nos flagrantes da ROTA, pelo menos aqueles similares aos casos aqui estudados, de 2009 a 2012 é que parecem advir de uma prévia investigação, que ao serem caracterizados como flagrantes, apagasse qualquer vestígio de investigação ou de métodos empregados para realização dessas. O registro de flagrante, bem como o inquérito realizado, não se importa em verificar como a unidade obteve tais informações, nem se preocupa em reconstruir o desfecho da ocorrência; parece se preocupar em ratificar o ato, um mero procedimento.

O relatório do inquérito, iniciado pelo flagrante da ROTA, levou vinte e nove dias para ser concluído. Nele repetem-se quase as mesmas tipificações do B.O, com a exceção do artigo nº329, que trata do crime de resistência. A diferença está em como o artigo está descrito: anteriormente só aparecia a palavra “resistência” quando, no documento posterior, aparece como “resistência seguida de morte”. A diferença dos termos pode levar a pensar, a priori, numa mera mudança de nomenclatura, o que de fato não o é. Enquanto “resistência” é uma categoria do “mundo do direito”, o termo “resistência seguida de morte” não existe como uma categoria legal, mesmo que seja aceita no transcorrer do processamento legal. Para TELLES e HIRATA (2010, p.43-44), essa categoria pode inverter os fatos: o crime é atribuído à vítima em supostas “trocas de tiros” e “resistência à prisão”.

A “resistência seguida de morte” como categoria policial de registro de ocorrências foi amplamente utilizada até janeiro de 2013 quando, após pressões da sociedade civil, a Resolução nº 5 de 201347 “proibiu” sua utilização. A resolução apresenta como objetivo instituir diretrizes, dentre outros procedimentos, para a

47BRASIL. Secretaria de Segurança Pública. Resolução nº5, de 7 de janeiro de 2013. Estabelece

parâmetros aos policiais que atendam ocorrências de lesões corporaisgraves, homicídio, tentativa de homicídio, latrocínio e extorsão mediante sequestro com resultado morte; fixando, ainda, diretrizes para a elaboração de registros policiais, boletins de ocorrência, notícias de crime e inquéritos policiais

decorrentes de intervenção policial. São Paulo. Disponível em:

<http://www.mp.sp.gov.br/portal/page/portal/noticias/publicacao_noticias/2013/janeiro_2013/2013%200 1%2016%20Resolu%C3%A7%C3%A3o%205%202013%20D.O.E_0.doc>. Acesso em: 23 out. 2013.

elaboração de B.O e inquéritos policiais “decorrentes de intervenção policial”, como definido no artigo terceiro, determinando que:

quando da elaboração de registros policiais, boletins de ocorrência, notícias de crime e inquéritos policiais, as Autoridades Policiais deverão abster-se da utilização das designações “auto de resistência”, “resistência seguida de morte” e expressões assemelhadas, que deverão ser substituídas, dependendo do caso, por “lesão corporal decorrente de intervenção policial” e “morte decorrente de intervenção policial” (BRASIL, 2013, s/p)

Os casos aqui estudados são, portanto, anteriores a esta resolução e estavam imersos em outro quadro procedimental de registros de ocorrências. A preocupação em apontar o uso de tal categoria não judicial se baseia na pressuposição de que a ação policial que vitimou os sujeitos está amparada em “excludente de ilicitude”.A utilização da categoria no registro e produção do inquérito se torna ainda mais problemática pela ausência de investigação detida para saber se a ação corresponde aos critérios que determinam a exclusão de ilicitude. Dessa maneira, reforça-se a legitimidade da versão policial apresentada no registro do B.O, corroborando para que os “autores/vítimas” sejam tomados como os “responsáveis” diretos pelas próprias mortes.

O relatório apresenta poucas folhas. O inquérito foi conduzido pelo mesmo delegado que estava presente na comunicação da ocorrência. O documento conta com um pequeno apanhado do histórico do B.O, informa sobre os laudos juntados no decorrer da “investigação”. O inquérito possui quase trezentas páginas, destas, somente seis descrevendo a realização de depoimentos. A maioria dos depoimentos coletados expunha a narrativa dos policiais. Os outros depoimentos e “termos de declarações” – como do menor de idade – apontam que os cinco indiciados não quiseram se manifestar, optando por fazê-lo em “juízo”.

O documento deu ênfase na apresentação de inúmeros laudos periciais dos objetos aprendidos. Foram unidos os laudos produzidos pela Polícia Técnico-Científica, que apresentam uma breve descrição dos procedimentos adotados para recuperar as informações dos objetos apreendidos na ação, assim como uma breve descrição dos mesmos. A breve descrição dos procedimentos aponta que foi necessário recuperar arquivos que foram “apagados” dos “pens drives”. Estes arquivos seriam “planilhas financeiras”, um “salve geral” e alguns relatórios atribuídos aos sujeitos incriminados, presos e mortos, produzidos para informar indivíduos encarcerados sobre a “situação” dos negócios ilegais da “quadrilha”. A ênfase dos laudos da Polícia Técnico-Científica

recaiu na produção de provas contra os suspeitos. Os laudos sobre a ação policial eram muito poucos, limitando-se a perícia na arma e nas mãos dos policiais, mas realizada também com os acusados48.

MALLART (2011) explica que “salve geral” é um comunicado amplamente divulgado, contendo orientações para todos os membros do “PCC”, e são instruções dadas pelo “Comando” para estabelecimento de critérios de comportamento. Os “salves” seriam emitidos pelos “torres” que, segundo BIONDI (2010), são posições políticas das quais partem as diretrizes para todos os seus membros.

O comunicado, observado no processo, “cobra o comprometimento” dos seus membros para manterem a “ajuda” dada pelo “comando” para aqueles que precisam de advogados, cestas básicas, ônibus de viagem e outros serviços. A “cobrança” alerta que alguns membros não estão participando da “estrutura da família”, ou seja, não estão colaborando nas atividades que seriam de “sua obrigação”.Chamam atenção, ainda, para as consequências para aqueles que não seguirem à “risca” o “estatuto” da “organização”.

O relatório financeiro apontava o que teria sido recuperado de outras pessoas, não deixando claro o número de pessoas, mas contabilizava negócios legais e ilegais, realizando o levantamento de seus possíveis valores, além de dívidas com donos anteriores, e pessoas que não receberam por algum trabalho. Esse “relatório”, especificamente, se referia a imóveis, carros, “lotações” (micro-ônibus), terrenos, “lojas”, baladas, bares e etc. Após enumerar os bens recuperados, a pessoa que o elaborou, sugere aos membros “encarcerados” a troca de alguns, a venda de outros e a permanência de outros.

Após argumentar sobre a necessidade de reestruturação e corte de gastos, o relato descreve que, depois da saída de alguns membros responsáveis pela área, ações da ROTA teriam prendido alguns membros do grupo, além de ter apreendido dinheiro e carros. Assim citam o que estava acontecendo na região da Zona Leste de São Paulo:

Agora vou narrar para vocês algumas caminhadas que está ocorrendo depois que estes caras viajarão, a ROTA já chutou várias portas dos irmãos que somam no progresso da família sendo que no setor da cem

48

Não se querdizer que houve cometimento de crime por parte dos policiais, só chamamos a atenção para o fato de a ação policial não ter produzido oficialmente nenhum questionamento ou demanda investigativa.

por cento no dia 3/4/2011, a ROTA chutou a porta de todos do setor onde foram presos dois irmãos nosso, o nosso irmão Buiu e nosso irmão Pato e uma perca de dezessete mil reais, e também pegaram alguns carros do recolhe aonde tivemos uma perca de trinta mil reais do setor do progresso. O DENARC em cima de tudo isso que o Bicho Que Em Sobe Em Árvore tem um irmão da Equipe de Elite da ROTA e o Bruno e Marrone e o que Anda na Prancha falaram que o Papagaio estava caguetando para o Noiola do Denarc, mas o Noiola entregou número para a filha do Bruno e Marrone e todas as canas que foram armadas pelos mesmos [...] Mas os gansos mais fortes do Telhada e do Noiola do Denarc estão fora do ar e os caras estão vindo para cima na maior neurose, mas a luta continua indiferente de qualquer situação (sic) [...].

Nesse trecho, do que pudemos compreender, a ROTA e o DENARC (Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico) obtiveram informações sobre o PCC através de “caguetas”; tanto a ROTA como o DENARC teriam realizado prisões de membros da “família”. O trecho, mesmo muito denso em codificação, leva a entender que a ROTA só “chutou a porta de vários irmãos”, porque esses possíveis informantes “viajaram” e, portanto, como seus principais informantes estavam “fora do ar” começaram a “chutar as portas” de “irmãos”.

Após a apresentação de mais “relatórios financeiros do PCC” e alguns laudos periciais das armas e dos outros objetos apreendidos, o relatório se encerra. Vale destacar que as mortes aparecem como já narrado no B.O, não há qualquer pedido de investigação para verificar se houve ou não confronto, se houve ou não por parte dos mortos alguma agressão. A versão dos policiais atravessa toda a produção da “verdade”.Os laudos cadavéricos dos corpos tampouco apresentam qualquer tipo de questionamento; informam-se e reiteram-se as mortes mediante disparo de arma de fogo, seus nomes, origem por nascimento, sua filiação e cor, mas nada sobre o que ocorreu.

Benzer Belgeler