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3. BULGULAR VE TARTIŞMA

3.3 YÜZEY PÜRÜZLÜLÜĞÜNE AİT BULGULAR VE TARTIŞMA

Resgatando as origens filológicas, Littré define eutanásia como boa morte, morte suave e sem sofrimento. Em tempos mais contemporâneos, tratar-se-ia de uma antecipação voluntária do passamento, imbuída por um télos humanitário – sobretudo para a pessoa, porém esse espírito humanístico contagia a coletividade à qual pertence o morrediço – dirigido à suspensão de um sofrimento insuportável.50

Pode-se afirmar que eutanásia é um ato médico que, ao utilizar-se de meios para evitar a dor e o sofrimento, acaba por abreviar a vida, munido de sentimento humanístico.51

Autores como Garcia defendem que o termo eutanásia deva ser utilizado exclusivamente para as práticas de profissionais da saúde, que sejam juridicamente tuteladas, empregadas em pacientes em estágio terminal, vítimas de doenças graves, que tenham por consequência severas limitações físicas e grande sofrimento, que quando utilizadas acabam por antecipar a sua morte. Enquanto que a conduta pessoal fundamentada na piedade e na

48 MARREIRO, Cecília Lôbo. Responsabilidade civil do médico na prática da distanásia. Revista Bioética, Brasília, DF, v. 21, n. 2, p. 308-317, 2013.

49 PESSINI, Leo. Eutanásia: por que abreviar a vida? São Paulo: Ed. Centro Universitário São Camilo, 2004. 50 SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo; SCHRAMM, Fermin Roland. Conversações sobre a “boa morte”: o debate

bioético acerca da eutanásia. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n.1, p. 113-120, jan./fev. 2005. 51 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Iniciação à bioética. Brasília, DF, 1998.

misericórdia deveria receber o nome de homicídio piedoso, afinal o sentimento de compaixão é o responsável por induzir o leigo a tal prática.52

O Código Penal53 considera homicídio privilegiado, no parágrafo 1.º, do art. 121, o fato do agente cometer o homicídio, movido por motivo de relevante valor moral, ou social, hipótese em que terá a pena reduzida em até um terço.

Já o Código de Ética Médica54, no caput do art. 41 proíbe o profissional de abreviar a vida do paciente, mesmo com pedido próprio, ou de familiares, considerando tal prática como infração ética punível.

Existem diversas classificações da eutanásia, mas duas principais são segundo o ato em si ou com referência ao consentimento do enfermo. 55

Quanto ao ato: a) eutanásia ativa: ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente por fins humanitários (exemplo: injeção letal); b) eutanásia passiva: omissão proposital de procedimentos que garantiria perpetuação da sobrevida (exemplo: deixar de usar certos medicamentos); c) eutanásia de duplo efeito: nos casos em que a morte é acelerada como consequência de ações médicas não visando o êxito letal, mas sim, ao alívio do sofrimento gerando secundariamente a morte (exemplo: injeção de morfina para controle da dor levando secundariamente a parada respiratória).

Quanto ao consentimento do enfermo: a) eutanásia voluntária: vontade expressa do doente, o que seria o mesmo que suicídio assistido; b) eutanásia involuntária: realizado contra a vontade do enfermo, o que poderia ser igualado a “homicídio”; c) eutanásia não voluntária: quando a vida é abreviada sem que se conheça a vontade do paciente.

O suicídio assistido é uma variável do suicídio comum, afinal toda morte advinda de uma ação, ou omissão comissiva do próprio agente, que tem consciência que sua conduta terá essa consequência, deve assim ser denominada.56

Com a finalidade de garantir o direito a uma boa morte, há quem defenda o suicídio assistido, prática essa institucionalizada na Holanda e na Suíça, configurada pela aplicação de

52 GARCIA, Iberê Anselmo. Aspectos médicos e jurídicos da eutanásia. Revista Brasileira de Ciências

Criminais, São Paulo, ano 15, n. 67, p. 253-275, jul./ago. 2007.

53 BRASIL. Decreto-lei n. 2.848, de 7 de setembro de 1940. Código penal. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Rio de Janeiro, 31 dez. 1940. p. 2391. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. Acesso em: 27 jan. 2014.

54 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de Ética Médica de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 set. 2009. Seção 1. p. 90. Disponível em: <http://www.portalmedico.org.br/ novocodigo/integra.asp>. Acesso em: 1 abr. 2012.

55 SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo; SCHRAMM, Fermin Roland. Conversações sobre a “boa morte”: o debate bioético acerca da eutanásia. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n.1, p. 113-120, jan./fev. 2005. 56 DURKHEIN, Émile. O suicídio. Tradução de Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

uma injeção de substância letal. No suicídio assistido, a morte decorre de ato praticado pelo próprio paciente, orientado ou auxiliado por terceiro ou médico.57

O suicídio assistido é uma prática muito criticada, vez que o auxílio de um profissional da saúde a um paciente que busca a morte, atenta contra os princípios da ciência médica, que opostamente busca salvar e não abreviar a vida.58

A eutanásia se distingue do suicídio assistido, pois, neste, o próprio doente provoca a sua morte, naquela, terceira pessoa põe fim à vida do doente.

Contudo a análise da conduta pode ser distinta, o médico da saúde não tem como objetivo antecipar a morte, seu escopo é aliviar o sofrimento do paciente, conforme determina o seu ofício, permitir que a dignidade humana seja preservada, reconhecendo o direito que todos têm de não sofrer.59

O suicídio se tornou internacionalmente conhecido com a ampla divulgação do emblemático caso do médico norte americano Jack Kevorkian, apelidado pela imprensa de “Dr. Morte”, que inventou a Thanatron, uma máquina de suicídio, composta por um aparelho de eletrocardiograma, munido de mecanismo que, ao ser acionado pelo próprio paciente, injeta em sua veia uma substância salina neutra, contendo o anestésico Tiopental, acarretando inconsciência. Em seguida, uma dose letal de cloreto de potássio paralisa o coração. O médico disponibilizou o aparelho a 130 clientes, que o usaram, cometendo suicídio.60

Em seu estado, o Michigan, não havia legislação que proibisse o suicídio assistido. Todavia, o médico foi denunciado, julgado e condenado, por homicídio, muito embora tenha sido comprovado que seus pacientes eram suicidas seguros de sua decisão. Uma das pacientes deixou uma nota confessando que, conscientemente, não suportaria os sofrimentos de sua doença e não queria que sua agonia fosse presenciada por seus familiares. A defesa de Kevorkian sustentou que a decisão condenatória era incoerente, criando o seguinte dilema: por um lado, proibia-se um adulto consciente a pôr fim a sua vida com assistência médica, por outro lado, permitia-se o aborto, apesar de terminar com a vida da vítima, sem sua anuência.61

O argumento da defesa está fundamentado na autonomia da vontade e na autodeterminação do indivíduo que não suporta mais o sofrimento causado pela enfermidade,

57 DINIZ, Maria Helena. O estado atual do biodireito. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

58 SOUSA, Paulo Henrique Martins de. De Kevorkian a Egoyan: o suicídio assistido entre o Direito e a Arte. In: DADALTO, Luciana. (Coord.). Diretivas antecipadas de vontade: ensaios sobre o direito à autodeterminação. Belo Horizonte: Letramento, 2013.

59 CHAVES, Antonio. Direito a vida e ao próprio corpo: intersexualidade, transexualidade, transplantes. 2. ed. São Paulo: Ed. Revista de Tribunais, 1994.

60 SOUSA, op. cit. 61 DINIZ, op. cit.

mas está condenado a viver e suportar todas as dores, enquanto a morte natural não chegar, trazendo-lhe alívio e paz.

No Brasil, o suicídio assistido é inadmissível por expressa determinação do art. 122 do Código Penal62, que estabelece reclusão que pode chegar a seis anos, na hipótese do suicídio ser consumado, já se da tentativa de suicídio resultar lesão corporal de natureza grave, a sanção poderá ser de reclusão pelo período de até três anos. São condutas passíveis de apenação o induzimento ou o auxílio ao suicídio.

No Brasil, uma denúncia envolvendo uma médica que, supostamente, acelerava a morte de pacientes na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Evangélico de Curitiba ganhou grande repercussão no início do ano de 2013. 63

Virgínia Helena Soares de Souza, chefe do setor de UTI de um dos maiores hospitais da capital paranaense, e mais outros três médicos Anderson de Freitas, Edison Anselmo da Silva Junior e Maria Israela Cortez Boccato, duas enfermeiras, Laís da Rosa Groff e Patrícia Cristina de Goveia Ribeiro, o enfermeiro Claudinei Machado Nunes e a fisioterapeuta Carmencita Emília Minozzo, que compunham a equipe de saúde, foram denunciados pelo Ministério Público paranaense e pelo Núcleo de Repressão aos Crimes Contra a Saúde (Nucrisa), sob a acusação homicídio e, ou, formação de quadrilha, no período entre janeiro de 2006 e fevereiro de 2013.64

A denúncia é que a equipe médica, em razão da falta de leitos para acolher todos os pacientes que necessitavam de tratamento, elegiam aqueles que permaneceriam na UTI e quais deveriam ceder sua vaga para enfermos com maiores perspectivas de cura.65

Os acusados negaram a prática de eutanásia, tipificada como homicídio, vez que o Código Penal não dispõe de tipo penal específico para essa conduta.

O processo ainda não chegou ao seu término, contudo houve grande manifestação popular contrária à prática da eutanásia, demonstrando que parte considerável da população brasileira é contrária à abreviação da vida de um paciente por um médico, ainda que a conduta seja revestida por valores humanitários.

62 BRASIL. Decreto-lei n. 2.848, de 7 de setembro de 1940. Código penal. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Rio de Janeiro, 31 dez. 1940. p. 2391. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. Acesso em: 27 jan. 2014.

63 MÉDICA acusada de acelerar mortes na UTI se diz inocente. Fantástico. Rio de Janeiro: Globo. 09 jun. 2013. Programa de TV. Disponível em: <http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/06/medica-acusada-de-acelerar- mortes-na-uti-se-diz-inocente.html>. Acesso em: 18 mar. 2014.

64 LEITÃO, Leslie. Acusada de mortes em UTI se apresenta no Fórum de Curitiba, mas juiz nega prisão. Veja

Digital, São Paulo, 27 mar. 2013. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/saude/acusada-de-mortes-

em-uti-se-apresenta-no-forum-de-curitiba-mas-juiz-nega-prisao>. Acesso em: 18 mar. 2014. 65 MÉDICA..., op. cit.