3. BULGULAR VE TARTIŞMA
3.4 ÇİZİLME TESTİNE AİT BULGULAR VE TARTIŞMA
Uma das principais características do ofício médico é o dever de buscar a cura das enfermidades e diminuir o sofrimento daqueles que buscam por seus préstimos, assim é ao longo dos séculos desde o princípio do exercício da medicina, porém nem sempre a cura é possível de ser alcançada, indaga-se como deve proceder o médico nessa situação, lutar até o fim, independentemente dos custos ao paciente? Ou aceitar que nem sempre curar é possível?
O extremo oposto à prática da eutanásia é a distanásia, que nada mais é que a obstinação ou futilidade terapêutica, ou seja, a prática de buscar prolongar ao máximo a quantidade de vida humana, combatendo a morte como o grande e último inimigo.66
O termo distanásia tem como significado “morte lenta”, que se prorroga no tempo e com muito sofrimento, de modo desproporcional, causando dores e aflições a todos os envolvidos.67
O termo futilidade terapêutica tem origem na língua inglesa medical futility. Países de origem anglo-saxônica são os que mais utilizam a expressão, enquanto que o termo obstinação terapêutica, ou encarniçamento terapêutico, tem origem francesa l'acharnement thérapeutique, sendo predominante em países europeus.68
Essas expressões são sinônimas e qualificam a prática da distanásia, que consiste na prática médica que, por meio de procedimentos médico hospitalares, busca inutilmente curar um mal, mas acaba por causar sofrimento maior, sem promover qualquer benefício ao paciente, vez que a cura é inatingível.69
A distanásia é uma morte lenta, que causa sofrimento desnecessário ao doente, sem respeito à vontade e ao conforto do paciente, esse processo acaba sendo estendido em razão de recursos médicos disponíveis, que são utilizados de modo abusivo e sem qualquer perspectiva de benefício ao moribundo, ampliando seu sofrimento, afinal as dores físicas e morais são prolongadas.70
O avanço biotecnológico cobra como preço a despersonalização da dor e da morte, enquanto proporciona meios de prolongar a vida, pois promove intensificação das dores
66 PESSINI, Leo. Distanásia: até quando prolongar a vida. São Paulo: Loyola; 2001.
67 LEMES, Conceição. Direitos tornam-se lei. In: GOUVEIA, Roberto. Saúde pública, suprema lei: a nova legislação para a conquista da saúde. São Paulo: Mandacaru, 2000.
68 VILLAS-BÔAS, Maria Elisa. A ortotanásia e o direito penal brasileiro. Revista Bioética, Brasília, DF, v. 16, n. 1, p. 61-83, 2008.
69 PESSINI, op. cit. 70 VILLAS-BÔAS, op. cit
humanas, vez que não se sabe o limite para a manutenção da vida por meio de suporte artificial, que muitas vezes gera mais perdas que ganhos aos pacientes e seus familiares.71
Esses avanços proporcionaram sucesso no tratamento de doenças que antes eram consideradas incuráveis, por essa razão a medicina tem como objetivo inicial a cura das enfermidades e, como nem sempre manter o paciente vivo é possível, a eliminação da morte passou a ser um objetivo ideal.
Assim, sacrifica-se qualidade de vida em favor do prolongamento do tempo de vida. Quando não existe mais possibilidade de cura, como no caso de pacientes terminais, o dever do profissional deixa de ser curativo.72
É uma violação à liberdade individual expor uma pessoa a um processo lento e doloroso do processo de morte, fazendo-a sobrevivente de modo antinatural, unicamente pela possibilidade de recursos técnicos, em razão da evolução biotecnológica, sem qualquer preocupação com o ser humano, suas aflições e desejos. Mais que isso, trata-se de conduta incivilizada, que afronta a dignidade da pessoa humana, pois não demonstra qualquer compaixão com o paciente, ou com sua família, que também tem seu sofrimento prorrogado e ampliado.73
Enquanto, na eutanásia, o objetivo é abreviar a vida do paciente, preocupando-se com a qualidade de vida remanescente; na distanásia, o escopo é prolongar a vida do doente, fixando-se na quantidade dessa vida.74
Há quem defenda que a distanásia é o prolongamento do processo da morte de um paciente terminal, de modo desmesurado, por meio de um tratamento desproporcional.75
O tratamento fútil consiste na ausência de qualquer perspectiva de benefício ao paciente, ou ainda, quando houver uma ínfima probabilidade de benefício, essa esteja associada a uma má qualidade de vida.76
Não há qualquer amparo no dever moral à obstinação terapêutica, pois esta não se justifica, a ausência de benefício faz dela simplesmente uma prorrogação de sofrimento, sem perspectiva de qualquer ganho.
71 MARTIN, Leonard M. A ética diante do paciente terminal: leitura ético-teológica da relação médico- paciente terminal nos códigos brasileiros de ética médica. São Paulo: Santuário, 1993.
72 OLIVEIRA, Maria Zeneida Puga Barbosa; BARBAS, Stela. Autonomia do idoso e distanásia. Revista
Bioética, Brasília, DF, v. 21, n. 2, p. 328-337, 2013.
73 PALMER, Michael. Problemas morais em medicina: curso prático. São Paulo: Loyola; 2002.
74 PESSINI, Leo. Eutanásia: por que abreviar a vida? São Paulo: Ed. Centro Universitário São Camilo, 2004. 75 DINIZ, Maria Helena. O estado atual do biodireito. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.
76 SCRIGNI, Adriana. Bioética e problemas de final de vida – uma experiência de limitação de suporte vital em um hospital de alta complexidade. Tradução de Maria Stela Gonçalves, Adail Sobral e Luis Fernando Spósito. In: PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul de (Org.). Bioética clínica e pluralismo. São Paulo: Ed. Centro Universitário São Camilo: Loyola, 2013.
A crença que a vida biológica é um bem supremo que merece a concentração de todos os esforços disponíveis, independente do sacrifício de sua qualidade de vida, induz o profissional à distanásia. Outro fator é a dificuldade de profissionais, acostumados a salvar vidas, aceitarem a morte, o que lhes gera grande angústia.77
Muitas vezes a prática da distanásia está associada à denominada medicina preventiva. Com o escopo de evitar acusação de atuação médica equivocada, que poderia dar ensejo à responsabilização profissional, o profissional opta por realizar procedimentos médico hospitalares desnecessários.78
Outras vezes, menos frequentes, está enraizada na ganância, intentando obter ganhos financeiros, vez que essas técnicas são elaboradas e de alto custo, portanto necessitam de montante monetário considerável para fazer-lhe frente ao feito, situação que pode ser agravada quando é conduzida à revelia do paciente.79
O interesse econômico pode ser tanto do profissional da saúde, quanto do nosocômio, lesando o paciente, que depositou sua confiança no médico, porém o ato lesivo também poderá ter como vítima o plano de saúde do enfermo, que suportará os altos custos do procedimentos, bem como a Administração Pública, na eventualidade do paciente ser submetido ao tratamento na rede pública de saúde, onerando o erário público.
A vaidade profissional também é uma das razões que fundamentam a distanásia, o profissional por vezes não admite o insucesso das tentativas de tratamento, e observa a morte que se aproxima não como uma circunstância própria da vida, mas como um fracasso pessoal, por essa razão luta contra o perecimento humano como um inimigo que se aproxima, trazendo-lhe frustração profissional.80
O Código de Ética Médica determina que a distanásia seja evitada, prescrevendo que doentes terminais, que padecem de moléstia incurável, devam receber todos os cuidados paliativos disponíveis, contudo não deverá empreender ações diagnósticas ou terapêuticas obstinadas ou inúteis, bem como respeitar a autodeterminação do paciente.81
77 OLIVEIRA, Maria Zeneida Puga Barbosa; BARBAS, Stela. Autonomia do idoso e distanásia. Revista
Bioética, Brasília, DF, v. 21, n. 2, p. 328-337, 2013.
78 PINTO, Cristhiane da Silva. Quando o tratamento oncológico pode ser fútil? Do ponto de vista da paliativista.
Revista Brasileira de Cancerologia, Rio de Janeiro, v. 54, n. 4, p. 393-396, 2008.
79 VILLAS-BÔAS, Maria Elisa. A ortotanásia e o direito penal brasileiro. Revista Bioética, Brasília, DF, v. 16, n. 1, p. 61-83, 2008.
80 Ibid.
81 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de Ética Médica de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 set. 2009. Seção 1. p. 90. Disponível em: <http://www.portalmedico.org.br/ novocodigo/integra.asp>. Acesso em: 1 abr. 2012.
Contudo é imperioso ressaltar que todo procedimento deve ser discutido com o paciente e, sendo necessário, com seus familiares, vez que a autodeterminação do paciente está presente no diálogo e cada um dos agentes pode ter uma interpretação distinta sobre a vida e a futilidade terapêutica. Sendo assim, em situações limite a relação médico paciente deve ser preservada, por meio da comunicação e do respeito mútuo.82