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Em 1967, dirigentes de várias agremiações, como Inocêncio Tobias (Camisa Verde e Branco), Pé Rachado (Vai-Vai), Seu Nenê (Nenê de Vila Matilde), Seu Carlão (Unidos do Peruche), Madrinha Eunice (Lavapés) e Xangô (Vila Maria), procuraram os radialistas Moraes Sarmento, Evaristo de Carvalho, Vicente Leporace e Ramon Gomes Portão, que já tinham experiência com transmissão e patrocínio dos desfiles, para uma reunião sobre como obter patrocínios para o carnaval do ano seguinte. Desse encontro surgiu a ideia de formarem uma comissão para solicitar ao prefeito de São Paulo, Brigadeiro Faria Lima, um patrocínio da prefeitura para a realização dos desfiles. Tinham por finalidade centralizar os desfiles em um único local, pois, antes, os locais variavam a cada ano, dificultando a logística e o planejamento das escolas, como

53 transporte de alegorias, locais para a concentração dos integrantes das escolas, banheiros e outras questões de infraestrutura, como montagem de arquibancadas, que variavam de acordo com o local do desfile e o valor gasto pelo patrocinador (URBANO; NABHAN; SANTOS, 1987, p. 12).

O prefeito José Vicente de Faria Lima se reuniu com a comissão de sambistas e radialistas, gostou do projeto apresentado a ele e aceitou patrocinar os desfiles carnavalescos na cidade. Para realizar essa ação, enviou para a Câmara Municipal a Lei nº 7.100, de 29/12/1967, na qual a prefeitura ficava autorizada a promover as festas de carnaval e financiá-las através de verbas orçamentárias próprias. No ano de 1968, a prefeitura investiu NC$ 480.000,00 (quatrocentos e oitenta mil cruzados novos) provenientes do excesso de arrecadação previsto para o presente ano:

LEI Nº 7.100, DE 29 DE DEZEMBRO DE 1967:

Dispõe sobre as festas de cunho popular e festejos carnavalescos, e dá outras providências: Art 1º – Fica a Prefeitura autorizada a promover, anualmente, festas de cunho popular e festejos carnavalescos no Município de São Paulo, visando incerementar o turismo, conservar e desenvolver tradições folclóricas brasileiras e contribuir para a recreação popular:

Parágrafo Único: A fim de atender ao disposto nesse artigo, o Executivo, na forma da legislação vigente e das normas estabelecidas poderá:

I – promover diretamente ou mediante concessão, observado nesse caso o princípio da concorrência:

a) a ornamentação das ruas, praças e outros locais de festejos populares, bem como a construção de arquibancadas, coretos, tablados e outras instalações necessárias;

b) bailes no Teatro Municipal, em outros próprios municipais e logradouros públicos;

II – conceder auxílios, instituir e outorgar prêmios, conforme regulamento a ser baixado por decreto.

Art. 2º - Poderão ser constituídas comissões com a finalidade de coordenar e executar as providências necessárias à realização das festas e festejos que trata o artigo 1º, observado o disposto nesta lei.

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Parágrafo Único: A composição de cada comissão, suas atribuições específicas e normas de funcionamento serão estabelecidas por decreto.

Art. 3º - Para atender às despesas com a execução dessa lei, em 1968, fica o Executivo autorizado a abrir, na Secretaria das Finanças, com vigência até 31 de dezembro do mesmo ano, crédito especial no valor de NC$ 480.000,00 (quatrocentos e oitenta mil cruzados novos), que será coberto com recursos provenientes do excesso de arrecadação previsto para o corrente exercício, e nos anos subsequentes, pelas verbas orçamentárias próprias.

Art. 4º - Essa lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário12.

Como se pode observar, a lei é genérica sobre “festas de cunho popular e

festejos carnavalescos”, não legislando especificamente sobre os desfiles de escolas de

samba e cordões de carnaval. A motivação de sua publicação foi a reunião com os sambistas e radialistas. O objetivo do prefeito, como fica evidente no artigo 1º, é

“incrementar o turismo” e “conservar e desenvolver as tradições folclóricas”, sendo o

primeiro com muito mais força que o segundo. O item que contempla as escolas de

samba e cordões é o item II do Art. 1º, “conceder auxílios, instituir e outorgar prêmios, conforme regulamento a ser baixado por decreto”, ou seja, o prefeito poderia conceder

ou não prêmios e auxílios para as escolas. Já os recursos necessários para promover os desfiles, ou seja, a parte de infraestrutura e divulgação não estava determinada na lei e retirada, por exemplo, da Secretaria de Turismo ou Cultura, mas deveriam vir de verbas orçamentárias próprias, de iniciativa exclusiva do prefeito, através de um projeto de lei. Este projeto de lei é submetido ao Poder Legislativo, que o discute, modifica, aprova e submete novamente ao chefe do Executivo para sanção, como toda lei.

No início do ano seguinte, em 11 de janeiro de 1968, o decreto-lei de nº 7.348/68 cria a Comissão Organizadora do Carnaval, vinculada à Secretaria de Turismo e Fomento e submetida diretamente ao prefeito que, ao lado do secretário de Turismo, Tibiriçá Botelho Filho, foram os coordenadores do carnaval daquele ano, realizado no Vale do Anhangabaú. Esse conjunto de leis foi completado no final de 1970, com o

55 decreto nº 9.051 de 12/10/1970, assinado pelo prefeito Paulo Maluf, que instituía um

“Calendário Oficial de Eventos”, na cidade de São Paulo, sob a responsabilidade da

Secretaria de Turismo e Fomento:

(...) Art. 7º – A inclusão no “Calendário Oficial de Eventos” dar-se-á por despacho do Secretário de Turismo e Fomento ex-officio, mediante requerimento do interessado.

Art. 8º – São incluídos obrigatoriamente no “Calendário Oficial de Eventos” de cada ano: a) As festividades da Semana da Pátria;

b) As festividades comemorativas da fundação da cidade de São Paulo; c) Os festejos carnavalescos;

d) As festas de Natal, fim de ano e primavera;

Art. 9º - A inclusão no “Calendário Oficial de Eventos” constitui uma condição necessária para a concessão de auxílio e a outorga de prêmios, nos termos do artigo 1º do parágrafo único, item II, da Lei 7.100, de 29 de dezembro de 196713.

O decreto nº 9.051 reconhece, oficialmente, por parte da prefeitura, que o carnaval é um evento público de caráter municipal e que deve ser organizado e supervisionado pela Secretaria de Turismo e Fomento.

Apesar do incentivo recebido pelo poder público, os desfiles das escolas de samba se tornam hegemônicos dentro das brincadeiras de carnaval da cidade, já que eles foram contemplados com as verbas oficiais. Ao escolher o desfile das escolas de samba como festejos oficiais do carnaval da cidade de São Paulo, a prefeitura exclui várias outras manifestações de Momo que aconteciam na cidade, como os corsos que ocorriam no bairro do Brás e, que nos anos 1950, foram transferidos pela prefeitura para a Avenida São João e os bailes carnavalescos promovidos nos salões pela classe média em diferentes bairros da cidade, que não recebiam apoio nenhum e foram aos poucos acabando, com seus participantes se dispersando ou mesmo participando e fundando novas escolas de samba.

56 Este apoio financeiro através da Lei nº 7.100, de 29/12/1967, e os decretos complementares exigiram que as escolas e cordões fundassem uma federação ou confederação, de personalidade jurídica, para que pudessem receber os incentivos da Secretaria de Turismo e Fomento. Dessa forma, foi reativada a Federação das Escolas de Samba e Cordões Carnavalescos de São Paulo, fundada em 1958 e que se encontrava sem nenhuma atribuição. Os desfiles de carnaval, a partir de sua oficialização, passaram a ser planejados pela administração municipal, como parte das atividades de turismo e entretenimento; os custos com a realização dos desfiles foram, assim, incorporados como parte dos investimentos necessários para aquecer um setor da economia urbana do município. As transformações institucionais vinculavam-se diretamente à atuação do poder público municipal como impulsionador de mudanças, a partir do momento no qual ele se tornou patrocinador e promotor dos desfiles carnavalescos.

Os integrantes das escolas viam, no apoio da prefeitura, uma etapa importante cumprida, pois as verbas representavam a valorização de sua atividade cultural como algo importante para a vida social da cidade e como um elemento potencializador de sua autonomia. Todos os anos até a oficialização, os cordões e escolas não tinham a certeza de que desfilariam por falta de patrocínio, pois quase todos os seus membros não dispunham de muitos recursos para investimentos. A quantidade de dinheiro empregada pelas escolas e cordões, até a oficialização era, basicamente, para comprar a fantasia segundo o tema daquele ano, que poderia ser de marinheiro, soldado, pirata e outros possíveis temas, e a da corte carnavalesca, que normalmente eram as mais caras, mas sempre recicladas a cada ano. E, por fim, possuíam gastos com os instrumentos, tanto para manutenção daqueles que apresentassem algum problema, como compra de novos, além do encouramento dos instrumentos de percussão.

Para os sambistas que participaram dessas negociações, o patrocínio da prefeitura iria garantir esses gastos mínimos, possibilitando a agremiação desfilar, mesmo que os dirigentes não conseguissem dinheiro suficiente dentro da própria

comunidade. O arrecadado com o “livro de ouro”, ou contribuição de membros, poderia

57 mesmo em passeios e atividades voltados para a comunidade das escolas, como excursões e piqueniques, além de outras eventuais despesas durante o ano.

Os cordões de carnaval, e mesmo as que se intitulavam “escolas de samba”, até esse momento, não possuíam “quadras” para realizar seus ensaios, que eram feitos na

rua, em terrenos baldios ou praças públicas. As festas principais, como o aniversário das agremiações, levantamento de fundos para o carnaval, ou ensaios gerais, também poderiam ocorrer em salões improvisados ou alugados. Os instrumentos mais caros, como os de sopro assim como as fantasias mais caras, as da corte carnavalesca, normalmente eram guardados na residência da família responsável pela agremiação.

Nesse período, da luta pela oficialização, os sambistas de São Paulo, que exerciam os ofícios menos valorizados e remunerados, já viam o carnaval e o samba como elementos potenciais para modificar as condições sociais de seus integrantes e da comunidade que vivia em torno das escolas. Viam, na aliança com o poder público, a esperança de uma vida melhor, de poder divulgar a sua agremiação, não apenas durante o carnaval, mas em eventos e festas ao longo do ano. Era comum a formação de grupos para apresentação de espetáculos de samba em teatros, bares e outros locais da cidade, ou mesmo em cidades do interior.

O primeiro desfile oficial realizado pela prefeitura de São Paulo ocorreu em 1968, em pleno ambiente de repressão imposto pelo regime militar brasileiro. Participaram desse primeiro desfile oficial as seguintes escolas e cordões: “Nenê de Vila

Matilde”; “Unidos do Peruche”; “Lavapés”; o cordão carnavalesco “Vai-Vai”; o cordão Carnavalesco “Fio de Ouro da Bela Vista”; “Camisa Verde e Branco”; “Acadêmicos do

Ipiranga”; “Mocidade Alegre”; “Príncipe Negro de Vila Prudente”; “Estrela Brilhante”;

“Império do Cambuci”; “Unidos de Vila Maria”; “Acadêmicos do Tatuapé”; o “Grupo Folclórico Irmãs Ibejy”; “Acadêmicos do Parque Peruche”; “Folha Azul dos Marujos”, “Morro da Casa Verde” e “Primeira de Santo Estevão. A campeã daquele ano, por sua vez, foi a “Nenê de Vila Matilde”, tendo como tema o poema de Castro Alves “Navio

58 O patrocínio oficial da Prefeitura de São Paulo previa a concessão de verbas para os custos de organização do concurso de carnaval, uma premiação para a escola campeã e verbas de participação para todas as escolas. Para a realização do concurso era necessário que a Prefeitura e as agremiações carnavalescas, através da Federação das Escolas de Samba, formulassem um regulamento para os desfiles. Evaristo de Carvalho foi até a cidade do Rio de Janeiro encontrar-se com Paulo Costa Lamarão, então presidente da Confederação Brasileira das Escolas de Samba (CBES), com o objetivo de Lamarão o auxiliar a produzir um regulamento para as escolas de samba e cordões de São Paulo. Então, o primeiro regulamento oficial dos desfiles da cidade de São Paulo é realizado tendo como modelo o da CBES. A mudança inicial prevista neste regulamento era a criação de um único palco para todos os desfiles que, normalmente, eram descentralizados, com as escolas e cordões participando de várias competições em vários palcos, normalmente organizados por jornais e rádios. O local escolhido para centralizar os desfiles foi a Avenida São João, que recebeu os desfiles entre 1968 e 1977. Um carnavalesco também foi trazido do Rio de Janeiro para auxiliar as escolas a se adaptarem às mudanças.

O secretário de Turismo, Tibiriçá Filho, viu nos desfiles do Rio de Janeiro um modelo mais acabado e mais rentável de desfiles e que foi encarado pelo poder público paulista como um sucesso. Decide importar o regulamento proposto por Lamarão, sem levar em conta as especificidades das agremiações paulistas, oriundas dos cordões carnavalescos (AZEVEDO, 2010). O secretário via as escolas e cordões como manifestações folclóricas que passavam a desempenhar um papel turístico na cidade. O patrocínio dos desfiles eram oportunidades de ampliação de uma atividade de lazer (que até então era negligenciada pelo próprio Estado) capaz de tornar a cidade mais atrativa para os visitantes. A oficialização veio ao encontro da posição do governo federal que procurava alavancar o turismo como uma potencialidade do país, para gerar divisas e empregos. Dois anos antes, em 1966, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco havia criado a Empresa Brasileira do Turismo (Embratur). A empresa estatal foi criada com o objetivo de desenvolver e normatizar o turismo no Brasil.

59 Fazendo um paralelo com os desfiles da capital fluminense, a prefeitura do então Distrito Federal, já em 1936, começou a dar prêmios em dinheiro para os vencedores do concurso de escolas de samba, como forma de promover e incentivar os desfiles, assim como já fazia com alguns ranchos ou blocos (CABRAL, 2001, p. 114).

A decisão de contar uma história na avenida já era adotada por ranchos carnavalescos e foi admitida e utilizada pelas escolas de samba a partir de 1935. É o surgimento do enredo, dentro das escolas de samba. A partir desses prêmios e incentivos financeiros dados pelo poder público, começam a se estabelecer regras mais rígidas para as disputas. Com o golpe do Estado Novo, em 1937, o Brasil entra em um período ditatorial e o governo de Getúlio Vargas intensifica a censura e a propaganda nacionalista, criando o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A partir de 1938, com um novo regulamento proposto pela União das Escolas de Samba do Rio, os enredos deveriam versar sobre história e fatos, líderes e personagens do Brasil (PARANHOS, 2005, p. 138-143). Essa exigência continua vigente e está presente no regulamento, no momento da oficialização do carnaval de São Paulo14.

A penetração e a influência de soluções adotadas pelas escolas de samba do Rio de Janeiro já vinham sendo adotadas por alguns cordões e escolas de samba da cidade de São Paulo, muito antes da oficialização, como Nenê de Vila Matilde, Império do Cambuci e Unidos do Peruche, responsáveis por trazer para o carnaval da cidade diversas inovações que já estavam presentes nos desfiles do Rio de Janeiro.

Entre 1968 e 1971, a Prefeitura de São Paulo promoveu desfiles em duas categorias: escolas de samba e cordões carnavalescos. Sendo o prêmio recebido pelos cordões bem menor do que aquele oferecido às escolas de samba. Durante esses quatro anos, o número de escolas participantes aumentou e o número de cordões ficou reduzido para apenas três: Fio de Ouro, Vai-Vai e Camisa Verde e Branco. Os três decidiram se tornar escolas de samba, dando fim à tradição dos cordões, seguindo assim o padrão dos

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Essa exigência foi em parte flexibilizada na década de 1970 pelo talento estratégico e criativo do carnavalesco Joãosinho Trinta, no Rio de Janeiro, que, ao incluir o sonho e o imaginário em seus enredos, livrou os criadores do desfile da limitação imposta pelo regulamento.

60 regulamentos trazidos do Rio de Janeiro, o qual se consolidava como modelo carnavalesco também em São Paulo.

O cordão Fio de Ouro, que tinha dificuldades de organização por dividir o público com o Vai-Vai, já que ambos são do mesmo bairro, Bela Vista, não conseguiu se manter como escola de samba e, no final dos anos 1970, decidiu encerrar suas atividades, quando se encerraram os desfiles dos cordões. É importante lembrar que a decisão de se tornarem escolas de samba partiu dos próprios cordões remanescentes que tinham décadas de existência e não queriam perder prestígio e membros para as escolas de samba. Outro fator muito importante para o fim dos cordões era que a quantidade de verbas distribuídas para os cordões era menor que aquela destinada às escolas de samba, mesmo alguns cordões sendo, como os dois acima mencionados maiores que as escolas de samba do período. A adaptação desses cordões históricos foi muito rápida, prova disso é o tetracampeonato conquistado pelo Camisa Verde e Branco entre 1974 e 1977 e o primeiro título do Vai-Vai como escola em 1978.

É interessante observar que os radialistas Evaristo de Carvalho, Moraes Sarmento, Vicente Leporace e Ramón Gomes Portão, além de auxiliar as escolas de samba, se tornaram os primeiros dirigentes da refundada Federação das Escolas de Samba, recebendo os recursos do Estado e os repassando para as escolas porque os próprios sambistas ainda eram vistos com certa desconfiança pelo poder público, pelo fato de serem pessoas de pouca escolaridade e baixa renda. Uma prova disso é a criação, em 1970, de uma Comissão de Carnaval, chamada COCAP, pela Secretaria de Turismo, encarregada de organizar e realizar o carnaval. Na comissão estavam presentes os radialistas acima citados, como representantes dos sambistas, além de pessoas ligadas à administração pública.

Para Seu Nenê da Vila Matilde, aquele era o momento de aglutinar o maior apoio possível e mostrar que os sambistas não estavam isolados, mas contavam com uma assessoria de profissionais universitários e respeitados no mercado de trabalho, que iria facilitar e mediar o acesso dos sambistas às autoridades municipais. Em seu livro de memórias, ele nos conta a importância dos jornalistas:

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Sabíamos que tínhamos que falar com o prefeito Faria Lima, mas não sabíamos como chegar a ele. No ano anterior tínhamos conversado com o deputado Egídio de Serrano sobre como chegar até o prefeito e ele disse:

“Vocês têm que arrumar um cartucho”. Nós não sabíamos que cartucho era

esse. Aí parece que Deus ajudou, o cartucho estava ali mesmo: era o Moraes Sarmento, um radialista conhecido. Sabíamos que falar com o Faria Lima era difícil, porque já tínhamos tentado. Já tínhamos feito cartas, escrevíamos e quando chegávamos com a carta ao gabinete do prefeito, sempre tinha um secretário, porteiro, que pegava a carta e engavetava (BRAIA, 2000, p. 68).

Em 1971, como nos informa o ex-dirigente da federação e ex-presidente da UESP, Álvaro Casado, a Federação das Escolas e Cordões sofreu uma intervenção judicial, por rejeição das contas, por parte da Prefeitura:

Na época do Moraes Sarmento, da Federação, andaram emitindo uns cheques sem fundo, porque chamava a escola e dava na mão do cara. Era o Mala que ia, eu ia com ele e a gente dava o cheque pra escola diretamente, pro presidente, tesoureiro. (...) Deixa eu te contar uma coisa que me veio agora. Teve uma escola de samba, veio lá da zona Leste. O presidente pegou o dinheiro e comprou carro, comprou geladeira, fogão pra nêga e pá pá pá [sons com a boca]. E aí não saiu a escola [risos]. O que você vai fazer com um cara desse? O que vai fazer com esse cara? [risos]. Assinou o recibo com o dinheiro e gastou e não pôs a escola na rua [risos]. Não lembro se foi da Casa Verde ou da zona Leste, mas esse cara fez isso. Teve processo, mas o cara tava ligando pra processo [risos]. Caiu no esquecimento. E com isso quem ficava sem crédito era a Federação.15

Somado a isso, houve um processo de “fritura” dos dirigentes da Federação por parte dos sambistas. Após apoiar a Unidos da Peruche em uma questão judicial para a concessão do terreno em que a escola ensaiava para agremiação, a Nenê de Vila Matilde, que também não tinha quadra, acusou Evaristo de Carvalho de trabalhar em favor da Peruche e de não ajudá-la na mesma questão. E havia também a rivalidade entre os remanescentes cordões Camisa Verde e Branco e Vai-Vai. Os cordões os acusavam de serem partidário de um ou do outro cordão.

Após as denúncias de alguns membros, ligados a uma escola acusando-o de desonestidade, dizendo que ele havia se apoderado de verbas destinadas às escolas,

62 Evaristo de Carvalho abandonou a presidência da federação, deixando-a novamente sem

Benzer Belgeler