Os chamados cordões carnavalescos formaram o que chamamos hoje de escolas de samba, as organizações carnavalescas e artísticas paulistanas. Foi através desses cordões, que a população negra e pobre paulistana participava das Folias de Momo, no início do século XX.
Nessa época, ainda não havia desfiles populares organizados e as festividades realizadas pelos cordões ainda não contavam com o ritmo do samba. A parte musical dos cordões foi aos poucos recebendo influências desse ritmo, como o batuque e o samba-de-bumbo6. O batuque era uma denominação um pouco mais genérica dada a princípio pelos portugueses para designar a dança dos negros da África. Como mostra Luis da Câmara Cascudo, no final do século XIX e início do século XX, no Estado de São Paulo, nas regiões de Piracicaba e Sorocaba e mesmo na capital, o batuque era dançado com frequência, improvisando-se uma coreografia que seguia os ritmos do tambu, do quinjengue, da matraca e do guaiá. A partir dessa base instrumental, eram improvisados versos. O batuque era tido como uma dança de terreiro e também conhecido em cidades como Tietê, Porto Feliz, Laranjal Paulista, Capivari, Botucatu, Itu, Tatuí e em outros municípios que contavam com a presença de antigos escravos no Estado de São Paulo (CASCUDO, 2011).
Os folguedos do carnaval paulistano possuem grande influência rural e religiosa, proveniente dessas festas e procissões do interior do Estado. A maior parte dos componentes dos cordões convivia regularmente com o chamado Samba de Pirapora,
6Para o folclorista Luis da Câmara Cascudo, há duas variantes do samba tradicional em São Paulo,
consideradas como o ancestral do samba cosmopolita. Elas guardam traços que os aproximam do jongo e do batuque, seus parentes próximos e por muitos considerados seus antecessores. A de Samba de Bumbo tem como ponto de aglutinação a Festa do Bom Jesus, em Pirapora; já a de Lenço, a devoção familiar do grupo a São Benedito. Apresentam letras e melodias singelas e funcionais, algumas tradicionais, outras estruturadas de acordo com as circunstâncias cotidianas.
43 cuja característica principal era a presença do bumbo. Esse contato se dava principalmente durante as festas de Bom Jesus, realizadas no início de agosto, quando, em romaria, os negros iam até a cidade de Pirapora do Bom Jesus. A festa consistia em uma manifestação religiosa na cidade, e, paralelamente aos cultos e procissões, acontecia uma reunião de negros que cantavam e dançavam o ritmo do samba. Esses negros se reuniam nos barracões, que eram locais de hospedagem improvisada para os romeiros. E eram nesses espaços que se realizavam os encontros de sambistas, na cidade de Pirapora do Bom Jesus.
Para Osvaldinho da Cuíca, sambista e pesquisador do samba no Estado de São Paulo, o samba-de-bumbo recebe esta denominação a partir da inclusão do bumbo, instrumento utilizado pelas bandas marciais nas cantorias das festas religiosas do catolicismo popular em Pirapora. Estas festas tinham o acompanhamento de violas, cavaquinhos, chocalhos e percussão corporal feita por mãos e pés. Em outras regiões do Estado eram utilizados os primitivos tambus — tambores escavados em troncos de árvores —, comuns nos batuques paulistas, porém, o seu grande tamanho e peso, dificultavam o seu transporte. Por isso coube ao bumbo a função de realçar o caráter rítmico das canções, favorecendo a expressão dos vigorosos matizes musicais africanos (CUÍCA; DOMINGUES, 2009, p. 25).
As manifestações musicais de Pirapora do Bom Jesus receberam posteriormente contribuições de elementos musicais originalmente dispersos, como o jongo, a catira, a caninha verde e Folia do Divino, trazidas por romeiros de diversas regiões do Estado de São Paulo, do Sul de Minas, do Mato Grosso e do Norte do Paraná. Tendo como ponto de vista a composição, o repertório tocado pelo samba-de-bumbo era principalmente a improvisação de versos sobre uma base melódica/harmônica bastante simples em longos desafios. Os desafios musicais são disseminados em todo o país recebendo diversos nomes, como “duelo de viola”, “partido-alto”, “repente”, “embolada” etc. e destacam-se nestes desafios de improviso matizes ibéricos e africanos. No caso dos desafios do samba-de-bumbo, há predominância do canto africano, pois, somado à influência negra em sua síntese rítmica, costumavam ser realizados versos improvisados com grande uso de mensagens de duplo sentido, característicos da comunicação velada
44 desenvolvida pelos escravos para driblar a vigilância dos senhores durante o período escravista (CUÍCA; DOMINGUES, 2009, p. 27).
Dona China, primeira porta-bandeira da escola de samba Vai-Vai relembra que, quando criança, ia com sua família para a festa:
Sempre no mês de agosto íamos pra Pirapora do Bom Jesus. (...) Era tão lindo! Tinha congada, catira, tinha a dança de roda, as mulheres com aquelas saionas, dançando e batendo aquele tambor, eu dancei até com menino pequenininho assim, menino bom pra dançar sabe, dançar umbigada, aquelas coisas lindas, depois também tem a dança de São Gonçalo, o pessoal vem dançando, e bate pra lá, bate pra cá, aquelas fitas, coisa maravilhosa.
Com a abolição da escravidão e o desenvolvimento e a expansão da cidade de Pirapora, muitos desses antigos escravos se mudaram para a cidade de São Paulo e trouxeram consigo o ritmo do samba:
Como a cidade de Pirapora era muito pequena, não contando com hotéis e hospedarias, foram construídas nessa época grandes barracões para abrigar os romeiros. A parte profana da festa era realizada nesses barracões e ali se davam os grandes combates de samba entre grupos rivais, representando cada um a sua cidade. A romaria a Bom Jesus de Pirapora, apesar de ser uma devoção religiosa, propiciava, entretanto, uma ocasião de grande divertimento para os fiéis, com desafios de samba, passeios de barco pelo Tietê, desfile de rua, além de promover um encontro entre todos os romeiros (SIMSON, 1989, p. 98).
Outra data importante sempre comemorada pelo contingente negro da cidade era o dia três de maio — dia da Festa de Santa Cruz —, através de rezas e procissões junto à Igreja das Almas dos Enforcados, no bairro da Liberdade. Da mesma forma era sempre lembrado o dia de São Benedito.
Nesse primeiro momento, as manifestações musicais tradicionais negras eram discriminadas pela sociedade branca dominante, que frequentemente proibia os negros de utilizarem o espaço público para essas manifestações. Assim, para impedir o direito à reunião e à organização dos negros, prática exercida desde a escravidão, incitava-se os órgãos do poder público a reprimi-las. A única exceção era feita às festas inerentes ao
45 calendário oficial católico, utilizadas pelos negros para cultuar suas raízes, através do sincretismo religioso.
Em 12 de março de 1914 nascia o primeiro cordão da cidade, o “Grupo
Carnavalesco Barra Funda” (MORAES, 1978, p. 34). Fundado por Dionísio Barbosa e seus familiares no bairro de mesmo nome, ganhou nas ruas o apelido de “Camisa Verde” já em seu primeiro desfile, com doze pessoas vestidas com camisas verdes,
calças brancas e chapéus de palha. Nessa época, os desfiles ainda não contavam com o ritmo do samba; os instrumentos musicais eram apenas pandeiros e chocalhos feitos com madeira e tampinhas de cerveja, e só no ano seguinte é que conseguiram um surdo.
Sobre esse cordão, o jornalista e sambista Jangada relembra:
Em 1914, a cidade possuía três núcleos onde se realizavam festejos carnavalescos: Brás, Avenida Paulista e Centro. É neste ano que, liderado pelo negro Dionísio Barbosa, surge o grupo carnavalesco Barra Funda, o primeiro cordão carnavalesco de São Paulo, composto por apenas dez foliões, que animava as ruas por onde passava, chegando mesmo a ser convidado para abrilhantar os bailes da aristocracia na Av. Paulista. A coragem de Dionísio merece destaque, principalmente a considerar-se que, naquele tempo, era preciso muita fibra para sair às ruas, já que a polícia achava que diversão carnavalesca era privilégio de rico, o povo negro e pobre tinha mesmo é que trabalhar (ÚLTIMA HORA, 04/03/1976).
Apesar de ser o primeiro agrupamento criado por negros para os festejos de carnaval, já existiam diversos clubes, grêmios e associações formados por negros na cidade de São Paulo. Destacam-se o Club 13 de Maio dos Homens Pretos, fundado em 1902; o Centro Literário dos Homens de Cor, fundado em 1903; a Sociedade Propugnadora 13 de Maio, fundada em 1906; o Centro Cultural Henrique Dias, fundado em 1908 e, pouco tempo depois de terem fundado o Grupo Barra Funda, surgiram a Sociedade União Cívica dos Homens de Cor, fundada em 1915, e a Associação Protetora dos Brasileiros Pretos, fundada em 1917 (DOMINGUES, 2007).
A pesquisadora Regina Pahim Pinto contabilizou em sua pesquisa o número de 123 associações formadas por negros na cidade de São Paulo entre 1907 e 1937, incluindo os agrupamentos carnavalescos (PINTO, 1993, p. 84). A criação destas
46 associações no mesmo período do surgimento do Grupo Barra Funda deixa evidente que esta não foi uma atitude isolada de Dionísio Barbosa, mas já utilizada pelos negros da cidade como forma de identidade para organizações assistenciais, políticas, literárias, culturais e mesmo para a construção de atividades de lazer.
Pouco depois de ser fundado o grupo carnavalesco “Camisa Verde”, formou-se
outro cordão nas imediações da Barra Funda: a agremiação “Campos Elíseos”. Esta
nasceu da estrutura de um grupo menor, conhecido como “Bloco dos Boêmios”,
fundado em 1913 a partir de um grupo de fanfarrões que cantavam nos bares da região da Avenida São João, no centro, precisamente na Alameda Glete. Entre seus membros importantes estavam Alcides Marcondes e José Euclides Santos, que entraram no grupo em meados de 1915.
Os cordões se tornaram, durante a primeira metade do século XX, uma importante expressão de lazer dos negros e pobres paulistanos. Os primeiros surgiram em bairros distintos, mas com características sociais próximas: bairros operários da capital, com grande concentração de afrodescendentes e imigrantes, como Barra Funda, onde foi fundado o primeiro, Bixiga e Baixada do Glicério. Esses bairros tinham em comum o fato de se encontrarem próximos ao centro urbano e comercial da cidade. Além disso, havia bairros ricos nas suas proximidades, possibilitando empregos domésticos aos segmentos negros. Suas características geográficas, de “baixada”, ou seja, locais alagadiços ou de encostas íngremes propiciavam o oferecimento de moradias a baixo custo (SIMSON, 2007, p. 84).
Em São Paulo, dois elementos motivavam o desfile dos cordões no carnaval: em primeiro lugar, a tradição; em segundo, o fato de as fábricas serem fechadas pelos patrões aos sábados, domingos e terças-feiras gordas, ou seja, terças-feiras de carnaval.
Como já mencionamos anteriormente, a partir do modelo desenvolvido pelo cordão da Barra Funda, os instrumentos dos primeiros cordões basicamente eram feitos com madeira e tampinhas de cerveja; em seguida entraram instrumentos típicos de bandas militares, o conjunto de sopros de metais e palhetas, como saxofone, trombone e
47 clarineta e também conjunto de cordas7. Mais tarde, estes instrumentos de banda perderam importância e foram introduzidos instrumentos como cavaquinho, bandolim, surdo, caixa e chocalho; com estes instrumentos, os cordões adquiriram, aos poucos, o ritmo da marcha-sambada e, posteriormente, do samba (MORAES, 1995). Entre os instrumentos de percussão dos cordões predomina o bumbo que influencia o ritmo pesado do samba paulista, herdeiro também das marchas cantadas nos festejos dos
“santos populares” em Portugal (BLASS, 2007). Essa presença relativamente grande de
instrumentos melódicos e harmônicos explica, em parte, o pouco uso da percussão, pois o volumoso som desta fatalmente encobriria os demais.
Quanto à letra do samba — hoje samba-enredo, na época, as marchas-sambadas
—, podemos observar que grupos como “Camisa Verde” utilizavam músicas próprias,
compostas todos os anos pelos seus integrantes. Outros utilizavam marchinhas que tocavam no rádio, que se tornava o meio de comunicação mais popular da época. O
cordão “Camisa Verde” continuou fazendo desfiles até 1939, mas, por falta de recursos,
ficou sem desfilar até 1953, quando ressurgiu pelas mãos de Inocêncio Tobias, o Mulata, casado com uma sobrinha de Dionísio e morador do bairro da Barra Funda. Junto com os amigos Colombina, Feijó e Bagdá, pôs o cordão novamente na rua.
Através de um mapeamento que visa identificar a criação dos principais cordões entre os bairros da cidade, observamos que, em pouco tempo, a novidade se espalhou e foi adotada por inúmeras comunidades e bairros pobres. Essas festas eram o principal
— e, muitas vezes, o único — lazer de seus moradores, operários e trabalhadores
domésticos em sua maioria.
Sobre a estrutura dos cordões carnavalescos, Osvaldinho da Cuíca ressalta:
Os cordões eram pequenas turmas de familiares, vizinhos e amigos que saíam às ruas com figurinos simples, feitos em casa, e com formação musical muito reduzida e improvisada. Deve-se sempre desconfiar daqueles que descrevem um cordão como uma multidão de encher as ruas, vestida em trajes esplendorosos e dançando ao som de uma música ensurdecedora (CUÍCA; DOMINGUES, 2009, p. 44).
48 Até os anos 1930 seriam criados muitos outros cordões. Nessa década, os cordões caíram definitivamente no gosto das camadas populares paulistanas. Os principais estavam no bairro da Barra Funda, “Flor da Mocidade” e “Geraldino”; nos
Campos Elíseos, o de mesmo nome; na Pompéia, “Esmeraldino”; na Casa Verde, “As Caprichosas”; na Liberdade, “Mocidade do Lavapés”; no Cambuci, os “Marujos Paulistas”; em Pinheiros, o “Caveira de Ouro”; no Bixiga, o tradicional “Vai-Vai”; além
de outros, como “Termiano”, “Metalúrgica Mar Rugerone”, “Victoria Paulista”,
“Nacionalista”, “Irmãos Patriotas” e “Diamante Negro”. Até que, em 1934, surge o “Baianas Paulistas” — também chamado de “Baianas Teimosas” —, na região da Rua
Lavapés, trazendo grandes inovações, como as "baianas" que davam nome ao cordão. Alcides Marcondes, um de seus fundadores, juntou-se a Chico Pinga e outros habitantes do Glicério e Liberdade, formando uma bateria. Entre as mulheres, então encarregadas pela dança, estavam Jovina, Madrinha Eunice (fundadora da primeira escola de samba de expressão de São Paulo, a “Lavapés”), Nair, entre outras. O grupo estava localizado na rua Tamandaré, na Liberdade8.
Nesse tempo, o “Vai Vai” — fundado em 1930 no bairro da Bela Vista, por
Benedito Sardinha, Frederico Penteado, Dona Casturina, Dona Iracema, Tino, Guariba, Livinho e Henricão — desfilava com cerca de cem pessoas, todas vestidas já nas cores branco e preto, com o pavilhão sob a responsabilidade de Dona Iracema, evidenciando o papel de destaque que as mulheres tiveram no carnaval paulistano. O símbolo escolhido foi uma coroa adornada por dois ramos de café (SOARES, 1999, p. 26).
As mulheres foram muito importantes para o crescimento dos cordões. Desde a sua formação, elas eram as responsáveis pelas fantasias, pelos panos e até por alas inteiras, e pela arrecadação de fundos com comerciantes e colaboradores. Também participavam dos desfiles, normalmente como amadoras (pastoras), apresentando-se em filas paralelas, fazendo várias evoluções.
Muitas delas levavam e incentivavam seus filhos a participarem dos desfiles. Seu Zezinho do Morro da Casa Verde, falecido baluarte do carnaval paulistano, relatou, em
8 Depoimento de Deolinda Madre (Madrinha Eunice). Acervo MIS-SP (Museu da Imagem e do Som).
49 depoimento para o Museu da Imagem e do Som (MIS), como se tornou integrante dos primeiros cordões negros, aos oito anos de idade:
Eu conheci o Barra Funda em 1918, a minha mãe me levou para uma festa que tinha em São Bom Jesus de Pirapora. (...) Foi lá que fiquei conhecendo o Barra Funda... Em 18 eu desfilei lá com eles, lá em Pirapora. Quando em 20, eu já comecei a desfilar aqui em São Paulo, ainda não tinha bem a noção da coisa9.
Desde o final da década de 1940 e início dos anos 1950, as escolas e cordões começaram a ganhar os bairros mais afastados do centro devido, sobretudo, ao encarecimento das moradias populares localizadas no centro da cidade. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, houve um grande aumento no preço dos materiais de construção, dos aluguéis e terrenos. Além disso, houve grande especulação imobiliária nesse período, obrigando os moradores pobres, negros, em sua maioria, a migrar para bairros da periferia onde os aluguéis eram mais baratos. Nabil Bonduki explica esse fenômeno:
O problema dos despejos se constituiu, no período do pós-guerra e no período populista, no mais importante e angustiante problema habitacional surgido nos bairros tradicionais e consolidados de São Paulo. O significado real desta questão é mais amplo do que a primeira vista poderia parecer: representa o processo concreto de expulsão da população de baixa renda das moradias de aluguel produzidas principalmente com capital privado em áreas urbanas relativamente bem equipadas e situadas próximas aos locais de emprego. É bastante difícil estimar o total de famílias despejadas durante o período mais agudo da crise de habitação, ou seja, entre 1945 e 1948. Em 1945 foram assinadas pelos juízes 2614 ações de despejo, número que subiu a 5.121 em 1946 e que atingiu somente em janeiro de 1947, 491 casos (BONDUKI, 1992, p. 7).
Os cordões paulistanos obedeciam a uma sequência própria e original durante suas apresentações. O desfile era aberto por um grupo de balizas ou contrabalizas que variava de dois a sete elementos, em sua maioria, jovens ágeis, munidos de capas de cetim e batutas de
9 Depoimento de Seu Zezinho do Morro da Casa Verde. Acervo MIS-SP (Museu da Imagem e do Som).
50 madeira. O termo designa a pequena batuta de madeira que os jovens utilizavam para realizar evoluções e malabarismos. As batutas eram cuidadosamente confeccionadas com o dobro da medida do antebraço do baliza.
Esses balizas possuíam funções de abre-alas e defensiva ao mesmo tempo, pois não deixavam ninguém se aproximar do símbolo máximo do folguedo: o seu estandarte. Quem introduziu os balizas nos desfiles carnavalescos dos cordões foi Dionísio Barbosa, ao assistir uma parada militar no Rio de Janeiro10. No início dos cordões esta função era exercida somente por homens.
Tornaram-se comuns nos anos 1930 o acirramento das disputas físicas entre os cordões com a finalidade de pegar o estandarte do outro cordão rival. Para aquele que perdia o estandarte, era uma derrota desmoralizante; então, para evitar sua perda, surge, atrás das balizas, um grupo de batedores (“bastedores”) composto por homens munidos de lanças, que ficavam à frente do porta-estandarte. Estes batedores não possuíam nenhuma função plástica ou musical, sendo apenas responsáveis por defender o estandarte e afastar os curiosos que ficavam na rua e atrapalhavam a passagem do cordão. A denominação “bastedores” aparece em uma antiga marcha do cordão Camisa Verde da década de 1920 que cita as diversas partes constitutivas do cordão:
Amadoras, estrelas do Verde Marchemos, vamos marchar Que a vitória deste ano Nós queremos conquistar. E a nossa porta-bandeira Com o nosso pavilhão, Convidemos as amigas A florescer neste cordão, E os nossos bastedores, Cada um com seu bastão, Convidemos todos,
10
Depoimento de Dionísio Barbosa a Olga von Simson e a José Ramos Tinhorão. Laboratório de História Oral-Unicamp. Pasta D. Barbosa, p. 48.
51
Rei dos Foliões (SIMSON, 2007, p. 151)
Na década de 1940, as disputas já não se davam na forma de confrontos e agressões físicas, e os concursos já eram organizados por emissoras de rádio, jornais e firmas comerciais. A competição se torna algo muito organizado e as mulheres passam a também ocupar os postos de baliza, devendo ter flexibilidade, agilidade e graça.
Além destas balizas, dos contra balizas e dos batedores, havia um mestre de cerimônias para proteger o pavilhão. Este nunca devia afastar-se da porta-estandarte,
devendo se comportar como uma espécie de “mestre-sala”. Seu Zezinho do Morro da Casa Verde descreve assim os mestres de cerimônias: “Na frente do estandarte tinha um
diretor, que hoje eles ‘diz’ mestre-sala. (...) Antigamente era mestre de cerimônias. Ele sambava em volta da porta-bandeira, sempre com um pauzinho na mão. Se você chegava lá, ele já cutucava. Não podia chegar perto da porta-estandarte”11.
Depois deles, na sequência de organização dos cordões vinha o grupo de instrumentos com forte influência do choro: violões, cavaquinhos, flautim, clarinete, saxofone, pandeiros e também chocalhos, sempre executados por homens. Em seguida, desfilavam as alas de fantasias e o reinado de Momo, com a corte carnavalesca, sempre com as fantasias mais luxuosas: o rei, a rainha e a princesa sempre como as grandes atrações dos cordões. A corte normalmente dançava “em cobrinha”, fazendo zigue- zagues — um provável legado do samba rural — sem pressa ou espalhafato, representando orgulhosamente a função nobre que desempenham naqueles dias de festa