Voltando a escala de observação para a história da instituição a partir da fusão, a Escola de Educação Física de Minas Gerais passa a empreender uma série de ações no sentido de se firmar frente à sociedade belorizontina e mineira. Alguns percalços ocorreram neste ínterim, mostrando que o caminho não foi nada tranqüilo.
As professoras formadas no curso de Educação Física Infantil, por exemplo, tiveram problemas para trabalharem em escolas. Amanda Matos97 relata que, na Ata da Congregação da Escola de 23 de junho de 1955, o professor Francisco Veloso Meimberg pede providências no sentido de amparar as professoras de Educação Física Infantil formadas pela EEFMG que não estavam sendo contratadas pela Secretaria de Educação, sendo dada a preferências às professoras provenientes do Instituto de Educação. A autora afirma que este fato ocorreu, provavelmente, porque a Escola de Educação Física de Minas Gerais conseguiu o reconhecimento como escola de ensino superior, por parte do Governo Federal e do Conselho Nacional de Educação, tardiamente98. Apesar do reconhecimento ter acontecido depois de um ano e meio da fusão, os cursos continuaram sendo ofertados normalmente; porém, isto não garantia, neste período, a certeza da inserção das professoras nas escolas estaduais.
Dom Cabral teve atuação destacada na busca de visibilidade da Escola, utilizando a imprensa para convencer a população das novas e modernas concepções que a Igreja tinha sobre as questões do corpo, utilizando a Educação Física como importante veículo de divulgação dos novos ideais do esporte cristão para o povo, principalmente para a mocidade.
No jornal “O Diário”, de 16 de março de 1954, foi veiculado o artigo “Também o esporte aproxima o homem de Deus - A sólida base moral e espiritual da Escola de Educação Física de Minas Gerais, fruto da fusão de duas iniciativas generosas e progressistas”. Esta reportagem traça um amplo quadro das representações que
97 MATOS, 2003, p.47-48.
98 O reconhecimento oficial ocorreu por decreto federal, no dia 13 de abril de 1955, dois meses antes
do fato relatado. Fonte: Jornal Educação Física, órgão oficial da Escola de Educação Física de Minas Gerais. Ano II, n.3, novembro de 1958, p.3.
influenciavam a instituição, assim como a relação Educação Física - Igreja Católica, naquele período.
O artigo mostra a idéia de um espanto que a sociedade belorizontina teve ao ver abrir na cidade uma Escola Católica de Educação Física. Este espanto teria sido substituído pela incredulidade e ceticismo, por boa parte da sociedade “recatada e austera” desta cidade. Logo, esta era “uma obra de pioneirismo e, como tal, teria de encontrar obstáculos sem conta, a hostilidade gratuita, a incompreensão”. Entretanto, uma campanha de grande envergadura foi deflagrada por Dom Cabral, “com seu admirável espírito empreendedor e o largo descortínio”, para orientar a todos quanto à importância da prática esportiva sob a égide moral trazida pelos preceitos cristãos.
Não se cogitava de estimular a prática do esporte em bases desvirtuadas, mas justamente restabelecer a obediência rigorosa aos sãos princípios da educação física, combater os efeitos maléficos das doutrinas nocivas e orientá-la em um sentido de absoluto respeito à moral.99
Para maior embasamento de tal afirmação, Dom Cabral apresenta instruções advindas do Papa Pio XII, nas quais o último situa o desporto e a ginástica frente à consciência religiosa e moral, nas mais diferentes classes e camadas sociais. Para ratificar suas pretensões, Dom Cabral apresenta falas proferidas pelo Papa no Congresso Científico Italiano de Desporto e Educação Física, em novembro de 1952, quando falou a 800 professores de Educação Física e médicos desportivos:
“Baseai portanto a vossa alegria na prática correta da ginástica e do desporto. Levai mesmo para o meio do povo a sua benéfica corrente para que prospere cada vez mais a saúde física e psíquica e certifiquem os corpos ao serviço do espírito: sobretudo, enfim, não esqueçais, no meio da agitada e inebriante atividade gímnico- desportiva, aquilo que na vida vale mais do que todo o resto: a alma, a consciência, e no vértice supremo, Deus.”
99 Também o esporte aproxima o homem de - A sólida base moral e espiritual da Escola de Educação
Física de Minas Gerais, fruto da fusão de duas iniciativas generosas e progressistas. O Diário, 16 de março de 1954.
“O esporte é uma escola de lealdade, de coragem, de domínio da vontade, de resolução, de fraternidade universal, todas, virtudes naturais – mas que fornece às virtudes sobrenaturais um fundamento sólido e preparam-nas para suportar sem fraqueza o peso da responsabilidade mais grave.”
As colocações do Papa, citadas por Dom Cabral, tornaram-se uma estratégia usada para convencer uma sociedade conservadora e predominantemente católica quanto à inclusão do esporte na prática cotidiana do indivíduo. Para isto, era necessária uma Escola de Educação Física que funcionasse a partir do “acurado exame das condições em que se deve orientar as atividades letivas”, tanto teóricas, quanto práticas. Com a chancela da Igreja e o apoio do Governador do Estado, a nova Escola de Educação Física estaria transformando em realidade uma das mais antigas reivindicações dos desportistas mineiros, sem ferir as tradições culturais mineiras. Mesmo com a valorização das questões do corpo atravessando o discurso proferido no artigo, destaca-se uma última advertência do Papa Pio XII, situando a atividade deste corpo como uma busca do aperfeiçoamento das qualidades físicas a favor do aperfeiçoamento moral do indivíduo, aproximando-o de Deus.
“O desporto e a ginástica têm como fim próximo educar, desenvolver e fortificar o corpo, sob o ponto de vista estático e dinâmico; como fim mais remoto, a utilização, por parte da alma, do corpo assim preparado para o desenvolvimento da vida interior ou exterior da pessoa; como fim ainda mais profundo, contribuir para a sua perfeição; por último, como fim supremo do homem em geral, e comum a todas as formas de atividade humana, aproximar o homem de Deus”.
Nestes primeiros anos, a Escola também foi alvo de acusações de fraudes. No início de 1956, o deputado estadual Milton Sales udenista, levou à Comissão de Inquérito do Estado uma denúncia de fraude no livro de assinatura de presença dos professores. O deputado acusa um dos professores de não ter ministrado suas aulas e, mesmo assim, teria recebido seus vencimentos. Numa primeira visita ao estabelecimento, uma comissão havia verificado que, no livro de registro de professores, estas aulas teriam sido proferidas pelo assistente.
Constatando a contradição, passou o deputado Milton Sales a examinar atentamente as assinaturas. Segundo informou á reportagem estas lhe pareceram suspeitas, pois, apesar de figuraram como terem sido lançadas em épocas diferentes, desde o início do ano letivo até o final do mesmo, haviam sido feitas com tinta absolutamente igual e uniforme, afigurando-se-lhe como fresca e com talhe de letra muito uniforme.Julga o deputado que, para esconder a irregularidade constatada na primeira visita, foi providenciada, ás pressas, a confecção do referido livro, assim como a aposição das assinaturas.100
A partir daí, o deputado pleiteou que a Polícia Técnica analisasse o referido livro, para confirmar suas suspeitas. Apoiou-se em depoimentos, “em caráter particular”, nos quais membros dos corpos docente e discente teriam confirmado o ocorrido. A partir daí o deputado Felício dos Santos fez o deferimento da denúncia. O parlamentar afirmou, ainda, que estava de posse de um ofício, enviado à Diretoria de Esportes (D.E.), dirigido ao Governador do Estado:
[...] pedindo providências enérgicas, no sentido de ser compelida a direção da Escola de Educação Física a prestar suas contas, sem as quais não poderia a D. E. apresentar para os devidos efeitos, a sua documentação ao Tribunal de Contas.
Este ofício teria sido feito depois de inúmeras tentativas junto à direção da Escola de Educação Física todas em vão. Como a mesma teria protelado todos os pedidos de esclarecimento, no sentido de levar a direção da Escola a prestar contas junto ao Tribunal de Contas, a saída teria sido realizar a denúncia.
Após um mês, na Folha de Minas, na sessão chamada “Grão de Pimenta”, foi editada uma reportagem sobre a entrada de dois candidatos cegos no curso superior de massagem.
Concluíram ambos o colégio no Instituto São Rafael e encaminharam-se para uma especialização que inesperadamente se abriu à sua capacidade. Tivemos oportunidade de presenciar algumas das provas a que se submeteram esses dois jovens cegos na Escola de Educação Física. Não lhes foi concedido nenhum privilégio ou facilidade, a não ser aqueles perfeitamente explicáveis para a sua condição de cegos. Fizeram corridas de fundo, saltaram em altura, pularam à distância,
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praticaram ginástica, barra e paralela e disputaram cinqüenta metros na piscina. Tudo isso realizaram os dois cegos com a maior naturalidade, mas com uma convicção impressionante. Eram dois seres absolutamente normais que se encontravam em meio a dezenas de candidatos, moços e moças, disputando um lugar nos diversos cursos daquele estabelecimento. Bem humorados, brincalhões, sem demonstrar qualquer complexo decorrente da cegueira, esses dois jovens se sentiram inesperadamente atraídos por uma atividade cujo desempenho requer paciência, habilidade e uma cultura altamente especializada. Trabalharão com as mãos, mais exatamente com a ponta dos dedos, que são os olhos dos cegos. Nas outras matérias constantes do exame de admissão, impressionaram eles pelo índice elevado de preparo que revelaram das disciplinas do curso ginasial. Estavam mesmo muito acima da maioria dos concorrentes e companheiros de bancos. Aí então se revelou em sua plenitude a segurança, o vigor e a intensidade de sua vida intelectual.101
A princípio, esta reportagem poderia parecer o relato de um fato interessante na história da instituição, entretanto, este acontecimento se tornou uma estratégia para tentar desfazer uma possível má-impressão deixada pela reportagem anteriormente citada. Na seqüência da escrita, o autor “Malagueta”, tendenciosamente favorável à Escola, começa a utilizar este caso para defender a boa imagem da Escola, com seu “alto padrão de ensino”, que a destacaria entre as primeiras do país por admitir jovens cegos em seu corpo discente, abrindo novas perspectivas de ensino especializado em seus diversos cursos. Isto seria possível por vários motivos, dentre eles “a sua organização, a eficiência dos seus métodos de ensino, a alta categoria do seu corpo de professores e as instalações modelares em que funciona”. Aconselhavam os seus “detratores e adversários deliberados” a escutarem a opinião dos dois jovens, que encontraram “imediato rumo à sua vocação” graças à Escola, algo que não seria possível a eles em tempos anteriores, o que os condenaria “à frustração irremediável”.
A partir destas argumentações, a Escola teria mostrado que a melhor atitude a ser tomada era a de verificar a verdadeira situação do estabelecimento, ao invés de tentar atingi-la com uma “campanha de má fé e de incompreensão, tanto mais lamentável quanto se inspirou no propósito de atingir determinadas pessoas do seu corpo diretivo e docente”. Para ratificar esta estratégia em prol da melhor imagem da instituição, o autor do artigo afirma:
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A Escola de Educação Física do Estado está com as portas abertas para todos quantos queiram verificar seu funcionamento e organização. Foi essa a reação dos seus diretores em face das acusações apressadas que lhe foram feitas. Mas, coincidindo elas com a matrícula dos cegos, advertem como no Evangelho a esses acusadores de língua má e fácil: o pior cego é aquele que não quer ver...
Não apurei o desfecho deste caso porque as fontes às quais tive acesso não me permitiram outras considerações. Porém não poderia deixar passar este fato, já que o mesmo dá uma idéia do cotidiano, muitas vezes complexo, vivido pelas personagens desta história que estava começando a se delinear na Escola. Este acontecimento pode nos apontar, entretanto, uma divisão política, uma constante luta de interesses. De um lado, tendo como um dos personagens o deputado Milton Sales, a oposição busca encontrar brechas que pudessem gerar discussões e acusações, maculando a imagem daqueles que estavam no poder. Do outro lado, dentre outras instituições vinculadas ao Governo, a Escola de Educação Física, que utilizou seus feitos exemplares para poder esconder possíveis favorecimentos a professores. A dificuldade do parlamentar talvez pode ser explicada pela força política que a Escola estava conquistando a cada dia, principalmente com a entrada do governador Bias Fortes102 no poder, fato que fez com que a instituição vivesse momentos de grande prosperidade. Que momentos foram estes?