Com o objetivo de ampliar a inserção da Escola na sociedade belorizontina e mineira, foi realizada, de 12 a 20 de agosto de 1957, a I Jornada de Estudos de Educação Física, com o apoio da Diretoria de Esportes do Estado e da Associação dos Ex-Alunos da EEFMG. Um grande evento com a realização de aulas, conferências, cursos e demonstrações; contando com a presença de professores do Brasil e do exterior. O objetivo anunciado foi o de “proporcionar aos professores e às pessoas interessadas oportunidade para atualizar, ampliar e aperfeiçoar seus conhecimentos, do ponto de vista técnico, pedagógico e científico”124. Foram realizadas, ainda, outras quatro edições da Jornada de Estudos, a partir de então designada Jornada Internacional de Educação Física.
Segundo o jornal “Educação Física” e os anais da II e da V Jornada Internacional de Educação Física125, no que diz respeito a assuntos ligados à área de dança, ocorreram os seguintes cursos:
• I Jornada de Estudos (12 a 20 de agosto de 1957): Atividades Rítmicas e Danças Folclóricas Brasileiras - Zaíde Maciel de Castro;
• II Jornada Internacional (22 de julho a 02 de agosto de 1958): Danças Folclóricas da Iugoslávia – Ivan Varga; Danças Gaúchas – sem autor; Danças Folclóricas do Chile – Juana Munizaga; Dança Moderna – Helenita Sá Earp, Glória Marcos Dias e Myda Sala Pacheco;
• III Jornada Internacional (17 de julho a 02 de agosto de 1959): Danças Regionais do Rio Grande do Sul - João Carlos Paixão Côrtes;
• IV Jornada Internacional (18 a 30 de julho de 1960): Ginástica Rítmica – Lia Bastian Meyer;
• V Jornada Internacional (15 a 28 de julho de 1962): Ginástica Primária e Danças Folclóricas - Consuelo de Carvalho de Freitas Pinto.
124 Jornada de Estudos de Educação Física. Estado de Minas: Coleção Professor Herbert de Almeida
Dutra, 04-08-1957.
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Todos os documentos se encontram no Centro de Memória da Educação Física da EEFFTO (CEMEF).
Os anais da II e da V Jornada Internacional de Educação Física são ricos em informações sobre várias áreas, sendo uma fonte que precisa ser analisada, merecendo estudos aprofundados. No que diz respeito à dança e afins, os anais trazem planos de aula, ensinando danças, brinquedos cantados, exercícios rítmicos, apresentando desenhos dos movimentos e partituras das músicas utilizadas. Nota-se a presença de várias danças internacionais, e quanto às nacionais, as que mais foram ensinadas foram as danças gaúchas.
O curso de Ginástica Rítmica, ministrado por Lia Bastian Meyer, por exemplo, era dividido em temas infantis, exercícios de expressão, aulas de relaxamento e danças internacionais. Dentre outros, o tema infantil “A mamãezinha”, dirigido a turmas de jardim, 1º e 2º anos, era indicado para “homenagear a mamãe no dia das mães”, onde a “criança, com uma flôr na mão, aproxima-se da mãe e lhe oferece a florzinha”. Isto mostra uma certa representação sobre infância, onde a fala, expressa em palavras no diminutivo126, denota a qual público se direcionavam as atividades.
Em uma apostila sobre a cultura gauchesca127
contendo diversas informações sobre indumentárias típicas, instrumentos musicais, costumes, danças, discografia, dentre outros, encontramos alguns ditados populares intitulados “máximas campestres”, que demonstram alguns dos pensamentos vinculados à imagem da mulher na linguagem popular gaúcha, porém disseminado num ambiente de ensino superior:
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Em vários momentos, nas apostilas da professora Lia Bastian Meyer, nota-se a presença de expressões como “palminha”, “voltinha”, “florzinha”, “passinhos”, “agradecer com o meneio da cabecinha”, reforçando uma linguagem bem característica àquela usada com crianças, reforçando a forma como as pessoas geralmente tratam a criança quando realizam trabalhos com elas, reforçando a representação que vincula o universo infantil, sua linguagem, seus gestos, a algo menor.
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Esta apostila está anexada à documentação doada por Eustáquia Salvadora de Sousa ao Centro de Memória da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Compõe uma pasta na qual estão apostilas de alguns cursos ministrados na II e na III Jornadas Internacional de Educação Física, na então Escola de Educação Física de Minas Gerais. Na apostila em questão, que contém 12 páginas, não encontramos nome, referência ao autor ou qualquer outra informação que possa elucidar sua procedência.
Mulher, cachaça e bolacha em qualquer canto se acha. Sem geito [sic] como moça fazendo ronda em baile. Falso que nem idade de mulher.
Desorganizado que nem estância de viúva.
Mulher sardenta e cavalo passarinheiro, alerta companheiro. Mulher é bicho falador como caturrita de madrugada.
Afiado que nem língua de comadre em fandango.
Apesar destes ditados, na mesma apostila, na página 5, encontramos uma citação que se revela contraditória à citação anterior:
As Danças Gauchescas caracterizam-se, principalmente, por dois aspectos: O respeito à mulher e a teatralidade do dançarino [...].
Este respeito à mulher, expresso na dança gaúcha, estaria vinculado a uma visão romântica apresentada nas coreografias típicas do folclore riosulgrandense, onde o homem, viril e galanteador, se exibe para a prenda, delicada e bem-vestida, numa caracterização adequada à imagem vinculada ao homem e à mulher, ou seja, as identidades de gênero128.
Pensando a dança como uma prática presente em vários âmbitos da vida social de homens e mulheres, torna-se realmente instigante a construção de um
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Pensar na categoria “gênero” é pensar em uma categoria “relacional”, ou seja, não é conveniente analisar as questões ligadas ao universo feminino sem relacioná-lo ao universo masculino, e vice- versa. É também mutável, diferenciando-se de acordo com o tempo histórico e/ou o contexto sócio- cultural analisado. (SCOTT, 1990; LOURO, 1992; GARCIA, 1998). Para SCOTT (1990), a definição da categoria gênero vai além da simples diferenciação entre corpos anatomicamente distintos, sexuados, partindo de uma visão essencialmente biologista. Segundo a autora, o termo gênero é utilizado como uma maneira de designar as “construções sociais” feitas sobre este corpo, o qual adquire uma identidade masculina ou feminina a partir dos símbolos historicamente construídos e legitimados pelos indivíduos. São empreendidas diversas práticas sociais que buscam a criação e/ou manutenção de gestos, gostos, hábitos, posturas, que consolidem a lógica masculina, utilizando-se da persuasão e coerção, sutil ou declarada, para atingir este fim. (LOURO, 1992; LOURO, 1995; BOURDIEU, 2003). Há um intenso investimento por meio das instituições (família, igreja, escola), através de normas e práticas, na intenção de construir e reforçar as representações aceitas ou impróprias, para homens e mulheres. No que diz respeito à masculinidade, procura-se forjar o controle dos impulsos e arrebatamentos, a contenção na expressão de seus sentimentos, características das mulheres; também se investem em atividades que trabalham os signos visíveis de força, almejando, com isto, um “ideal impossível de virilidade”, através de jogos de violência que ajudam a burilar a identidade masculina, principalmente os esportes de luta. (LOURO, 1999; BOURDIEU, 2003). Meninas e mulheres que se envolvem com estas atividades podem ser taxadas de masculinas, sendo, muitas vezes, ainda hoje, indicadas a elas as atividades de pouco contato físico, como também modalidades artísticas e expressivas; enfim, aquilo que remeta à beleza, elegância e sensibilidade, como a dança, por exemplo.
imaginário que vincula a sua prática, na escola, como algo tipicamente feminino. As discussões acerca da categoria “gênero” nos ajudam a compreender todo este processo que culminou na exclusão das turmas masculinas das aulas de Ginástica Rítmica. Concebida como uma disciplina que trabalhava com práticas femininas, a Ginástica Rítmica ajudou a reforçar as representações e (pré)conceitos construídos há longa data. Como se tratava da formação de professores e professoras de Educação Física que iriam atuar no meio escolar, toda esta questão acaba por se propagar, gerando reflexos na vivência prática em sala. Isto pode ter causado resistências ou dificuldades de alguns professores em trabalhar o conteúdo dança em suas aulas, tanto pelas questões de não-aceitação como também pela falta de recursos e conhecimentos específicos, que só seriam adquiridos se tivessem cursado alguma disciplina que tratasse da dança em sua formação.
Talvez este tenha sido o motivo para a inclusão de cursos de dança nas Jornadas promovidas pela Escola. Mesmo que somente mulheres praticassem a dança em sua formação acadêmica, encontramos indícios evidentes da participação de homens nas aulas. No jornal “Educação Física” encontramos trechos de artigos que relatam sobre apresentações feitas em homenagem ao governador Bias Fortes e a Dom Cabral129.
As demonstrações foram encerradas com alguns números de dança folclóricas brasileiras, sob a direção da profa. Zaíde Maciel de Castro e com a participação de membros da Jornada. Nos intervalos dessa última parte, o prof. Gerhard Schimidt, com um grupo de rapazes e moças, apresentou algumas danças características de seu país, a Áustria”130.
Outra fonte importante é uma foto do curso de Atividades Rítmicas e Danças Folclóricas Brasileiras da professora Zaíde Maciel de Castro, na qual podemos visualizar vários homens participando ativamente da aula, além de outros que estavam sentados, como expectadores (FIGURAS 14, 15 e 16). Além disto, como
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Esta homenagem ao governador Bias Fortes foi realizada nos jardins do Palácio da Liberdade. Já a homenagem a Dom Cabral foi feita em um sítio, nas vizinhanças de Venda Nova, no qual o Arcebispo Dom Cabral se encontrava em estado de convalescença.
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Jornal Educação Física, órgão oficial da Escola de Educação Física de Minas Gerais. Ano I, n.1, outubro de 1957, p.2.
citado anteriormente, o professor Odilon Barbosa afirmou em um dos artigos do jornal que havia aprendido danças folclóricas brasileiras e austríacas na I Jornada.
FIGURAS 14, 15 e 16: Aula da professora Zaíde Maciel de Castro na I Jornada de Estudos da Educação Física (1957).131
No curso de Danças Folclóricas da Iugoslávia, do professor Ivan Varga, na II Jornada Internacional, algumas danças eram direcionadas ao público masculino132. Acredito, também, que nas outras Jornadas tenha havido a participação de homens nos cursos de dança. Isto deixa evidente, ao meu ver, que a dança era um conteúdo que interessava também aos homens, assim como o futebol poderia ser um tema que interessava às mulheres.
Eustáquia Salvadora de Sousa destaca a imensa dificuldade que as mulheres tinham em dar aulas de futebol para as crianças, quando atuavam profissionalmente em escolas. Isto ocorria, já que as mesmas eram excluídas, dentro do currículo da Escola, da disciplina de futebol. Para superar esta dificuldade, as mesmas tinham que fazer cursos à parte133. Se as mulheres buscavam formação específica em futebol para suprir uma demanda vinda de sua prática nas escolas, talvez os homens
131 Arquivo audiovisual do Centro de Memória da Educação Física – EEFFTO/UFMG. 132
Anais da II Jornada Internacional de Educação Física, em 1958.
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estivessem passando pela mesma situação no que se refere a outras práticas, inclusive a dança. Isto poderia explicar a presença masculina num curso de dança, como este que ocorreu na I Jornada de Estudos. Mesmo que o interesse masculino tenha surgido por pura curiosidade, este fato já seria uma ruptura nos padrões idealizados no início do século XX, quando se procurou vincular as práticas de dança somente ao feminino. Ou seja, dançar também era interessante para o homem, inclusive numa escola superior de formação de professores e professoras de Educação Física.