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3. BULGULAR VE TARTIŞMA

3.1. BULGULAR

3.1.4. Yürünebilirlik Algısı Analizleri

As preocupações com o conteúdo veiculado pelo sistema de TV paga foram recorrentes desde seu surgimento no Brasil, contudo, ações afirmativas quanto a essas preocupações tardaram a surgir dentro das regulações do setor. As discussões acabam se mantendo, muitas vezes, no âmbito dos pesquisadores da área. Pierante (2011) descreve

30 Até o momento, junho de 2016, foram apresentados cinco dos onze votos no processo de

Inconstitucionalidade da lei. Os cinco votos foram contra a inconstitucionalidade dos artigos relativos às cotas e a regulação de conteúdo. O ministro Luiz Fux é relator do processo e defende a manutenção das cotas e elementos referentes ao conteúdo nacional com base nas diretrizes estabelecidas na Constituiçã o Federal pelo artigo 221 e na Convenção Internacional Sobre a proteção e Promoção da Diversidade das expressões Culturais da UNESCO - 2005. Cabe destacar que o Supremo Tribunal Federal é compostos por onze ministros, ou seja, ainda há a possibilidade de a lei ser considerada inconstitucional, caso os seis ministros faltantes direcionem seu voto para este viés.

que um dos motivos de não haver regulações direcionadas ao conteúdo no sistema de TV paga no início da implantação do serviço foi o foco tecnicista do sistema. Durante o desenvolvimento do serviço, os profissionais envolvidos no processo eram profissionais prioritariamente ligados à técnica de transmissão, muitos deles engenheiros. Não havia a participação ativa e próxima de jornalistas, radialistas, produtores de conteúdo, diretores de programação, pesquisadores de cultura ou outros profissionais conhecedores do sistema quanto à produção de conteúdo e cultura nacional.

A Lei 12.485/2011 traz em sua redação artigos que obrigam a veiculação de uma cota de conteúdos nacionais nos canais do sistema de acesso condicionado. A regulação à programação demostra que a TV paga deve ser compreendida não como mero serviço tecnológico privado, mas como meio de comunicação social que tem seu alcance ampliado a cada dia e possui uma potencialidade comunicacional e de promoção e veiculação das expressões culturais.

A TV paga no Brasil sempre foi preenchida por conteúdos estrangeiros. A cultura dos seriados americanos invadiu o país e transformou o espectador de audiovisual em um leitor de legendas, criou uma expectativa estética e narrativa baseada nos filmes e programas importados. Tais ações dificultaram a evolução do setor audiovisual no Brasil, considerando que os espectadores buscavam no conteúdo nacional as características que viam nos produtos americanos, por exemplo (BERNARDET, 1979). A criação de um cinema e um audiovisual brasileiro no sentido de marcas e linguagem próprias foi inibido. As cotas decretadas pela lei são temporárias, pontuadas como uma ação para a adaptação do olhar brasileiro aos conteúdos de qualidade que o mercado nacional pode oferecer e dissolver os resquícios de preconceito que possam ainda existir.

Os argumentos da ADI do DEM são plausíveis e indicam as inconstitucionalidades nas cotas e nas distinções entre as nacionalidades das empresas e dos funcionários. Cabe refletir se há uma possibilidade de regular a programação e/ou o conteúdo sem ferir a Constituição. No momento, com a Constituição atual, essa possibilidade parece não existir. Como lidar com esse fato? Como produzir uma TV paga mais coerente, que permita a existência de um meio que reflita as identidades brasileiras, inclusive as identidades emergentes (BHABHA, 1998) e no qual as culturas do país possam ser veiculadas e acessadas? Como fomentar a produção audiovisual brasileira?

A lei de 12.485, apesar das acusações do DEM, teve seus artigos sobre conteúdo brasileiro aprovados por todas as comissões que foram consultadas durante o processo legislativo, inclusive pelas Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania, tanto da Câmara dos Deputados, quanto do Senado Federal. Pode ser um início de que o processo de estímulo à cultura brasileira, a promoção da diversidade cultura, da produção regional e independente sejam parte de uma tendência de políticas públicas para o setor. Tendência esta que contaria também com outros documentos normativos como a Medida Provisória 2.228-1 de 2001, medida que criou a Ancine, e a lei 8.685 de 1993, a Lei do Audiovisual. As duas normas citadas obtiveram resultados positivos no desenvolvimento do setor e na quantidade e qualidade das produções brasileiras por meio de decretos voltados ao fomento à produção audiovisual nacional e sua distribuição, contudo não tiveram seus textos contestados da mesma forma que a lei da TV paga. O fato de versarem principalmente sobre o setor cinematográfico pode ser a razão pela qual continuam em vigor sem objeção.

O mercado de TV paga no Brasil já está mais desenvolvido e conta com a participação de grandes empresas e conglomerados de comunicação o que dificulta a adaptação desse mercado às mudanças estabelecidas pela lei de 2011. Durante entrevista para o grupo Folha, Fernando Meirelles, diretor de cinema e sócio da produtora O2 filmes, que convive com os dois setores, tanto o cinema quanto à TV, onde começou sua carreira, comparou o impacto que a Lei do Audiovisual teve sobre a indústria do cinema brasileiro com um possível impacto da Lei do Acesso condicionado no mercado audiovisual.

As TVs são obrigadas a usar parte de seu faturamento em produção local. Essa lei vai ter o mes mo impacto que a Lei do Audiovisual [criada em 1993] teve no cinema. O Brasil fazia seis filmes por ano, veio a nova regra e, só em 2011, fizemos 105 longas. Foi a década de montagem da indústria. Não tenho dúvida de que, com a nova Lei da TV paga, em dez anos vamos ter u ma geração de programas muito mais forte. (MEIRELLES, 2013)

Os artigos que versam sobre o conteúdo nacional expiram no ano de 2023, pois sua duração é limitada há doze anos a partir da data de ratificação da lei. A natureza temporária das obrigatoriedades é uma prova de que a lei tem como intenção reestabelecer o contato dos espectadores brasileiros com os conteúdos produzidos por sua nação, por meio da criação de uma demanda artificial, mas que tende a se tornar natural e vinda de um desejo do próprio espectador de buscar esses conteúdos, com os quais estará mais familiarizado, estimulando à construção de uma linguagem e de uma

indústria audiovisual brasileira, pautada no conceito também de democratização de acesso ao meio, incentivado pelos princípios de produção independente e regional.

A análise da implementação da lei até seu texto final permitiu que fossem observados quais eram os elementos centrais das preocupações regulatórias do Estado referente a este setor. A promoção da cultura nacional e da produção brasileira se mostra no texto normativo como um tópico de destaque, entretanto, é necessária a elaboração de uma avaliação da lei após a sua ratificação para poder observar se ocorreram as mudanças intencionadas durante o processo de elaboração da lei quanto à estes elementos e como se deram. A seção a seguir consiste na elaboração desta avaliação para averiguar qual o novo desenho do mercado audiovisual para TV paga quando se fala de promoção da cultura nacional, da diversidade cultural, da produção regional e independente.

As políticas públicas são uma ferramenta interessante para garantir e fortalecer o processo de legitimação destas identidades emergentes, principalmente na forma de permitir que suas narrativas sejam contadas, que suas histórias sejam veiculadas e distribuídas.

5 CULTURA NACIONAL

O escopo desta pesquisa são as preocupações da lei com promoção da cultura nacional na regulação do serviço de TV paga, logo a avaliação será centralizada nos princípios referentes a esse elemento.

Para tal fim, é preciso realizar uma reflexão sobre a conceituação de cultura nacional e a forma dinâmica como tal concepção se transforma e se recria a partir de novos arranjos.

A discussão dá-se a partir da relação de cultura nacional e identidade. A trajetória de conexão dos conceitos é analisada desde a modernidade até o contexto da pós-modernidade pós-colonial do mundo globalizado.

O vínculo entre os dois, que durante a modernidade parecia sólido e estável, com

o advento da crise da “identidade” da pós-modernidade se remodelou. Desenvolveram-

se novos modelos de identidade que se deslocam do âmbito territorial para o âmbito econômico e/ou político (HALL, 1999, p. 12).

A cultura nacional, antes idealizada como unificadora e homogeneizada, dará espaço para o desenvolvimento de uma nova visão de cultura nacional, a partir da ideia de desconstrução da singularidade do termo em uma multiplicidade de culturas dentro do mesmo limite territorial (CANCLINI, 1999, p.39).

No contexto da Globalização, os novos arranjos permitem construção das chamadas culturas híbridas (CANCLINI, 2008), que põe em cheque a ideia de cultura nacional. É preciso buscar compreender como as culturas se compõem neste cenário de

relação contínua com outros repertórios, identidades e influências – tanto regionais

quanto globais, tanto independentes quanto massivas. É a partir subjetividade dos limites culturais que Homi Bhabha (1998) defende que as culturas se desenvolvem não em um perímetro delimitado, e sim nas fronteiras, nos locais de troca, no que chama de “entre-lugares”.

A seção apresenta a importância do reconhecimento destas culturas nacionais para a ascensão e legitimação de identidades emergentes (BHABHA, 1998).

Ao trilhar este caminho, a seção desenha o quadro teórico que embasa a

avaliação – realizada na seção seguinte – e valida seus indicadores. Apresenta, desta

forma, a partir de quais concepções de cultura nacional e identidade a investigação é realizada.

Benzer Belgeler