• Sonuç bulunamadı

3. BULGULAR VE TARTIŞMA

3.2. TARTIŞMA

O processo de transformação da sociedade – leia-se aqui a evolução política,

social, econômica, cultural e etc – é contínuo. Raymond Williams investigou a mudança

do conceito de cultura dentro desses processos. Um dos períodos considerado marco na mudança do conceito de cultura foi a Revolução Industrial (entre os séculos XVIII e

XIX) período em que surgem as “massas”.

[...] não acredito que pessoas comuns se pareçam de fato co m a descrição corriqueira de massas, com hábitos e gostos vulgares e triviais. Dizendo de outro modo: as massas não existem de fato, o que existem são modos de ver as pessoas como massas. Com o advento da industrialização, grande parte da antiga organização social desapareceu, e o fato de ver o tempo todo gente que não conhecemos se tornou uma experiência social co mplicada, daí u m passo para classificar essas pessoas em massa como “os outros”. [...] O progresso das comunicações, em especial o desenvolvimento de novas formas de transmissão múltipla de notícias e de d iversão, criou d ivisões incomensuráveis entre o transmissor e a audiência, o que por sua vez levou à interpretação da audiência como massa desconhecida. Massa tornou-se a nova palavra para substituir turba: os outros, o desconhecido, os sujos, a multidão, o que não me inclui. (WILLIAMS, 1958, p.7)

Ser massa significava ser visto como grupo unificado e homogeneizado. Mas, mesmo nesta perspectiva, havia a busca por identidade própria.

A massa é sempre o outro, é o grupo ao qual o “eu” não pertence, contudo

sempre há a necessidade de compreender que a massa são os “outros” e portanto o “eu”

faz parte do que é a concepção de massa para o “outro”. “Encontramos aqui, a figura do

indivíduo isolado, exilado ou alienado, colocado contra o pano-de-fundo da multidão ou da metrópole anônima e impessoal.” (Hall, 1999, p.32).

A formulação das massas produz um fenômeno de homogeneização dos

produtos culturais, voltados a um “público unitário” e “homogêneo”, com as suas

diferenças desprezadas. Contudo, as culturas populares se mantiveram principalmente com a intenção de reconhecer e legitimar os processos de identificação dos grupos diversos, podendo ou não se caracterizarem como culturas de resistência. Entretanto, a nem sempre este intuito se concretiza e as culturas populares acabam se tornando mais uma expressão homogeneizante e que compactua com as ordens de poder hegemônico, sendo incorporado pelo sistema simbólico estabelecido por grandes grupos.

Quando se fala em níveis de poder e dominação, alguns autores tendem ao olhar do imperialismo cultural, da teoria da dependência cultural, pressupondo uma

imposição cultural do grupo seleto sobre os subalternos - “colonizador” sobre o “colonizado” - em um processo de alienação (Ortiz, 1994, p.58). Gramsci, com sua conceituação de hegemonia interpretou o processo de forma diferente. Ao invés de um fenômeno de alienação imposto e que substituiu a cultural local, o poder hegemônico lida com a questão das relações de poder e com acordos. Para o autor, o poder hegemônico negocia, faz concessões e só assim ele tem a possibilidade de ser legitimado. Esse posicionamento permite um olhar mais complexo para a dinâmica

cultural e permite compreender que a cultura produzida pelas indústrias midiáticas

também é um fórum de apropriação das aspirações populares. (Brittos, 2003, p.5). As teorias do imperialismo cultural foram muito importantes para a evolução do pensamento em comunicação e nas ciências sociais, principalmente na América Latina. Entretanto, este recorte não considera as variáveis da construção do quadro cultural em regiões conflituosas como essa. A própria incorporação incompleta dos preceitos católicos nas religiões africanas pelos escravos trazidos para a América é um indício da ausência dessa alienação e esvaziamento completo das marcas identitárias. Há uma mudança, mas não uma assimilação “cega”. Mesmo quando há imposição de uma cultura, há a resistência e é este jogo de equilíbrio que constrói as novas formulações das culturas híbridas e miscigenadas (Ortiz, 1994, p20).

O fato da cultura hegemônica se constituir de uma relação também com a cultura

nacional31 e popular, para Martín-Barbero

não impede que a ação do massivo, seja por sua vez sentida como u ma operação de despossessão cultural [...] Assim se encontra de forma esplêndida o funcionamento da hegemonia na indústria cultural: o encaminhamento de u m d ispositivo de reconhecimento e da operação dessa expropriação. (MARTÍN-BARBERO ,2009, p.115-116)

A cultura se constitui como um processo dinâmico e a entrada da forte influência externa à cultura local a transforma. O aumento do convívio com outros hábitos culturais influenciam as vivências de cada região. Pode-se comprovar tal afirmação por meio de diversos marcos históricos como: (a) as invasões de territórios na Europa e (b) a “descoberta” da África e da América. Dentro desse panorama, estabeleciam-se culturas miscigenadas, como o próprio povo brasileiro, o que transformou o Brasil em espaço de miscigenação (Ortiz, 1994, p.19), da soma do índio com o negro e o branco.

31 Neste caso, principalmente a relação da cultura hegemônica de uma grande potência internacional

dentro da dinâmica de colonização e posteriormente nos conceitos de globalização sobre os países de terceiro mundo.

A questão das distintas raças no Brasil foi um entrave ao estabelecimento de uma cultura e identidade nacional. Baseada neste quadro foi construída a imagem do mestiço.

A temática da mestiçagem é, neste sentido, real e simbó lica, concretamente se refere às condições sociais e históricas da amálgama étnica que transcorre no Brasil, simbolicamente conota as aspirações nacionalistas que se ligam à construção de uma nação brasileira. (ORTIZ, 1994, p.21)

A conexão dos conceitos de cultura nacional e identidade se dava, principalmente, por estarem ambas calcadas na ideia de compartilhamento de elementos como a linguagem, a religião, a crença, e o território. O espaço-tempo era base de seus conceitos.

5.2 Globalização: reconstrução das identidades e das concepções de cultura nacional

Benzer Belgeler