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O tempo é elemento constitutivo da formação religiosa do povo de Israel, ligando-se mais tarde ao contexto litúrgico. Neste itinerário complexo do povo de Israel experimentavam-se acontecimentos e celebrações que atestavam a contínua fidelidade de Deus e sua aliança e a repetida capacidade de renovação desta aliança por parte do povo de Deus122.

As primeiras comunidades cristãs, seguindo o exemplo do Israel bíblico, faziam a experiência do mistério de Deus que salva na liturgia, recordando-o também através da escuta da Palavra que continha o relato das testemunhas do próprio mistério123. A Palavra anunciada e ouvida nas celebrações dava o perfil para a compreensão da fé neste mistério e, por sua vez, criava relações entre as pessoas. A fé então era uma atitude, muito mais do que um conjunto de valores doutrinais. A repetição dos ritos ajudava na compreensão dessas relações.

Para os cristãos, Jesus, irrompendo no tempo, transcende o próprio tempo, apontando uma nova possibilidade de ligação com Deus124. O culto cristão então não se prende mais ao fator temporal natural, mas sim tende a dimensionar os que dele participam a uma realidade transcendental, embora o tempo ainda continue presente nos ritmos e festas que perpassam tanto o calendário litúrgico judeu como o cristão125.

O evento em que Deus intervém na história humana marca como sendo um só ciclo o cumprimento de promessas feitas no AT126. Aí um novo ciclo de compreensão é inaugurado

quando Jesus se insere nesse calendário, tornando-se um de nós. Este ciclo é marcado por sua páscoa127. O NT marca essa intervenção na expressão do prólogo de São João quando

122Z

ANON, G. El Año litúrgico: itinerário de fé, a la fé. In: Viver el tempo como salvacion. Ediciones Centre de Pastoral litúrgica de Barcelona, 1993, (Cuaderno Phases, 46), p. 69-70.

123 M

ARTIN. J. López. Tempo sagrado, tempo litúrgico e mistério de Cristo. In: BOROBIO, Dionísio. A celebração

na Igreja. Ritmos e tempos da celebração. São Paulo: Loyola, 2000, p. 39. 124 Cf. J

OÃO PAULO II. Dies Domini. Carta Apostólica sobre a santificação do Domingo. São Paulo: Paulinas, 1998, p. 81.

125 Cf. C

ASEL, Odo. “Hodie”. In: El Año Liturgico. Centre de Pastoral Liturgica de Barcelona, 1990 (Cuaderno

Phases, 14), p. 5-6; também levantado por Marc Girard em: GIRARD, M. O tempo além do tempo. In: Naquele

tempo. São Paulo: Loyola, p. 36.

126 Cf. M

ARTIN, J. López. Tempo sagrado, tempo litúrgico e mistério de Cristo. In: BOROBIO, Dionísio. A

celebração na Igreja. Ritmos e tempos da celebração. São Paulo: Loyola, 2000, p. 37.

127 Assim, o calendário temporal, com vistas a medir o tempo cósmico, já tomado como elemento do culto tanto

para gregos como para hebreus, agora o é tomado também pelos cristãos, já que ele “se baseia na sucessão natural dos dias, semanas e meses, expressando, porém, os dias determinados em que a comunidade cristã celebra com sagrada recordação a obra salvífica” (cf. SC, 102) (cf. MARTIN, J. López. Tempo sagrado, tempo

diz que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O tempo histórico é inferido pela Palavra de Deus que toma posse da história para refazê-la, através da páscoa de seu Filho128.

Para Martin, “a chegada de Jesus significou nova dimensão da presença de Deus no mundo, mas é antes de tudo descoberta do valor salvífico da história inserida nele”129.

Na opinião de Ancili130,

“a Bíblia nos introduz numa visão histórica do tempo, porquanto nele se realiza o destino do homem e, pelo advento do Cristo, produziu-se algo substancialmente novo e definitivo na ordem da salvação, de modo que, não é mais possível uma volta ao antigo”, e, citando Santo Agostinho, afirma que em Cristo “a concepção do tempo é quebrada, a linha do tempo adquire um sentido irreversível”.

O CV II colocou a liturgia em relação com essa história da salvação, considerando-a como atuação do plano de Deus no tempo, ao permitir o acesso dos fiéis e do povo celebrante neste mistério de salvação (SC, 102). Por meio do AL os fiéis entram em contato com o Mistério de Cristo e se tornam repletos da graça e salvação (SC, 102). Foi Paulo VI quem afirmou que o AL possui uma força sacramental própria, pois, o mistério de Cristo, historicizado no tempo humano, é condutor da graça131.

O tempo litúrgico se faz então o espaço para o acontecimento festivo. Este se caracteriza pela presença do Senhor, cujo motivo festivo remete os celebrantes ao valor prefigurativo e escatológico da festa eterna no céu. Esta prefiguração agora não encontra

litúrgico e mistério de Cristo. In: BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja. Ritmos e tempos da celebração.

São Paulo: Loyola, 2000, p. 32).

128 É a continuação do pensamento bíblico sobre o tempo, em que ocorre sempre a intervenção de Deus para

levar a história que nele se dá a um aperfeiçoamento (cf. MARTIN, J. López. Tempo sagrado, tempo litúrgico e

mistério de Cristo. In: BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja. Ritmos e tempos da celebração. São Paulo:

Loyola, 2000, p. 37).

129 cf. M

ARTIN, J. López. Tempo sagrado, tempo litúrgico e mistério de Cristo. In: BOROBIO, Dionísio. A

celebração na Igreja. Ritmos e tempos da celebração. São Paulo: Loyola, 2000, p. 37. 130 Cf. A

NCILLI, Ermano; PONTIFÍCIO INSTITUTO DE ESPIRITUALIDADE TERESIANUM (orgs.). Dicionário de

Espiritualidade. São Paulo: Paulinas-Loyola, 2012, p. 2391, vol III. 131 P

AULO VI. Mysterii paschalis. Carta apostólica sobre a Celebração do Mistério Pascal dada por motu próprio aprovando as Normas Universais do Ano Litúrgico e o Novo Calendário Romano Geral. In: Introdução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. Brasília: Edições CNBB, 2008.

Esta afirmação tem origem no desenvolvimento do conceito de graça na teologia litúrgica de Karl Rahner, a qual considera que ela está no mundo e é desejo de Deus. Segundo Rahner, a graça acontece pelo livre acolhimento da comunicação de Deus em sua existência. Mais tarde, o termo graça é substituído por Rahner pela expressão “história da salvação”. Assim, a graça não é propriedade particular da liturgia e dos sacramentos, mas estes se manifestam como uma forma particular dentro da esfera mais ampla constituída por essa graça sempre oferecida e sempre ativa (cf. MALDONADO, Luis. A ação litúrgica. Sacramento e celebração. São Paulo: Paulinas, 1998, pp. 12-16 (Coleção liturgia e catequese)).

mais ligação ao mito, e sim à Palavra de Deus, que, celebrada e festejada, recorda os eventos memoriais de Deus em favor de um povo, que culmina com a eucaristia132, eventos estes que projetam a manifestação do próprio Cristo na realidade humana e na história133.

É no Domingo, dia do Senhor134, dia da ressurreição, que fazemos memória da Aliança de Deus com seu povo, cujo fato marcante da auto-comunicação de Deus foi a Páscoa de seu Filho Jesus, vista como fato continuador do acordo feito entre Deus e seu povo, contado por inúmeras vezes na Sagrada Escritura. Pela recordação, que é ao mesmo tempo memorial, nós, povo de Deus, seguimos a mesma tradição do povo da antiga Aliança, o povo de Israel, que, através da lei de Moisés, conheceu festas fixas a partir da páscoa (êxodo), para comemorar as ações admiráveis do Deus salvador, dando-lhe graças; sua finalidade é a de perpetuar-lhes a lembrança e ensinar às novas gerações a conformar a sua conduta a elas135.

Benzer Belgeler