Um aspecto essencial da obra de Skinner para a compreensão de como a Análise do Comportamento pode contribuir com a construção de conhecimento sobre a trajetória educacional e ocupacional da clientela do ensino técnico é sua proposta de uma ciência do comportamento.
Uma possível condição para o entendimento da proposta de ciência formulada por Skinner é a compreensão de como este concebe a produção do conhecimento científico. Para Sério (1999), duas suposições básicas sustentam esta concepção:
a crença na existência do mundo independente do sujeito que conhece e a crença na determinação dos fenômenos.
Moroz, Lucci e Silveira (2004) destacam que o determinismo implica a possibilidade de descrever seu objeto de estudo, o comportamento, na forma de leis que permitirão a atuação sobre seus determinantes. Neste sentido, ciência, para Skinner, é ação:
O sistema científico, como a lei, tem por finalidade capacitar-nos a manejar um assunto do modo mais eficiente. O que chamamos de concepção científica de determinada coisa, não é conhecimento passivo. A ciência não se preocupa com a contemplação. Quando já tivermos descoberto as leis que governam uma parte do mundo ao nosso redor, e quando tivermos organizado estas leis em um sistema, estaremos então preparados para lidar eficientemente com esta parte do mundo. (1953/1994, p.26)
A concepção determinista de comportamento na Análise do Comportamento implica uma visão das trajetórias educacionais e ocupacionais da clientela do ensino técnico e de seus projetos profissionais como produzidas na relação dos indivíduos com o mundo material e social, sendo o último, juntamente com a bagagem genética do indivíduo, determinante dos comportamentos que conduzem tais trajetórias.
Sério (1999) ainda reforça que o conhecimento exige interação entre o sujeito e o objeto a ser conhecido, causando mudança em ambos.
O caminho descrito pelo conhecimento científico por Skinner (1953/1994), partindo da busca de relações ordenadas dos eventos, passa da observação de episódios singulares para a regra geral ou lei científica e, posteriormente, compondo arranjos sistemáticos mais amplos chegando a um modelo do objeto de estudo que permite que novas regras sejam formuladas. As leis de tal sistema científico nos capacitarão a prever e controlar o objeto de estudo.
Skinner (1953/1994) rejeita a observação do comportamento feita cotidianamente por todos como possibilidade de construção de conhecimento científico sobre o comportamento, já que o leigo não está capacitado a exprimir as relações adequadas sobre este. Skinner (1953/1994) considera que com contato com a ciência do comportamento devemos “desaprender” muito do que aprendemos com esta observação informal.
A complexidade do comportamento é o que o torna um objeto difícil de ser estudado, exigindo muito do cientista, já que é dinâmico, “mutável”, “fluido” e “evanescente” (Skinner, 1953/1994, p. 27).
Como é colocado para a ciência em geral, no caso de uma ciência do comportamento, a descrição de um evento singular não é o suficiente, sendo necessário buscar a uniformidade, passando do singular para a regra (Skinner, 1953/1994).
O autor (1953/1994) ainda ressalta a necessidade do uso dos métodos da ciência para o estudo do comportamento, visto que estes se destinam a esclarecer e explicitar as uniformidades emergidas da observação do comportamento.
Assim, enquanto ciência, a Análise do Comportamento deve permitir a apreensão de características das trajetórias educacionais e ocupacionais não perceptíveis ao olhar leigo e a busca de uma uniformidade presente nelas.
Algumas críticas são dirigidas à ciência do comportamento. Sério (1999) descreve o temor de muitos da redução do objeto da Psicologia com uma ciência do comportamento, pois entendiam que esta ciência trabalharia exclusivamente com o comportamento manifesto e que os fenômenos seriam explicados no nível fisiológico, desvirtuando a especificidade da Psicologia. Segundo a autora (1999), nenhum destes receios é fundamentado na proposta do behaviorismo radical, pois Skinner sempre buscou diferenciar a ciência do comportamento da Fisiologia e
convencer os próprios behavioristas da desnecessidade de excluir os fenômenos não observáveis diretamente da ciência do comportamento.
Sobre a última afirmação, Sério (1999) destaca que para o behaviorismo radical cada ser humano é um organismo que interage com o ambiente e se torna pessoa ao adquirir um repertório comportamental e se torna um self ao interagir com o ambiente social e adquirir autoconhecimento. O foco da análise da ciência do comportamento estaria nas duas últimas dimensões: a pessoa e o self (Sério, 1999).
Ao contrário do que versa a crítica mencionada por Sério (1999), a Análise do Comportamento pode estudar não só aquilo que é manifesto e observável nas trajetórias educacionais e ocupacionais e projetos profissionais da clientela do ensino técnico. A abordagem é capaz de compreender os membros de tal clientela como pessoas que adquiram um repertório comportamental em sua relação com o mundo, incluindo toda a sorte de comportamentos não observáveis como aqueles que envolvem suas expectativas e as diferentes influências sobre suas decisões por exemplo. A Análise do Comportamento ainda reconhece este membro como um self, no sentido de que ele é capaz de reconhecer os comportamentos de seu repertório em sua trajetória e escolher as condições que o determinam, o que permite que ele projete sua vida profissional. Isso só é possível por ele ser sensível ao ambiente social.
Outra objeção a uma ciência do comportamento descrita por Sério (1999) compreende uma suposta perda da individualidade das pessoas e dos selves pela aplicação de leis obtidas pelo método científico. Porém, tais leis:
(...) se referem aos processos de interação que mantemos com o ambiente e a descrição detalhada destes processos e das interações entre eles possibilita explicar, e não acabar com, a variabilidade. (1999, p.72)
A autora ressalta a compreensão da pessoa como um agente originador para Skinner, como o ponto em que os diferentes determinantes atuam conjuntamente, não havendo pessoas iguais em termos de identidade.
Assim, enquanto pessoa, da perspectiva da Análise do Comportamento, cada membro da clientela do ensino técnico tem uma identidade única, o que deve se revelar em sua trajetória educacional e profissional e projeto profissional.