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O realismo científico de Newton tem interesse principal na matéria: o conjunto de fenômenos do movimento será objeto de estudo para ele, que, prosseguirá com as descobertas das forças, de onde em seguida, serão tomadas demonstrações referentes a outros movimentos. Deste modo, o seu método busca tanto o estudo dos fenômenos observados na natureza quanto a descoberta de seus significados verdadeiros pelo método experimental e verificado, ou seja, acompanhado passo a passo de um processo explanatório. Segundo Edwin A. Burtt, não havia em seu pensamento certezas a priori, do tipo da que Kepler, Galileu, Descartes, Espinoza e, especialmente Leibniz acreditavam, de que o mundo é retidamente matemático e racionalista e que seus segredos podem ser desvendados por métodos não empíricos. Leibniz e sua teoria sobre as mônadas, expostas em sua obra A monadologia, presume que as mônadas são elementos máximos na constituição do universo, construindo uma filosofia racionalista

27. Desse modo, Leibniz aponta certa primazia a um mundo racionalista, buscando a

prioridade desse aspecto em suas investigações acerca da natureza. Talvez, racionalistas como Leibniz, pequem, por um lado, ao tentar compreender a natureza e seus fenômenos – compreender aquilo que é empírico – a partir daquilo que é puramente não empírico. Já Newton nunca ascendeu aos seus conceitos de Verdade sem antes admitir qualquer grau de sinceridade que aquele revelado pela sua própria prática 28. Deixou bastante claro, nas suas obras, especialmente em Principia, que não fazia como cientista “especulações ou conjecturas infundadas”, sem ter a comprovação empírica destas

27A razão representa uma realidade ontológica, extrínseca ao homem, de modo que as ideias em relação

a natureza podem ser alcançadas independentemente da experiência (LEIBNIZ, 1974).

28 Significa que o campo principal com que Newton estava realmente preocupado era o campo empírico.

A aceitação de um método não empírico servia-lhe, exclusivamente, para tentar elucidar, de forma mais precisa quanto possível, os fenômenos; ele não estava preocupado com um conhecimento que não tivesse o seu valor demonstrado nos fenômenos.

conjecturas. Várias passagens explícitas na Questão 31 da Óptica ressalvam a matéria como o objeto de seus estudos, mecanismo necessário para a interpretação e explicação das leis da natureza. O grande questionamento que fazia em seus escritos era como as partículas sofriam ou possuíam forças de atração e repulsão, questionamento respondido posteriormente com a ajuda da matemática – a gravidade. O mundo empírico era realmente o objeto principal de seus estudos, que precisava ser complementado e solidificado através da intervenção matemática, já que no processo empírico podia-se observar uma lei matemática em pura ação prática, confirmando o seu valor algébrico, suas deduções lógicas no processo empírico, ou seja, um método que se baseava na busca pelas causas de efeitos perceptíveis. Newton via na empiria seu verdadeiro interesse na filosofia natural, e este é, claramente, o espírito do Prefácio de Principia:

Gostaria que pudéssemos derivar o resto dos fenômenos da Natureza dos princípios mecânicos pelo mesmo tipo de raciocínio, pois, por muitas razões, sou induzido a suspeitar de que todos eles possam depender de certas forças pelas quais as partículas dos corpos, por algumas causas até aqui desconhecidas, ou são mutuamente impelidas umas em direção às outras e se ligam em formas regulares, ou são repelidas e se afastam uma das outras... mas espero que os princípios aqui expostos tragam alguma luz, seja a esse ou algum outro método mais verdadeiro de filosofar. (NEWTON, 2008a, p. 14).

Aqui, seu interesse principal é no conjunto dos fenômenos. Sua preocupação era precisamente com as entidades físicas – partir dos corpos, que por sua vez, são compreendidos em razão de forças – e, a matemática, servia-lhe apenas para comprovar a essência e a constituição dos corpos em razão da velocidade. Conforme Newton, é exatamente quando deduções de tais princípios levam a possibilidades distintas de certeza que os experimentos precisam ser empregados afim de que se chegue a uma conclusão mais correta. Para Galileu e Descartes a empiria só seria necessária para complementar o que a matemática deixava confuso. Para Newton, a matemática sem empiria, era mero jogo hipotético. A matemática deve moldar-se continuamente à experiência – sempre que se permitiam longas deduções de princípios, ele zelosamente insistia no caráter abstrato dos resultados até que se provassem fisicamente verificados – havendo uma clara distinção entre verdades matemáticas e verdades físicas 29.

Portanto, Newton soube tratar dois importantes aspectos no desenvolvimento do seu método, o empírico e o experimental, como também o matemático e teórico e, se separarmos inteiramente os dois aspectos do seu método, teria de ser dito que seu critério fundamental era mais empírico que matemático. Por isso escrevia que não se interessava pela causa da gravidade, como escreveu a Bentley em 1692 ou 1693: “A causa da gravidade é o que não tenho a pretensão de saber, e, portanto, levaria mais tempo para considerá-la”. Newton continuou a pensar na causa da gravidade até o fim de sua vida, mas nunca de modo a ficar satisfeito com os fatos experimentais, tentando convencer-se que havia provas empíricas suficientes para demonstrar uma teoria definitiva, o que ficou claro que não havia. Embora fosse matemático, tinha muito menos segurança no uso do raciocínio dedutivo e mais exatidão no método empírico quando aplicado aos problemas da natureza – empregava a verificação experimental para a solução de qualquer questão apesar do título de sua maior obra 30 (Princípios

matemáticos da filosofia natural).

Em sua Aritmética Universal (inicialmente publicado em 1707), sugere que alguns problemas não podem ser apropriadamente traduzidos para a linguagem matemática, algo que seria absurdo para Galileu ou Descartes. Não é nenhum absurdo afirmar que a matemática era, para Newton, unicamente necessária para a solução de problemas apresentados pela experiência perceptível. Ele era pouco interessado em raciocínios matemáticos que não fossem destinados à aplicação de problemas físicos. No começo do primeiro parágrafo de Principia ele diz,

Já que os antigos (como nos diz Pappus) consideravam a ciência da mecânica da maior importância na investigação das coisas naturais, e os modernos, rejeitando formas substanciais e qualidades ocultas, têm se esforçado para sujeitar os fenômenos da natureza às leis da matemática, cultivei a matemática, neste tratado, no que ela se relaciona à filosofia. Os antigos consideravam a mecânica sob dois aspectos: como racional – a qual procede rigorosamente por demonstrações – e prática... A solução deste problema é exigida da mecânica, e seu uso é mostrado pela geometria; e é a gloria da geometria que, a partir desses poucos princípios, trazidos do nada, seja capaz de exibir tantos resultados. Portanto, a geometria está fundamentada na

30 Newton buscava não admitir definições acerca dos fenômenos que não pudessem ser comprovadas

por experiências científicas. Mesmo que seus cálculos mostrassem maior probabilidade no resultado de determinadas questões relativas aos fenômenos, ele procurava não assumir esses resultados sem antes ter a comprovação deles pelo método experimental.

prática mecânica e não é nada mais do que aquela parte da mecânica universal que rigorosamente propõe e demonstra a arte de medir. (NEWTON, 2008a, p. 13).

Newton observa que, aquilo que é perfeitamente acurado, veio a ser chamado de geométrico; e o que é menos que acurado, mecânico. De fato, essas terminologias não são óbvias para o leitor contemporâneo. Ele quer dizer que a geometria, por ser a disciplina que lida com perspectivas e dimensões dos objetos, ocupa-se, justamente, com as formas dimensionais dos corpos (profundidade, altura e largura), ocupa-se com o formato físico das coisas. Deste modo, “descrever linhas retas e círculos constituem problemas, mas não problemas geométricos” 31. A mecânica racional (matemática) é

quem fornece a solução destes “problemas”, ela lida justamente com as medidas ou símbolos algébricos da mecânica geométrica (física) e, apenas quando solucionados esses “problemas”, que o seu uso é mostrado. A geometria é, portanto, para Newton, a representação da prática mecânica, não no que demonstra e a arte de medir, mas uma vez que as artes manuais versam particularmente sobre movimentos de corpos, ocorre que a geometria é comumente referida às suas magnitudes, e a mecânica aos seus movimentos. É nesse sentido, que a mecânica racional será a ciência dos movimentos matemáticos resultantes de quaisquer forças no mundo empírico e geométrico, a ênfase empírica e prática, aqui, é central, pois, a geometria é parte da “mecânica universal”, ou seja, os outros ramos da mecânica, juntos, compreendem uma única ciência dos movimentos dos corpos, ciência esta que originalmente é desenvolvida em resposta a necessidades práticas.

Nesse sentido, a mecânica racional será a ciência dos movimentos que resultam de quaisquer forças, e das forças exigidas para produzir quaisquer movimentos, rigorosamente propostas e demonstradas. (NEWTON, 2008a, p. 14).

Benzer Belgeler