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Yükseköğretime olan talebe rağmen kontenjanların boş kalması sorunu

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8. Yükseköğretime olan talebe rağmen kontenjanların boş kalması sorunu

Neste último ponto do presente capítulo focamos a atenção nas reflexões sobre as especificidades das experiências de recurso às MCA. Começamos por dar conta, de forma sucinta, das formas de acesso à informação sobre as MCA, para depois discutir a questão da eficácia terapêutica, partindo das avaliações que os utilizadores produzem acerca dos seus resultados.

As redes de sociabilidade constituem, em muitos casos, a primeira fonte de informação para o recurso às MCA, traduzindo-se em recomendações por parte de amigos ou familiares que direta ou indiretamente tiveram experiências com estas medicinas (Sharma, 1996; Frank e Stolberg, 2002; Cant, 2005; Badone, 2008). Retomando a categorização de Telmo Clamote sobre as fontes de informação (2010), verifica-se que a referência leiga assume o papel de fonte privilegiada no acesso à informação sobre as MCA e sobre os terapeutas em particular. Este padrão é também visível quando se observa a fonte de referenciação dos produtos terapêuticos naturais. Ao contrário do que se verifica no caso dos fármacos, em que na grande maioria das situações a referenciação provém de fontes periciais (sobretudo médicos, mas também farmacêuticos), no caso dos medicamentos naturais a referência leiga é a fonte de informação principal, seguida de fontes heterodoxas (Lopes et al., 2012)22.

22 Segundo dados de um inquérito a uma amostra representativa da população residente em Portugal, sobre

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O papel das redes de sociabilidade na referenciação das MCA não é, porém, o mesmo em todas as terapias, sendo mediado pelo grau de legitimidade social de cada uma delas. Comparando o caso da acupunctura com a medicina ayurvédica, na Alemanha, Frank e Stolberg (2002, 2004), concluem que quanto maior a legitimidade social da terapia, menor a influência das redes pessoais no acesso a essa terapia, sendo privilegiadas outras fontes de informação (por exemplo, as páginas amarelas). É esta a situação da acupunctura na Alemanha, ao contrário da medicina ayurvédica, em que a ausência de familiaridade leva a que o aconselhamento de amigos ou familiares esteja na origem de um recurso de caráter experimental. Nesta medicina, a legitimidade é construída na prática, muitas vezes a partir da primeira consulta, através de uma experiência quasi-mágica (por exemplo, um diagnóstico correto através da observação do pulso), que instiga à continuidade (Frank e Stolberg, 2002: 240).

No atual quadro de pluralização das fontes de informação sobre saúde, já discutido nesta dissertação (cf. capítulo 3, ponto 3.3), algumas pesquisas sobre a utilização das MCA procuram testar o papel que a internet assume, quer como fonte de referenciação das terapias e terapeutas, quer como instrumento promotor da validação destas medicinas. Os resultados mostram que a internet não constitui um caminho privilegiado para aceder às MCA. Além disso, contrariam a ideia de que a internet possui um potencial disruptivo dos monopólios existentes sobre o conhecimento e sobre o trabalho médico e, consequentemente, poder para transformar os doentes em peritos na sua própria doença e nas suas trajetórias terapêuticas. No caso dos pacientes com cancro, a internet pode ser considerada cúmplice nos processos de biomedicalização que reforçam uma conceção biomédica mecanicista do cancro e, pelo menos para alguns pacientes, tem o efeito de restringir o envolvimento com terapias não-biomédicas (Broom e Tovey, 2008).

Finalmente, uma outra vertente de análise sobre as experiências de recurso às MCA é a que respeita à avaliação que os próprios fazem sobre os seus resultados, remetendo assim para um aspeto já desenvolvido, o da eficácia. Além de permitir explorar o modo como as trajetórias se vão desenrolando a partir das avaliações que os indivíduos vão produzindo, com maior ou menor autonomia, com maior ou menor reflexividade, as perceções sobre resultados e eficácia e o modo como se inserem nas experiências concretas ajudam a compreender a questão que está subjacente a este capítulo – “Porque é que as pessoas recorrem às MCA?” – testando-a empiricamente.

Esta vertente analítica permite explorar os significados atribuídos à eficácia, a partir das experiências dos próprios indivíduos, demonstrando como esses significados se constroem de forma complexa, combinando, de modos variáveis, a apropriação dos critérios de eficácia biomédicos com formas de validação dos resultados assentes nas sensações

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materializadas no corpo e na mente, traduzidas na noção de eficácia sentida (Connor, 2004).

A noção de bem estar é avançada em alguns estudos para descrever os objetivos terapêuticos e os resultados das terapêuticas utilizadas nas MCA (Sointu, 2006a; Baarts e Pedersen, 2009).

A partir de entrevistas aprofundadas a terapeutas e utilizadores das MCA no Reino Unido, Eva Sointu enfatiza os significados atribuídos à saúde, conceptualizando a saúde fisiológica como parte de uma noção mais vasta e abrangente de bem estar. No âmbito desta conceção, o papel das práticas de saúde alternativas ou complementares será o de permitir aos participantes a experiência de regressar ao, ou avançar para o, bem estar, entendido como um contentamento, realização e harmonia “natural”. Tal significa que o bem estar é entendido como algo que está disponível para todos, mesmo para aqueles que têm doenças terminais (Sointu, 2006a: 335). Outro traço importante que subjaz a esta noção é o reconhecimento da agência dos indivíduos, isto é, a sua capacidade para escolher como querem ser, como querem sentir-se, como querem comportar-se, algo que, segundo a autora, lhes é negado na biomedicina (Sointu, 2006a: 337).

Numa outra pesquisa, realizada na Dinamarca, as autoras exploram os benefícios das MCA – especificamente acupunctura, reflexologia e meditação – tal como descritos pelos pacientes, focando a atenção nas experiências corporais que as MCA proporcionam. Tendo como ponto de partida um recurso às MCA continuado, mesmo para além do alcance, ou apesar do não alcance, dos resultados esperados, concluem que as razões para esse recurso podem ser encontradas no que designam por “benefícios derivados”, sistematizados em três categorias: consciência corporal (bodily awareness); soberania corporal (bodily mastery) e bem estar e responsabilidade (Baarts e Pedersen, 2009).

A primeira é explorada através da análise fenomenológica de Drew Leder sobre o corpo ausente, isto é, no facto de o corpo tender a desaparecer, na experiência humana, ao longo do curso normal da vida. Quando os corpos funcionam sem problemas, tendem a ser tomados como garantidos e deixam de fazer parte da experiência consciente. O argumento das autoras é de que a participação nas práticas das MCA aumenta a consciência corporal dos clientes, tornando o corpo presente, mesmo quando já não têm dores ou outros tipos de disfunções. Esta maior consciência corporal é descrita por alguns pacientes como um grau mais elevado de auto-reflexão. As sensações corporais e as observações de práticas quotidianas relacionadas com a saúde e a doença também passam a fazer parte da consciência corporal e levam à introdução de mudanças na vida quotidiana (Baarts e Pedersen, 2009: 723-724).

A soberania corporal é sobretudo evidente nos praticantes de meditação, que procuram recuperar o controlo sobre as suas mentes e os seus corpos, estando este

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associado a ideais de liberdade e agência individual. Significa, assim, a capacidade de os indivíduos tomarem atenção aos resultados dos seus comportamentos e fazer os ajustamentos necessários. Significa igualmente o encontro com a sua própria situação de modo a dar-lhe significado e a maximizar a saúde. A esta categoria de razões está associada uma lógica preventiva, de evitamento de doenças e de manutenção do equilíbrio corporal (Baarts e Pedersen, 2009: 726).

Quanto à dimensão do bem estar e da responsabilidade, os pacientes encaram as MCA como tendo capacidade para ativar os recursos auto-curativos de que o corpo naturalmente dispõe, e que permitem repor ou criar o equilíbrio do corpo. Trata-se de uma perspetiva naturalista, que opera no quadro de um dualismo interno/externo relativamente à cura. O corpo é por si saudável e a doença é o modo de o corpo dizer aos indivíduos que precisa de ajuda para utilizar os seus recursos naturais. O corpo fala com o indivíduo e o indivíduo tem que saber decifrar os “sinais” do corpo. A esta conceção sobre o corpo está associada uma conceção de saúde como bem estar geral. A responsabilidade pela saúde é, neste sentido, transferida para o próprio indivíduo, a quem cabe desenvolver práticas de auto-vigilância e de auto-monitorização da sua saúde, de forma a prevenir ameaças à saúde (Baarts e Pedersen, 2009: 727-28).

A análise das autoras revela como as perceções dos resultados das MCA tal como narradas pelos indivíduos são consonantes com o discurso público de promoção da saúde que explorámos anteriormente (cf. capítulo 3, ponto 3.1). Nesse sentido, a crescente popularidade das MCA não parece resultar da afirmação de um discurso transgressivo face ao quadro cultural em que se situam, já que aparentemente são mais as confluências que as divergências.

Outro mérito que importa destacar nesta análise é o facto de trazer o corpo para a discussão das experiências de recurso às MCA, conferindo-lhe a centralidade que assume nas sociedades modernas, e relacionando as conceções sobre o corpo com as conceções sobre saúde e doença. Trata-se de aspetos que exploraremos mais adiante (cf. capítulos 7 e 8).

As mesmas experiências de sentimentos de controlo e de poder na doença e nos processos de tratamento foram observadas como resultado do recurso às MCA, em pacientes com cancro, numa pesquisa realizada no Reino Unido (Broom, 2009). Porém, se a prevalência de discursos de auto-cura, auto-responsabilidade e auto-disciplina é uma realidade, alguns entrevistados revelam dificuldades em aplicar esses modelos nos seus contextos quotidianos de vivência com o cancro. O autor refere que, em alguns casos, estas noções têm um carácter retórico, que obriga a uma apresentação do eu restritiva e ilusória, conduzindo a performances ilusórias. O discurso da positividade e da auto-cura pode ter, assim, efeitos disciplinadores, impondo um quadro de auto-gestão aos pacientes que pode

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ser problemático em alguns contextos (Broom, 2009: 84). Estamos, pois, perante uma perspetiva alternativa às teses que partem do pressuposto que o desejo (ou a possibilidade) de assumir a responsabilidade pela própria saúde é transversal a todos os grupos sociais nas sociedades ocidentais modernas.

Em estudos sobre as trajetórias de recurso à medicina ayurvédica e à acupunctura, os autores concluem que, na maioria dos casos, os pacientes não correspondem ao modelo de consumidor ativo, na medida em que não ambicionam alcançar um conhecimento profundo sobre os princípios de atuação das terapias, nem desejam estar ativamente envolvidos nos processos de tomada de decisão sobre os tratamentos a seguir, expressando a necessidade de serem guiados pelo terapeuta em detrimento da valorização da autonomia. Estarão assim próximos do modelo paternalista da relação médico-doente inspirado em Parsons (Frank e Stolberg, 2002; 2004).

A responsabilidade, a participação, a autonomia e o controlo são valores promovidos numa retórica de promoção da saúde, cuja permeabilidade não é universal. As atitudes e as práticas sociais dos indivíduos revelam como os desejos e as possibilidades de exercício desses valores são variáveis, quer em função dos perfis sociodemográficos dos utilizadores das MCA, quer do estatuto de cada terapia no contexto social concreto, quer ainda das experiências de doença e de tratamento que se vão desenrolando ao longo das trajetórias terapêuticas. Em última instância, a rejeição desses valores pode ser vista, não como uma falha de agência, mas como uma forma de resistência.

109 Capítulo 5

O campo das Medicinas Complementares e Alternativas em Portugal: profissionalização, regulação e conhecimento

Uma das dimensões de análise privilegiadas nesta dissertação consiste no contexto institucional em que o recurso às medicinas complementares e alternativas (MCA) ocorre. No presente capítulo procede-se à caracterização do campo destas medicinas em Portugal, sempre que possível por relação à situação nos vários países europeus. A análise é desenvolvida essencialmente em três frentes. Primeiro, observa-se o quadro jurídico em que estas medicinas são praticadas, dando conta do processo de regulamentação de que têm sido objeto na última década. Segundo, explora-se o modo como o seu ensino se encontra organizado. Terceiro, efetua-se o mapeamento do movimento associativo – sobretudo das associações profissionais – relativo a estas medicinas. Os dados apresentados resultam da análise documental de fontes secundárias diversas, desde documentos publicados por instâncias internacionais, contendo orientações e sistematizações sobre a situação das MCA em vários países, a legislação nacional e informação disponível online sobre oferta formativa e associações profissionais.

Embora a presente dissertação não tenha como objetivo uma exploração sistemática dos processos de profissionalização das MCA em Portugal, já detalhadamente analisados noutras pesquisas, em diferentes fases desses processos (Pegado, 1998; Almeida, 2008, 2012a, 2012b, 2016; Almeida e Gabe, 2016), a análise do contexto a seguir desenvolvida não pode deixar de ser enquadrada nas estratégias e trajetórias de profissionalização das MCA. É esse o enfoque do primeiro ponto deste capítulo.