Nesta seção discutiremos as diferentes vozes e modalizações, procurando identificar as instâncias enunciativas presentes no texto e o que essas vozes evidenciam.
Iniciamos nossa análise com a voz da autora do texto, presente nos segmentos abaixo: • “Música para mim era parte do mundo natural – soprava e passava. Como a
brisa ou o barulho das ondas que me embalavam na casa de praia” (MACHADO, 2006, p. 2).
• “Devo a meu avô também meu primeiro contato com uma editora” (MACHADO, 2006, p. 28).
• “Mas isso não é surpresa. Até hoje, em todos esses anos e esses textos, só em dois casos eu comecei a escrever sabendo como ia terminar” (MACHADO, 2006, p. 68).
A voz presente nos segmentos acima procede diretamente de Ana Maria Machado, que intervém no texto como autora para comentar alguns aspectos da sua autobiografia. A inserção da voz da autora pode, também, ser realizada a partir de um discurso direto, como vimos no exemplo de discurso interativo quando discutimos sobre os tipos de discurso, na seção 2.1.1.2.1, a infraestrutura geral do texto. A voz da autora é predominante no texto, pois trata de sua autobiografia, mas não é a única, pois outras vozes, como a do pai e dos amigos, também são frequentes.
As aspas também marcam alguns trechos do texto, como em:
O duro era satisfazer a minha fome de “outro sítio do Pica-Pau Amarelo”, quer dizer, livros que fossem uma coleção com os mesmos personagens,
num lugar que eu ficasse conhecendo e onde eu “pudesse morar”. (MACHADO, 2006, p. 24)
A autora faz uso de aspas para evidenciar seu gosto pelo livro de Monteiro Lobato. Em seguida, observemos as vozes sociais, vozes de outras pessoas ou de instituições humanas exteriores ao conteúdo do texto, conforme o seguinte exemplo:
Era o ano de 1946 e se acreditava nisso – Piaget e Emília Ferreiro ainda não tinham mostrado ao mundo como é frequente num ambiente letrado que uma criança descubra por si como se lê. (MACHADO, 2006, p. 17, grifo nosso)
As vozes de Piaget e Emília Ferreiro procedem de personagens que não interferem no desenvolvimento do tema, embora sejam expressas no texto, a partir de instâncias externas de avaliação de alguns aspectos do conteúdo.
Por último, analisamos as vozes dos personagens, procedentes de pessoas implicadas nos acontecimentos ou ações da autobiografia de Machado (2006, p. 41, grifo nosso):
A voz do pai – “– Minha filha, eu preferia que você não tivesse se metido nisso, é uma profissão muito bonita, mas muito exposta, um ambiente muito competitivo, muito sujeito a calhordice, a futricas, a pressões indevidas... Mas já que você parece mesmo resolvida, vou lhe dar um conselho. Um cuidado que eu sempre tive na profissão. Não sei como é com mulher, vocês não usam paletó... Mas faça as adaptações necessárias...
A voz de Sonia, a amiga: “Ana, por que você não joga fora essa história e faz outra? Como eu sei que você é capaz de fazer... Em vez de escrever o que você acha que deve ser, faz só o que você gosta...” (MACHADO, 2006, p. 56).
As vozes destacadas acima são de personagens que fazem parte da autobiografia de Ana Maria Machado (2006) e que assumem a responsabilidade do que dizem no texto. As que mais se destacam são a voz do pai e a dos amigos. Além dessas, outras se destacam com igual relevância, conferindo legitimidade ao relato. A voz do pai mostra uma grande preocupação em relação à profissão que a filha escolheu, pois tem conhecimento do meio e teme por ela, no entanto, dá conselho para a filha se sair bem na profissão. Em relação à voz de Sonia, observamos a preocupação em ver sua amiga feliz, fazendo só o que gosta.
Assim, a autobiografia é um gênero que permite o entrecruzamento das histórias narradas pelas inúmeras vozes que participam no texto e que são organizadas a partir das escolhas do autor, sempre em função de um suposto leitor.
Em seguida, analisaremos as modalizações que traduzem, a partir de qualquer voz enunciativa, os comentários ou avaliações sobre alguns elementos do texto.
Procuramos identificar as modalizações específicas da autobiografia, pois apontam fatos da vida da autora, como as lógicas e as apreciativas. A modalização lógica está presente em: “estou absolutamente convencida de que ninguém, nunca, alcançou a genialidade dele e nenhum outro clássico (fora Cervantes e Homero, que também moram no meu coração, mas que têm menos livros) me fala tão de perto e de modo tão permanente” (MACHADO, 2006, p. 29, grifo nosso).
A modalização destacada é apoiada em conhecimento elaborado pela autora nas inúmeras leituras que fez durante sua vida, apresentando o motivo pelo qual é absolutamente convencida da genialidade de Shakespeare que, sem conhecimento sobre inúmeros autores, essa afirmação não se sustentaria.
Em relação às modalizações apreciativas, destacamos uma no seguinte trecho: “mas, como para crianças é mais uma linha melódica, fica impossível disfarçar com harmonias rebuscadas – quando não se sustenta fica evidente e o leitor simplesmente abandona o livro” (MACHADO, 2006, p. 65, grifo nosso).
.A modalização destacada no segmento acima, procede do mundo subjetivo, presente na voz da autora Ana Maria Machado, que faz uma avaliação sobre as leituras para criança.
Diante das análises das vozes e das modalizações, observamos a presença da voz da enunciadora no texto, além de outras vozes, como a voz do pai e dos amigos, cuja finalidade é obter a credibilidade do leitor. Algumas das modalizações lógicas e apreciativas utilizadas pela autora têm a finalidade de mostrar ao leitor que ela se preocupou com os comentários e as avaliações formuladas.
Além das modalizações, podemos, ainda, identificar avaliações no texto por meio de adjetivos (KERBRAT-ORECCHIONI, 1990) em que a finalidade é destacar expressões de subjetividade expressas pelo enunciador ou pelos próprios actantes, dispostas no texto pelo próprio enunciador, como destacamos no trecho a seguir: “acabou-se estabelecendo em Petrópolis, uma cidade encantadora, um lugar belíssimo, na serra junto ao Rio de Janeiro” (MACHADO, 2006, p. 4, grifo nosso). Machado (2006) refere-se admirada ao lugar em que seu avô, Rozendo, estabeleceu-se ao mudar de Portugal para o Brasil. São inúmeros os adjetivos presentes na autobiografia, no trecho acima, os axiológicos, aqueles que exprimem uma opinião do enunciador.
Ao finalizarmos a análise do primeiro texto que compõe o corpus de autobiografias, observamos que o autor da autobiografia apresenta seu texto numa ordem cronológica, os fatos, as ações e os acontecimentos, iniciando desde o nascimento, ou, antes dele, como é o caso de Machado (2006), que inicia sua autobiografia relatando suas origens, escreve sobre seus avós e seus pais, para depois iniciar a sua história. Nesse sentido, o autor da autobiografia faz uma reflexão sobre o seu eu, sobre a sua própria existência. Na próxima seção passaremos à análise do segundo texto.