Passemos à análise das vozes, no segundo texto do corpus.
Iniciamos com a voz do enunciador do texto, representada explicitamente pelos pronomes de primeira pessoa, como em:
• “De noite eu deitava e sabia que estava pegando no sono quando os frangos, pelados, vinham dançar na minha cabeça, batendo as asinhas, rebolando” (TEIXEIRA, 2006, p. 13).
• “O Kilo, o Preto e o Júlio eu encontrava pra tomar uma cerveja, mas eles diziam que eu tinha virado playboy” (TEIXEIRA, 2006, p. 74).
Na autobiografia, a voz do enunciador predomina no relato, por se tratar de um gênero em que alguém conta sua própria história, como vimos nos segmentos acima.
O segundo segmento apresenta uma voz social que não intervém como agente no percurso temático, tal como se apresenta em: “a Oscar Freire é a rua mais cara do Brasil” (TEIXEIRA, 2006, p. 77).
E, por último, passamos à análise das vozes de personagens.
A voz do fotojornalista Gustavo implica em um acontecimento constitutivo do conteúdo temático, como em: “Gustavo falava que tirar foto de guerra é ter que correr pro lado do canhão enquanto as pessoas estão fugindo dele” (TEIXEIRA, 2006, p. 81).
A voz da professora mostra-se neste segmento: “veio então a professora: ‘você passou por algum distúrbio emocional ultimamente? Se não quiser não precisa falar. Dorme bem? Range os dentes’?” (TEIXEIRA, 2006, p. 97).
Temos também a voz de vizinhos que fizeram parte da autobiografia de Teixeira (2006), como em:
Mas a rixa com o Lineu Galdino é muito pior, porque eles são vizinhos. Dizem que tudo começou quando ele, que é evangélico, fez um convite pra elas mudarem de igreja, e elas não aceitaram... Uma vizinha falou que já viu o Lineu embolando uma casca de banana e jogando no quintal das Dinhas. (TEIXEIRA, 2006, p. 113)
Muitas personagens fizeram parte da história de Teixeira (2006), entre elas, as dinhas (tias) Aparecida e Tonha, que aparecem com mais frequência, a ponto de fazer parte do filme, o grande sonho do autor. Isso demonstra a afinidade do autor com essas tias.
Enfim, nessa segunda autobiografia, observamos inúmeras inserções de vozes de personagens durante o percurso temático, pois a história de uma vida é o entrelaçamento das vozes de muitas pessoas que fizeram parte da trajetória do autor.
Encontramos no texto, também, segmentos que apresentam modalizações lógicas, sob o ponto de vista de suas condições de verdade, como ressaltamos neste trecho: “mas, na rua, se você puser reparo, vai ver que uma delas (uma das tias) anda carregando uma pedra na mão. E, se você mexer com elas, com certeza, vai levar uma pedrada” (TEIXEIRA, 2006, p. 113, grifo nosso).
No fragmento acima, a modalização “com certeza” implica em um critério de verdade estabelecido na voz do enunciador, a partir do conhecimento que tem sobre as tias, participantes da interação.
As modalizações apreciativas consistem em uma avaliação subjetiva de alguns aspectos do conteúdo temático, assumida pela voz do autor, como podemos notar neste segmento: “matar alguém é maldade e todo mundo sabe. Matar trocado por conta de nome igual, então, é ruindade sem limite. Que dirá de matar alguém errado e abrir com ódio a barriga dele e deixá-lo jogado na calçada com as tripas de fora?” (TEIXEIRA, 2006, p. 30).
No segmento acima, o autor exprime uma opinião a respeito da morte do vizinho José cometida pelo fazendeiro Cleantino, tendo em vista a violência do ato.
Enfim, as modalizações lógicas e as apreciativas são predominantes na autobiografia, por tratarem de avaliações do autor, a primeira apoiada nas condições de verdade devido ao conhecimento que o autor tem sobre as tias. A segunda consiste em uma avaliação subjetiva do autor, expressando sua indignação.
Observamos também inúmeros adjetivos (KERBRAT-ORECCHIONI, 1990), marcas de subjetividade de ordem axiológica, como podemos notar em: “e com a Joyce eu brigava e ria, porque trabalhava até as dez e ela queria madrugar vendo televisão, e eu gritava a Cris, que ralhava, ‘desliga a televisão, menina, ou vai apanhar’, e a Joyce me olhava maldosa [...]” (TEIXEIRA, 2006, p. 82, grifo nosso).
Como vimos anteriormente, o adjetivo destacado no segmento acima é da ordem dos adjetivos axiológicos, pois expressa uma opinião do autor quando se refere ao olhar de Joyce, que pressupõe muita raiva, já que levara uma bronca.
Com as conclusões dos resultados das análises das autobiografias, finalizamos este capítulo. A fim de facilitar a compreensão das características gerais do gênero, mapeamos, a seguir, as particularidades essenciais que foram detectadas nesse gênero.
Modelo didático Texto 1 Texto 2
Contexto de produção
Suporte: livro (capa, contracapa etc.) Contexto físico:
Produtora: Ana Maria Machado Lugar possível: residência Contexto social:
Enunciadora: escritora
Destinatários: alunos de escola pública e leitores de autobiografia
Publicação: editora Saraiva;
Objetivo: incentivar os alunos a ler, divulgando sua autobiografia
Suporte: livro (capa, contracapa etc.) Contexto físico:
Produtor: Rinaldo Santos Teixeira Lugar possível: residência
Contexto social: Enunciador: escritor
Destinatários: alunos de escola pública e leitores de autobiografia
Publicação: Ministério da Educação; Objetivo: incentivar os alunos a ler, divulgando sua autobiografia
Folhado textual Organização textual Plano geral: 6 capítulos Tipos de discurso:
• Relato interativo (predominante);
• Inserção de discurso interativo e discurso teórico
Sequências:
• Predomínio de scripts • dialogais
• descritivas
Mecanismos de textualização ligados à autobiografia • Conexão 9 Organizadores temporais (predominante) • Coesão nominal 9 Anáforas: pronominais de 1a pessoa; anáforas nominais; por apagamento do pronome (predominante na autobiografia)
• Coesão verbal
9 Verbos no pretérito perfeito e imperfeito (marcam a temporalidade no relato)
Organização textual Plano geral: 5 capítulos Tipos de discurso:
• relato interativo
(predominante);
• Inserção de discurso interativo e discurso teórico Sequências: • Predomínio de scripts • dialogais • descritivas Mecanismos de textualização ligados à autobiografia • Conexão 9 Organizadores temporais (predominante) • Coesão nominal 9 Anáforas: pronominais de 1a
pessoa; anáforas nominais; por apagamento do pronome (predominante na autobiografia) • Coesão verbal
9 Verbos no pretérito perfeito e imperfeito (marcam a temporalidade no relato)
Mecanismos enunciativos
• Vozes: do autor; de inúmeros personagens e vozes sociais.
• Modalizações: lógicas e apreciativas – predominantes na autobiografia
• Adjetivos como marcas de subjetividade, em sua maioria de ordem axiológica.
Mecanismos enunciativos
• Vozes: do autor; de inúmeros personagens e vozes sociais.
• Modalizações: lógicas e apreciativas – predominantes na autobiografia
• Adjetivos como marcas de subjetividade, em sua maioria de ordem axiológica.
TABELA 4.1. Resumo do modelo didático do gênero autobiografia. Fonte: elaborada pela autora.
Esse modelo subsidiou a elaboração da sequência didática que foi trabalhada com os alunos, cuja descrição será apresentada a seguir.
CAPÍTULO 5
A SEQUÊNCIA DIDÁTICA ELABORADA A PARTIR DO MODELO DE AUTOBIOGRAFIA
Neste capítulo apresentaremos o contexto em que os alunos produziram sua 1a autobiografia; a partir do levantamento das dificuldades nesse texto, elaboramos a sequência didática (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004). Por último, apresentamos a análise da última autobiografia dos seis alunos que realizaram todas as atividades, a fim de confrontar a primeira e a última versão e verificar se houve desenvolvimento de capacidades de linguagem nessa produção textual (de acordo com a metodologia).
Para iniciar o trabalho com o gênero autobiografia, em primeiro lugar, apresentamos o contexto de produção, no qual os alunos deveriam agir para elaborar seus textos (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004), ou seja, apresentamos o gênero autobiografia a ser trabalhado e o projeto “Pequenos Grandes Escritores”. Em seguida, conscientizamos os alunos da importância dos conteúdos que seriam trabalhados, essenciais para a escrita de suas autobiografias. Além disso, expusemos o objetivo que teriam ao produzir suas autobiografias, como participantes desse projeto, que tinha como produto final a organização de uma coletânea que seria exposta na Mostra Cultural da escola, no encerramento do ano letivo. Os leitores seriam seus professores, orientadores, colegas, familiares e a comunidade em geral. Discutimos, também, a elaboração de uma representação da função social dos leitores de seus textos e, ainda, do papel social que exerciam enquanto autores da autobiografia.
Na próxima seção descreveremos a sequência didática, a partir da apresentação do gênero autobiografia aos alunos.