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Além de solicitar aos sócios correspondentes de outras províncias o envio de memórias e documentos relativos aos aspectos históricos, antropológicos, naturais e topográficos do Brasil, a promoção de expedições científicas pelo IHGB teria um papel igualmente relevante no estabelecimento de uma memória da nação, proporcionando-lhe uma dimensão espacial e justificando a dupla acepção do Instituto como “histórico” e “geográfico”.90

Antes da Comissão Científica de Exploração, o próprio IHGB já vinha empreendendo uma série de ações e alianças com o intuito de fazer o reconhecimento do território e fixar as origens da nação, baseada nas teorias de que o indígena brasileiro era resultado da degeneração de uma raça superior e outrora civilizada: desde a associação com a Sociedade Real dos Antiquários do Norte da Dinamarca, em busca de uma ligação arqueológica ancestral entre a terra brasilis e o Norte europeu, até a já referida cidade perdida do Sincorá, cujas buscas foram encerradas em 1849.

Entretanto, o estabelecimento de laços com culturas civilizadas poderá também causar constrangimentos. Percebe-se, na Comissão do Ceará, o incômodo e o estranhamento dos naturalistas perante a forma peculiar com que a “gente baixa” ou até a “gente boa ou de gravata lavada” entendia as origens da província cearense, dissonante dos sentidos de continuidade entre a colonização portuguesa e o império tropical.

Tem a gente do Ceará grande aversão para estrangeiros, principalmente para portugueses, a que chamam Marinheiros. Inda há poucos dias em casa do Franklin de Lima, estando ele e a mulher, conversamos sobre várias coisas e entre elas me perguntou o Franklin se uma corrente de ferro que se diz existir fechando a barra do Rio de Janeiro não era obra de holandeses, porque, dizia, portugueses não acredito que fossem capazes de fazer! Tudo o que existe no Ceará mais antigo querem que fosse obra de holandeses; assim a antiga fortaleza do Rio Ceará; o porto de desembarque, com o seu aterrado são obras holandesas.91

90 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. “A disputa pelo passado na cultura histórica oitocentista no

Brasil”. Op. cit., p. 104.

91 ALEMÃO, Francisco Freire. “Sentimento dos cearenses para com os estrangeiros”. In: DAMASCENO,

Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Op. cit., p. 316.

Em Fortaleza, Freire Alemão, acompanhado por dois membros da expedição e Tomás Pompeu de Sousa Brasil,92 foi à Vila Velha fazer uma colheita de plantas. Vila Velha, na barra do Rio Ceará, foi onde Martim Soares Moreno construiu um forte em 1611, posteriormente pilhado por holandeses liderados por Matias Beck para construir uma fortificação mais ao sul, retomada em 1654 sob o comando de Álvaro de Azevedo Barreto. O ciclo de conquistas e reconquistas desse ponto equidistante entre Pernambuco (de atuação holandesa sensível) e o Maranhão (com núcleos de administração ibérica) daria ensejo à polêmica sobre a origem e o “verdadeiro” fundador de Fortaleza, estendendo, até os anos 1960, a querela entre intelectuais “morenistas” e “beckistas”.93

Eram mais de dez horas que todos seguimos para Vila Velha, que é daqui a duas léguas, chegamos lá ao meio-dia com bastante sol. Apeamo-nos em casa do Gouveia, onde mora um seu filho que lhe administra o sítio. Estava ele embaixo no serviço com um sujeito velho, e caçando com uma espingarda de dois canos; acompanhou-nos até o rio, lugar chamado Porto de Holandeses.

[...]

Disse-nos o Pompeu que nasce ali uma fortaleza e que a fortaleza tomada pelos holandeses é a da capital.94

O registro do topônimo “Porto de Holandeses” e do comentário do futuro Senador Pompeu em seu diário, mesmo sem entrar em comentários mais profundos, evidencia a impressão registrada na “memória em separado”, de uma autoimagem superior e desconectada da unidade imperial engendrada pelos cearenses. Se, no século XX, quando os vínculos de continuidade identitária com a Igreja Católica e Portugal estavam bem estabelecidos, “a questão não mais se resumiria à definição de uma prioridade lusitana ou holandesa, mas de um princípio de civilização: se fundado sob a égide católica ou se inspirado por preceitos da Reforma”, percebe-se na fala de Pompeu, ao indicar a fortificação holandesa como a “da capital”, localizada na margem esquerda

92 Tomás Pompeu de Sousa Brasil, o Senador Pompeu (1818-1877), político cearense. Formou-se na

Faculdade de Direito do Recife e no Seminário de Olinda. Foi um dos fundadores do Liceu do Ceará e seu primeiro diretor, entre 1845 e 1849, professor de Geografia e História. Em 1845, foi o primeiro suplente nas eleições para a assembleia geral, tendo-se efetivado com a morte de Costa Barros. Jornalista, participou ativamente no jornal O Cearense, ligado ao Partido Liberal, do qual era membro. Com a morte de Miguel Fernandes Vieira, então líder dos liberais no Ceará, foi indicado para senador do Império em 1864. Tornou-se, ainda, chefe do partido no estado até a sua morte.

93 FURTADO FILHO, João Ernani. Soares Moreno e Matias Beck: inventário de uma polêmica nos

escritos de Ismael Pordeus. Fortaleza: Museu do Ceará; Secult, 2002, p. 24.

94 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem de Francisco Freire Alemão (1859-1861). Fortaleza:

do Rio Pajeú, sobre o monte Marajaitiba, um simbolismo e uma distinção dos lugares, opondo o que, no século XX, seriam a periferia (Barra do Ceará, forte de Martim Soares Moreno) e o núcleo iniciador da cidade, o forte Schoonenborch de Matias Beck.95

O incômodo de Freire Alemão se deve menos e necessariamente à atribuição dada aos holandeses como iniciadores da colonização da província, diante do legado que, bem ou mal, ainda se reconhecia em Pernambuco da empresa estabelecida por Maurício de Nassau no século XVII. Preocupava-o a ideia de oposição e superioridade que os cearenses encetavam em relação ao elemento lusitano — e consequentemente à monarquia dela gerada — ao se colocarem como descendentes dos batavos, resumindo no epíteto de “marinheiros” a ideia de homens incapazes de se fixar na terra, de construir algo do próprio engenho, enriquecendo por meio da pilhagem e da exploração de outros povos. Os cearenses entendiam-se, portanto, diferentes porque são

outros, portadores de uma história mais do que provinciana, pois o Brasil (a nação), para eles, é o Ceará. Apesar da identificação com um país de lastro em termos históricos, desenvolvida e pujante, tal afinidade colocava em risco uma ideia que, na segunda metade do século XIX até finais do século XX, teria enorme sucesso nos circuitos letrados e nos livros didáticos: a expulsão dos holandeses representaria um marco da brasilidade, na medida em que os quatro “heróis” da batalha representariam nossas raças fundadoras, unidas para livrar a pátria da opressão batava e devolver-lhe sua perdida integridade: “Se Fernandes Vieira e André Vidal são da raça branca, Antônio Camarão é indígena, e Henrique Dias pertence ao tipo africano”.96

Tal visão só seria questionada pela historiografia mais recente, “quando seria questionado esse tipo de conclusão, já que o Brasil colonial não formava uma unidade sistemática”.97

Freire Alemão chega a registrar em seu diário o encontro, em Viçosa, com um índio chamado Inácio José de Souza, que “quer ser descendente de D. Felipe Camarão”, mas de cujas informações o botânico diz que pouco teve o que aproveitar: “Deu-me mais algumas notícias de uma guerra de D. Felipe (não sei qual deles) contra os tapuias da serra, notícias muito confusas. Aprovei dele o modo de pronunciar algumas palavras indígenas”.98 Apesar de a forma como pronunciava as palavras atestar sua origem indígena, denota-se a pouca confiança sobre a alegação de Inácio de ser

95 FURTADO FILHO, João Ernani. Soares Moreno e Matias Beck... Op. cit., p. 32; 104.

96 ARARIPE, Tristão de Alencar. “Indicações sobre a história nacional” [1894]. In: GUIMARÃES,

Manoel Luiz Salgado. Livro de fontes de historiografia brasileira. Rio de Janeiro, EdUerj, 2010, p. 238- 239.

97 RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Fato e a fábula... Op. cit., p. 18. 98 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem... Op. cit., p. 388-389.

descendente de Felipe Camarão, diante da imprecisão de suas notícias e de não apresentar qualquer outra prova material, o que impossibilitava a sujeição daquela fala a um crivo mais autorizado. Aqui igualmente o botânico não aprofunda o episódio, mas é possível indagar se a fixação desse encontro com o índio Inácio, em seu relato diarístico, não apontariam para um outro tipo de afirmação de nativismo cearense, tomando como mote Antônio Felipe Camarão.

O naturalista bávaro Carl von Martius, em ensaio premiado pelo IHGB sobre a melhor forma de escrever a História do Brasil (a ser discutido no próximo tópico), acreditava que a história da nação deveria ser entendida como um todo, evitando “que cada província se contentasse com a sua própria história e começasse a entender que a História do Brasil seria simplesmente a soma desses fragmentos.99 Anos depois, Tristão de Alencar Araripe também publicaria, na Revista do IHGB, um texto programático sobre o modo de escrever a história do Brasil, que, em certa medida, afasta-se da visão de síntese do Von Martius ao colocar em destaque o cultivo da história de certos indivíduos, tornados vultos exemplares a estimular o patriotismo. É lá que se consagra a versão das três raças fundadoras aglutinadas contra o exógeno holandês. Ramos, entretanto, observa a contradição desse texto com a História da Província do Ceará, publicada em 1867, em que o herói índio é apropriado como nascido na Serra da Ibiapaba (onde se localiza Viçosa) e a disputa dessa naturalidade com Pernambuco. Numa escrita engajada, Alencar Araripe e seu primo, o escritor romântico José de Alencar, aquele na história e este nas páginas de Iracema – Lenda do

Ceará(1865), defenderão a ideia do Ceará como “pátria de Camarão”. “A repetição não

é mera coincidência. [...] Era uma questão de honra acreditar que o Ceará fora o berço de Camarão, índio que, conforme se imaginava, tornou-se um homem civilizado e, além disso, ajudou a expulsar os holandeses do Brasil”.100

Levando-se em conta que, a despeito de Alencar Araripe e José de Alencar serem filhos dos principais líderes das agitações separatistas de 1817 e 1824, tal versão não chega a se opor frontalmente às aspirações integrativas do IHGB e do Governo central; indica, porém, que essas filigranas de patriotismo cearense ultrapassavam as tradições orais e os preconceitos que regulavam o trato com representantes de poder imperial. Atuando na esfera intelectual (que não deixa de ser política), Alencar Araripe e José de Alencar procuravam dar ao Ceará uma posição de destaque na “biografia da

99 RAMOS, Francisco Régis Lopes. Op. cit., p. 17. 100 RAMOS, Francisco Régis Lopes. Op. cit., p. 18.

nação”, transformando o que Freire Alemão percebia como soberba em orgulho do passado patriótico — seja nos estudos históricos ou na literatura de Alencar, em que o Ceará será o palco do mito fundador brasileiro, pela união do branco Martim e da índia Iracema. Mesmo seguindo a retórica das histórias de amor coloniais, em que independente de o sentimento ser ou não correspondido, de o amante colonizado ser homem ou mulher, “os amantes são separados, o europeu é reabsorvido pela Europa, e o não-europeu morre prematuramente,101 o encontro do guerreiro lusitano com a índia tabajaranos lega Moacir: o “filho da dor”, de uma relação insegura, porém estabelecida e não mais ignorável. “É por isso que Alencar deixa bem claro: Iracema é uma lenda, mas é uma lenda com argumento histórico. Isso quer dizer que o leitor está diante de um texto que não é verdade, mas pode abrir as portas da imaginação que leva ao que realmente se passou”.102

Mesmo que essas expedições muitas vezes não alcançassem seus intentos, ou, uma vez em campo, se vissem às voltas com concepções de nacionalidade “rebeldes”, tais fatores não diminuem a importância do deslocamento, do “estar lá” como forma não apenas de trazer à luz esses vestígios de tempos pretéritos, mas de localizar e enquadrar certos entendimentos da gênese brasileira que não se afinassem com o projeto monárquico, colocando-os na acepção de “preconceito popular, que se vai desvanecendo com a ilustração”.103 “O olho do viajante, educado segundo as regras do inquérito filosófico em que tanto a natureza quanto os aspectos humanos seriam objeto de uma narrativa minuciosa e circunstanciada, atestaria o narrado nas fontes e porventura objeto de disputa e controvérsia0.”104

No Brasil, o IHGB representará, junto com outras instituições imperiais, um esforço destinado a estabelecer uma história nacional, intento particularmente difícil num país que, pelos critérios da cultura letrada europeia, era “desprovido de História”. Um mesmo território abrigava em seu interior regiões de paisagens intocadas e populações em estado edênico, vilas e cidades arraigadas aos usos da antiga metrópole e uma Corte que aglutinava todas essas contradições a um só tempo, na medida em que, malgrado “língua, costumes, arquitetura e afluxo de produtos da indústria de todas as

101 PRATT, Mary Louise. Os olhos do império. Relatos de viagem e transculturação. Bauru: EdUSC,

1999.

102 RAMOS, Francisco Régis Lopes. Op. cit., p. 90.

103 ALEMÃO, Francisco Freire. “Sentimento dos cearenses para com os estrangeiros”. In:

DAMASCENO, Darcy; CUNHA, Waldir da. Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 316.

partes do mundo [que] dão à praça do Rio de Janeiro um aspecto europeu”, logo se depara “com a turba de negros e mulatos, a classe operária com que ele topa por toda parte [...] fere a sensibilidade do europeu que acaba de deixar os costumes delicados e as fórmulas obsequiosas de sua pátria”.105

Em sociedades que não vivenciaram diretamente a presença da cultura clássica, suas academias e institutos históricos elegeriam os tempos recuados como índice possível para a “antiguidade nacional”. “Desta forma os valores da civilização não seriam apanágio exclusivo da tradição greco-romana, podendo inclusive ser encontrados num passado anterior a estes tempos e mesmo em sociedades que não teriam sido, a não ser muito tardiamente, marcadas pela presença dessa herança”.106

No caso brasileiro, se as contradições do presente não forneciam os elementos necessários para a construção da consciência e identidade nacionais — a ponto de o próprio IHGB protelar ou mesmo impedir a divulgação de documentos relacionados ao passado imediato do Império107 —, nossos letrados recorreram aos registros exemplares dos homens e feitos dos tempos da colonização, bem como à natureza tropical para demarcar a singularidade de nossas origens.

Nessa política do “recordar para ser”, a busca e divulgação de um estoque memorial destacam-se, num primeiro momento, nas publicações iniciais do principal veículo da agremiação, a Revista do IHGB. Em levantamento feito por Lucia Maria Paschoal Guimarães dos temas mais recorrentes na Revista entre 1839, ano da publicação de seu primeiro número, e o fim do Segundo Reinado, em 1889, evidencia- se a discrepância entre os 525 “documentos não contemporâneos” e as 153 “contribuições historiográficas”. Somente nos anos de fundação (1839-1849), foi transcrita uma média de 5,2 documentos não contemporâneos para cada contribuição historiográfica, demonstrando, segundo a autora, uma ênfase acentuada na formação de um estoque memorial em detrimento da pesquisa historiográfica. Paschoal Guimarães faz a ressalva de que tal descompasso pode ser em parte justificado pela carência inicial

105 MARTIUS, Carl Friedrich von apud SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. História e natureza em von Martius: esquadrinhando o Brasil para construir a nação. História, Ciência, Saúde - Manguinhos.

2000, v. 7, n. 2.

106 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. Para reescrever o passado como história: o IHGB e a

Sociedade dos Antiquários do Norte. In. HEIZER, Alda e VIEIRA, Antonio Augusto Passos (Org.). Ciência, civilização e império nos trópicos. Rio de Janeiro: Access, 2001, p. 21.

107 Segundo Lucia Maria Paschoal Guimarães, o arquivamento, o protelameno de publicações e até

mesmo a censura de documentos a serem publicados na Revista do IHGB eram prática comum na associação beletrista, visando selecionar versões de episódios históricos mais compatíveis com o projeto político em curso e preservar a imagem de sócios envolvidos em momentos do processo de Independência e do Primeiro Reinado.

de fontes e a ausência de normas acadêmicas na seleção de sócios.108 Mas, em seguida, destaca a orientação dada pelo primeiro-secretário do IHGB, Januário da Cunha Barbosa, no ensaio “Lembranças do que devem procurar os sócios [...] para remeteram à sociedade central”, publicado no primeiro número da Revista, dando especial destaque à remessa de

biografias de brasileiros ilustres; cópias autênticas de documentos e extratos de notas pesquisadas em secretarias, arquivos, cartórios civis e eclesiásticos; notícias de costumes indígenas, lendas, sua catequese e civilização; descrições do comércio interno e externo das Províncias, seus principais produtos, rios, montanhas, portos, navegação e estradas; fundação, prosperidade e ou decadência de vilas, arraiais e suas populações.109

Para seguir tal orientação a contento, os sócios do IHGB deveriam não apenas reunir documentos relevantes de tempos recuados, como também redigir memórias e inventários sobre aspectos relevantes do passado nacional, principalmente de assuntos e realidades que careciam de registro escrito. Note-se que, no texto do primeiro-secretário do IHGB, colocam-se na mesma posição de importância os feitos dos homens e as peculiaridades da natureza, partes integrantes de um mesmo mundo que o viajante letrado deve interrogar e classificar, tornando-o assim tangível. Embora, entre nossos intelectuais, houvesse o entendimento de que a escrita era fundamental, ela por si não bastava. Por isso, será fulcral recorrer a outras materialidades em que o passado pudesse ser percebido: as ruínas, os vestígios materiais de um passado que já não existia, mas que demarcam essa passagem do tempo. Viajar era uma forma de descobrir essas marcas e marcos, apropriando-se deles para dar volume e sentido ao tempo. Escrever sobre essa viagem era juntar tudo o que foi apreendido pelos sentidos e submeter a uma narrativa ordenada e de acordo com as demandas do mundo científico.

Já no Segundo Reinado, a partir das reformas dos estatutos da entidade, observa-se um movimento de consolidação e profissionalização dos trabalhos do IHGB. Estudos relacionados à etnografia e à arqueologia, o debate da história regional e a promoção de viagens científicas passarão a ganhar espaço na instituição. Uma maneira não apenas de delimitar o espaço do outro, “mas também porque visava conjugar a

relação dos grupos dispersos no território com um espaço e um centro comum, buscando-se, assim, constituir um sentido de afinidade mais amplo entre todos os

108 PASCHOAL GUIMARÃES, Lúcia Maria. Op. cit., p. 71-72. 109 PASCHOAL GUIMARÃES, Lúcia Maria. Op. cit., p. 75.

grupos que se julgavam poder reunir num dado momento”.110

Em 1856, com a proposição de uma viagem exploratória às províncias mais longínquas do Império, fica igualmente patente que tal empreitada atenderia diversos “níveis de conhecimento” do país e, por meio destas, alcançar-se-ia a completa integração deste império tropical.

Relações de causa e consequência, avanços e conquistas ao alcance da mão, riquezas potenciais encobertas numa natureza luxuriosa, tudo isso aparentemente apenas à espera de uma mão forte e uma razão firme a dirigir-lhe seus desígnios e bem servir o homem. E, se a nação caminhava inexoravelmente rumo ao progresso civilizatório, também se fazia urgente dar conta de realidades que estavam prestes a desaparecer, como as últimas comunidades indígenas e os sertões incultos, a serem inventariados em laboratórios e museus. E como fazer isso se não pela experiência do deslocamento? Assim, o relato de viagem e a descrição de regiões desconhecidas ganham um papel fundamental na cultura ilustrada/romântica, estendendo-se às demandas da ciência moderna no intuito de preservar das brumas do esquecimento tanto os aspectos físicos quanto morais deste lado do Atlântico, organizando-os numa nova comunidade de sentido. “Esse olhar atento e rigoroso organiza o visível segundo um sistema de classificação e ordenamento, produzindo-o como nova visibilidade, agora submetida às regras da ciência moderna empenhada em percebê-los segundo sua utilidade”.111

110 PEIXOTO, Renato Amado. Cartografias imaginárias: estudos sobre a construção da história do

espaço nacional brasileiro e a relação História & Espaço. Natal: EdUFRN; Campina Grande: EdUEPB, 2011, p. 14.

111 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. “Entre as Luzes e o Romantismo”. In SALGADO

Benzer Belgeler