As contradições da sociedade colonial, a vinda da Corte portuguesa e os interesses econômicos tanto de portugueses quanto de nativos enraizados tornariam inviável um movimento de libertação de cunho nacionalista, nos moldes burgueses do século XIX. Mesmo com a vitória da continuidade monárquica, outras ameaças, no entanto, pairavam sobre o Império nascente: as tensões regionais internas, os movimentos nativistas, a ameaça do haitianismo.67 A consciência propriamente “nacional” só viria pela integração das diversas províncias em torno de um poder central encarnado pelo imperador Pedro II (1840-1850), tendo como relevante base de apoio a atuação dos intelectuais, nascidos e/ou tornados brasileiros. Uma geração preocupada em adaptar algo da cultura ilustrada europeia a seu meio, cuja força se estende século XIX adentro.
Suas atividades de pesquisa e de exploração, desvendando o interior do Brasil e procurando inovações para o seu progresso material, têm um cunho prático muito peculiar do meio e do momento histórico em que viviam e, por isso, oferece um interesse mais específico para o estudo das origens de uma cultura brasileira do que a análise das primeiras manifestações revolucionárias e republicanas da colônia, das quais, é certo, muitos dentre eles participaram, mas que refletem a ideologia da Independência norte-americana e da Revolução Francesa, formas generalizadas de um movimento cosmopolita e universal, simbolizada nas lojas maçônicas.68
Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias, a participação de ilustrados brasileiros na administração pública portuguesa é um fenômeno peculiar às classes dominantes da sociedade colonial, como forma de acomodação social dos descendentes de comerciantes e senhores de terra, empobrecidos pela partilha dos bens e pulverização de suas fortunas, resumida num dito popular do século XVIII: “Pai taverneiro, filho nobre e neto mendicante”. Esses homens de status, filhos de “homens bons”, porém despossuídos de bens, eram então encaminhados ao serviço “das santas casas, dos
67 Referência à revolta de escravos ocorrida no Haiti entre 1791 e 1804, levando à independência política
da ilha caribenha em relação à França. O fato espalhou um grande temor entre as elites de países americanos, mesmo as independentes, que temiam que tal exemplo se propagasse.
68 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo:
conventos, das ordens religiosas, do funcionalismo público em geral” como forma de manutenção da harmonia social.69
O próprio presidente da Comissão Científica é um exemplar típico dessa geração de ilustrados brasileiros. Seu bisavô, o capitão português Manuel Freire Alemão de Cisneiros, possuía, no início do século XVIII, vastas terras na freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande (que daria origem ao bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro). Mas, por conta de uma série de divisões e vendas de terras e uma “tendência ao empobrecimento”, o pai, João Freire Alemão, “será um simples lavrador naqueles domínios, como de resto já declaradamente o eram seus pais”.70 A mãe, Feliciana Angélica do Espírito Santo, é filha enjeitada, fruto de uma relação ilegítima entre uma sitiante e o padre Antonio Coito da Fonseca, que compraria as terras da fazenda do Mendanha, onde João residia.
Francisco Freire Alemão de Cisneiros nasceu na fazenda do Mendanha e foi apadrinhado pelo padre Coito (assim como a mãe o fora). Guarda do avô-padrinho a lembrança de um “lavrador inteligente, [que] excogitava, experimentava e adotava os melhores métodos e aparelhos, que nesses tempos aqui se podiam conhecer; de modo que os produtos de sua lavoura, primeiro o anil, depois o café e ultimamente o açúcar eram os melhores que apareciam no mercado”.71
Tal atitude pode ser identificada com a política pombalina de procurar tesouros naturais nas colônias tropicais, mobilizando comerciantes e lavradores “ilustrados” a fazer experimentos agrícolas e redigir memórias em troca de promessas de privilégios fiscais, de monopólios e preços especiais.72 É por ordem do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1779-1790), conde de Figueiró, que o frei José Mariano da Conceição Veloso dá início às incursões pelo interior do Rio, coletando plantas para a redação da Flora fluminense. Uma dessas incursões foi exatamente ao Mendanha, da qual o menino Francisco preserva grande impressão. Esse episódio, bem como o cotidiano no campo e as experimentações do padre Coito devem ter sido referenciais importantes para que, anos depois, ele se voltasse aos estudos botânicos.
69 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da metrópole e outros estudos. Op. cit., p. 33. 70 DAMASCENO, Darcy. “O botânico Freire Alemão”. In DAMASCENO, Darcy e CUNHA, Waldir da.
Os manuscritos do botânico Freire Alemão, catálogo e transcrição. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações e Divulgação da Biblioteca Nacional, 1964, p. 10.
71 ALEMÃO, Francisco Freire. “Quais são as principais plantas que hoje se acham aclimatadas no
Brasil?”. In Revista do IHGB, tomo XIX, 1856, p. 570-571.
Eu ainda era muito menino quando esteve em Mendanha o Padre Veloso fazendo coleções de Ciências Naturais. Minha tia Antônia têm lembranças fracas dele e seus companheiros. Quando eu já tinha alguma inteligência ouvia à gente da casa alguma coisa a esse respeito, como: que eles apanhavam borboletas e as comprimiam entre dois papéis, onde elas ficavam impressas. Eu que então já andava na escola fiz algumas diligências para imprimir borboletas.73
Filho de lavradores remediados, Freire Alemão viveu na casa do padre e lá recebeu instrução primária até sua morte, em 1810. Sem as garantias da casa do padrinho, a mãe o coloca sob os cuidados do pároco local, padre Luís Pereira Duarte, tornando-o sacristão. De fato, a instrução em latim foi menos uma vocação do que uma forma de evitar que o jovem fosse recrutado para o serviço de milícia durante o conflito cisplatino. Freire Alemão dá continuidade aos estudos com Diogo Antônio dos Santos, que vai dar aulas para o filho do novo proprietário da fazenda do Mendanha. Esse segundo protetor, ao tomar ordens e posteriormente ocupar a cadeira de latim no Seminário Episcopal de São José, consegue-lhe uma vaga na instituição como aluno numerista, em março de 1817. Lá Freire Alemão teve aulas de “história da Igreja, teologia moral e dogmática, grego, francês, inglês, espanhol, hebraico, latim, e participou dos cursos de física e mecânica”.74
Importante ressaltar essas duas últimas cadeiras do currículo do Seminário São José como um outro indício da difusão dos estudos físicos e naturais, “até então tidos como ‘suspeitos e ignóbeis’, [e que] constituíam fenômeno inteiramente revolucionário se o confrontarmos com os moldes do ensino jesuítico que predominava até o momento”.75
Em 1821, Freire Alemão opta por não seguir a vida sacerdotal e se vê obrigado a abandonar os estudos no Seminário, contrariando os desejos da família. É acolhido na Corte pelo irmão mais velho, Antônio, aluno da Academia Médico- Cirúrgica, mas que também enfrentava dificuldades para se manter. Passa a dar aulas particulares e, um ano depois, ingressa no mesmo curso do irmão, valendo-se de pensão de 9$600 (nove mil e seiscentos réis) mensais concedida a 12 alunos “pobres e distintos”, que se comprometiam a prestar serviços ao país um ano depois de formados, como contrapartida ao financiamento. O império torna-se assim seu novo protetor.
73
ALEMÃO, Francisco Freire apud DAMASCENO, Darcy. “O botânico Freire Alemão”. Op. cit., p. 12.
74 Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930). Casa de Oswaldo
Cruz/Fiocruz. Disponível em:
<http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/cisfranfrei.htm>. Acesso em 18 nov. 2013.
A medicina urbana (aqui caracterizada pelo trato de doentes no consultório, em domicílio ou nos poucos hospitais existentes) não era uma carreira particularmente sedutora, como viria a se tornar no século XX. Havia a concorrência com práticos, parteiras e curandeiros que, durante a colônia, mesmo passíveis de punição, praticamente monopolizaram as artes de cura a partir de um conhecimento empírico e vulgar. Para se ter uma ideia da desproporção, em 1789, só havia quatro médicos na cidade do Rio de Janeiro.76 A clientela, além de desconfiada, era restrita a quem podia pagar. Além disso, o curso em que Freire Alemão ingressara garantia apenas a carta de cirurgião formado e permitia-lhe exercer algumas atribuições de médico. Até 1826, uma discriminação determinava que o grau de médico só poderia ser obtido com formação na metrópole.77 À época da obtenção de sua carta, Freire Alemão não sofreu o preceito discriminatório, mas é um indicativo importante das dificuldades em se estabelecer uma medicina oficial no país.
Mas, a despeito das dificuldades das profissões liberais, a formação bem- sucedida de um jovem de recursos modestos no Ensino Superior não era algo de pouca monta. As pesadas taxas e impostos de selo que os alunos deveriam pagar praticamente restringiam o acesso a filhos de famílias abastadas; muitos foram os alunos de origem humilde que abandonaram o curso pelo meio.78 A medicina, ao englobar matérias de ciências naturais, botânica, anatomia comparada e zoologia, oferecia possibilidades para além do consultório e do hospital. Médicos, boticários e farmacêuticos figuraram como notáveis viajantes desde os descobrimentos, aplicando seus conhecimentos na exploração de novos territórios, na prevenção e combate a doenças tropicais, bem como no levantamento de espécies que pudessem ser empregadas na alimentação, no comércio, no transporte e na saúde.
Com a ajuda de parentes e a influência de pais de alunos a quem dera aulas particulares,79 Freire Alemão seguiu para o doutorado na Université de Paris, onde tem aulas de botânica com o professor Jacques Clarion (1779-1844). Lá defende tese sobre o
76 NAVA, Pedro. Capítulos da História da Medicina no Brasil. Cotia: Ateliê Editorial; Londrina: Eduel;
São Paulo: Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, 2003, p. 47.
77 DAMASCENO, Darcy. “O botânico Freire Alemão”. Op. cit., p. 14.
78 COELHO, Edmundo Campos. As profissões imperiais: medicina, engenharia e advocacia no Rio de
Janeiro, 1822-1930. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 98.
79 Como paga da pensão recebida pelo governo, Freire Alemão havia sido convocado para integrar a tropa
que acompanhou o imperador Pedro I em viagem ao sul, em 1827. Para desembaraçar-se da obrigação, recorreu a João Bandeira de Gouveia, homem influente da época, a cujas filhas ensinara. A passagem foi concedida pelo médico francês José Francisco Xavier Sigaud. Como parte da política da Restauração em restabelecer relações com o Brasil, o governo francês concedia passagens gratuitas em seus navios de guerra a jovens que quisessem estudar na Europa.
bócio endêmico, comum nas regiões de São Paulo, Paraná, Mato Grosso e sul de Minas Gerais. No retorno à Corte, tal conhecimento lhe vale a vaga recém-aberta de lente de botânica médica e princípios elementares de zoologia na agora Escola de Medicina, que passara por reformas em seu currículo em 1832. Assume o posto em 1833, o primeiro dos vários empregos públicos que viria a exercer em vida, ligados ao ensino (Escola Central) e à direção de instituições (Museu Nacional). Em 1840, na ausência do médico de plantão, foi chamado para atender o jovem imperador, sendo-lhe por isso outorgada a nomeação como médico da Imperial Câmara, com ordenado anual de 800$ (oitocentos mil réis). Três anos depois, integrou a comitiva imperial encarregada de acompanhar a vinda, de Nápoles ao Rio de Janeiro, da noiva de Pedro II, Teresa Cristina. Posteriormente foi professor das princesas Isabel e Leopoldina. Fundou e participou de diversas sociedades científicas, como a Sociedade Velosiana, a Academia Imperial de Medicina (que presidiu nos anos 1832 e 1838) e o próprio IHGB.
A trajetória de Freire Alemão tem aspectos peculiares, de “exceção à regra”, que lhe permitiram ir além do horizonte de sua origem social e econômica por meio da instrução. Mas sem o aparato protetor que encontrou na Igreja e no Estado (no caso português duas instituições profundamente amalgamadas), dificilmente o botânico teria alcançado o mesmo êxito. “A diversidade de origem social — o que nos leva a questioná-la como critério único definidor de uma prática tanto política quanto intelectual — é, contudo, nivelada por um processo de educação [...], seguida de treinamento e carreira no aparelho do Estado”.80
Diferente dos domínios espanhóis nos trópicos, que se dividiram em repúblicas fragmentadas após convulsionados processos revolucionários, a independência brasileira seguiu um caminho peculiar: não apenas conseguiu manter sua unidade territorial — ainda que ao custo de conflitos armados entre o poder central e as províncias rebeldes — como adotou um sistema de governo que tornou o Brasil a única monarquia bem-sucedida em toda a América. Por um lado, os movimentos nacionalistas na América Espanhola foram possíveis graças à atuação de uma elite
crioula,81 que, apesar de compartilhar uma mesma ascendência com os europeus peninsulares, eram por estes classificados a partir das teorias em torno da influência do
80 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. “Nação e civilização nos trópicos...”. Op. cit., p. 10.
81“Creolle (criollo), pessoa de descendência europeia pura (pelo menos teoricamente), mas nascida nas
Américas (e, por extensão, em qualquer lugar fora da Europa)”. ANDERSON, Benedict. Comunidades
ambiente sobre a formação da cultura e do caráter. Assim, “os crioulos, nascidos num hemisfério selvagem, eram por natureza diferentes e inferiores aos metropolitanos — e, portanto, inadequados para os cargos mais elevados”.82
Tal diferenciação, juntamente com o aumento do controle madrilenho e a difusão de ideias de liberalismo iluminista na segunda metade do século XVIII, permitiu que unidades administrativas da Nova Espanha passassem a se ver como terras pátrias e desenvolvessem uma determinada concepção de nacionalidade, dentro do processo das “comunidades imaginadas”, cuja legitimidade não ocorre em termos de falsidade/autenticidade, mas é forjada simbolicamente a partir uma imagem viva de comunhão, desejos e projeções compartilhados por membros que não necessariamente se (re)conhecem.83
Na contramão do que havia sido feito na América espanhola, o governo português procurou integrar ilustrados brasileiros como Freire Alemão na engrenagem maior de uma política de Estado, que buscava, entre outras coisas, acompanhar o processo de modernização com o incentivo às ciências. Em contrapartida, estes se empenharam ativamente no processo de independência e na construção de um Império que nada tinham a ver com a luta entre colonos e metropolitanos. Tal engajamento não apenas é determinante para a formação da elite política do Primeiro Reinado, como também contribuiu decisivamente na consolidação do Império brasileiro já com Pedro II ao trono, forjando a imagem de um Estado nacional centralizado que conseguiu se sobrepor a demandas localistas.
Podemos então concluir que tanto a Sociedade Auxiliadora quanto o IHGB apresentam ligações com as várias facetas do Estado monárquico estabelecidas no Brasil oitocentista, podendo-se associar, ao desdobramento de uma associação na outra, um elo de continuidade entre os vassalos ilustrados da antiga metrópole e a geração romântica pós-independência. Ainda que criada em 1827 e viabilizada em 1838, a SAIN foi idealizada em 1816, época em que o Brasil, uma vez elevado a Reino Unido, passava a contar com todas as prerrogativas e a estrutura administrativa de uma sede de governo, sendo incentivada a criação de instituições e serviços públicos que caracterizariam o período de “interiorização da metrópole”.
Ligadas às reformas pombalinas e às políticas de modernização promovidas por dom Rodrigo de Souza Coutinho, tais instituições foram pensadas a partir de uma política de Estado “ilustrada”, buscando “impulsionar e estimular os estudos científicos
82
ANDERSON, Benedict. Op. cit., p. 101.
de finalidade prática, principalmente de mineralogia e história natural, em detrimento dos estudos políticos e filosóficos, sempre mais perigosos para os antigos privilégios e para a ordem constituída”.84
Especificamente em relação ao Brasil, procurava-se encontrar ou adaptar técnicas e matérias-primas que viessem a substituir a decadente exploração aurífera nas Gerais. Criada com o fim de promover o desenvolvimento agrícola e fabril no país, a Sociedade Auxiliadora foi uma das poucas instituições a vingar entre as sociedades científicas criadas no período, mantendo o caráter político moderado e a preocupação com o progresso material da nação por meio das inovações científicas.
Já o IHGB, inicialmente uma associação privada, coloca-se desde sua sessão inaugural sob a proteção imperial. Em 1839, data da primeira subvenção oficial, esta representava 44% da receita do Instituto, elevada para 75% em 1843 e mantendo-se nessa proporção até o advento da República. O vínculo do Estado com o IHGB é estreitado com a ascensão de dom Pedro II ao trono. Em 15 de dezembro de 1849, a sede do Instituto é transferida para as dependências do Paço Imperial, fato tão significativo que o aniversário da agremiação passou a ser comemorado nesta data, e não na data da fundação. O imperador participa ativamente das sessões, instituindo prêmios, propondo temas de pesquisa e patrocinando viagens e expedições. Atitude que ajuda a firmar a imagem de um monarca esclarecido, “amigo das letras”, e, ao mesmo tempo, reforça a tradição lusitana de ligação entre o Estado e os intelectuais, mantida deste lado do Atlântico.85
Outro dado relevante é o perfil intelectual dos 27 fundadores da instituição. Além de a maioria desempenhar funções no aparelho de Estado — funcionários públicos e políticos, na proporção de dois funcionários para cinco homens públicos, proporção que iria se inverter com o crescimento da estrutura imperial —, oito dos fundadores haviam nascido em Portugal, deslocados durante a transferência da Corte para o Brasil. A fidelidade à casa de Bragança e a formação frontalmente contrária aos desdobramentos da Revolução Francesa serão dois elementos marcantes entre os primeiros sócios do IHGB, sendo determinante para a formatação da história brasileira — e tenderá a se manter ao longo do Segundo Reinado.
84 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Op. cit., p. 103.
Inicialmente o ingresso de novos membros86 não era regido por critérios acadêmicos, sendo condicionada à indicação de um sócio efetivo. A proposta era encaminhada para apreciação de uma das Comissões (dependendo se o candidato queria integrar a Seção de História ou de Geografia) e depois submetida à votação fechada pela mesa diretora. Somente em 1851, com a revisão dos Estatutos do IHGB, a entrada de efetivos e correspondentes passou a ser controlada por comitê específico e condicionada à comprovada produção intelectual. Entretanto, a inalteração do número de sócios efetivos — condicionando o ingresso de novos membros à vacância por morte de titular — e o intenso tráfico de influência de membros que defendiam a candidatura de seus apadrinhados ajudou a manter o controle nas mãos do grupo fundador da agremiação e seus apaniguados. Assim, ao longo do Segundo Reinado, políticos, funcionários do Estado e personalidades próximas ao imperador tiveram prevalência no acesso ao círculo letrado.87
Mesmo atuando em campos distintos, percebe-se que tanto a SAIN quanto o IHGB foram fortemente referenciados pela ideia de progresso difundida ao longo do século XIX e, simultaneamente, imbuídos de uma atuação pragmática, subordinada ao engrandecimento do Estado monárquico.
Enquanto a Sociedade para o Apoio da Indústria Nacional foi concebida como uma contribuição ao desenvolvimento do Brasil no plano econômico, o IHGB deveria, segundo os planos de seus fundadores, dar sua contribuição para o desenvolvimento em outro plano. Conforme sua concepção, a história tinha uma função esclarecedora e deveria apontar caminhos para os que se ocupam da política: no fundo, ela continuava sendo a magistra vitae.88
O Instituto é fundado num período de mudanças que levariam à institucionalização do saber histórico, dando-lhe estatuto de ciência. Mas se, na Europa, o campo principal de disputas é a universidade, onde a disciplina vai constituindo foros de cientificidade, no Brasil, o espaço de excelência será a academia de escolhidos a
86 Enquanto os sócios efetivos eram limitados ao número de 50, as vagas para sócios correspondentes e
honorários eram ilimitadas e poderiam ser ocupadas tanto por residentes no Brasil quanto no exterior. O título de honorário era concedido por critérios de idade, notório saber e distinção; também eram isentos do pagamento da joia de entrada e da taxa semestral, a que eram sujeitos os demais sócios. PASCHOAL GUIMARÃES, Lucia Maria. Debaixo da imediata proteção imperial... Op. cit., p. 44.
87 PASCHOAL GUIMARÃES, Lúcia Maria. Op. cit., p. 48-51.
88 SALGADO GUIMARÃES, Manoel Luiz. Historiografia e nação no Brasil: 1838-1857. Rio de