A obrigação de dar concretude é uma obrigação positiva, ou seja, o Estado, através de todos os seus órgãos e agentes, deve tomar todas as medidas necessárias para garantir a cada indivíduo a possibilidade de satisfazer aquelas necessidades que não podem ser satisfeitas somente graças a seu próprio esforço.
Em relação ao direito à alimentação, Eide enfatiza: "[...] l’Etat est appelé à donner effet au droit à l’alimentation par la fourniture d’une assistance ou la distribution directs de vivres." (grifo no original) (EIDE, 1989, p. 41).
Eide defende dois aspectos desta terceira obrigação, como visto na citação acima. O primeiro é de facilitar oportunidades com medidas, por exemplo, para melhorar os meios de produção, conservação e distribuição de alimento através do conhecimento tecnológico e científico (ONU, 1998, p. 3; ONU, 1999, p. 15).
O Comentário Geral nº 12 define que este aspecto de facilitar significa que “the State must pro-actively engage in activities intented to strengthen people’s access to and utilization of resources and means to ensure their livelihood, including food security.” (CODESC, 1999, p. 5).
19 No primeiro estudo feito por Eide em 1989, os dois aspectos colocados desta obrigação de dar concretude ainda não estavam desenvolvidos. Foi somente na primeira atualização de seu estudo, em 1998 que ele desenvolveu estes dois aspectos, sugerindo, inclusive, que fossem adotadas uma nova divisão, com quatro obrigações. Entretanto, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU (CODESC), no Comentário Geral nº 12, decidiu adotar a elaboração dos dois aspectos da terceira obrigação dos Estados, mas não adotar a nova divisão. Assim, foi mantido o entendimento de definir em três as obrigações dos Estados, com dois aspectos da terceira obrigação, o que foi respeitado por Eide no seu relatório final, publicado em 1999 (ONU, 1999, p. 16).
O segundo aspecto é de realizar os direitos daqueles que não podem, por si mesmos, satisfazer seus direitos econômicos, sociais e culturais, como por exemplo os idosos e os deficientes (ONU, 1998, p. 3; ONU, 1999, p. 16).
O Comentário Geral nº 12 define que este aspecto de prover significa que “whenever an individual or group is unable for reasons beyond their control, to enjoy the right to adequate food by the means at their disposal, States have the obligation to fulfill (provide) that right directly.” (CODESC, 1999, p. 5).
É importante salientar que o segundo aspecto colocado por Eide é enfatizado sobretudo em situações excepcionais, como catástrofes, guerras, situações de refugiados, e demandam medidas provisórias. Vejamos:
On pourrait citer des dispositions plus précises; ainsi l’obligation de nourrir les prisonniers (y compris les prisonniers de guerre), illustre bien ce troisième niveau d’obligation des Etats. Dans les situations dont il s’agit, les personnes ne sont pas libres de se déplacer et ne peuvent accéder aux ressources nécessaires pour satisfaire leurs besoins. En pareil cas, l’état est de toute évidence tenu de fournir directement aux intéressés les moyens de satisfaire leurs besoins élémentaires. (EIDE, 1989, p. 42)
Esta obrigação também vai ao encontro da liberdade como principium, pois coloca a ação do Estado somente quando o próprio indivíduo não conseguir, por seus próprios meios, satisfazer suas necessidades. Dessa forma, analisando a possibilidade de não intervenção ou de intervenção na esfera de liberdade do indivíduo, para que se possa efetivar o direito ou dar- lhe concretude, deve-se escolher permitir a atuação do Estado, se esta for a opção mais efetiva.
No sistema de proteção interamericano, construído sobre os auspícios da Convenção Americana sobre Direitos Humanos de 22 de novembro de 1969 (chamada Pacto de San José da Costa Rica), a doutrina fala das obrigações positiva e negativa dos Estados-partes, pois em seu artigo 1.1 a Convenção acima referida é explícita em estabelecer tais obrigações. Vejamos:
Artigo 1º - Obrigação de Respeitar os Direitos
1. Os Estados-Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social. (negrito no original, grifo nosso) (BRASIL, 2012, p. 422)
A obrigação negativa definida pela Convenção Americana seria a de “respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos”, ou seja, de não violá-los. A obrigação positiva definida pela Convenção Americana seria a de “garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa” (grifos nossos).
Conforme Thomas Buergenthal, citado por Piovesan:
[...] Um governo tem, consequentemente, obrigações positivas e negativas relativamente à Convenção Americana. De um lado, há a obrigação de não violar direitos individuais [...]. Mas a obrigação do Estado vai além desse dever negativo e pode requerer a adoção de medidas afirmativas necessárias e razoáveis, em determinadas circunstâncias, para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. (p. 229)
De toda forma, entende-se que a atribuição das duas obrigações acima referidas não está em desconformidade com a atribuição das três obrigações aos Estados em relação ao direito à alimentação.
A obrigação positiva do Estado (adotar as medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos) atribuída comumente pela doutrina no sistema interamericano engloba tanto a obrigação de proteger quanto a obrigação de concretizar os direitos humanos, ou seja, as obrigações 1.4.1.2 e 1.4.1.3 atribuídas pela doutrina no caso do direito à alimentação (analisadas acima).
Deste modo, vê-se que o direito à alimentação está contido no conjunto dos Direitos Humanos, universais. A universalidade dos Direitos Humanos quer dizer que todo e qualquer Estado deve garantir o exercício destes direitos em seu território, sem discriminação alguma.
O reconhecimento do caráter imperativo dos Direitos Humanos pela comunidade internacional gera para todos os Estados que dela fazem parte uma obrigação erga omnes, e, mais que isso, não só a obrigação negativa de não-violação mas também a obrigação positiva de garantir (proteger e concretizar) que o direito possa ser exercido. As obrigações positiva e negativa dos Estados de efetivar o direito à alimentação resultam do caráter de norma jus
cogens dos Direitos Humanos.
1.4.2 A efetividade do direito à alimentação é essencial para a efetividade de qualquer outro