Sendo a família o primeiro grupo social na qual a criança se insere, é nela que vai aprender e desenvolver a sua socialização primária e os seus conhecimentos. Como afirma Stanislas Tomkiewicz e Annik Percheron (citado por Segalen, 1999, p.194),
“a socialização é o resultado das interacções da criança com a sua família e, de forma mais lata, com o seu meio ambiente. Baseia-se essencialmente em três mecanismos: a identificação com os pais e com diversos modelos sociais; a interiorização e o assumir de um certo número de normas e de saberes; a experimentação e a elaboração progressiva de modelos de conduta e de práticas”.
Depois da família, o jardim de infância torna-se o agente mais importante na socialização da criança e, desde o primeiro momento em que esta entra no jardim de infância, dever-lhe-á ser assegurada a integração em diferentes contextos aos quais a criança pertence. Para Matos & Pires (1994, p. 30) “de uma maneira geral, é aceite que
tanto a escola como a família são as duas principais instituições que intervêm no processo de socialização e formação do homem”.
O papel do educador e dos pais reveste-se de particular importância no contexto escolar, sobretudo quando existe uma complementaridade entre ambos. Na linha da
37 ideia defendida por Marques (1993, p.33) “A melhor maneira de criar continuidade
entre as escolas e os valores culturais das famílias é abrir a escola aos pais”. Contudo, convém precisar que não é uma tarefa fácil mas em que se deve investir, pois
“todas estas formas de comunicação e de participação podem desempenhar um papel positivo no desenvolvimento e educação dos adultos, com efeitos na educação das crianças. Efeitos que se manifestam a curto prazo, mas que são particularmente importantes a médio e a longo prazo” (ME, 1997, p. 46).
Um dos objetivos gerais e pedagógicos definidos para a Educação Pré-escolar, segundo a Lei-Quadro da Educação Pré-escolar, (Lei 5/97), é “incentivar a participação
das famílias no processo educativo e estabelecer relações de efectiva colaboração com a comunidade.”
Também “o desenvolvimento de relações positivas, respeitosas e cooperantes entre
educadores e pais que têm ambientes culturais diferentes requer, por parte dos educadores um grande profissionalismo baseado num misto de experiência, formação, educação e valores pessoais” (ME, 1997, p.26). É essencial envolver cada vez mais os pais em atividades que envolvam a educação dos seus filhos, no espaço escolar e para além dele. Mais do que os tradicionais eventos que o Jardim de Infância promove - as festas de Natal, as festas de início e fim do ano letivo, entre outras - o importante mesmo é, conseguir envolver os pais em atividades no próprio espaço escolar, em atividades de aprendizagem em casa e na tomada de decisões.
Os pais são importantes na aprendizagem e no progresso escolar das crianças e é de aplaudir quando os pais se interessam pela educação dos seus filhos e estes, por consequência, se sentem mais motivados e desenvolvem atitudes positivas em relação à aprendizagem. É também importante que as crianças sintam que os pais e familiares participam e se interessam pelas atividades organizadas pelo jardim de infância. Como salienta Rebelo (1996, p.83), “Chamar o pai, a mãe, ou os avós à vida da sala é uma
forma de os integrar e responsabilizar na própria escola, o que é o mesmo que dizer responsabilizá-los e com eles cooperar na educação das crianças”. A presença dos pais e familiares no jardim de infância mostra à criança que a família valoriza aquele contexto e contribui para que a criança crie um vínculo mais forte com ele.
O portefólio assume-se, neste sentido, como um instrumento de avaliação que pode provocar a aproximação e a relação entre o jardim de infância e a família, por um lado valorizando a aprendizagem das crianças através da documentação das crianças e, por
A avaliação das aprendizagens na Educação Pré-escolar: o portefólio das crianças
38 outro lado, dando a conhecer à família o que a criança faz no dia a dia pedagógico, levando-a a questionar, a atribuir significados e sentidos ao percurso da criança.
Dado que o portefólio congrega a seleção da documentação da criança ao longo de um determinado percurso, através dele é dado a conhecer aos pais o que a criança fez, o que sabe fazer e o que ainda precisa aprender. Ou seja, através deste envolvimento a família pode sentir-se mais comprometida e envolvida no percurso da criança no jardim de infância. Nas palavras de Formosinho (2011, p. 36) “permite[-se] um cruzamento de
olhares (os das crianças, dos pais, das educadoras) sobre as marcas dos atos educativos que se foram organizando, das situações educativas que se foram vivendo”. Ou seja, a aprendizagem narrada nos portefólios individuais é reconhecida e é-lhe atribuído um significado.
A família, à semelhança do educador, pode, assim, (re)construir a imagem da criança, conhecer melhor a identidade da criança, ver a aprendizagem que a criança realizou, falar e refletir sobre essa aprendizagem, apoiar a planificação do educador e apoiar a monitorização da avaliação da aprendizagem efetuada, no fundo “compreender
o fazer, sentir, [e] aprender da criança” (Formosinho, op cit., p.36).
A família fica assim a conhecer melhor as potencialidades que o espaço onde os filhos passam tantas horas lhes oferece. “A melhor maneira de criar continuidade entre
as escolas e os valores e culturas das famílias é abrir as escolas aos pais, criar espaço para eles se reunirem, proporcionar comunicação frequente, tratá-los como verdadeiros membros da comunidade educativa” (Marques, 1993, p. 33).
Como salienta Isabel Rebelo (1996, p. 82),
“Hoje os pais esperam da escola uma resposta um pouco diferente daquela que esperavam há anos atrás. A ideia de que, no jardim-de-infância se “entretêm” as crianças, que só se passa o tempo de uma forma divertida, sem grande intencionalidade educativa, vai estando, felizmente esmorecida”.
No entanto, hoje em dia, alguns pais ainda se limitam
“(…) a participar dentro dos limites de permissão e da tolerância do educador: pouco mais de metade dos educadores solicita ocasionalmente a participação dos pais no planeamento de actividades e menos de metade solicita esta participação na concretização de actividades do Jardim-de-Infância” (Magalhães, 2007, p. 278).
Neste sentido, o portefólio pode incentivar a família a fazer parte do quotidiano do jardim de infância de uma forma mais afetiva, disponibilizando materiais e recursos, sugerindo conteúdos, colaborando na planificação da descoberta do meio social,
39 histórico e cultural, informações sobre as crianças, pois como refere Silva (2003) a força da relação da escola com a família nunca pode ser desligada da própria relação pedagógica e daquilo que a grande tarefa da escola – o processo de promoção da aprendizagem das crianças.
Nesse sentido, é necessário que os educadores como agentes principais desta realidade se empenhem e desenvolvam estratégias para uma adequada promoção do envolvimento e da participação parental e para uma vital formação das crianças, proporcionando o bem-estar de todos os agentes educativos. É, pois, urgente uma mudança de atitude quer na organização dos jardins de infância quer nas famílias, para que seja possível constituir formas de ação interligadas e que a participação parental não aconteça de forma casual, mas de forma quotidiana e verdadeira. O portefólio, ao longo do ano letivo, e na fase da sua partilha com as famílias pode para isso contribuir.
Os pais devem sentir-se acarinhados e motivados a colaborarem e a intervirem no processo educativo, através da partilha de saberes e interesses, levando-os a reconhecerem que a sua participação “implica um contrato mútuo entre estes e os
educadores e em que os primeiros se apercebam dos benefícios pessoais e paternais que podem advir da sua participação” (Sarmento,1992, p.17 - p.18), reforçando-se laços que vão garantir positivamente um desenvolvimento e um percurso de aprendizagem mais integrados.