Dos sete professores entrevistados, cinco deles disseram que a liderança, em equipes de projeto, existe, sem sombra de dúvida, até mesmo em equipes menores, constituídas em duplas. Um dos professores não tinha certeza sobre a sua existência. Outro disse que ela existe, mas não em todos os casos. O que se percebeu, com a realização da disciplina, é que, em parceiros com níveis mais equilibrados de características pessoais e profissionais, a liderança tende a ser mais compartilhada. Já nos casos em que existia maior desequilíbrio, a presença da liderança exclusiva foi extremamente pronunciada, o que até parece bastante lógico, uma vez que se há alguém que lidera, alguém necessariamente será liderado.
Também foi percebido que o líder não se mostrou como aquele que só “pensa” ou que somente coordena a equipe. Nos casos observados na disciplina, ele normalmente é alguém que age dentro da equipe. Ou ele desenha ou anota as discussões ou propõe ações diretas e, na maioria das vezes, executa-as. Normalmente não possuíam muita paciência com a inércia dos parceiros e tendiam a ficarem insatisfeitos com eles, achando que não fizeram tudo que podiam. Esse fator ficou bastante explícito nas respostas do questionário aplicado, nas perguntas que mediram o nível de satisfação dos parceiros com o trabalho e com a equipe. Os parceiros que apresentaram características de líderes (explicado, a seguir) eram os mais insatisfeitos com a equipe e com o trabalho (TABELA 2). Na Tabela 2, os líderes são aqueles parceiros que apresentaram níveis de satisfação média a não satisfeitos.
TABELA 2
Satisfação em relação ao trabalho realizado pelas equipes por parceiros
Não Satisfeito Satisfeito abaixo da média Satisfação média Satisfação acima da média Satisfeito
Equipe 1 Parceiro A Parceiro D Parceiro C Parceiro B
Equipe 2 Parceiro G Parceiro F
Equipe 3 Parceiro K
Parceiro I
Parceiro J
Equipe 4 Parceiro L
Parceiro M Equipe 5 Parceiro P Parceiro O
Fonte: produzido pela autora a partir dos dados coletados com o questionário semi-estruturado. Nota: os parceiros E, H e N não responderam ao questionário.
Um dos questionamentos da pesquisa foi se existiriam líderes em tarefas ou funções específicas dentro das equipes. Existiram, sim, aquelas pessoas que mais desenhavam, outras que mais discutiam, outras extremamente preocupadas com os problemas. Houve também aqueles que foram os porta-vozes da equipe entre outras situações. Acredito, porém, que não devem ser classificadas como líderes por nenhuma dessas características. São pessoas que desempenham papéis específicos dentro da equipe. O líder provavelmente desempenhou um ou mais papéis na equipe, mas o que o caracterizou tem outro aspecto. Nem todo líder de equipe se configurou de forma semelhante, mas existiam características comuns nos casos observados. A principal é o fato de os parceiros falarem sobre o projeto quase que diretamente a ele (líder) e sempre esperarem uma resposta dele (líder). Podem falar aos demais membros ou não, mas houve a preocupação de se reportar sempre ao líder. Entre as características do líder observou-se um maior conhecimento do assunto do projeto do que nos demais parceiros.
Como dito anteriormente, entre parceiros com maior equilíbrio de características, a liderança provavelmente será mais compartilhada. Uma forma observada de compartilhamento da liderança que apareceu nas equipes de projeto foi a de um líder mais social e um líder mais voltado à tarefa. O líder social tinha o papel de motivar e elevar o moral da equipe. Parece que é ele que fala ao público na hora de apresentar o trabalho.
O líder mais voltado às tarefas, normalmente, era o que coordenava os recursos e trabalhos, tinha noção do seu conjunto e foi o membro procurado pelos demais na hora de expor ou ouvir opiniões. A pessoa que fala ao público sobre o trabalho normalmente costuma ser tratada como líder, mas, por meio do experimento, pode-se observar que não seja ela, no processo de projeto, que se desponte como líder. Existiram também parceiros de equipe que podiam ser caracterizados como motivadores, pois desempenhavam o papel de animadores da equipe, ao criarem um ambiente mais leve para o desenvolvimento do trabalho. Ambos se classificam na liderança social que, aos olhos das pessoas de fora, poderiam aparentar-se como os líderes do trabalho. Em uma das equipes observadas, esse fato ficou bastante claro: observando durante a disciplina sem muita aproximação, um dos parceiros de uma das equipes parecia claramente ser o líder, muito falante, com muita energia; porém, nas respostas ao questionário, os parceiros foram questionados sobre quem desempenhava o papel de líder na equipe, a maioria apontou outro parceiro, inclusive o parceiro que parecia ser o líder também apontou outro como líder. No momento quando foram ouvir os áudios e assistir aos vídeos, ficou ainda mais visível que o líder da tarefa era outro parceiro e não aquele mais falante e mais expressivo observado à distância.
Acredito que a liderança em equipes de projeto não deverá acabar. A liderança nada tem a ver com os problemas da autoria, de alguém que tenha propriedade autoral sobre o projeto. Trabalhos que tratam de equipes (HARGROVE, 1998) dizem que nem o papel desempenhado nos últimos tempos deve permanecer, o de dar ordens ao que deve ser feito. O líder deve, principalmente, criar padrões de relacionamentos e ações conjuntas. “O papel do líder é fazer perguntas precisas e ajudar a incitar a inteligência coletiva do grupo, e não de dizer às pessoas o que elas devem fazer” (HARGROVE, 1998, p.111). O líder deve justapor múltiplos talentos para criar novos esquemas de trabalho. Portanto ele é diferente de simplesmente coordenador de tarefas, ao alterar a forma como os membros pensam e agem em conjunto, conhecendo os indivíduos da equipe, suas características e suas habilidades. Mesmo não sabendo aonde os participantes vão chegar, qual produto irão obter, é necessário o líder fazer boas combinações entre as pessoas.
O desempenho de papéis nas equipes é importante, porém o tipo de hierarquia baseado na liderança vertical está fadado ao fracasso e não deve permanecer.
Penso que seja mais adequado entender a equipe como um organismo vivo do que como uma organização com degraus e funções mecânicas (HARGROVE, 1998, p.42). A interação entre parceiros e a autonomia dos indivíduos são parâmetros novos que encontram terrenos férteis nos locais onde são implantados. Com certeza, deverão encontrar espaço nas equipes de projeto. Não há espaço para mentalidades que acreditam que cada parceiro deve pensar apenas em suas próprias tarefas. Porque cada pequena tarefa se encaixa em um quadro maior e gera consequências, às vezes, diretas no resultado final do trabalho coletivo. Percebo que o líder deve sempre manter o conjunto das pessoas da equipe unido em prol do trabalho, ao mesmo tempo, deve ter noção do quadro geral e do processo como um todo.
Em equipes de projeto, ao líder cabe a tarefa de estar atento ao processo de trabalho, deixando os demais livres para o desempenho de suas funções. Ter alguém preocupado com o processo me parece importante, para manter o foco nos objetivos e não permitir que a equipe fique sem um norte e sem fechamento das discussões e soluções. Ao líder cabe visualizar os passos que devem ser tomados pelo conjunto. É uma ideia promissora se o líder da equipe de projeto, quando não pré-definido, fosse escolhido pelo próprio grupo, visto que sua identidade para o grupo e para o próprio líder é algo claramente definido, pelas observações feitas nas equipes estudadas. Porém a eficácia dessa afirmação não foi objeto desta pesquisa e, portanto, poderá ser investigada em pesquisas futuras.