Apêndice C – Os conflitos no Mundo. Uma perspectiva actual
1. A caracterização da conflitualidade no mundo, uma perspectiva evolucionista
Numa sintética caracterização da conflitualidade mundial e focando especialmente a segunda metade do século XX, pode-se afirmar que o mundo se “encontrava dividido por duas
lideranças que se degladiavam, delimitando dois campos em cujas fronteiras ocorriam, por «delegação», os conflitos entre os respectivos centros políticos” (Santos, 2006, 11). Este
mecanismo de constante auto regulação da conflitualidade que era a guerra fria, é caracterizado por um ambiente de “precaução estratégica” (Ibidem), que contribuía para uma relativa estabilidade dos conflitos interestatais no mundo. No entanto, apesar de subordinados à bipolaridade e ao equilíbrio estratégico, alguns movimentos de libertação, descolonização e autodeterminação, bem como outros conflitos tipicamente intraestatais, proliferavam um pouco por todo o globo, principalmente em África.
Enquanto não alcançamos a «nova ordem», em que se procura restabelecer o equilíbrio no sistema internacional, baseado num mundo mais seguro, racional e justo, constatamos que o ruir da «antiga ordem», conduziu a uma tripla crise nas relações internacionais com reflexos directos na «nova conflitualidade». Esta crise reflecte-se, na alteração da natureza do conflito que afectando a estrutura de distribuição do poder no SI, activa uma força crescente de tensão entre os processos de integração, derivando na consequente desagregação dos Estados, pois estes
“ocupam o lugar da confrontação estratégica e ideológica do período da guerra fria” (Viana,
2002, 31). A procura da «nova ordem» no futuro, vem salientar a crescente importância dos conflitos regionais em detrimento de conflitos à escala mundial, pois o “Sistema Internacional
actualmente é caracterizado por uma aparente contradição: por um lado, fragmentação e por outro, globalização crescente.” (Kissinger, 2002, 17).
A alteração da natureza dos conflitos veio mostrar que estes, como refere Adriano Moreira,
“deixaram de ser compreendidos pela poleomologia que enumerava as causas das guerras e os riscos elevados da guerra fria, para enfrentar uma lista pesada de novas ameaças” (2006, 1).
Quanto à estrutura de distribuição do poder e principalmente aos processos de desagregação, são causa e efeito do mesmo problema em que a multiplicação de Estados ditos “frágeis”, “falhados” ou “inviáveis”, associado à falta do apoio das super potencias, conduziu a uma proliferação dos conflitos no interior desses Estados e ao consequente crescimento dos conflitos regionais, uma constatação do globalismo das sociedades actuais (Moreira, 2006).
As ameaças actuais à paz e à democracia, com algumas excepções (Iraque, Afeganistão, Israel, Palestina), traduziram-se neste novo século, num ligeiro declineo, em que “as crises
internacionais tornaram-se menos comuns e foram sendo resolvidos preferencialmente por via da diplomacia em detrimento do emprego da força.” (Marshall e Gurr, 2004).
No relatório anual elaborado pela University of British Columbia sobre a evolução da conflitualidade no mundo1, apresentam-se alguns dados estatísticos que permitem não só confirmar uma tendência para um decréscimo geral da conflitualidade no mundo, bem como constatar uma predominância para os conflitos intraestatais (Figura 1). Da análise deste relatório, pode-se identificar algumas características da evolução dos conflitos no mundo:
O número de conflitos armados no mundo teve um decréscimo de mais de 40% desde o início dos anos noventa;
Entre 1991 e 2004, começaram ou reacenderam-se 28 conflitos, ligados a movimentos de auto determinação, enquanto 43 estavam contidos ou tinham mesmo terminado. Em 2004, existiam 25 conflitos activos de índole separatistas, o número mais baixo desde 1976;
O número médio de baixas causadas por conflitos armados e por ano decresceu considerávelmente, desde 1950. Em 1950 a media de baixas situava-se nas 38.000 pessoas e em 2002, era de 600 pessoas;
O número de golpes militares tem vindo a decrescer à mais de 40 anos. Em 1963 ocorreram 25 tentativas ou golpes de estado no mundo (o índice mais elevado desde 1950), em 2004, aconteceram 10 tentativas de golpe de estado (todos falharam), o que corresponde a um decréscimo de 60%.
No inicio do século XXI, a África subsariana tornou-se na região mais violenta do mundo, registando mais conflitos e baixas que o somatório dos conflitos em todas as outras regiões no mundo.
A ameaça global de conflitos armados entre potências e blocos de nível mundial, de guerras interestatais, característico da guerra fria, deu lugar actualmente a conflitos regionais de baixa, média e de alta intensidade, que proliferam a nível regional, trazendo a conflitualidade para dentro dos Estados, em que os principais actores, nem sempre são os próprios Estados. Após a queda do muro de Berlim, mais concretamente na “metade da década de oitenta a
conflitualidade mundial decresceu cerca de 16%, atingindo em finais de 2004, o nível mais
1
baixo desde 1950” (Marshall et. al., 2005, 11). Em suma, importa reter que entre 1990 e 2004,
foram registados 57 conflitos armados no mundo, dos quais 4 são interestatais e 53 desenrolam- se no interior do território, destes, em 29 luta-se pelo acesso ao poder e em 24 por questões territoriais ou traçados de fronteiras, dois dos principais factores que estão na origem dos conflitos na actualidade (Gresh, et. al., 2006, 40).
Figura 1 – Evolução dos conflitos no mundo entre 1946 e 2002 (Human Security Report, 2005, 22)
2. Uma perspectiva geopolítica dos conflitos no mundo
Os conflitos e a paz não surgem por acaso, não são um fenómeno inexplicável, pelo contrário, ambos são gerados e influenciados por fenómenos próprios nas dinâmicas das sociedades. Estes conflitos afectam e são afectados, principalmente, por factores endógenos como os recursos, actores, territórios, o poder ou a religião, mas também por factores exógenos, como a conjuntura internacional e pelas tendências geopolíticas do momento. Razão pela qual são considerados acontecimentos conjunturais, processos dinâmicos, ligados a actividades que variam em função do tempo, espaço, dos interesses, dos actores envolvidos e das condições conjunturais associadas, podendo degenerar em violência e numa fase mais aguda em guerra.
A “nova” conflitualidade apresenta como principais tendências um declínio significativo no número de guerras interestatais relativamente ao aumento de conflitos internos, ditos intraestatais, assistindo-se a uma concentração destes no “Terceiro Mundo”2. Principalmente em África, onde o seu aparecimento é o resultado do processo de construção, falência e fracasso da
2
As expressões “Terceiro Mundo” e “Países Subdesenvolvidos”, são hoje praticamente sinónimos. A sua origem é, porem substancialmente diferente. O conceito de “Terceiro Mundo” tem uma origem política e foi usado para designar um terceiro conjunto de países (os que não fazem parte do mundo capitalista, nem socialista). O conceito de subdesenvolvimento tem um carácter económico, aplica-se aos países que ainda não resolveram os seus problemas básicos (alimentação, saúde, habitação e educação) dos seus habitantes (Vitoriano et. al., 2004, 166).
estrutura dos Estados e da inviabilidade deste em assegurar as suas principais funções: o desenvolvimento sustentado e a segurança das suas populações.
Os conflitos que marcam a actualidade são, simultaneamente causa e consequência das razões de fundo que lhes estão associados, nomeadamente, o facto desses conflitos ocorreram em países abandonados pelas grandes potências após o final da guerra fria (Etiópia, Angola, Afeganistão, Iraque, Líbano, etc.) e da inconsistência dos regimes políticos que não puderam ou souberam fazer a transição de país colonizado a Estado democrático e livre. Estes países apresentam no entanto, algumas características em comum: estão imersos numa profunda crise económica, o Estado não garante os serviços mínimos, o tecido social está desmembrado e existe nalguns casos repressão política, religiosa ou social.
Outras das causas apontadas são a influência dos factores locais e internos, nomeadamente a tensão demográfica, aspectos de natureza religiosa, racial e política, bem como factores relacionados com a insegurança das populações. A fragmentação regional dos continentes, a busca de identidade cultural e civilizacional e a manipulação das populações, quer seja por pressão política, económica, racial ou religiosa, são outros dos aspectos geopolíticos que conduzem ao surgimento de conflitos nestes Estados (Fisas, 2004, 52-62).
Alguns destes conflitos armados, contrariamente ao passado, parecem ter em comum é a ausência por excelência da resultante militar no seu epílogo. Dir-se-ia que estes conflitos não terminaram graças a uma vitória e que, como refere Moita, “acabaram por via da negociação
pacífica, da diplomacia, ou por desfecho político, ou simplesmente por inanição” (Janus2005,
2004, 125). O que mostra a evolução da outra face da moeda dos conflitos, a realização da paz, em que também se evoluiu grandemente. Contudo, o aparecimento de novos actores de natureza global e com tendências para conflitos assimétricos, o terrorismo, a fragmentação das forças políticas, a proliferação de armamentos e o surgimento de estratégias conducentes ao genocídio, são ainda assim, as causas mais gravosas desta «nova» conflitualidade (Idem, 62).
Síntese Conclusiva
A evolução verificada no SPI, traduziu-se no pós guerra fria a um alteração na conflitualidade no mundo, não só relativamente à sua intensidade, mas principalmente à sua tipologia. Assim, os conflitos evoluíram para dentro dos Estados, passando a trazer novos actores e outras dimensões para o problema. Os conflitos de raiz intra-estatal passaram a ser vistos pela CI, como a principal ameaça ao desenvolvimento sustentado global. Em regiões como a África Subsariana, a América do Sul, a Ásia e mais recentemente o Médio Oriente, as situações vividas mostraram-nos uma comprometedora realidade dos actuais conflitos no mundo.