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A possibilidade da aproximação entre Belinati e o eleitor e a afirmação de vínculos de clientela duradouros, encontram sustentação também na crença do eleitor quanto à identificação de pertencimento à mesma origem de classe que teria Belinati, definida aqui, pelos entrevistados, como “pobre” ou “carente”.

“Ele [Belinati] nasceu de uma família muito pobre, então eles viveram como uma pessoa mais carente, mais pobre. Então, ele sente, o que ele passou ele tá vendo naquilo que a pessoa tá passando”. (E11).

“Eu, na minha maneira de avaliar, quando eu falo de Antonio Belinati, eu falo de povo, porque ele é o povo. (...) Ele é o povo humilde, carente. Ele é de assentamento, ele é desse pessoal pobre, baixa renda”. (E4).

“Ele [Belinati] é como a gente, é humilde. Foi pobre”. (E13).

“Seu Antonio [Belinati] sempre foi uma pessoa assim, que lutou pelos pobres, pelas crianças, pelo lado mais pobre”. (E8).

“O Seu Antonio era uma pessoa dos pobres mesmo”. (E15).

“O Belinati tinha um programa na rádio que chamava A Voz do Povo, era Voz do Povo, porque, toda a vida, ele é do povo mesmo”. (E9).

“Do mesmo jeito que a gente, Belinati não gosta que chamem favela de favela. Ele chama de bairro”. (E16).

Colada à crença na identificação de classe com Belinati ocorre a crença de que ele, então, é o representante político dos “pobres” junto aos poderes públicos.

Sem o Belinati o pobre não é nada. Ele já ponhô orelhão e está pondo rede de esgoto e a água lá na invasão do Monte Cristo. Também teremos a escritura do terreno. Se [ele] roubasse não dava tempo para fazer benefício para o bairro. (depoimento dado à Folha de Londrina, 23 fev. 2000, p.5, grifo nosso).

Passei todo esse tempo rezando e até fizemos promessas para o Belinati voltar para a prefeitura. Morei onze anos no União da Vitória121 e sei que só ele ajudou os pobres. Outros políticos só lembram dos pobres quando chega a eleição, mas, o Belinati não, sempre tem ajudado e socorrido as pessoas carentes [...]. (depoimento dado à Folha de Londrina, 21 maio 2000, p.10).

2.13 “Reconhecimento”: o Tratamento Com “Carinho” e Com “Atenção”

Nos relatos que colhemos, nota-se que, ao lado do compromisso do eleitor com o político em questão, forjado a partir das “ajudas” e “favores” prestados pelo último, aparece um outro elemento relevante na justificativa do vínculo profundo e duradouro que os liga: refere-se à valorização que o eleitor-cliente faz do comportamento do político quando este o trata com “carinho”, com “atenção”, quando não o “ignora” e antes de tudo, quando o trata como “um igual”. Noutros termos, quando o político o “reconhece”, quer dizer, presta-lhe o reconhecimento que é pessoal e social. Essa prática do político trata de atender a dimensão subjetiva da carência, aquela que aparece como sentimento de abandono, de desprestígio, de “invisibilidade” social.122

Os depoimentos iluminam, com o argumento da relevância da “amizade”, o papel de destaque que desempenham as carências de caráter subjetivo que afetam o morador-eleitor e que derivam daquelas situações sociais de acentuada pobreza e de exclusão política, já anotadas atrás.

“Eu apóio o Belinati, apesar de meu amigo, é uma pessoa carismática, é uma pessoa que dá ouvido aos pobres. E, realmente, os pobres anda tão carente disso, sabe. Já que o outro não liga, o rico não precisa mais dele, o rico já tem. Quem precisa é o pobre”. (E9, grifo nosso).

“Ele não precisa dar nada. É só a atenção”. (E4).

“Então, como ele [Belinati] é uma pessoa que subiu de nível, ele que tá no meio daquelas pessoas, pra dar um pouquinho a mais de

121 Bairro carente da periferia da cidade, de origem num assentamento.

122 No capítulo 3 dedicamos atenção especial para o papel da relação entre vínculo de clientela e busca por “reconhecimento”.

carinho para aquelas pessoas. Porque essas pessoas carentes (...), vêm uma pessoa mais ou menos na casa deles, eles se sente orgulhosa por isso aí. (...) É o carinho. É isso que acontece. (...) a Dona Emília [Emília Belinati, esposa de Belinati], foi ali na casa da mãe da D. Joana. Ela chegou e a veinha disse: ‘Tamo acabando de fazê o almoço’. O que a Emília fez? Pegou o prato de cima da pia, colocou o macarrão e foi comendo. Quer dizer ... se sentiram ... (...) Ela [a mãe da D. Joana] sentiu orgulho da Emília ter comido na casa dela. Quer dizer, eles se sentem bem porque eles entendem que: ‘foi uma vice-governadora, foi deputada, comer na minha casa, que carinho!’ Quer dizer, isso é carinho”. (E1).

“Ele [Belinati] quer estar no meio deles [dos carentes] para dar um pouquinho mais de carinho para aquelas pessoas. Porque aquelas pessoas carentes, se vêm uma pessoa mais ou menos na casa deles, já se sentem orgulhosas por isso aí. Elas não se sentem tão diminuídas”. (E6).

“A Neusa tem uma amiga dela que é deficiente, mora aqui no [Conjunto] Zé Jordano. Só porque o Belinati deu um beijo na irmã dela que tem problema de deficiência, ela sente orgulho pelo Belinati. Porque beijar uma pessoa deficiente, tudo torta então, a pessoa sente aquele carinho por aquela pessoa”. (E8).

“Vou na chácara, vou no apartamento dele. Ele me recebe muito bem”. (E6).

“Ele demonstra isso [o “reconhecimento”] no gesto dele, na maneira com que ele conversa com a gente. Da maneira carinhosa que ele fala com a gente. Porque o seu Antonio [Belinati] é muito carinhoso. A maneira que ele fala com você, que te recebe, tudo conta”. (E4). “Essas reuniões que ele faz nas residências das pessoas (...). É, tomar chá nas casas das pessoas. Eu e minha família, ele vai lá tomar chá, conversa com a família inteira. Eu acho que isso aí é o ponto xis da questão dele”. (E10).

“Tenho contato com Seu Antonio [Belinati], direto. Tanto que, há dois meses e meio, agora, meu sogro faleceu, não liguei avisando, mas ele ouviu através de rádio, através de outras pessoas que passou pra ele. Então, ele tava no velório, acompanhando. Ainda pensou que era meu pai. Não era meu pai, que faleceu faz tempo, era meu sogro. Então, pra mim é uma honra muito grande. Seu Antonio é assim uma pessoa que como amigo eu considero bastante”. (E14).

“Ele [Antonio Belinati] não é aquela pessoa assim que ... sabe, ele é uma pessoa simples. Seu Antonio é pessoa que, se você falar: ‘Seu Antonio vamo lá na minha casa tomá uma água com pão e farinha seca?’ Ele é capaz de ir. Então ele é uma pessoa que já veio na

minha casa e eu também já fui na casa dele, na chácara, né. Eu já tive lá”. (E8).

“As pessoas não sabem o que fazem com o Belinati quando ele vem aqui dentro do bairro [Jardim União da Vitória]. Eu acho que não é só por questão política. Porque ele, realmente, é muito carismático. Ele tem aquela coisa que puxa o povo pro lado dele, e ele pro lado do povo. Ele chega às duas, três horas da manhã e ele é aquela pessoa que ele entra no bairro e não tá nem aí. Conversa com todo mundo. Ele entra no pior barraco aqui dentro do bairro e toma um café. Sabe, ele não é aquela pessoa que tem seu colarinho branco, de jeito nenhum, ele é uma pessoa do pobre mesmo”. (E14).

“Eu continuo muito amiga dele. Independente de partido ou não, o Seu Antônio [Belinati], nos meu aniversário ele sempre ... Se tá na rádio ele me parabeniza, ele vem me fazer surpresa. No dia 14 de abril do ano passado, o ano passado ele veio me fazer surpresa aqui em casa. Eu não esperava. Nossa! Pra mim foi uma surpresa. Uma casa pobrezinha dessa e de repente eu vi aquele homem chegando em casa, pra mim foi, sabe, foi muito surpreendente mesmo. Então, eu sou muito amiga dele. Sempre que eu posso ligo pra ele, converso com ele”. (E15).

Uma entrevistada, falando de uma outra liderança política da cidade (esposa de um deputado federal), lembra da atenção dispensada por ela, que ela vinha visitar o bairro, uma ocupação, quando esta não dispunha ainda de nenhuma infra-estrutura:

“A Fernanda, o pessoal adora ela. Ela veio aqui na época que não tinha nem água aqui. Veio, tomou café na casa do pessoal, e até hoje o pessoal fala ... Vinha aí, na casa de um, na casa de outro, pegava nenê no colo, tomou sopa aqui na casa da Dona (...). Sabe, então o pessoal sente orgulho por aquilo ali: da pessoa tomar água, como o Belinati faz, na casa da gente, sente aquele carinho”. (E3).

Benzer Belgeler